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Saúde da Criança na Atenção Primária
Acompanhe como a vigilância epidemiológica revisa o cuidado após um óbito infantil.
Topicos da aula
- Saúde da Criança
Overview
Cuidado infantil como rede contínua
O cuidado infantil deve ser compreendido como uma rede contínua entre atenção primária, criança, família, escola e serviços especializados. Mais do que tratar doenças agudas, essa abordagem acompanha o desenvolvimento físico, emocional e intelectual, promove vacinação e segurança, identifica precocemente riscos clínicos, sociais e familiares e coordena os encaminhamentos necessários. A puericultura amplia se ao longo da infância e adolescência, usando a Caderneta da Criança, a busca ativa e a articulação com o Programa Saúde na Escola. Nesse percurso, a equipe adapta o cuidado ao contexto sociocultural, combina prevenção e acompanhamento longitudinal e responde à transição epidemiológica, marcada pela redução da mortalidade e pelo aumento de condições crônicas, obesidade e problemas de saúde mental.
Escopo do cuidado à criança
Integração entre atenção primária e pediatria
O atendimento à criança no âmbito da Saúde da Família tem características próprias e não se limita ao atendimento pediátrico convencional. Na atenção primária, além das doenças, o cuidado inclui calendário vacinal, orientações para atividade física e nutrição, bem como a participação da família.
A puericultura clássica é tradicionalmente associada ao acompanhamento do recém nascido. De modo geral, o médico de família possui condições para realizar cuidados que ultrapassam a puericultura clássica. Já o acompanhamento de recém nascidos de alto risco e a puericultura de alto risco são situações específicas que exigem encaminhamento e atuação articulada com o pediatra.
Desenvolvimento infantil e trajetória escolar
A atenção primária deve acompanhar o desenvolvimento físico, emocional e intelectual da criança. Entre os problemas frequentemente identificados está o baixo rendimento escolar, cuja abordagem exige orientação à família e articulação com a escola.
O acompanhamento deve formar um ciclo contínuo entre a equipe de saúde, a família e o ambiente escolar, com o objetivo de manter a criança em trajetória adequada de desenvolvimento e reconhecer precocemente dificuldades de aprendizagem ou outras alterações.
Prevenção e segurança no cotidiano infantil
- Fatores de cuidado: O cuidado infantil deve contemplar fatores individuais e coletivos.
- Prevenção prioritária: Entre as ações prioritárias estão a imunização, a prevenção primária e a prevenção quaternária, além da orientação sobre segurança.
- Segurança prática: A equipe deve ensinar manobras de desengasgo e medidas para prevenir acidentes envolvendo objetos perfurocortantes, queimaduras e outros riscos domésticos.
- Orientação médica: Na atenção primária, os médicos orientam sobre a segurança da criança.
- Orientação preventiva: A orientação preventiva integra as atribuições da atenção primária, pois muitos agravos podem ser reduzidos quando a família recebe informações claras e consegue incorporá las ao cotidiano.
Vigilância e mortalidade infantil
Fluxo de análise dos óbitos infantis
Acompanhe como a vigilância epidemiológica revisa o cuidado após um óbito infantil.
- Etapa: Acione a vigilância epidemiológica: Em todos os municípios existe uma divisão responsável pela vigilância epidemiológica, com atuação particularmente forte em Cascavel.
- Etapa: Encaminhe o óbito: Todos os óbitos infantis ocorridos no município até os cinco anos de idade são encaminhados à vigilância.
- Etapa: Analise o caso: A declaração de óbito é analisada, e a vigilância entra em contato com todos os serviços de saúde que atenderam a criança.
- Etapa: Reúna os serviços: Representantes de cada serviço são reunidos para discutir os problemas identificados e os pontos em que o sistema falhou no atendimento.
- Etapa: Revise continuamente: Essa análise é realizada de forma continuada com a finalidade de reduzir a mortalidade.
- Etapa: Observe a tendência: Nos últimos tempos, houve redução dos óbitos pós neonatais, enquanto os óbitos neonatais aumentaram.
