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MedVet7 PeríodoCirurgia de Grandes AnimaisDeformidades Angulares

Deformidades Angulares em Grandes Animais

A atuação em grandes animais reúne diferentes setores e conecta decisões sanitárias, produtivas e de bem estar.

Duracao: 27 min

Topicos da aula

  • Deformidades Angulares

Overview

Mapa da atuação e decisão cirúrgica

A medicina veterinária de grandes animais articula atuação sanitária, reprodutiva, clínica, cirúrgica, industrial e de bem estar às exigências do rebanho, do paciente e do proprietário. Na cirurgia, o raciocínio começa pela avaliação global: a mesma alteração pode exigir condutas diferentes conforme a idade, o grau do desvio, a finalidade econômica ou esportiva e as condições de manejo. As deformidades angulares exemplificam essa decisão, exigindo reconhecer varo e valgo, investigar a causa e acompanhar o crescimento por exame físico e radiografia. O tratamento pode ser conservador, com coaptação externa e repouso, ou cirúrgico, com técnicas escolhidas pela janela etária e gravidade. Em todo procedimento, a analgesia preventiva e o acompanhamento são essenciais.

Contexto da Medicina Veterinária de Grandes Animais

Onde atua a medicina de grandes animais

A atuação em grandes animais reúne diferentes setores e conecta decisões sanitárias, produtivas e de bem estar.

  • Amplitude profissional: A medicina veterinária de grandes animais abrange setores governamentais, sanitários, reprodutivos, clínicos, cirúrgicos, industriais e de bem estar.
  • Atuação sanitária: Envolve órgãos do Ministério da Agricultura, Secretarias de Agricultura e administrações municipais, além de serviços de inspeção realizados por profissionais públicos ou contratados por empresas.
  • Anvisa: A Anvisa é responsável por inspecionar apenas medicamentos de uso humano.
  • Relevância econômica: Relaciona se principalmente à produção e à exportação de carne e leite, bem como ao controle de enfermidades que comprometem a segurança dos produtos de origem animal.
  • Medicina veterinária de rebanho: A realização de necropsia em alguns indivíduos permite fechar o diagnóstico e salvar o restante do rebanho.
  • Febre aftosa: A ocorrência de febre aftosa compromete a sanidade e a aceitação comercial da carne de grandes animais.
  • Brucelose: A brucelose compromete a sanidade na cadeia de produção de leite em grandes animais.

Reprodução e valor dos pacientes

A reprodução é um segmento importante da medicina veterinária de grandes animais, com fertilização in vitro, transferência de embriões e outras tecnologias reprodutivas. Problemas no sistema reprodutivo de grandes animais demandam a realização de procedimentos cirúrgicos reprodutivos.

Profissionais qualificados nessa área tendem a apresentar elevada remuneração, porque o paciente pode ter alto valor reprodutivo. Uma égua avaliada em 300 mil reais pode gerar potros comercializados por 200 mil, 250 mil ou 300 mil reais, enquanto doses ou palhetas de sêmen podem ser vendidas por aproximadamente 10 mil reais. Por isso, o proprietário frequentemente aceita custos elevados de coleta, congelamento e preservação do sêmen.

Clínica, cirurgia e gestão especializada

A área clínico cirúrgica envolve bovinos, pequenos ruminantes e equinos. O mercado de pequenos ruminantes pode ser economicamente relevante em determinadas regiões, enquanto o mercado equino se associa a atividades culturais, esportivas e recreativas. A clínica de grandes animais exige avaliação do paciente e da propriedade, incluindo pastagem, plantas tóxicas, manejo e fatores ambientais.

Na avaliação da propriedade, a pastagem deve ter altura suficiente para cobrir a canela do animal. A indústria acrescenta funções de gestão e consultoria, e o conhecimento especializado constitui um serviço profissional que deve ser adequadamente remunerado. Os médicos veterinários em aras costumam realizar cirurgias de menor complexidade.

Princípios da Cirurgia de Grandes Animais

Contexto orienta a indicação cirúrgica

A formação cirúrgica exige compreender o contexto completo do animal, da propriedade, do proprietário e da finalidade econômica ou esportiva do paciente. Em equinos, a indicação de cirurgia e tratamento depende do contexto, da nutrição e do esporte do animal. Assim, dois cavalos com alterações semelhantes podem receber indicações diferentes conforme o valor reprodutivo, a atividade esportiva, o manejo e a possibilidade de retorno funcional.

