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Afecções dos Tendões e Ligamentos em Equinos
Na fase aguda, organize a conduta pelo objetivo de proteger o tendão, controlar os sintomas e aplicar medidas simples de fisioterapia.
Topicos da aula
- Tendões e Ligamentos
Overview
Mapa clínico das lesões locomotoras
Esta aula oferece um mapa clínico das lesões locomotoras em equinos, começando pelas estruturas que sustentam e movimentam o membro e pela observação da marcha. A avaliação combina sinais clínicos, como dor, claudicação, alterações do boleto e do casco, com a ultrassonografia, essencial para reconhecer extensão, fase e cicatrização das lesões. Ao longo do percurso, são discutidas tendinites, rupturas, constrição do ligamento anular, afecções patelares e musculares, além de alterações neurológicas como arpejo e shivering. O raciocínio clínico avança da identificação do problema à escolha entre repouso, reabilitação, imobilização ou cirurgia, sempre considerando prognóstico, segurança e retorno progressivo à atividade.
Considerações gerais e estruturas anatômicas
Estruturas chave da locomoção equina
As afecções dos tendões e ligamentos são frequentes em equinos, especialmente em animais submetidos a confinamento, treinamento ou atividade esportiva. Muitas podem ser reconhecidas pela observação do animal em estação e durante a marcha.
Entre as estruturas mais importantes dos membros estão o tendão flexor digital superficial, o tendão flexor digital profundo e o ligamento suspensório do boleto. Essas estruturas estão associadas a grande parte dos problemas locomotores observados na prática.
Tendinites dos tendões flexores
Frequência e apresentação inicial
As tendinites estão entre os problemas locomotores mais comuns em cavalos. Embora qualquer tendão possa ser afetado, na prática clínica de equinos, 95% dos casos ocorrem no tendão flexor digital superficial ou no tendão flexor digital profundo.
A apresentação inicial costuma ser de tumefação e aumento de volume na região acometida.
Padrões de expansão do inchaço
A tendinite pode acometer simultaneamente os tendões flexores digitais superficial e profundo ou ocorrer isoladamente em apenas um deles. Quando o aumento de volume se projeta mais para a região palmar ou plantar, suspeita se de lesão do tendão flexor digital superficial.
Se apenas o tendão flexor digital profundo estiver acometido, o inchaço tende a se expandir lateralmente. Isso ocorre porque a tensão do tendão flexor digital superficial restringe a expansão posterior, palmar ou plantar, do tendão flexor digital profundo e força sua expansão para as laterais.
Evolução crônica ao ultrassom
As microlesões tendíneas provocam exsudação ou sangramento local, levando à formação de edema. Com a evolução, na fase crônica, inicia se e progride o processo de cicatrização do tecido tendíneo.
No ultrassom, pontos hiperecoicos e calcificação caracterizam uma lesão crônica. Também podem ser observadas fibras desalinhadas e emaranhadas em um tendão cronicamente lesionado.
Inflamação aguda versus crônica
Na fase aguda, a tendinite apresenta inflamação evidente, dor e sensibilidade no local lesado. Os sinais clássicos incluem edema, aumento de temperatura, dor à palpação, sensibilidade, espessamento tecidual e calor local. A claudicação associada a sinais inflamatórios evidentes indica que a tendinite está na fase aguda.
Na fase crônica, o processo inflamatório evidente diminui: o animal se mostra mais confortável, os sinais clássicos desaparecem progressivamente e a melhora na deambulação acompanha esse quadro. Ainda assim, o tendão pode permanecer aumentado de volume e apresentar alterações estruturais, mas com menor edema e menor dor. Não existe um ponto temporal absolutamente definido para a transição; a avaliação deve integrar os sinais clínicos à ultrassonografia.
Quando clínica e ultrassom divergem
Um equino pode apresentar aumento de volume persistente, caminhar confortavelmente e ainda claudicar quando submetido à corrida. Por isso, o exame clínico deve ser associado à ultrassonografia, evitando que a aparência confortável durante a caminhada encerre a avaliação.
A ultrassonografia é amplamente utilizada na medicina de equinos, sobretudo na investigação do aparelho locomotor. No exame do tendão, avaliam se a integridade e o alinhamento arquitetônico das fibras, além de ser possível acompanhar a evolução da lesão e a cicatrização tendínea.
Ecogenicidade e arquitetura das fibras
Na ultrassonografia, as fibras normais dos tendões apresentam alinhamento regular. Uma tendinite representa uma lesão microestrutural ou macroscópica das fibras tendíneas. As áreas de lesão aparecem inicialmente como regiões hipoecogênicas, correspondentes a rupturas parciais das fibras e à infiltração por líquido ou sangue. Nas lesões agudas do tendão, a área lesionada manifesta se como uma zona anecóica/hipoecóica (escura), correspondente à ruptura parcial de fibras. Na maioria das vezes, a ruptura é parcial, embora possa ocorrer ruptura completa.
Com a progressão da cicatrização, podem surgir áreas hiperecogênicas, associadas à fibrose. A presença de pontos hiperecóicos no exame ultrassonográfico do tendão indica processo de fibrose tecidual. Em tendinites crônicas mal tratadas, pode ocorrer calcificação, caracterizando uma evolução crônica.
Desorganização reduz resistência tendínea
O tendão superficial normalmente apresenta uma relação anatômica específica com o tendão profundo; por isso, alterações na espessura devem ser investigadas. As fibras tendíneas precisam permanecer alinhadas para suportar a tração. Uma estrutura semelhante a uma corda de sisal perde resistência quando suas fibras são tracionadas transversalmente ou permanecem desorganizadas.
Da mesma forma, um tendão cicatrizado com fibras desalinhadas torna se mais fraco e suscetível a novas lesões. O desalinhamento após a cicatrização, portanto, compromete a resistência e aumenta a vulnerabilidade do tendão.
Tratamento das tendinites
Primeiras medidas na tendinite aguda
Na fase aguda, organize a conduta pelo objetivo de proteger o tendão, controlar os sintomas e aplicar medidas simples de fisioterapia.
- Etapa: Reconheça a base do tratamento: A maioria das tendinites é tratada clinicamente. O tendão saudável original é constituído predominantemente por colágeno tipo 1.