Responsabilidade preventiva no cuidado infantil
Os profissionais médicos são avaliados também em relação aos indicadores de mortalidade. Mesmo quando a família atribui o evento a um acidente, como uma queda que provoque lesão na cabeça da criança, é necessário verificar se havia sido fornecida orientação adequada sobre segurança infantil, cuja existência ou ausência integra a análise do cuidado prestado.
Assim, a responsabilidade da atenção primária vai além do diagnóstico e do tratamento: inclui a prevenção de acidentes e a identificação das condições que podem favorecer desfechos graves.
Mortalidade infantil como guia preventivo
A mortalidade infantil é um dos melhores indicadores para definir ações de prevenção primária. Houve redução aproximada de 70% entre a década de 1990 e o ano de 2014, com redução ainda mais expressiva nas regiões Norte e Nordeste.
Essa melhora esteve relacionada à redução de óbitos associados à desnutrição e às doenças infecciosas, além da ampliação do acesso aos serviços de saúde e da melhoria das condições de assistência e de instrução.
Infecções e prevenção no período neonatal
Houve redução dos óbitos pós neonatais, geralmente relacionados a complicações de sepse neonatal. Os óbitos neonatais que ocorrem logo após o nascimento geralmente estão relacionados a complicações dessa infecção.
A infecção do canal vaginal materno aumenta o risco de sepse neonatal. A ruptura prolongada da bolsa também aumenta esse risco.
Atualmente, existem protocolos de prevenção para os casos de ruptura das membranas. O objetivo é reduzir a ocorrência de meningite, sepse e outras infecções perinatais.
Prematuridade ligada a condições maternas
Houve aumento dos óbitos neonatais, principalmente relacionado à prematuridade. A prematuridade é apontada como a principal razão para esse aumento dos óbitos neonatais. Entre as principais condições maternas associadas estão hipertensão gestacional, diabetes gestacional, infecção urinária e infecção do canal vaginal. Essas condições devem ser abordadas durante a gestação para reduzir o risco de nascimento prematuro.
O maior fator de risco para novo trabalho de parto prematuro é a ocorrência prévia de parto prematuro. Nesses casos, deve se investigar a possibilidade de incompetência istmocervical, na qual o colo uterino se abre à medida que a gestação evolui.
Rede de acompanhamento do alto risco
Apesar da redução da mortalidade, da melhora das condições sociais, do grau de instrução e da assistência pré natal, a prematuridade continua sendo apresentada como a principal causa de mortalidade infantil no Brasil.
A ampliação do acesso também facilitou a abordagem e o atendimento dos bebês de alto risco, especialmente na atenção primária. O acompanhamento depende de uma rede organizada entre a unidade de saúde, a obstetrícia de alto risco, a pediatria e os centros maternos.
Encaminhamento compartilhado em Cascavel
O cuidado em Cascavel organiza o encaminhamento conforme o risco gestacional e neonatal.
- Etapa: Mantenha o pré natal de baixo risco ou de risco moderado sob responsabilidade do médico de família.
- Etapa: Acompanhe o pré natal de alto risco com o médico de família em conjunto com o obstetra especializado.
- Etapa: Quando nasce um bebê classificado como de alto risco, a equipe realiza a classificação e mantém o acompanhamento compartilhado com o pediatra da UPS ou dos centros maternos existentes no município.
- Etapa: Esses fluxos permitem a continuidade entre a unidade de saúde e a pediatria, formando uma rede de atenção para o recém nascido.
Transição epidemiológica e novos agravos
Da queda da mortalidade à nova morbidade
Houve redução dos óbitos por desnutrição e, anteriormente, a diarreia aguda por causas infecciosas era uma causa frequente de morte em crianças. Atualmente, as crianças apresentam maior risco de obesidade, e A mortalidade diminuiu, mas a morbidade aumentou.
