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Afecções do Aparelho Reprodutivo em Cães: Casos Clínicos e Abordagem Cirúrgica
Na avaliação clínica da cadela com pseudociese, os achados esperados incluem:
Topicos da aula
- Casos Clínicos de Afecções do Aparelho Reprodutivo
Overview
Panorama das afecções reprodutivas cirúrgicas
Esta aula percorre o panorama das afecções reprodutivas cirúrgicas em pequenos animais, conectando quadro clínico, fisiopatologia e conduta. O ponto de partida é a pseudociese, distúrbio hormonal cíclico que exige castração apenas após o anestro. Na sequência, complicações de castrações mal executadas — síndrome do ovário remanescente, piometra de coto e tecido ovariano ectópico — mostram como falhas técnicas podem levar a estros persistentes, infecção e até neoplasia. O raciocínio passa ainda por condições raras ou de apresentação peculiar, como persistência dos ductos de Müller em machos, parasitismo ectópico em bolsa ovariana, prolapso vaginal/uterino e tumores do sistema reprodutor, com destaque para o TVT. Ao final, a comparação entre ovariectomia e ovário histerectomia e o momento ideal da castração costuram a decisão cirúrgica individualizada.
Pseudociese em Cadelas
Caso de pseudociese: sinais comportamentais e mama
Uma fêmea canina de dois anos foi levada à consulta porque, durante o estro, apresentava alterações comportamentais importantes: perda de apetite, tendência a se esconder, coleta de objetos aleatórios e cuidado com esses objetos, além de ciúmes em relação a outros animais e objetos. O responsável relatou que havia leite nas mamas, apesar de a cadela nunca ter cruzado.
O quadro clínico foi identificado como pseudociese, condição que decorre de distúrbio hormonal e pode manifestar se de forma exacerbada em algumas fêmeas. A pseudociese é um problema porque existe um distúrbio hormonal acontecendo.
Ciclo estral: progesterona, prolactina e diestro
No ciclo estral da cadela, o corpo lúteo permanece até o final da gestação e também até o final da fase do diestro. Ao final da gestação, ocorrem a queda da progesterona e o aumento da prolactina, eventos relacionados à chegada do trabalho de parto. Esses estímulos são neuroendócrinos, o que explica o aparecimento de manifestações comportamentais maternas, como isolamento e cuidado com objetos.
A pseudociese não é necessariamente grave, mas pode predispor a infecções, como a mastite, e levar a comportamentos mais agressivos.
Recorrência cíclica e risco de piometra
Por se tratar de um distúrbio regulatório, a pseudociese tende a se repetir a cada ciclo: a cadela chega ao diestro e volta a manifestar o quadro. Além disso, a pseudociese pode desencadear outras doenças hormonais, pois o animal está desregulado, podendo levar futuramente à piometra.
Dessa forma, o problema não deve ser interpretado apenas como um fenômeno estético ou comportamental: representa uma desregulação endócrina que merece acompanhamento e tratamento.
Achados no exame físico da pseudociese
Na avaliação clínica da cadela com pseudociese, os achados esperados incluem:
- Glândulas mamárias: aumento de volume das glândulas mamárias.
- Secreção láctea: eventualmente presente, devido à ação da prolactina.
- Secreções vaginais: podem ser observadas secreções vaginais de origem uterina.
- Comportamento: alterações comportamentais características completam o quadro.
- Diagnóstico: essencialmente clínico, fundamentado na história reprodutiva e nos achados de exame físico.
Castração apenas no anestro, nunca no estro
Na pseudociese, a castração resolve o problema ao eliminar o estímulo hormonal cíclico, mas não se deve realizar a castração imediatamente durante a fase de estro ou diestro: há maior vascularização e aumento de volume dos tecidos, o que eleva o risco cirúrgico. A conduta é aguardar a passagem dessa fase até que a cadela atinja o anestro. O leite presente nas mamas durante o procedimento cirúrgico representa contaminação, pois é um nutriente para bactérias.