- Etapa: Na fase aguda, priorize: Na fase aguda, são fundamentais o repouso, o controle da dor e da inflamação e a crioterapia.
- Etapa: Controle os riscos da analgesia e do treinamento: O uso do analgésico Tramadol pode provocar tontura como efeito colateral. O uso de anti inflamatórios associado à manutenção do treinamento é inadequado, pois pode mascarar a dor e permitir a sobrecarga de um tendão lesionado.
- Etapa: Realize a crioterapia: A crioterapia é uma modalidade de fisioterapia que pode ser realizada com gelo, água resfriada ou equipamentos específicos, incluindo botas com circulação de líquido refrigerado.
- Etapa: Escolha medidas simples e eficientes: Na fase aguda da tendinite, as modalidades mais simples de fisioterapia são as mais eficientes.
- Etapa: Resfrie sem congelar: Também podem ser utilizadas soluções resfriadas a aproximadamente 3 °C, com sal para impedir o congelamento.
Reabilitação protege o membro contralateral
A fisioterapia e a reabilitação começam com objetivos práticos: proporcionar conforto, reduzir a dor e permitir que o animal apoie o membro. Quando o equino deixa de apoiar uma extremidade, ocorre sobrecarga compensatória nas demais. Se o equino não apoia o membro afetado devido à dor, ele pode desenvolver gastrite por estresse ou laminite no membro oposto por sobrecarga.
O tratamento deve ser acompanhado por exames ultrassonográficos seriados e integrado a um programa de reabilitação. Na rotina da clínica médica de equinos, o próprio médico veterinário clínico costuma realizar os exames ultrassonográficos do sistema locomotor. A recuperação pode exigir vários meses e, em alguns casos, até um ano. Lesões tendíneas normalmente demoram mais para cicatrizar do que lesões ósseas.
Prazos para retorno progressivo
O retorno deve seguir uma sequência temporal: use os prazos como referência, individualize a evolução e progrida o exercício com controle.
- Etapa: Estime o tempo inicial de recuperação: como referência clínica, lesões leves podem exigir aproximadamente três meses, lesões moderadas cerca de seis meses e lesões graves entre nove meses e um ano.
- Etapa: Individualize a previsão, considerando a extensão da lesão, a qualidade da cicatrização, o controle do exercício e o acompanhamento ultrassonográfico; esses intervalos não substituem a avaliação individual.
- Etapa: Progrida o retorno à atividade por meio de exercício controlado e progressivo, ajustando a evolução ao acompanhamento clínico e ultrassonográfico.
Corticosteroide intratendíneo: risco crítico
Durante a cicatrização, introduza o exercício controlado progressivamente. O uso de corticosteroides dentro de tendões inflamados é contraindicado: não extrapole para tendões uma indicação feita para olhos ou articulações, pois cada tecido tem características próprias. Especialmente com corticosteroides de longa ação, a aplicação intratendínea pode induzir calcificação em alguns casos. A calcificação representa estágio avançado de inflamação não controlada e desorganização tecidual, podendo comprometer a vida esportiva de alta performance.
Opções para estimular cicatrização
Na fase aguda da tendinite, a aplicação intralesional de ácido hialurônico é indicada para auxiliar no controle inflamatório. Outra opção é a terapia por ondas de choque, que utiliza ondas mecânicas, estimula a atividade local e possui efeito analgésico.
Também podem ser empregados tratamentos biológicos, como células tronco e plasma rico em plaquetas (PRP). O PRP tende a apresentar melhor resposta em lesões agudas, nas quais ainda existe estímulo biológico local. Em lesões crônicas, pode ser necessário reestimular o tecido antes ou em associação ao PRP.
Ferraduras redistribuem a tensão
A ferradura pode modificar a tensão exercida sobre os tendões. Compare o ajuste ao tipo de lesão e observe quais estruturas recebem maior carga.
| Situação | Ajuste da ferradura | Efeito na distribuição da carga |
|---|---|---|
| Lesão do tendão flexor digital profundo | Levantamento do talão | Em lesões do tendão flexor digital profundo, o levantamento do talão reduz a tensão sobre o tendão profundo e transfere maior carga para o tendão superficial e para o aparelho suspensório. |
| Lesão do tendão superficial | Redução do talão | Em lesões do tendão superficial, a redução do talão pode aumentar a carga sobre o tendão profundo e diminuir a carga sobre o superficial. |
| Uso de ferraduras de extensão | Ferradura de extensão | Ferraduras de extensão também podem alterar a distribuição das forças. |
As medidas devem proporcionar conforto e ser individualizadas, pois a redistribuição da carga pode sobrecarregar outras estruturas.
Tendinite crônica e opções cirúrgicas
Recidiva após retorno prematuro
Uma tendinite crônica pode permanecer com aumento de volume, espessamento e alterações ultrassonográficas mesmo após a melhora clínica. O retorno prematuro ao treinamento é uma causa frequente de recidiva: mesmo que o animal pareça confortável após alguns meses, o exercício intenso pode romper novamente fibras ainda imaturas. Cada nova lesão reinicia o processo inflamatório e prejudica a organização do colágeno.
No tecido cicatricial recente, predomina o colágeno tipo 3; durante a maturação, ele é progressivamente substituído pelo colágeno tipo 1, embora a composição original não seja alcançada. Mesmo após a cicatrização, há maior quantidade de colágeno tipo 3 em comparação ao tipo 1. Em lesões recorrentes e com cicatrização inadequada, pode ocorrer calcificação, identificável por ultrassom.
Em situações selecionadas, a liberação cirúrgica do ligamento check superior exige centro cirúrgico. No splitting de tendão, as perfurações podem ser feitas com agulhas 40x12 ou 40x16; o acompanhamento ultrassonográfico intraoperatório requer gel estéril e capa estéril para o transdutor.
Maturação incompleta do colágeno
O tendão normal é constituído predominantemente por colágeno tipo I. Na cicatrização inicial, forma se tecido desorganizado, com características diferentes do tendão original. Com o passar do tempo, ocorre maturação e reorganização parcial das fibras, mas a estrutura nunca retorna completamente à condição original.
A repetição de lesões durante esse período pode produzir tecido cicatricial inadequado, fibras entrelaçadas e redução permanente da resistência.