Crianças e adolescentes podem apresentar baixa estatura e resistência insulínica desde a juventude. Também são observados pacientes na faixa dos 20 anos com hipertensão atribuída à obesidade infantil, além de meninas de aproximadamente sete anos com obesidade e menarca muito precoce.
Obesidade infantil e consequências futuras
A obesidade interfere no eixo hipotálamo hipófise ovário, e essa interferência pode favorecer a menarca precoce. Ao longo da vida, a obesidade está relacionada a diabetes, hipertensão, infarto e outros agravos cardiovasculares.
Esses problemas aumentam os custos para o Sistema Único de Saúde, para os planos de saúde e para o atendimento particular. Quanto mais esses agravos forem prevenidos desde a infância, menor será o custo para o sistema de saúde e maior será a possibilidade de preservar a funcionalidade durante a vida adulta.
Doenças respiratórias e mortalidade reduzida
Também houve redução dos óbitos por pneumonias após a implantação de terapias inalatórias. Essas medidas são utilizadas principalmente em crianças com crises de asma atendidas na unidade de saúde.
Em quadros de bronquiolite, o suporte de oxigênio contribuiu para reduzir expressivamente os óbitos. O número de internações permanece, mas a mortalidade diminuiu de forma importante. De modo geral, as doenças infecciosas encontram se em declínio nas diferentes faixas etárias, enquanto as doenças crônicas estão em ascensão.
Saúde mental e exposição às telas
Entre pré adolescentes e adolescentes, aumentam muito os quadros de ansiedade, depressão, doença articular e ideação suicida. A saúde mental é uma parte importante da abordagem da saúde do adolescente.
A ampliação do tempo de tela é considerada um fator importante nesse cenário. Por isso, orientar sobre o tempo de exposição a telas integra as atribuições do médico de família, que pode formalizar uma recomendação para que esse período não ultrapasse o limite considerado adequado para a criança ou o adolescente.
Lesões por telas e perda funcional
A demanda por cuidados de saúde também aumentou em razão do uso abusivo de telas e dispositivos eletrônicos. Crianças começaram a apresentar lesões por esforço repetitivo, incluindo tendinite de punho associada ao uso de videogame e celular.
A inflamação repetida pode evoluir com fibrose, comprometendo progressivamente a função. Assim, uma lesão iniciada na infância pode resultar em perda funcional na vida adulta e em redução da capacidade de funcionamento do indivíduo.
Transformação da puericultura
Da puericultura mensal ao cuidado ampliado
Inicialmente, o acompanhamento infantil consistia basicamente em consultas mensais com médico e enfermeiro para avaliação de altura, peso e desenvolvimento. O acompanhamento incluía orientação alimentar e terapia de reidratação oral, em um período no qual havia grande número de óbitos por diarreia aguda.
Posteriormente, foram implantados programas de controle das doenças respiratórias e também das doenças imunopreveníveis, melhorando progressivamente o acompanhamento. Essa é a proposta atual da puericultura na atenção primária, que também busca identificar possíveis disfunções na criança ou na família.
Seguimento contínuo até a adolescência
A puericultura tornou se uma proposta mais estruturada de acompanhamento pediátrico. No modelo anterior, a criança era acompanhada do nascimento aos dois anos, inicialmente todos os meses, depois a cada dois meses e, posteriormente, a cada três meses. Após completar dois anos, muitas crianças deixavam de comparecer e retornavam apenas quando adoeciam.
A proposta atual é acompanhar a criança dos dois até aproximadamente 15, 16 ou 17 anos, evitando que ela se perca no sistema e permitindo identificar problemas de desenvolvimento ou disfunções familiares.
Sobreviver com desenvolvimento adequado
Na atenção primária, o objetivo da puericultura é garantir que a criança sobreviva e também alcance um desenvolvimento adequado.
Esse cuidado deve ser integral e incluir diferentes faixas etárias. Para isso, a unidade de saúde deve realizar busca ativa de crianças e adolescentes e acompanhar os aspectos físicos, emocionais, intelectuais, familiares e sociais que influenciam a saúde.