Inibidor de prolactina e castração no anestro
A primeira linha de tratamento da pseudociese é inibir os efeitos do distúrbio hormonal. Para isso, utiliza se um fármaco inibidor de prolactina, disponível sob nomes comerciais como Contralac e Seclac, que reduz a produção de leite e controla os sinais associados ao quadro.
Assim que a cadela entra em anestro, realiza se a castração com o objetivo de prevenir novos episódios. Nesse contexto, a castração não é meramente eletiva, pois tem finalidade terapêutica e preventiva de uma doença recorrente.
Caso não haja remissão dos sinais, outras diretrizes terapêuticas devem ser consideradas.
Persistência do estro: investigar cistos ovarianos
Quando a cadela não sai do cio, apresenta ciclo estral irregular ou não entra em anestro, outras causas devem ser investigadas. O intervalo entre cios normalmente é de cerca de 4 a 6 meses; recorrência ou persistência da fase estral pode indicar cistos ovarianos, que impedem o retorno ao anestro.
Quando a cadela ou gata tem cistos ovarianos, pode não ocorrer o anestro. Nesses casos, o tratamento dos cistos ovarianos deve ser instituído de forma imediata, existindo várias diretrizes terapêuticas, com abordagem terapêutica específica, diferente da conduta adotada na pseudociese.
Se não houver remissão dos sinais de cistos ovarianos, será necessário adotar outra medida terapêutica.
Síndrome do Ovário Remanescente e Piometra de Coto
Abscesso de flanco após castração: caso inicial
Uma cadela que havia sido submetida à castração algum tempo antes da avaliação apresentava um grande abscesso no flanco. Durante o exame ultrassonográfico, foi detectada a presença de tecido ovariano no interior da cavidade abdominal; caudal ao rim, a estrutura observada era um resquício de corno uterino. A pessoa que operou deixou um pedaço do corpo do útero do lado direito.
Como o animal já havia sido castrado, a persistência de tecido ovariano configurava falha na remoção completa das gônadas. A paciente entrava no cio e apresentava leucocitose, indicativa de processo infeccioso associado; a leucocitose era decorrente do processo infeccioso.
A conduta ética em relação ao colega que realizou o procedimento é não falar mal dele, lembrando que o veterinário tem responsabilidade no pós operatório e nos cuidados dessas pacientes.
Fístula coto útero cutânea e piometra de coto
Achados cirúrgicos e diagnóstico
No acesso à cavidade, identificaram se remanescentes ovarianos nos dois lados. Do lado esquerdo, havia ainda uma estrutura adicional aderida à parede, caudal ao rim. A permanência desse tecido caracteriza a síndrome do ovário remanescente, que pode acontecer por conta de uma técnica cirúrgica aplicada de forma incorreta.
O abscesso observado no caso, localizado no flanco, era, na verdade, uma fístula de comunicação do coto útero cutâneo, ou seja, uma comunicação entre o coto uterino e a pele, que estava acumulando bactérias. O paciente do caso possuía piometra de coto associada à permanência de ovários. O caso foi diagnosticado como piometra de coto associada à permanência de tecido ovariano, demonstrando as consequências de uma técnica cirúrgica aplicada de forma incorreta.
Sinais da síndrome do ovário remanescente
A síndrome do ovário remanescente é uma complicação iatrogênica da castração que cursa com sinais reprodutivos e pode estar associada à infecção do coto uterino.
- Retorno do cio: a permanência de fragmentos ovarianos após a castração pode levar ao retorno do cio, mesmo com a cirurgia já realizada, e à manifestação de estros reprodutivos.
- Estros reprodutivos: a manifestação de estros reprodutivos ocorre quando há permanência de tecido ovariano após a cirurgia.
- Piometra de coto: na permanência de fragmentos uterinos pode haver desenvolvimento de microrganismos, gerando a chamada piometra de coto.
- Processo inflamatório sem agentes: a piometra de coto pode ser apenas processo inflamatório, sem participação de agentes infecciosos.
- Resquício de corno uterino: o resquício de corno uterino pode estar associado à piometra de coto.
- Síndrome do ovário remanescente: cursa com sinais reprodutivos e pode estar associada à infecção do coto uterino.