Quando liberar o ligamento check
Quando a tendinite profunda não responde adequadamente ao tratamento, uma opção é a liberação do ligamento acessório do tendão flexor digital profundo, também conhecido como ligamento check. O procedimento reduz a tensão sobre o tendão e transfere parte da carga para o músculo e para outras estruturas.
A indicação deve ser criteriosa, baseada no exame clínico e na ultrassonografia, pois a liberação do ligamento check não constitui tratamento universal para todas as tendinites.
Splitting para lesões crônicas
O splitting tendíneo é uma técnica de reestimulação para lesões crônicas com cicatrização inadequada e fibrose. O procedimento visa reagudizar o processo inflamatório: uma lâmina ou agulha é introduzida na área lesionada para produzir perfurações controladas, sem secção completa do tendão. As perfurações são realizadas na área da lesão tendínea e podem ser guiadas por ultrassonografia.
O objetivo é romper parte das fibras desorganizadas, produzir nova inflamação e sangramento e reiniciar o processo de cicatrização. Em uma área de aproximadamente 5 cm, podem ser realizadas dez perfurações. Como seu resultado é controverso, o splitting deve ser reservado a casos selecionados.
Delimitação e associação terapêutica
O splitting pode ser realizado com o animal em estação (em pé), sob anestesia local e sedação, com controle ultrassonográfico quando disponível. A área tratada deve corresponder ao local exato da lesão; não se deve lesionar tecido saudável. Essa delimitação considera a localização da lesão no tendão flexor superficial ou profundo, identificada ao ultrassom.
Em tendinites muito crônicas, o procedimento pode ser associado ao PRP ou a outras modalidades regenerativas. Nas lesões tendíneas crônicas, a associação do splitting de tendão com a aplicação posterior de PRP é indicada para reativar o estímulo cicatricial. A escolha depende da extensão da fibrose, do alinhamento das fibras, da localização da lesão e do objetivo funcional do animal.
Constrição do ligamento anular
Anatomia e mecanismo da constrição
Na região do boleto, os dois ossos sesamoides triangulares delimitam uma canaleta por onde passam os tendões flexores. O ligamento anular palmar ou plantar funciona como uma faixa de contenção, mantendo e sustentando esses tendões.
Lesões tendíneas provocam edema e inflamação, que se estendem ao ligamento por contato direto entre essas estruturas anatômicas. O edema e a resposta inflamatória decorrentes da lesão das fibras tendíneas provocam a constrição do ligamento anular. A bainha tendínea, que contém líquido sinovial, pode acumular volume proximalmente ao ligamento. A constrição do ligamento anular é comum em equinos e, na região do boleto, é frequentemente tratada cirurgicamente; essa alteração compromete a regressão da lesão e do edema tendíneo.
Espessura e decisão terapêutica
A espessura ultrassonográfica do ligamento anular ajuda a orientar a decisão terapêutica.
- Espessura normal: A espessura ultrassonográfica normal do ligamento anular em equinos varia de 0,1 mm até o máximo de 0,2 mm.
- Possibilidade de tratamento clínico: Espessuras de até 4 mm podem indicar possibilidade de tratamento clínico.
- Fibrose irreversível ao tratamento clínico: Quando ultrapassa 0,4 mm, atingindo 0,5 mm ou mais, há fibrose irreversível ao tratamento clínico com corticoides, gelo ou anti inflamatórios.
Abordagens cirúrgicas e recuperação
No espessamento fibroso crônico do ligamento anular, o seccionamento cirúrgico torna se a indicação de tratamento. A pele dos equinos na região distal dos membros apresenta elevada tensão mecânica; por isso, a desmotomia anular por via aberta apresenta complicações pós operatórias frequentes, como deiscência de sutura cutânea, longa recuperação e formação severa de aderências.
A desmotomia anular por técnica minimamente invasiva é simples, de baixo custo e pode ser realizada com o animal em estação quando o cavalo é manso.
Como a constrição comprime o tendão
Quando um tendão sofre lesão, necessita aumentar de volume durante a inflamação e a cicatrização. Se o ligamento anular também estiver espessado ou rígido, o espaço disponível torna se insuficiente para acomodar esse aumento; o tendão inflamado fica comprimido. Essa necessidade, combinada ao espessamento do ligamento anular, pode produzir constrição secundária e comprometer a regressão do edema.
Além da constrição secundária, também pode existir lesão primária isolada do ligamento anular. Nesse caso, ele aumenta de espessura e passa a comprimir a bainha tendínea; o ligamento anular pode agravar a dificuldade de deslizamento.
Medindo o espessamento anular
A ultrassonografia permite medir a espessura do ligamento anular e avaliar a presença de edema, líquido, aderências e tendinite associada. Valores de aproximadamente 0,1 a 0,2 cm são compatíveis com a espessura habitual, enquanto medidas superiores a 0,4 cm indicam espessamento importante.
Quando o ligamento ultrapassa aproximadamente 0,4 a 0,5 cm, pode não retornar espontaneamente à espessura normal, pois já ocorreu fibrose.
Critérios para descompressão cirúrgica
A decisão depende da evolução da lesão, da persistência da constrição e da presença de tendinite associada.
- Tratamento inicial: Lesões iniciais podem ser tratadas com repouso, controle da inflamação, crioterapia e acompanhamento.
- Exercício na inflamação: O exercício durante a fase inflamatória mantém a agressão tecidual e favorece a cronificação.
- Indicação de desmotomia: Quando o ligamento anular permanece espessado e comprime a bainha, a indicação é a desmotomia do ligamento anular.
- Descompressão cirúrgica: A cirurgia para descompressão da constrição anular consiste no seccionamento (desmotomia) do ligamento anular.
- Tendinite concomitante: Se houver tendinite concomitante, devem ser tratados tanto a constrição quanto a lesão tendínea.
- Abertura cirúrgica em equinos: Em equinos, quando o ligamento anular espessado não cicatriza adequadamente ou está associado a tendinite extensa, é necessária a abertura cirúrgica.
- Dor por compressão: Quando a tendinite já cicatrizou e a dor decorre principalmente da compressão, a abertura do ligamento pode ser suficiente.