Vacinação como janela de captação
A vacinação cria uma janela de oportunidade para captar crianças e adolescentes e identificar quem não está em acompanhamento regular.
- Etapa: Reconheça que a vacinação constitui um momento especialmente importante para a captação de crianças e adolescentes.
- Etapa: Verifique que as escolas públicas exigem que o calendário vacinal esteja atualizado anualmente; para matricular a criança, a família precisa apresentar um comprovante de vacinação emitido pela unidade de saúde.
- Etapa: Confira toda a caderneta pela equipe de enfermagem e emita uma declaração de que as vacinas estão em dia.
- Etapa: Aproveite essa janela de oportunidade para identificar crianças que não estão em acompanhamento regular.
Ações integrais na atenção primária
Além da queixa: desenvolvimento e rastreamento
O modelo biomédico, centrado apenas na queixa ou na doença aguda, não é suficiente para manter o cuidado infantil. A atenção primária deve incluir o desenvolvimento global, investigar alterações oculares, baixa visão e baixa audição e oferecer atenção a essas condições. A prevenção da prematuridade é considerada um cuidado de atenção primária.
Quando a captação precoce não acontece, algumas crianças só são diagnosticadas aos sete ou oito anos. Identificar essas alterações antecipadamente permite encaminhamento e acompanhamento mais oportunos.
Triagens da agenda infantil
- Agenda de compromissos: A agenda de compromissos da atenção primária inclui ações de triagem infantil: o teste do pezinho, o teste da orelhinha, o teste da linguinha, o teste do olhinho e o teste do coraçãozinho.
Da triagem ao seguimento
Os testes de rastreamento melhoraram muito. Existem ainda outros exames de triagem neonatal destinados a identificar deficiências e problemas do desenvolvimento. Existem programas voltados à saúde ocular, vocal e auditiva.
Progressivamente, o posto de puericultura transforma se em um atendimento ambulatorial com acompanhamento posterior à puericultura, seguindo a agenda do Ministério da Saúde.
Cinco pilares da atenção primária
A estratégia atual de acompanhamento baseia se em cinco pilares da atenção primária e do Sistema Único de Saúde.
- Cinco pilares: Olhar ecológico, Medicina baseada em evidências, Coordenação do cuidado, Longitudinalidade e Prática de saúde colaborativa.
- Uso pelo médico de família: Três dos pilares são os mais utilizados, embora o trecho não identifique quais são eles.
Equidade e alternativas viáveis ao cuidado
O olhar ecológico é baseado no princípio da equidade: é preciso compreender quem é a criança, em que ambiente está inserida e quais possibilidades reais existem para seu tratamento e acompanhamento.
A conduta deve considerar as condições da família. Uma criança pode não conseguir utilizar sulfato ferroso, opção de ferro disponível no SUS, e permanecer sem suplementação se a família não conseguir adquirir outras apresentações, como Dexferro ou Neutroferro. Cabe ao médico de família procurar alternativas possíveis dentro da medicina de família para que a condição econômica não impeça o cuidado.
Fatores de proteção, risco e vulnerabilidade
Vínculos, segurança e vulnerabilidade ambiental
Entre os atributos do sistema estão os vínculos afetivos, a segurança doméstica, a pobreza, a situação de rua e a presença de familiares com baixa escolaridade. A limitação financeira pode impedir a família de comprar a preparação de ferro prescrita.
Também devem ser considerados atributos do meio e do sistema, como isolamento social, bullying escolar, problemas na escola e ameaças. A presença desses fatores exige observação contínua e avaliação das condições reais em que a criança vive.
Resposta proporcional aos fatores de risco
Quando os fatores de risco estão presentes, a equipe deve tomar medidas proporcionais à situação. Cabe ao médico de família tentar contornar as barreiras que dificultam o cuidado da criança.
Podem ser necessários acompanhamento psicológico, acompanhamento pediátrico ou retornos em intervalos menores. Ao longo do tempo, esses fatores podem contribuir para o aparecimento de transtornos de saúde mental, doença mental grave, ideação suicida ou violência; por essa razão, devem ser identificados e registrados desde os primeiros atendimentos.