O cirurgião deve determinar quando operar e quando não operar, pois a mesma intervenção pode ser adequada para um paciente e desnecessária ou prejudicial para outro. Alguns problemas de saúde em um cavalo de reprodução não necessitam de intervenção cirúrgica. Em suínos mantidos em sistemas de produção comercial, procedimentos cirúrgicos raramente são realizados devido ao baixo valor econômico individual.

Peso locomotor e prioridades

A prioridade da disciplina acompanha o peso econômico das afecções locomotoras.

  • Peso na disciplina: 50% do conteúdo de cirurgia é referente ao sistema locomotor.
  • Prejuízo em bovinos: Entre bovinos, essas afecções constituem a terceira causa de maior prejuízo econômico. Os problemas de casco são os principais responsáveis por esses prejuízos dentro do sistema locomotor.
  • Ordem nos ruminantes: Nos ruminantes, a ordem pode variar; os problemas digestivos constituem possivelmente a primeira causa de acometimento, enquanto as afecções locomotoras figuram como a segunda ou terceira causa.

Rotina locomotora nos equinos

Nos equinos, as afecções do sistema locomotor são a principal causa de atendimentos e prejuízos. Essa centralidade acompanha a alta exigência do sistema locomotor nas funções de montaria, tração e esporte: em atendimentos de rotina, há 50% de probabilidade de a queixa ser uma manqueira.

Na sequência, as afecções digestivas representam a segunda causa mais frequente de acometimento, e as afecções respiratórias, a terceira. Já a incidência de cólica entre diferentes propriedades rurais está associada a fatores de manejo.

Ausculta e exames respiratórios iniciais

Na avaliação inicial do sistema respiratório em grandes animais, a abordagem clínica consiste em ausculta e palpação. Depois, os exames complementares indicados são a endoscopia e a ultrassonografia de tórax.

Definição e Classificação das Deformidades Angulares

Conceito e origem do desvio

Deformidades angulares são enfermidades ortopédicas do desenvolvimento, observadas principalmente em neonatos e animais jovens. Elas correspondem a desvios do eixo longitudinal dos membros; quando o animal é visto de frente ou de trás, os membros acometidos não parecem retos.

Esse desvio normalmente se origina ao redor de uma articulação, pode afetar um ou ambos os membros e, em termos gerais, direciona o membro para fora ou para dentro. Assim, o acometimento pode ser unilateral ou bilateral.

Varo, valgo e distribuição

A leitura começa pela direção do desvio: o desvio angular do membro direcionado para fora é denominado varo. No desvio valgo, ocorre uma convexidade voltada para o lado interno, e o desvio angular valgo é caracterizado pelo direcionamento do membro para dentro. O desvio valgo com o joelho voltado para dentro é o tipo de deformidade angular mais comum.

Na distribuição, as deformidades angulares costumam ser bilaterais, embora possam acometer apenas um membro. As deformidades angulares também podem ocorrer em cães e gatos. Em animais considerados presas, como equinos, bovinos e cervídeos, articulações mais bem formadas ao nascimento favorecem a fuga de predadores.

Carpo, tarso e boleto acometidos

  • Carpo: O carpo é a articulação mais frequentemente acometida e representa aproximadamente 80% das deformidades angulares observadas. Em equinos, o carpo é a articulação mais comumente afetada, e oitenta por cento das deformidades angulares ocorrem nessa região.
  • Membro torácico: Pequenos desvios no membro torácico chamam mais atenção do que alterações semelhantes nos membros pélvicos.
  • Tarso e boleto: Também podem ocorrer deformidades no tarso e na articulação metacarpofalângica, denominada boleto.
  • Complexidade do tarso: Os desvios angulares de tarso apresentam mecânica e forças atuantes mais complexas do que os de carpo.
  • Avaliação: A avaliação deve considerar a simetria do membro, a direção da convexidade e da concavidade e a relação entre os segmentos ósseos.

Origens congênita e adquirida

As deformidades angulares podem ser de origem congênita ou adquirida. A distinção começa pelo momento em que a alteração aparece, mas a origem genética não deve ser presumida automaticamente.