Três caminhos para desmotomia
A desmotomia do ligamento anular pode ser realizada por três técnicas principais, com diferenças na extensão do acesso, na visualização e nos riscos associados.
| Técnica | Como é realizada | Vantagens e limitações |
|---|---|---|
| Técnica aberta | Expõe diretamente o ligamento e realiza sua secção. | Pode produzir maior trauma, aderências e edema. |
| Técnica minimamente invasiva | Utiliza uma pequena incisão proximal, a criação de um túnel entre a pele e o ligamento e a secção guiada por palpação com tesoura ou tenótomo. | Tem menor incisão e menor risco de abertura da pele; a visualização é limitada e existe risco de lesão inadvertida do tendão. |
| Total | Existem três técnicas principais. | A escolha deve considerar as características de cada abordagem. |
Visualização endoscópica das aderências
O tenótomo possui uma extremidade cortante que pode ser orientada após a introdução no espaço adequado. Na técnica endoscópica, realiza se uma pequena incisão para a lâmina e introduz se uma ótica pela bainha, permitindo visualizar o ligamento, os tendões e eventuais aderências.
Essa visualização direta aumenta a precisão e permite a liberação de aderências. Em comparação com a técnica aberta, a abordagem tende a reduzir o edema e o trauma cirúrgico. Em animais de maior valor financeiro ou sentimental, pode ser preferida quando disponível.
Movimento reduz aderências pós operatórias
Após a desmotomia, o cuidado central é combinar movimento orientado e vigilância das possíveis complicações.
- Etapa: Evite a imobilização prolongada: o cavalo não deve permanecer imóvel por período prolongado após a desmotomia.
- Etapa: Movimente o animal: O movimento favorece o deslizamento do tendão e reduz a formação de aderências.
- Etapa: Ajuste a rotina: o animal pode caminhar ou permanecer solto conforme a indicação, com controle rigoroso quando existe tendinite associada.
- Etapa: Observe a recuperação: A recuperação costuma ser rápida, com redução da dor poucos dias após o procedimento.
- Etapa: Redobre a atenção no membro posterior: No membro posterior, a técnica pode ser mais difícil devido ao risco de lesão de estruturas adjacentes.
Rupturas dos tendões flexores e do ligamento suspensório
Traumas que rompem tendões
Em equinos, o trauma mecânico é uma das principais causas de ruptura tendínea. As rupturas tendíneas podem decorrer de trauma direto, como enroscar o membro em cerca, sofrer corte por arame, lâmina de arado ou material de baia, ou receber impacto de ferradura. Animais mantidos em instalações inadequadas podem prender o membro e puxá lo com força.
Pancadas da ferradura do casco por trás ou pisadas em buracos podem aumentar o rebaixamento do boleto em equinos. A gravidade varia conforme a estrutura atingida e o grau de ruptura.
Boleto rebaixado no flexor superficial
Na ruptura do tendão flexor digital superficial, o boleto tende a descer mais do que o normal durante o apoio. A conformação do casco não se altera necessariamente, por isso a observação do boleto durante a marcha fornece uma informação inicial sobre a estrutura envolvida.
Em rupturas parciais, o animal ainda pode apoiar o membro, embora a dor possa aumentar progressivamente.
Pinça elevada denuncia lesão profunda
Quando o tendão flexor digital profundo se rompe, ocorre descenso do boleto associado à elevação da pinça. O cavalo pode caminhar apoiando a região inferior do casco e levantando a pinça a cada passo; a elevação persistente da pinça durante a marcha é fortemente sugestiva de ruptura do tendão profundo.
Quando observada durante a marcha do equino, a elevação da pinça do casco é um sinal indicativo definitivo de ruptura do tendão flexor digital profundo. A intensidade da dor pode impedir o apoio, especialmente quando não houve analgesia prévia.
Perda do aparato suspensor
A sustentação do peso no membro locomotor do equino é realizada pelos tendões flexores e pelo ligamento suspensor do boleto. Quando o ligamento suspensório do boleto também se rompe, perde se grande parte desse aparato, e o boleto pode aproximar se ou tocar o solo.
A ruptura simultânea do tendão flexor digital superficial, tendão flexor digital profundo e ligamento suspensor resulta na perda total do aparato de sustentação e no toque do boleto no solo. A observação do animal ao desembarcar de um caminhão pode indicar quais estruturas estão comprometidas, embora o diagnóstico definitivo dependa do exame físico e da ultrassonografia.
Tendões armazenam energia da corrida
Durante o movimento em velocidade nos equinos, quanto maior a velocidade e o peso do animal, maior é o rebaixamento do boleto em direção ao solo. A energia cinética é armazenada nos tendões e posteriormente devolvida como em um arco ou elástico, impulsionando o membro para a frente.
Um cavalo de aproximadamente 500 kg pode exercer cargas muito superiores ao próprio peso sobre as estruturas distais, chegando a valores próximos de 2.000 kg em determinadas situações. Embora os tendões sejam altamente resistentes, a tensão extrema os torna vulneráveis a cortes, impactos e interferências durante a alta velocidade. Quando o equino está em alta velocidade e com os tendões sob máxima tensão, um leve impacto mecânico externo ou corte pode ocasionar a ruptura completa dos dois tendões flexores.
Interferências favorecidas pelo ferrageamento
Alterações no casqueamento e no ferrageamento podem modificar o padrão de movimento e favorecer interferências entre os membros. Durante a corrida, um membro posterior pode tocar a pinça do membro anterior.
Buracos no solo também podem provocar apoio inadequado e aumento súbito da descida do boleto. Essas situações podem gerar ruptura tendínea mesmo sem trauma externo evidente.
Imobilize antes do transporte
Imobilize o membro antes do transporte. Um cavalo solto dentro do caminhão pode cair ou apoiar o membro lesionado, agravando uma ruptura parcial ou transformando a em completa.
Estabilização para deslocar o equino
A imobilização deve proteger as estruturas rompidas e manter o membro estável durante o deslocamento, com a técnica ajustada às condições encontradas.
- Etapa: Escolha o material disponível, como gesso, PVC, madeira ou outros materiais, garantindo que o membro seja protegido e estabilizado adequadamente.