Coordenação intersetorial e contrarreferência
A prática de saúde colaborativa consiste em compartilhar informações relevantes entre os profissionais e os setores envolvidos. O cuidado infantil frequentemente exige articulação intersetorial com serviços de assistência social e com a escola. O serviço de assistência social pode informar à unidade que a mãe de determinado paciente iniciou acompanhamento; a escola pode solicitar orientações, e a equipe pode enviar fichas com informações sobre o que precisa ser observado e acompanhado.
Na coordenação desse cuidado, o médico da família é o coordenador do cuidado da criança, e não o pediatra. A coordenação inclui a contrarreferência dos pacientes encaminhados a outros profissionais e ocorre tanto no SUS quanto nos convênios. Quando a criança é encaminhada ao pediatra, ela deve retornar ao médico da família para continuidade do acompanhamento. Essa integração torna a atenção primária mais resolutiva.
Negligência revelada no território
Toda a unidade participa das ações, mas os agentes comunitários são essenciais para identificar riscos que não aparecem na consulta, pois conhecem o território e seus riscos biológicos e sociais. Se uma criança de dois anos foi deixada sozinha em casa enquanto a responsável estava na esquina ou no mercado, há risco de negligência: a equipe médica deve atuar e comunicar a assistência social. A negligência, os maus tratos e o abuso sexual são formas de violência contra crianças e adolescentes.
Promoção da saúde antes do agravo
Com base na vigilância do território, a equipe decide quando interferir e quais ações de promoção da saúde são necessárias. A medicina de família dispõe de estratégias para promover a equidade. Essas ações incluem vacinação, prevenção de quedas, prevenção de acidentes, prevenção de violências e identificação precoce de problemas de saúde mental e de outros fatores de risco.
As violências estão entre as maiores causas de óbito por causas externas. A criança pode apresentar perda de função na vida adulta em decorrência dessa lesão. Por isso, o objetivo é minimizar agravos antes que se tornem doenças graves ou produzam consequências permanentes.
Contexto sociocultural na anamnese
A anamnese deve ser construída com a equipe de enfermagem e com as informações obtidas no acompanhamento da unidade. Os agentes comunitários podem conhecer aspectos do contexto sociocultural que não são relatados espontaneamente durante a consulta. Assim, a criança ou a família pode revelar apenas uma pequena parte da realidade vivenciada, enquanto os profissionais que acompanham o território identificam problemas familiares, escolares e sociais que influenciam diretamente a saúde.
O acompanhamento deve considerar a situação social do paciente e o acesso que ele tem aos serviços de saúde. O cuidado é centralizado em um profissional que conhece todo o contexto do paciente.
Avaliação de riscos
Sinais comportamentais e riscos psicossociais
A avaliação deve abranger riscos individuais e sociais. O temperamento é um atributo da própria criança considerado na avaliação. Na dimensão afetiva e comportamental, devem ser observados baixo peso, obesidade, desenvolvimento intelectual, baixo rendimento escolar e doenças neurológicas. Na dimensão social, merecem atenção a agressividade, a agitação, a mudança de humor, o isolamento e o aumento da agressividade.
Durante a avaliação da criança, devem ser monitorados fatores de risco como isolamento social, bullying, problemas na escola e ameaças. Mudanças comportamentais podem indicar violência ou algum transtorno, incluindo o transtorno do espectro autista.
Os fatores de risco podem desencadear problemas de saúde mental, doença mental grave, ideação suicida ou violência. Mudanças comportamentais devem ser observadas mesmo durante atendimentos motivados por demandas agudas. Durante os atendimentos, devem ser observados e avaliados os fatores de proteção e os fatores de risco da criança.
Classificação que orienta o seguimento
A classificação transforma a combinação dos riscos clínico e social em um plano de seguimento proporcional.