Verificação cirúrgica dos remanescentes ovarianos
Na suspeita de resquício ovariano, a cirurgia para tratamento da síndrome do ovário remanescente deve incluir a verificação cuidadosa dos dois lados e dos três pontos anatômicos: todos os cornos uterinos e o corpo uterino, sem esquecer o coto. O objetivo é identificar qual estrutura está faltando ou permaneceu, como o coto uterino com piometra.
Confirmada a permanência, o procedimento consiste em realizar nova ligadura e nova hemostasia para ressecção dos remanescentes e do coto comprometido.
Falha iatrogênica e conduta ética
Na grande maioria dos casos, a síndrome do ovário remanescente é uma falha técnica iatrogênica, ocasionada pelo manejo cirúrgico, assim como a piometra de coto. Não se pode afirmar que seja sempre erro, pois variações anatômicas e situações imprevistas podem dificultar o procedimento; ainda assim, a grande e avassaladora maioria decorre de execução inadequada da técnica cirúrgica. A conduta ética estabelece que o responsável deve ser orientado e, idealmente, encaminhado para conversar com o profissional que realizou o procedimento. Se houver ética profissional, o erro deve ser reconhecido e corrigido sem custos ao tutor. Caso o responsável não queira retornar ao profissional anterior, o novo cirurgião deve realizar o procedimento necessário.
Tecido Ovariano Ectópico e Neoplasia Associada
Cadela castrada que segue ciclando: caso
Uma cadela de 12 anos, castrada antes do primeiro cio, foi levada para check up. O responsável relatou que, um mês após a castração, o animal continuou entrando no cio, e isso persistiu ao longo dos anos.
Na ultrassonografia, um aumento de volume foi identificado na região abdominal média direita, caudal ao rim, como uma estrutura maciça e heterogênea, com cerca de 3 cm. Considerando que a cadela pesava 10 kg, o tamanho era maior que o esperado para um ovário normal.
Videocirurgia, conversão e enterectomia
Para localizar a estrutura, o acesso laparoscópico foi escolhido, pois na ausência do útero, a localização e a exteriorização do ovário remanescente são mais difíceis; com a videocirurgia, é possível identificar com mais facilidade essas estruturas. Durante o procedimento, ao rebater a alça intestinal, observou se o coto uterino com fio cirúrgico, sem alterações.
No mesentério, foi encontrada uma massa de dimensões maiores que as estimadas pelo ultrassom, o que levou à conversão para cirurgia aberta. Como o ultrassom tende a estimar o tamanho para menos, deve se sempre pensar que a massa pode ser maior. Foi realizada enterectomia, com ressecção e anastomose intestinal.
Fragmento ovariano reenxertado no mesentério
A massa não estava no ovário, mas em posição ectópica, no mesentério. O quadro foi definido como tecido ovariano ectópico: a explicação mais provável é que, durante a castração/excisão, um fragmento de ovário tenha caído na cavidade abdominal e se reenxertado.
Essa condição é uma das complicações possíveis da permanência de tecido ovariano e do ovário remanescente, e tanto o tecido ectópico quanto o ovário remanescente podem levar, a longo prazo, à formação de neoplasias. Por isso, a abordagem deve incluir a inspeção de ambos os lados e do coto uterino, removendo todo o tecido remanescente.
Histopatológico: neoplasia de células da granulosa
As amostras colhidas devem ser encaminhadas para exame anatomopatológico, a fim de confirmar a natureza da alteração. No caso descrito, o exame revelou tratar se de neoplasia de células da granulosa, também conhecida como luteoma, confirmando o diagnóstico de câncer ovariano.
O tumor era de células da camada granulosa e é conhecido como luteoma. A história ilustra como uma falha na castração pode levar a complicações graves, incluindo a perda de parte do intestino em decorrência do tumor mesentérico.
Parasitismo em Bolsa Ovariana
Parasita ectópico como achado incidental
O parasita encontrado é um agente que geralmente permanece no interior dos rins; porém, em posição ectópica, alojou se na região da bolsa ovariana em vez de atingir o órgão habitual. Essa localização anômala pode provocar inflamação local e até evoluir para processo infeccioso, o que reforça a necessidade de interpretar o achado com atenção.