- Etapa: Adapte o suporte à presença de ferida; o PVC pode ser incorporado ao gesso ou utilizado como suporte em curativos que permitam acesso a feridas abertas.
- Etapa: Molde a imobilização; o gesso sintético (Scotchcast) pode ser aplicado sobre o curativo para confeccionar uma forma moldada no tamanho exato do membro do equino.
- Etapa: Impeça que o boleto desça excessivamente e proteja as estruturas rompidas durante o deslocamento.
- Etapa: Em casos de ruptura isolada do tendão flexor digital superficial em equinos, considere repouso e imobilização.
- Etapa: Ajuste a técnica à presença de ferida, ao grau de instabilidade e ao material disponível.
Janela para sutura de feridas
Em feridas tendíneas em equinos com mais de 10 horas de evolução, a contaminação costuma ser alta, contraindicando a cirurgia pelo alto risco de deiscência. Em lesões muito recentes, especialmente quando o animal possui valor esportivo e a ferida pode ser adequadamente higienizada, pode ser considerada a sutura dos tendões. A sutura de lesões tendíneas em equinos apresenta melhores resultados quando realizada no estágio bem agudo do trauma. A sutura isolada não suporta o peso corporal durante o apoio; portanto, deve ser acompanhada de imobilização com gesso. Feridas extensas ou contaminadas exigem avaliação individualizada.
Rupturas dos tendões extensores
Extensores falham no avanço do casco
Os tendões extensores são mais finos e menos protegidos, por isso sofrem lesões com facilidade após cortes e traumas. Na região anterior do membro pélvico equino, localizam se o tendão extensor digital comum e o tendão extensor digital lateral. Por apresentarem menor espessura e ausência de estruturas de proteção, a ruptura de tendões extensores é mais comum em equinos do que a ruptura total dos flexores.
Eles não são os principais responsáveis pela sustentação do peso. Assim, quando ocorre ruptura do extensor digital, o cavalo geralmente consegue permanecer em estação, mas perde a capacidade de posicionar adequadamente o casco durante o avanço do membro. O principal sinal clínico da ruptura de extensor em equinos é a perda da capacidade de estender o membro afetado. O casco pode tocar o solo anteriormente ao boleto, como se o animal tropeçasse.
A ruptura do músculo extensor raramente é indicada para cirurgia.
Proteja o boleto do impacto
Na ruptura dos extensores, o cuidado mais importante é proteger a região dorsal do boleto e impedir que ela colida com o solo. Uma ferida nessa área pode envolver a cápsula articular, portanto a proteção local é uma prioridade.
As lesões por ruptura do músculo extensor normalmente se apresentam muito contaminadas. Podem ser utilizados curativos, talas e dispositivos que mantenham o casco em posição adequada durante o avanço. Como os tendões flexores e o ligamento suspensório continuam sustentando o peso, o prognóstico funcional costuma ser melhor do que nas rupturas dos tendões flexores.
Extensão anterior reposiciona o casco
Ferraduras ortopédicas com uma extensão anterior podem auxiliar o posicionamento do casco. Em alguns casos, acrescenta se um peso de aproximadamente 400 g, formando uma alavanca cujo pivô se localiza na região do boleto.
Quando o membro é projetado para a frente, o peso auxilia o casco a encontrar a posição adequada para o apoio. O animal deve permanecer em ambiente livre de obstáculos, pois a extensão pode enroscar em vegetação, cercas ou irregularidades do terreno.
Boa recuperação com tratamento conservador
O tratamento das feridas dos membros pode prolongar se por mais de 90 dias. A cicatrização depende do controle da contaminação, da proteção do membro e da manutenção de curativos adequados.
Nas rupturas dos tendões extensores em equinos, o tratamento conservador (não cirúrgico) é relativamente simples e apresenta bons resultados clínicos. A recuperação da ruptura de extensor com o tratamento clínico é excelente. A internação prolongada pode elevar consideravelmente os custos, sobretudo quando são necessários curativos frequentes e acompanhamento contínuo. Quando possível, o animal pode ser enviado para casa com instruções específicas, desde que o responsável tenha condições de realizar os cuidados.
Travamento patelar superior
Reconhecendo o travamento na marcha
A fixação dorsal da patela é uma condição clínica bastante comum em equinos e, na maioria das vezes, ocorre de forma intermitente.
Durante a marcha, o animal tende a arrastar o membro afetado. Por isso, um risco contínuo no chão produzido pelo membro arrastando levanta suspeita de travamento dorsal de patela.
Forma permanente e sua gravidade
O travamento dorsal de patela também pode ser permanente. Nessa forma, o membro acometido fica rígido, o animal não consegue flexioná lo e tende a permanecer parado, sem conseguir andar adequadamente.
Quando a patela finalmente se desengata, ocorre a puxada mais forte do membro para cima, e o animal volta a conseguir flexioná lo. Por ser mais urgente e grave, a forma permanente exige maior atenção clínica.
Travamento não é luxação
| Situação | Posição da patela | Características e implicações |
|---|---|---|
| Luxação de patela | A patela sai de sua posição anatômica. | Em grandes animais, é uma afecção muito rara. No bezerro, observa se postura abaixada, com os membros pélvicos flexionados. |
| Travamento patelar superior | A patela permanece no lugar, mas fica presa por um mecanismo ligamentar e fibrocartilaginoso. | O travamento patelar superior não corresponde à luxação da patela. A denominação antiga de “puxação de patela” é inadequada para esse quadro. Cães, gatos e seres humanos não apresentam travamento dorsal de patela. A distinção é importante para evitar indicações cirúrgicas incorretas. |
Três ligamentos e uma tróclea
A articulação do joelho do equino é constituída pelo fêmur, tíbia e patela. A patela articula se com a tróclea femoral, que apresenta uma crista mais elevada. O equino possui três ligamentos patelares: medial, intermédio e lateral. Em equinos, há três ligamentos patelares, enquanto pequenos animais possuem apenas um ligamento patelar. Quando o cavalo flexiona a pata, a patela desce na tróclea femoral; durante a movimentação, ela desliza subindo e descendo nessa tróclea.