- Etapa: Combine o risco clínico e o risco social para classificar a criança como de risco alto, moderado ou habitual.
- Risco habitual: Não significa ausência de risco; representa a suscetibilidade comum à vida, incluindo a possibilidade de adoecer, cair ou sofrer acidentes, quando não há outros fatores clínicos ou sociais relevantes.
- Classificação: Use o resultado para orientar a intensidade do seguimento e a necessidade de encaminhamentos.
- Conduta: Quando fatores de risco estão presentes, podem ser indicados acompanhamento psicológico, acompanhamento pediátrico ou retornos em intervalos menores.
Fatores sociais que elevam o risco
Entre os fatores de risco social estão a ausência de apoio familiar, o analfabetismo materno e a maternidade ou gestação na adolescência. A avaliação da criança deve considerar também o vínculo afetivo, a segurança doméstica, a pobreza, a situação de rua e a baixa escolaridade dos familiares.
Uma história familiar de morte de uma criança, especialmente aos cinco anos de idade, exige atenção para a possibilidade de violência. A situação de prostituição também é relevante. Em contextos periféricos, pode haver ausência do cuidador masculino, com a criança permanecendo apenas com a mãe; são comuns famílias monoparentais formadas por mãe e filho. A maior atribuição de risco à dimensão materna decorre da exposição da mãe aos riscos durante a gestação e a educação, mas não isenta o pai de responsabilidade.
Riscos clínicos e infecções congênitas
Entre os fatores de risco clínico estão o baixo peso e as infecções congênitas do grupo TORCH, adquiridas durante a gestação e capazes de causar malformações. Foram citadas toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpes.
As doenças crônicas e as doenças hereditárias são atributos da própria criança considerados na avaliação. Essas condições devem orientar a definição do seguimento, pois podem comprometer o desenvolvimento e exigir acompanhamento especializado.
Caderneta da Criança e seguimento
Caderneta além do calendário vacinal
As duas versões da Caderneta da Criança funcionam como instrumento de acompanhamento. Os pais costumam levá la às consultas porque ela contém o calendário vacinal, mas sua utilidade não se limita à vacinação. A enfermeira verifica toda a caderneta de vacinação da criança. A vacinação é uma ação de promoção à saúde da criança.
A caderneta reúne informações sobre o desenvolvimento infantil e permite avaliar os marcos esperados para cada idade, como sustentar a cabeça e sentar, além de rolar e outros movimentos. A avaliação da criança deve considerar o desenvolvimento intelectual. Os testes de desenvolvimento permitem identificar quando a criança não está se desenvolvendo adequadamente, sem exigir a memorização de todos os marcos, que estão organizados no próprio documento.
Calendário longitudinal de consultas
Siga a sequência de consultas e registre a evolução da criança ao longo das fases da vida.
- Etapa: Inicie a primeira consulta aos sete dias de vida.
- Etapa: Programe as consultas para o primeiro, segundo, terceiro e quarto meses, o sexto mês, o nono mês, o décimo segundo mês e o décimo quinto mês, com continuidade até os dois anos.
- Etapa: Registre, em cada atendimento, os dados relevantes e a evolução da criança, mantendo a sequência indicada para cada fase.
- Etapa: Acompanhe longitudinalmente o período pré natal, a infância, a fase pré escolar, a pré adolescência, a adolescência e a vida adulta. A longitudinalidade do cuidado permite reavaliar a evolução do bebê após uma intervenção.
Alimentação e segurança no seguimento
Durante as consultas, registra se se a criança iniciou a introdução alimentar e quais alimentos foram introduzidos. A caderneta orienta os pais sobre aleitamento, armazenamento do leite, aspecto saudável das fezes, padrão respiratório e algumas manobras de segurança.
A prevenção de quedas e a prevenção de acidentes são ações de promoção à saúde da criança, que buscam minimizar os agravos à saúde. Mesmo sendo um instrumento simples, a caderneta mantém o acompanhamento organizado e fornece informações práticas para a família.