No caso descrito, tratou se de um achado incidental; de fato, é comum esse tipo de parasitismo ser um achado incidental. Por isso, o parasitismo ectópico deve ser incluído como diagnóstico diferencial em alterações ovarianas e adjacentes.
Persistência dos Ductos de Müller em Cão Macho
Schnauzer macho com febre e massas abdominais
Um cão da raça Schnauzer, macho, de 11 anos, não castrado, foi avaliado por apatia, febre e neutrofilia. À palpação da bolsa escrotal, não havia testículos na bolsa, nem no subcutâneo ou na região inguinal, o que levantou a suspeita de testículos ectópicos.
Ao exame ultrassonográfico, foram identificadas massas ovaladas, parenquimatosas, de aproximadamente 3 cm, caudais aos rins, bilateralmente. Além disso, foi encontrada uma massa ovalada e parenquimatosa, medindo de 1 a 3 centímetros. Foi observada uma estrutura dorsal à bexiga, atubular e com conteúdo de celularidade. A bexiga apresentava espessamento dorsal, com conteúdo de celularidade aumentada e padrão ecogênico misto, sugestivo de processo inflamatório.
Ductos de Müller persistentes com piometra no macho
Foi identificada uma estrutura na região de comunicação entre cornos, corpo e cérvix, compatível com estruturas müllerianas persistentes. O animal apresentava persistência dos ductos de Müller, condição em que estruturas que deveriam regredir no macho permanecem desenvolvidas. Os ductos de Müller nas fêmeas se transformam em estruturas do trato reprodutivo.
Essa alteração é relativamente descrita na raça Schnauzer. O cão apresentava piômetro, ou seja, útero persistente com piometra, colo uterino endurecido e aumento de volume associado. Os testículos estavam presentes em localização ectópica, com aspecto provavelmente neoplásico. O caso demonstra a complexidade das afecções do sistema reprodutor e a importância da investigação ultrassonográfica detalhada.
Técnicas de Castração: Ovariectomia e Ovário Histerectomia
Conceito de castração e modalidades
O termo castração refere se ao procedimento que visa impedir a reprodução e remover as gônadas, sem especificar a técnica cirúrgica empregada. Ou seja, além da ovário histerectomia, tradicionalmente ensinada, existem outras formas de realizar a castração.
Guias gerais sobre castração publicados pela Associação Mundial de Médicos Veterinários de Pequenos Animais descrevem que a ovariectomia é apenas uma das diversas modalidades disponíveis para atingir os objetivos de impedir a reprodução e prevenir doenças. Histerectomia significa remoção completa, o que ajuda a entender as diferenças entre as técnicas.
Nos Estados Unidos, o pessoal aprende a ovariectomia e a ovário histerectomia. A explicação principal para a preferência por ovário histerectomia em muitos locais é a questão cultural, pois as escolas de veterinária no Brasil, assim como na Europa, ensinam a ovário histerectomia.
Ovariectomia também previne piometra
Existem dois grandes métodos para remoção das gônadas em fêmeas: a remoção conjunta dos ovários e do útero, denominada ovário histerectomia, e a remoção apenas dos ovários, denominada ovariectomia. Ou seja, retirar os ovários e o útero em conjunto ou retirar somente os ovários, deixando o útero no animal.
A ovariectomia é suficiente para prevenir a piometra. A piometra, incluindo a piometra de coto, é uma doença hormônio dependente: se todos os ovários forem removidos, mesmo que permaneça um coto uterino, a chance de piometra de coto é muito baixa. Estudos com cadelas submetidas à ovariectomia ou à ovário histerectomia confirmam que a piometra não ocorre quando os ovários são completamente removidos.
Vantagens e indicação da ovariectomia
A ovariectomia apresenta algumas vantagens em relação à ovário histerectomia. A incisão pode ser menor, pois não é necessário acessar o corpo do útero. Os vasos ovarianos geralmente são menos calibrosos que os vasos do corpo uterino, embora a tração dos ovários seja o ponto mais arriscado. Com isso, há menor trauma cirúrgico e menor tempo anestésico.