Na região medial existe uma fibrocartilagem resistente, localizada junto ao ligamento patelar medial. Durante a extensão completa do membro, o ligamento pode prender se nessa estrutura, permitindo que o cavalo permaneça em estação com reduzido gasto muscular. Para efetuar o destravamento patelar, o sistema nervoso envia um comando que traciona a patela proximalmente para que ela deslize anteriormente antes da flexão do membro.
Aparelho recíproco sincroniza articulações
O aparato recíproco coordena os movimentos das articulações do membro pélvico. Esse sistema biomecânico, encarregado de sincronizar o movimento das articulações do membro pélvico dos equinos, é chamado de aparato recíproco. Por causa do aparato recíproco, o membro do cavalo flexiona por inteiro tanto ao levantar quanto ao abaixar a pata.
O cavalo não flexiona livremente o joelho enquanto estende o tarso, nem estende o joelho enquanto flexiona o tarso. Os movimentos ocorrem de maneira associada, como se duas articulações estivessem conectadas por cabos. Participam desse mecanismo o músculo gastrocnêmio, o músculo fibular terceiro e as articulações femorotibial e tibiotársica. O músculo gastrocnêmico e o músculo fibular terceiro são músculos anatomicamente muito fortes localizados na pata do cavalo.
Estação com baixo gasto energético
O mecanismo permite que o equino permaneça em pé por longos períodos com baixo gasto energético. Essa adaptação permite que a espécie descanse em estação, mantendo vigilância em ampla área de visão. Assim, o animal não precisa levantar se antes de iniciar o deslocamento, o que favorece a fuga diante de predadores.
Bovinos também utilizam mecanismos semelhantes para permanecer em estação por longos períodos. Em bovinos com travamento dorsal de patela, é possível locomover se projetando o membro lateralmente.
Fraqueza e conformação favorecem travamento
O travamento patelar pode resultar da combinação entre fraqueza muscular e conformação dos membros posteriores.
- Causas sistêmicas: O travamento pode ocorrer durante a convalescença de doenças debilitantes, como pneumonia, colite ou períodos prolongados de fraqueza, quando há perda significativa de massa muscular.
- Perda muscular: A fraqueza associada à perda significativa de massa muscular pode favorecer a alteração de travamento patelar.
- Conformação predisponente: Alterações conformacionais, especialmente membros posteriores muito retos, podem estar associadas ao travamento.
- Recuperação muscular: Em equinos debilitados com alteração de travamento patelar, a recuperação da massa muscular é realizada via suplementação alimentar.
- Falha de liberação: A falha na liberação patelar motivada por fraqueza muscular ou alteração conformacional mantém o membro posterior do cavalo em extensão rígida.
- Retorno funcional: A recuperação da massa muscular depende da melhora clínica, da alimentação e do retorno gradual ao condicionamento.
- Animais atléticos: Em animais atléticos sem perda muscular, deve se considerar principalmente a conformação.
Desmotomia medial para casos persistentes
Quando se deseja corrigir rapidamente o travamento persistente, a técnica indicada é a desmotomia do ligamento patelar medial. Em equinos, a fixação dorsal persistente da patela é corrigida pela desmotomia do ligamento patelar medial, que consiste na secção desse ligamento; após o procedimento, a patela deixa de sofrer travamento dorsal. Trata se de uma cirurgia simples, realizada por uma incisão de pequeno porte.
O procedimento pode ser realizado em estação, com sedação, anestesia local, tricotomia e ampla antissepsia. A secção deve atingir o ligamento correto, pois a secção do ligamento patelar intermédio ou de estruturas inadequadas pode comprometer o mecanismo de sustentação. Após a secção, forma se fibrose, que estabiliza a patela ao longo de aproximadamente quatro meses.
Repouso após desmotomia patelar
Após a secção do ligamento patelar medial, o animal deve permanecer em repouso por aproximadamente quatro meses. Ao seccionar o ligamento patelar medial, a patela perde o movimento normal de deslize vertical e passa a apresentar vibração. O ligamento patelar medial participa da estabilização da patela, enquanto os demais ligamentos patelares sofrem hipertrofia para reforçar a articulação, permitindo que o animal caminhe sem claudicação. Corrida, salto ou movimentos intensos precocemente podem fazer a patela vibrar excessivamente e provocar lesão da cartilagem; em casos graves, pode ser necessária artroscopia para remover fragmentos. A desmotomia é necessária em casos selecionados, não devendo ser realizada indiscriminadamente.
Ruptura do músculo fibular terceiro e do músculo gastrocnêmio
Fibular terceiro rompe a coordenação
A ruptura do músculo fibular terceiro interrompe a coordenação normal entre a flexão do joelho e a flexão do tarso. O animal pode flexionar o joelho, mas não consegue flexionar adequadamente o tarso; também pode estender uma articulação enquanto mantém a outra em posição incompatível.
O quadro pode parecer alarmante, mas, em muitos casos, o repouso em cocheira permite a formação de fibrose e a recuperação funcional.
Repouso orienta recuperação funcional
A recuperação funcional depende de controlar o movimento, reavaliar a evolução e ajustar o retorno às atividades conforme a extensão da lesão.
- Etapa: Mantenha o animal com ruptura do fibular terceiro impedido de caminhar livremente durante o período inicial.
- Etapa: Baseie o tratamento conservador em repouso, pois o movimento excessivo pode dificultar a cicatrização.
- Etapa: Reavalie a evolução após aproximadamente 30 dias.
- Etapa: Prolongue o período de repouso antes do retorno ao esporte; alguns animais podem recuperar a capacidade funcional para atividades leves ou esportivas, conforme a extensão da lesão.
- Etapa: Considere o prognóstico favorável da ruptura do músculo fibular terceiro em equinos quando manejada com tratamento conservador baseado em repouso.
Gastrocnêmio comprometido reduz sustentação
A ruptura do músculo gastrocnêmio é mais grave, especialmente em equinos adultos e pesados. A localização da lesão muda a possibilidade de reparação: na porção tendínea, a reconstrução cirúrgica pode ser realizada; no ventre muscular, a ruptura inviabiliza a reparação, tornando o prognóstico mais reservado.