Consulta ampliada com caderneta em mãos
A anamnese deve ser realizada com a caderneta em mãos. Uma anamnese construída em conjunto com a equipe de enfermagem é importante para compreender o contexto da criança. Como a consulta de puericultura costuma exigir mais tempo que uma consulta por queixa aguda, as unidades devem reservar período suficiente para a avaliação.
O exame físico segue os princípios habituais, mas inclui questões adicionais sobre crescimento, desenvolvimento, alimentação, vacinação, segurança e condições sociais. A avaliação da criança também deve considerar a presença de obesidade, a presença de baixo peso e seus aspectos afetivos e comportamentais. A prevenção de violências é uma ação de promoção à saúde da criança.
Registro de riscos e necessidade de retorno
A caderneta permite registrar risco de agravos do desenvolvimento, agravos infecciosos, comprometimento do desenvolvimento e infecções. A vigilância em saúde da criança deve considerar riscos biológicos e sociais. A avaliação da criança deve considerar riscos e vulnerabilidades, incluindo riscos individuais e sociais. Deixar uma criança de 2 anos sozinha em casa é uma situação de risco de negligência.
A caderneta também informa o número de consultas e de retornos necessários. Algumas versões são mais antigas e simples, enquanto as atuais são mais elaboradas; apesar das diferenças, todas servem para registrar a evolução e orientar a continuidade do cuidado. A vigilância dos riscos orienta a necessidade de intervenção.
Conteúdo da consulta de puericultura
História gestacional na consulta integral
Uma consulta completa deve registrar a idade da criança, se nasceu a termo, pré termo ou pós termo, e sua classificação em relação à idade gestacional, incluindo adequada ou grande para a idade gestacional. No caso relatado, o bebê apresentava braquicefalia e, após dois meses, houve melhora do formato da cabeça. A história deve descrever o pré natal, suas intercorrências, o diabetes gestacional e a classificação do risco gestacional. As infecções do grupo TORCH são adquiridas durante a gestação. A avaliação dos riscos clínico e social classifica a criança como de risco alto, moderado ou habitual.
A história obstétrica deve informar se houve cesariana, onde ocorreu, como o bebê estava posicionado, se estava em apresentação pélvica, em que idade gestacional a cesariana foi realizada e como estavam a respiração e a coloração da pele ao nascimento. Quando a criança é levada por gripe, diarreia ou outro problema, a consulta pode ser aproveitada para incluir a demanda programática e avaliar outros aspectos.
A avaliação da criança deve considerar doenças neurológicas e baixo rendimento escolar. Essa avaliação pode incluir situação escolar, notas, desenvolvimento intelectual e desenvolvimento motor, além de aspectos sociais como mudança de escola, agressividade e agitação. Mudanças comportamentais na criança podem ser sinais de algum distúrbio.
Triagem neonatal
Triagem para doenças congênitas
A triagem conecta coleta, investigação e organização do acompanhamento.
- Etapa: Encaminhar o sangue coletado para a avaliação das doenças genéticas e congênitas incluídas na triagem.
- Etapa: Analisar anticorpos e outros elementos relacionados a essas doenças.
- Etapa: Reconhecer, entre as infecções do grupo TORCH, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpes.
- Etapa: Considerar que as infecções do grupo TORCH podem causar malformações.
- Etapa: Realizar a investigação precocemente para identificar alterações antes do aparecimento de manifestações mais graves e organizar o acompanhamento conforme o resultado.
Programa Saúde na Escola
Avaliação escolar e busca ativa anual
O programa organiza uma busca ativa anual em parceria com a escola e a unidade de saúde.
- Etapa: Acionar o Programa Saúde na Escola para que a unidade de saúde do território avalie anualmente todas as crianças matriculadas nas escolas do bairro.
- Etapa: Realizar a atividade em aproximadamente duas semanas, envolvendo a avaliação de todas as crianças matriculadas.
- Etapa: Obter o comprovante de vacinação na unidade de saúde.
- Etapa: Emitir, pela enfermeira, uma declaração de que as vacinas da criança estão em dia.