Por outro lado, a ovariectomia não é indicada para todas as situações. Em uma cadela com múltiplos partos, o útero dilatado pode predispor a infecção acidental, mas, com a remoção completa dos ovários, a piometra não deve ocorrer. A indicação principal da ovariectomia é para cadelas jovens, sem crias e sem outras alterações.
Ovário histerectomia subtotal: o papel da cérvix
Na técnica cirúrgica tradicionalmente realizada, existe uma particularidade terminológica: a cérvix faz parte do útero, porém essa estrutura não é removida no procedimento convencional. Como na técnica realizada na aula a cérvix não foi removida, o procedimento não corresponde a uma histerectomia completa e é classificado, por definição, como ovário histerectomia subtotal, porque mantém a cérvix, que pertence ao útero e não à vagina. Essa distinção conceitual é importante para compreender os procedimentos cirúrgicos e para descrever corretamente os registros clínicos.
Momento da Castração e Prevenção de Neoplasias Mamárias
Castrar antes do primeiro cio: risco de 0,5%
A prevenção do tumor de mama em cadelas é mais eficaz quando a castração é realizada antes do primeiro cio, pois a maioria dos tumores mamários é hormônio dependente. Antes do primeiro cio, a cadela ainda não entrou na puberdade e não apresenta função ovariana ativa. A castração entre o primeiro e o segundo cio também oferece proteção, porém em menor grau.
Os números traduzem esse benefício: a chance de uma cadela castrada antes do primeiro cio desenvolver tumor de mama é de 0,5%, enquanto a frequência de tumor de mama na população de cadelas é de cerca de 40%.
Riscos ortopédicos da castração precoce
A castração precoce está relacionada a outras alterações, como insuficiência do ligamento cruzado cranial e displasia coxofemoral; esses riscos devem ser ponderados na decisão clínica. Em cadelas e gatas, cerca de 95% das neoplasias mamárias são malignas, o que reforça a importância da prevenção. A decisão deve considerar o indivíduo e a família: é necessário avaliar se o tutor tem condições de cuidar de um animal inteiro, considerando riscos de tumor mamário, piometra e gestações indesejadas.
Raça altera o momento ideal da castração
Estudos que analisaram 40 raças diferentes forneceram orientações específicas sobre o momento da castração, mostrando que a raça influencia a decisão sobre quando castrar. No Doberman, por exemplo, a incidência de doenças é maior quando o animal é castrado, sendo indicada a não castração.
Há raças em que a indicação continua sendo castrar antes do primeiro cio. Em outras raças, a prevalência de tumor mamário pode ser menor que a prevalência de displasia, sugerindo castração após o segundo ou terceiro cio, quando o animal já está completamente desenvolvido.
A decisão sobre castração não segue um protocolo fixo; o veterinário precisa fazer escolhas todos os dias.
Machos, próstata e medicina do coletivo
Nos machos, não há relação entre castração e prevenção de tumor mamário; os problemas mais relevantes em machos inteiros envolvem a próstata. Por isso, é possível aguardar o desenvolvimento completo do animal, por volta de um ano, antes da castração.
Alterações comportamentais, como marcação urinária, não constituem indicação absoluta, pois podem ser trabalhadas de outras formas. Em contextos de medicina do coletivo, como ONGs e prefeituras, com grande número de animais erráticos, a castração tem papel fundamental na prevenção da transmissão de doenças e no controle populacional.
O comportamento reprodutivo favorece a interação entre animais e a disseminação de agentes infecciosos, como a cinomose.
SRD, limitações dos estudos e decisão individual
Os estudos sobre momento ideal da castração foram realizados em outros países, e as condições brasileiras podem ser diferentes, de modo que essas informações não devem ser aplicadas como verdade absoluta. Além disso, a legislação da cidade onde o veterinário trabalha pode ser diferente da de outras cidades e de outros países.