Clinicamente, o animal pode tentar permanecer em estação e assumir postura semelhante à de um cão sentado, devido à incapacidade de sustentar o peso. Outro sinal indicativo é a capacidade de flexionar o tarso mantendo a articulação do joelho estendida. Em animais jovens ou de menor peso, pode haver possibilidade de tratamento cirúrgico, mas o prognóstico é reservado.
Arpejo e hiperflexão do membro
Hiperflexão posterior durante a marcha
O arpejo é uma alteração neurológica caracterizada por hiperflexão exagerada do membro durante a marcha. O animal permanece relativamente normal em estação, mas, ao caminhar, flexiona o membro de maneira excessiva e perde a modulação fina do movimento. Essa afecção resulta da perda do controle e da modulação fina do movimento dos membros.
Durante a locomoção, a exacerbação dos estímulos nervosos provoca a hiperflexão involuntária do membro pélvico. O arpejo afeta os membros pélvicos (posteriores) e pode variar de discreto a muito intenso, com elevação marcada do membro; quando acentuado, o boleto pode tocar o abdômen. Na literatura veterinária internacional, o arpejo equino é denominado Stringhalt.
Nervo fibular e causas tóxicas
O arpejo está associado à desmielinização do nervo fibular, com alteração da condução elétrica. A causa pode ser tóxica ou idiopática; portanto, a investigação deve considerar tanto a exposição ambiental quanto a ausência de uma causa identificável.
Uma das etiopatogenias é a intoxicação por plantas tóxicas do gênero Hypochaeris. Na forma tóxica, pode haver ingestão dessas plantas, descritas em regiões da Austrália e também no Brasil, especialmente no Sul. A identificação da planta no pasto ou no feno auxilia a investigação. Em situações de surto, a retirada dos animais da área contaminada pode ser seguida de melhora.
Toxinas persistem no feno
Alerta: os alcaloides presentes em plantas tóxicas como o Senecio resistem ao processo de fenação e mantêm a sua toxicidade no feno. O princípio tóxico responsável pela intoxicação por plantas do gênero Senecio é o alcaloide pirrolizidínico. A intoxicação continuada por plantas do gênero Senecio provoca hepatopatia grave e cirrose hepática em equinos.
Quando o arpejo é idiopático
- Forma idiopática: Quando não se identifica uma causa tóxica ou estrutural, o quadro é classificado como idiopático; isso significa que a causa permanece desconhecida, e não que o problema não exista.
- Etiologia não tóxica: Quando a etiologia do arpejo equino não está associada à ingestão de plantas tóxicas, a afecção é classificada como idiopática.
- Desmielinização: Estudos post mortem podem demonstrar desmielinização do nervo fibular.
- Biópsia do nervo fibular: a biópsia desse nervo não é realizada rotineiramente em animais vivos, pois sua remoção provocaria déficit neurológico grave.
- Investigação: A avaliação deve incluir o pasto, o feno e possíveis plantas tóxicas.
Tenectomia para arpejo selecionado
A tenectomia do extensor digital lateral segue uma sequência cirúrgica e de readaptação que conecta a indicação do procedimento à recuperação do movimento.
- Etapa: Em equinos, a tenectomia do tendão extensor digital lateral é o tratamento cirúrgico indicado para corrigir os sinais clínicos do arpejo, em casos selecionados.
- Etapa: A tenotomia simples do tendão extensor digital lateral é ineficaz para a cura do arpejo, pois a regeneração do tendão ocasiona a recidiva do problema.
- Etapa: A tenectomia do tendão extensor digital lateral pode ser executada com o cavalo em estação, sob sedação e anestesia local.
- Etapa: O tendão é abordado por incisões acima e abaixo do jarrete, seccionado e removido por tração, deslizando através da bainha.
- Etapa: A melhora pode ocorrer imediatamente após o procedimento, mas a recuperação completa pode levar até um mês.
- Etapa: O animal deve ser encaminhado para casa e conduzido ao passo, permitindo a readaptação gradual do movimento.
- Etapa: A técnica geralmente é bilateral, pois a ocorrência unilateral é incomum.
Shivering
Shivering aparece ao recuar
O shivering é uma afecção de origem neurológica central, distinta do arpejo. O sinal mais discriminativo aparece quando o cavalo precisa recuar: os equinos acometidos apresentam incapacidade de recuar (andar para trás), flexionando ou elevando o membro e ficando empacados. O animal não deixa de recuar por falta de vontade, mas por incapacidade de controlar adequadamente o movimento.
Essa manifestação ocorre com o cavalo parado, apresentando uma reação semelhante a pisar sobre uma superfície aquecida. Ao caminhar para a frente, entretanto, pode apresentar marcha aparentemente normal, o que ajuda a distinguir o padrão do shivering de outras alterações locomotoras.
Impacto esportivo depende do recuo
Na maioria dos cavalos de salto ou de corrida, o shivering não impede a execução normal da atividade esportiva quando o animal corre ou salta; a principal dificuldade ocorre na parada e no recuo. Em modalidades como provas de freio de ouro, nas quais o recuo é relevante, a alteração pode comprometer a utilização esportiva. A cirurgia não apresenta benefício previsível e pode gerar custo sem resultado funcional correspondente; especificamente, a tenectomia não apresenta eficácia para corrigir ou tratar o shivering em equinos.
Miopatia fibrótica
Fibrose e músculos acometidos
A miopatia fibrótica é uma afecção muscular crônica em que a musculatura da região posterior da coxa é substituída por tecido fibroso. Os músculos semitendíneo e semimembranoso estão entre os principais acometidos.
Essa substituição altera o volume muscular e encurta o ventre afetado. Assim, a miopatia fibrótica se diferencia da miosite, que se restringe ao processo inflamatório.
Gravidade, imagem e dor
Nos casos graves, a fibrose pode evoluir com calcificação do tecido muscular, configurando uma miopatia ossificante. Na ultrassonografia, a área calcificada apresenta margens bem definidas e sombra acústica posterior.
A claudicação manifesta dor; por isso, não se deve usar anti inflamatórios para manter o equino em treinamento sem o período adequado de repouso.
Opções e limites cirúrgicos
A tenotomia ou cirurgia de liberação do músculo semimembranoso pode ser uma opção operatória para afecção tendínea. Quando a cirurgia de liberação não é viável, recomenda se a ressecção do músculo fibrosado.