- Etapa: Nas escolas públicas, exigir que todas as crianças tenham o calendário vacinal atualizado anualmente.
- Etapa: Usar o comprovante de vacinação atualizado para permitir a matrícula em creches ou escolas.
- Etapa: Enviar à escola fichas de orientação sobre as necessidades e o acompanhamento das crianças.
- Etapa: Alcançar crianças que talvez não comparecessem espontaneamente à unidade e ampliar a identificação de problemas de visão, audição, saúde bucal e desenvolvimento.
- Etapa: A prática de saúde colaborativa envolve compartilhar informações.
- Etapa: A atenção à saúde da criança frequentemente envolve intersetorialidade com outros serviços.
- Etapa: Incluir, nas ações de promoção à saúde, a identificação precoce relacionada à violência e à saúde mental.
Indicadores e prevenção quaternária
Indicadores de sobrevivência e desenvolvimento
Entre os indicadores que devem ser monitorados estão a mortalidade infantil, a sobrevida de recém nascidos, a associação entre agravos, a qualidade de vida e os transtornos do desenvolvimento. Existe uma relação importante entre os agravos das fases iniciais da criança e as doenças ao longo da vida. Esses indicadores permitem avaliar o impacto das ações de saúde e acompanhar tanto a sobrevivência quanto as condições de desenvolvimento das crianças.
Quando a criança não consegue usar sulfato ferroso, o médico de família pode prescrever outra preparação de ferro.
Não rastrear crianças saudáveis sem indicação
Não solicite exames de rotina para uma criança saudável e sem sintomas apenas porque a família deseja um check up. Mesmo a partir de um ano de idade, exames laboratoriais ou avaliações adicionais exigem indicação clínica. A consulta deve priorizar o acompanhamento do crescimento, do desenvolvimento, da alimentação, da vacinação e dos fatores de risco.
Orientações conforme a fase da vida
Orientações por fase da infância
| Período | Principais orientações |
|---|---|
| Pré natal | Tabagismo, uso de drogas e cuidados relacionados ao recém nascido. |
| Primeiros meses | Alimentação, nutrição, qualidade das fezes, ganho de peso e crescimento. A suplementação infantil inclui vitamina A e vitamina D, indicada até os dois anos de idade; a suplementação de ferro também é mencionada até os dois anos de idade. |
| Demais fases da infância | Avaliação específica do crescimento, do desenvolvimento, da alimentação, da segurança e dos fatores clínicos e sociais. |
As orientações devem ser adaptadas ao período de vida da criança; a equipe utiliza a caderneta e os instrumentos de acompanhamento para organizar a avaliação.
Transições que sustentam o acompanhamento
A tabela de orientações é extensa porque cada etapa exige observações próprias. Seu objetivo é facilitar o acesso às informações e garantir que nenhum aspecto importante seja esquecido.
A consulta deve permanecer centrada na criança e na família, mantendo a sequência de acompanhamento, a identificação dos riscos e a promoção do desenvolvimento adequado. O acompanhamento familiar reconhece os pontos de transição entre as diferentes fases da vida: são momentos decisivos para definir quando intervir no desenvolvimento intelectual da criança.
Dicas Para Provas
Dicas Para Provas
| Dicas Para Provas |
|---|
| Não se realizam exames de rotina em crianças saudáveis e assintomáticas. |
Reflexão Sion
Cuidar antes da doença
Na atenção primária, cuidar da criança é acompanhar crescimento, desenvolvimento, vacinação, segurança e contexto familiar, sem transformar uma criança saudável em uma sequência de exames desnecessários. Esse olhar atento lembra que o futuro é construído por cuidados concretos — proteção, vínculo e presença — oferecidos antes que o problema se torne grave. Em Jesus, encontramos um Salvador que acolhe os pequenos e nos convida a tratar cada vida com esse mesmo valor e responsabilidade.
Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas.Marcos 10:14
Leia e reflita sobre o cuidado que começa antes da doença.