Em animais sem raça definida, o porte pode ser utilizado como referência, assim como as características da raça predominante. Em filhotes SRD, é difícil saber o porte final, o que complica a decisão de quando castrar. O porte e a raça têm influência na decisão de quando castrar, e a raça é outro fator que deve ser considerado na decisão sobre a castração.
A condição da família e a disponibilidade de recursos financeiros influenciam a decisão, pois procedimentos como a cirurgia de ligamento cruzado cranial custam, no mínimo, cerca de cinco mil reais. É necessário considerar também a incidência de outras neoplasias, como o osteossarcoma, em animais castrados. A decisão sobre castrar e quando castrar deve ser individualizada, baseada na avaliação clínica, racial e social de cada paciente.
Prolapso Vaginal e Uterino
Prolapso vaginal súbito em cadela no estro
O prolapso vaginal/uterino pode se manifestar como um aumento de volume na região vulvar de aparecimento súbito. Foi o que ocorreu com uma cadela braquicefálica em estro: entre a noite anterior e a manhã seguinte, um volume se exteriorizou de forma abrupta na região vulvar. O quadro foi identificado como prolapso vaginal.
Essa condição não deve ser confundida com neoplasia. Para diferenciar TVT de prolapso, faz se a avaliação da base da estrutura e testa se a patência do canal vaginal com uma sonda.
O prolapso é influenciado por eventos mecânicos e fisiológicos e ocorre com maior frequência em animais com predisposição, que pode ser congênita, hereditária e transmitida entre gerações.
Da hipertrofia ao edema progressivo
O prolapso começa como uma resposta fisiológica exagerada e segue um ciclo de autoagravamento.
- Etapa 1 – Observar a fase do ciclo: Durante as fases de estro e diestro, há hipertrofia da mucosa do trato reprodutivo.
- Etapa 2 – Detectar a resposta exacerbada: Em algumas cadelas, o processo fisiológico é exacerbado, promovendo a exteriorização da mucosa vaginal.
- Etapa 3 – Exteriorização: A exteriorização causa compressão vascular e exposição ao meio ambiente, levando a processo inflamatório.
- Etapa 4 – Instalar o edema: O processo inflamatório causa aumento de volume e edema.
- Etapa 5 – Reconhecer a bola de neve: O processo inflamatório, com aumento de volume e edema, evolui progressivamente como uma bola de neve — quanto mais o edema aumenta, mais difícil fica resolver a situação.
Inversão vaginal e prolapso uterino
A exteriorização intensa pode transformar o quadro em um evento mais grave. Siga a evolução passo a passo.
- Etapa 1 – Exteriorização intensa: Quando a exteriorização é intensa, o processo chega a provocar a inversão do canal vaginal sobre o próprio canal.
- Etapa 2 – Dobramento vascular: Essa inversão dobra os vasos, dificultando o esvaziamento vascular adequado e aumentando o edema.
- Etapa 3 – Tração do conteúdo interno: Conforme o prolapso vaginal aumenta, ele pode puxar o conteúdo interno e levar à exteriorização do útero junto.
- Etapa 4 – Prolapso uterino associado: A exteriorização do útero junto ao prolapso vaginal caracteriza um prolapso uterino associado.
Redução manual e proteção até o anestro
A paciente está em um distúrbio hormonal, podendo estar em estro ou diestro; nessa fase, o tratamento inicial não é a castração imediata, pois há maior vascularização. A primeira alternativa é a redução manual do prolapso, que reposiciona a estrutura no interior da vulva e a mantém protegida do meio. O objetivo é permitir que a cadela complete o ciclo estral e atinja o anestro.
Na maioria dos casos, a mucosa não é completamente desinvaginada; o objetivo é recobrir a estrutura. Como o tecido está edemaciado, com restrição de líquido e firme, a passagem pela vulva, que é menor, fica difícil. Para reduzir o tamanho, utilizam se agentes que estimulam vasoconstrição e osmoterapia, com soluções concentradas, como a glicose, que promovem a saída de líquido do interstício. Assim, a manobra é a primeira alternativa no tratamento, devolvendo o prolapso à posição normal ou protegendo o do meio.