Esse procedimento é considerado mutilatório, tem caráter paliativo, resultado estético insatisfatório e cicatrização demorada. Portanto, seus limites devem ser considerados na decisão terapêutica.
Segurança nas injeções
Para injeções intramusculares em equinos, prefira as regiões do glúteo, peito e pescoço e evite a região posterior da coxa. Não reutilize agulhas e seringas: isso pode causar abscesso e gerar custos com antibióticos muito superiores ao valor das agulhas descartáveis. Na administração de medicamentos injetáveis, use uma agulha para aspirar a solução e outra para realizar a aplicação.
Fibrose puxa o membro para trás
O músculo normal possui elasticidade e alonga se durante o avanço do membro. Diferente do tecido ósseo, que se regenera completamente após uma lesão, o tecido muscular lesionado cicatriza invariavelmente com formação de fibrose. Quando é substituído por tecido fibroso, perde essa capacidade e comporta se como uma corda rígida; ao estirar, o tecido fibroso puxa o membro de volta de maneira brusca. Durante o avanço da marcha no equino com miopatia fibrótica, a falta de elasticidade do tecido fibroso puxa a pata abruptamente para trás antes do toque no solo. A intensidade varia desde alterações discretas, identificáveis apenas em filmagens em câmera lenta, até quadros graves com retorno abrupto e evidente do membro.
Ultrassom revela músculo mineralizado
A inspeção pode demonstrar assimetria entre os músculos da coxa. Na ultrassonografia, o tecido fibroso apresenta menor volume e maior densidade em comparação ao músculo normal, revelando a substituição muscular por tecido fibroso. O exame também pode identificar pontos de mineralização; quando existe calcificação, observa se uma área hiperecogênica com sombra acústica posterior, pois o feixe ultrassonográfico não atravessa adequadamente a estrutura mineralizada.
Injeções e sobrecarga causam fibrose
- Causa principal: A aplicação intramuscular inadequada, especialmente em regiões não recomendadas da coxa, é a principal causa.
- Complicações das injeções: Produtos oleosos, medicamentos irritantes, contaminação da agulha ou reação local podem produzir abscesso e fibrose cicatricial.
- Treinamento excessivo: A repetição de lesões musculares durante treinamento excessivo é outra causa.
- Miosites: Miosites não tratadas também podem cicatrizar com fibrose.
- Rupturas musculares: Rupturas musculares agudas também podem cicatrizar com fibrose.
- Fase aguda: Na fase aguda de uma lesão muscular, o músculo pode apresentar aumento de volume por inchaço.
- Acessos cirúrgicos: Os acessos cirúrgicos devem respeitar os planos entre os músculos, evitando a secção direta da musculatura.
Overtraining versus overstress muscular
No esporte equino, há duas situações principais de lesão relacionadas ao treinamento: o overtraining, caracterizado pelo acúmulo diário de pequenas lesões decorrentes do excesso de treinamento, e o overstress. O overtraining corresponde ao excesso repetido de treinamento, com pequenas lesões que ocorrem diariamente e não têm tempo de recuperação.
Em equinos, o overstress ocorre quando um animal treinado sofre um acidente ou realiza um movimento atípico, fora do padrão fisiológico, durante a atividade. Em ambos os casos, administrar anti inflamatórios para mascarar a dor e manter o treinamento favorece a progressão da lesão. A dor deve ser interpretada como sinal de que o tecido necessita de repouso ou de redução da carga.
Cirurgia tem benefício limitado
Em casos específicos, pode se liberar uma musculatura acometida ou remover tecido fibroso. Quando apenas uma porção muscular está envolvida, a cirurgia pode apresentar algum benefício; quando vários músculos são comprometidos, o resultado é menos favorável.
A retirada de um músculo produz deformidade, recuperação prolongada e melhora principalmente para atividades leves. O resultado esportivo costuma ser limitado. Por isso, a prevenção, especialmente evitando injeções na região caudal da coxa, é mais eficaz do que o tratamento das lesões estabelecidas.
Segurança, prevenção e decisão terapêutica
Procedimentos simples também trazem risco
Qualquer intervenção corporal pode produzir complicações. Em equinos, a cirurgia de garganta apresenta risco cirúrgico elevado e não deve ser considerada um procedimento simples. Mesmo uma injeção pode causar abscesso, fibrose, lesão vascular, infecção grave ou até morte; por isso, use uma agulha estéril, higienize corretamente o local e não reutilize materiais de forma inadequada. O baixo custo de uma nova seringa ou agulha é muito inferior ao custo do tratamento de uma infecção ou da perda do animal.
Contexto define a conduta terapêutica
A conduta terapêutica deve ser escolhida a partir de uma avaliação global do paciente e do seu contexto.
- Avaliação global: A decisão terapêutica deve considerar a lesão, o estado geral, o valor financeiro ou sentimental, a finalidade do animal, a capacidade de acompanhamento e os recursos disponíveis.
- Contexto clínico: O mesmo diagnóstico pode exigir tratamentos diferentes conforme o contexto.
- Integração: A avaliação não deve ser fragmentada: o veterinário precisa integrar a estrutura lesionada, o membro, o aparelho locomotor, o ambiente, o treinamento e as condições do responsável.
Dicas Para Provas
Dicas Para Provas
| Dicas Para Provas |
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| Nenhuma técnica de sutura tendínea isolada é capaz de suportar o peso do equino, sendo indispensável a aplicação de gesso para imobilização após o procedimento cirúrgico. |
Reflexão Sion
Cuidar do que ainda cicatriza
Nos tendões equinos, a melhora da dor não significa que as fibras já recuperaram seu alinhamento e resistência; por isso, o retorno precisa ser lento, controlado e acompanhado por ultrassonografias. Assim como a cicatrização exige tempo e cuidado para não transformar uma lesão em recaída, nossa vida também não se restaura apenas mascarando a dor: precisamos reconhecer a fragilidade e aceitar o cuidado. Em Jesus, há esperança para quem se aproxima com verdade, porque ele não despreza nossas feridas e nos conduz a uma restauração paciente e real.
Só ele cura os de coração quebrantado e cuida das suas feridas.Salmos 147:3
Reflita sobre o perigo de confundir alívio com restauração.