Sondagem uretral e vulvorrafia com botões
Após o reposicionamento, pode ser necessária a sondagem uretral com sonda de Foley, que possui balão na extremidade para evitar a saída do dispositivo da bexiga. Essa medida protege o óstio uretral, que pode estar exposto e sob risco de lesão. A vulvorrafia mantém a aproximação das bordas da vulva para evitar a exteriorização do prolapso.
Como a tensão sobre o fio pode causar estrangulamento tecidual, usa se um sistema de acolchoamento: a sutura capitonada com botões distribui a pressão e impede que o nó e o fio estrangulem diretamente o tecido. Os botões podem ser comerciais ou adaptados a partir de materiais tubulares disponíveis. A sutura é feita em colchoeiro horizontal, entrando por uma borda e retornando pela borda oposta, e permanece por tempo suficiente para que ocorra a evolução do ciclo estral.
Ressecção e anastomose do canal vaginal
A castração deve ser realizada após o anestro, evitando recorrência; se houver condição uterina adicional, a ovário histerectomia é incluída no procedimento. Quando a redução manual não é possível, deve se realizar a ressecção e a anastomose do canal vaginal: a estrutura exteriorizada é seccionada e removida, e as bordas são unidas com pontos de reparo para evitar a retração do tecido para dentro da cavidade.
Como há inversão das camadas, a sutura deve unir as bordas interna e externa, em toda a circunferência, em 360 graus. Após a sutura, o canal vaginal retrai por tensão. Como a recorrência é possível nos próximos ciclos, a castração é realizada no mesmo procedimento, começando pela cirurgia estéril e, em seguida, pela correção contaminada.
Hereditariedade do prolapso e papel do veterinário
O prolapso vaginal tem caráter hereditário, e a castração está indicada para evitar a transmissão do defeito aos descendentes. A condição é mais comum em cadelas de raças selecionadas, e o médico veterinário pode enfrentar resistência do criador, que deseja manter a matriz para reprodução.
Nesses casos, é fundamental manter o senso ético e orientar sobre o risco de perpetuação da predisposição, recomendando a castração para preservar a saúde da própria cadela e evitar a repetição do problema nas próximas gerações.
Tumores do Sistema Reprodutor
Classificação dos tumores do reprodutor
Os tumores do sistema reprodutor exigem abordagem criteriosa. A maioria apresenta comportamento benigno, e quanto mais precoce a ressecção, melhor a evolução. Existem, porém, tumores malignos, que exigem planejamento oncológico adequado.
Assim, os tumores do sistema reprodutor podem ser benignos ou malignos. Os dois principais tipos de origem são os tumores de musculatura lisa e os tumores transmissíveis (TVT). O útero e o sistema reprodutor possuem músculo liso em sua constituição, e esses tumores de musculatura lisa apresentam formas benignas e malignas.
Leiomiomas e leiomiossarcomas: abordagem hormonal
Os tumores de musculatura lisa têm duas formas. Os tumores benignos de musculatura lisa são chamados de leiomiomas e caracterizam se por serem bem delimitados, pedunculados, de superfície lisa e geralmente pequenos, embora possam crescer bastante. Os tumores malignos de musculatura lisa são chamados de leiomiossarcomas. O tumor maligno do sistema reprodutor pode localizar se dentro do canal vaginal e apresentar superfície irregular e crescimento rápido.
Ambos são hormônio dependentes e manifestam se em cadelas inteiras ou naquelas com persistência de tecido ovariano. A castração remove o estímulo hormonal; quanto mais cedo for feita, melhor. Na literatura, há descrição de remissão apenas com a castração, e a castração previne recidiva e surgimento de novos tumores. O tratamento dos tumores de musculatura lisa é remoção (ressecção) + castração.
TVT: transmissão por contato e sangramento
O tumor venéreo transmissível (TVT), também chamado de sarcoma de Sticker, é um linfossarcoma conhecido como linfossarcoma de Sticker e pode ocorrer tanto em fêmeas quanto em machos. A transmissão se dá por meio da interação entre animais, incluindo a cópula e o hábito de farejar.
Para que o tumor se estabeleça, é necessária uma lesão ativa na mucosa: as células tumorais, extremamente friáveis, descamam com facilidade e aderem à mucosa do animal susceptível, passando a crescer. O TVT caracteriza se por sangramento abundante e aspecto friável, e certas apresentações podem simular prolapso vaginal, exigindo diagnóstico diferencial cuidadoso.
Citologia e diagnóstico diferencial das massas vaginais
Quando há aumento de volume vaginal, é essencial definir o diagnóstico correto, pois o tratamento dos leiomiomas, dos leiomiossarcomas e do TVT é completamente diferente. O exame físico, a inspeção do canal vaginal e a análise citológica ou histológica são fundamentais para o diagnóstico de tumor vaginal.
No TVT, a citologia por imprint é particularmente eficaz, pois as células tumorais são grandes e altamente esfoliativas, permitindo o diagnóstico por citologia. Os sinais clínicos incluem exposição da massa, secreção serossanguinolenta, desconforto, lambedura e possibilidade de dificuldade para urinar e defecar, por obstrução. Além disso, os sinais esperados de um tumor vaginal incluem exposição, secreção, desconforto, lambedura e coceira.
Quimioterapia no TVT: cumprir todo o protocolo
O TVT responde muito bem à quimioterapia, e a cura costuma ser obtida em cerca de um mês a um mês e meio. O tratamento quimioterápico do TVT é realizado em várias sessões, mas o tumor pode desaparecer já após a segunda sessão sem que isso signifique eliminação completa da doença; portanto, o protocolo deve ser cumprido integralmente, e o responsável deve ser orientado a manter todas as sessões. Atenção: a ressecção cirúrgica não é indicada como primeira opção, pois a manipulação pode dispersar células e implantar o tumor em outros locais, inclusive na ferida cirúrgica; a ressecção é raramente indicada, apenas em casos refratários ao tratamento clínico. A radioterapia é outra modalidade anticancerígena possível, porém depende da disponibilidade do recurso.
Metástases, castração e controle populacional
As metástases estão relacionadas principalmente aos tumores malignos, como os leiomiossarcomas, que por isso exigem acompanhamento cuidadoso. Na medicina do coletivo, a abordagem deve considerar a população de animais e não apenas o indivíduo, pois o TVT é uma doença de transmissão populacional. Por isso, o controle reprodutivo e o tratamento adequado dos animais infectados são medidas fundamentais para reduzir a disseminação da doença.
A castração precoce contribui para a prevenção de tumores vaginais, especialmente do TVT, e também interfere no comportamento reprodutivo. Assim, a decisão cirúrgica individual ganha dimensão coletiva, unindo prevenção oncológica e controle da transmissão do TVT na população.
Episiotomia para acesso ao leiomioma vaginal
Como exemplo de tratamento cirúrgico de tumor benigno, um leiomioma localizado dentro do canal vaginal foi removido com auxílio da episiotomia. A episiotomia consiste na secção e abertura da parede dorsal da vulva para melhor visualização do canal vaginal; a parede dorsal é elevada e fixada posteriormente, permitindo a exposição do tumor.
Após a remoção do leiomioma, realiza se a sutura da mucosa com a porção interna da vulva e, em seguida, a sutura da pele. Essa técnica possibilita o acesso adequado a tumores vaginais e a correção cirúrgica com segurança.
Reflexão Sion
Sabedoria para decidir
Castrar antes do primeiro cio reduz a chance de tumor mamário de 40% para 0,5%, mas exige ponderar riscos como displasia coxofemoral. Assim como o veterinário pondera riscos e benefícios antes de cada cirurgia, também precisamos de discernimento para as escolhas que afetam nossa vida e a de quem amamos. Jesus oferece essa sabedoria a quem pede, e confiar nele traz direção segura em meio a decisões complexas.
Pois o Senhor é quem dá sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o discernimento.Provérbios 2:6
Descubra por que a castração antes do primeiro cio reduz o risco de tumor de mama em cadelas.