OrigemDefiniçãoPontos de atenção
CongênitaO animal nasceu com a alteração.Congênita significa que o animal nasceu com a alteração, mas não implica necessariamente origem genética. Podem existir fatores hereditários, como a ocorrência repetida de determinado desvio entre os descendentes de um garanhão, porém essa relação não pode ser presumida em todos os casos.
AdquiridaA deformidade surge após o nascimento, em um animal inicialmente normal.Pode ocorrer em consequência de fatores traumáticos, mecânicos, ligamentares, metabólicos ou relacionados ao manejo.

Consequências Clínicas e Econômicas

Desvio angular e sobrecarga ortopédica

As deformidades angulares podem comprometer a saúde do animal, a locomoção e o valor comercial. O desvio pode dificultar a venda ou reduzir o preço obtido pelo proprietário, mostrando que a repercussão não é apenas ortopédica, mas também econômica.

Do ponto de vista ortopédico, a distribuição assimétrica das forças aumenta a carga sobre determinadas estruturas. Esse desequilíbrio pode predispor a microfraturas fisárias e fraturas fisárias, fechamento precoce da linha de crescimento, rotação do membro, alterações articulares e interferências durante a locomoção.

Quando um músculo não é exercitado, ele fica fraco. Além disso, a concentração de forças compressivas resultantes dos desvios angulares pode provocar fraturas nos ossos do carpo. O desvio inicial em uma articulação pode alterar a distribuição de forças e entortar articulações adjacentes.

Interferência e risco locomotor

Interferência ocorre quando um membro atinge o outro durante o movimento. A conformação desviada modifica a trajetória da passada e pode produzir o movimento denominado remada. No desvio valgo, a remada do membro ocorre para dentro, propiciando o impacto entre os membros.

Em velocidade ou galope, a interferência pode causar contusões, ferimentos, fraturas dos ossos acessórios, lesões na ferradura ou no casco e cortes da pele. Um casco com desvio pode atuar como lâmina durante a passada, provocando lacerações na pele do membro oposto.

A correção precoce é desejável porque reduz o risco de agravamento e melhora a possibilidade de preservação funcional do membro. As deformidades angulares devem ser corrigidas enquanto o animal ainda é jovem, aproveitando a fase de crescimento para alinhar o prumo.

Achados Clínicos e Avaliação Inicial

O exame físico identifica desalinhamento dos membros, assimetria articular, dor, instabilidade, claudicação e alterações na marcha. Deformidades angulares traumáticas causam claudicação, enquanto potros com deformidade decorrente de alteração no crescimento geralmente não claudicam, exceto quando há dor severa.

Ao observar um potro em estação com desvio angular, deve se avaliá lo em movimento e realizar radiografia para localizar o desvio na linha de crescimento. A avaliação combina, portanto, a observação dinâmica com a investigação por imagem.

A baixa densidade óssea do carpo não pode ser diagnosticada apenas por exame físico ou palpação, exigindo radiografia. Durante a palpação manual, não é possível amassar ou alterar o bloco de cartilagem articular.

Confirmação e Leitura Radiográfica

Depois de identificar o desvio angular no exame físico, solicita se radiografia para o controle angular e a identificação do fator causador. O exame radiográfico facilita a identificação e a mensuração das deformidades e também auxilia no acompanhamento do tratamento. Para mensurar o desvio, traçam se linhas que dividem os ossos ao meio, determinando o ponto em que os eixos se encontram.

Na leitura da imagem, o tecido ósseo aparece radiopaco e branco, enquanto os tecidos moles, como os tendões, aparecem radiolúcidos e pretos. O osso é representado em branco e o tendão em preto. Em articulações com menor quantidade de cálcio ou mineralização, as estruturas aparecem escuras. O menisco articular não é adequadamente visualizado na radiografia simples, sendo necessária a ultrassonografia.

Anatomia radiográfica e linguagem do proprietário

Reconhecer as estruturas na radiografia e traduzir a nomenclatura técnica para a linguagem do proprietário são partes da mesma avaliação.

  • Diáfise: A diáfise corresponde ao corpo do osso longo.
  • Regiões ósseas: A avaliação radiográfica considera diáfise, metáfise, epífise e linha fisária.
  • Fise: Na prática de grandes animais, o termo fise é frequentemente utilizado para designar a linha de crescimento.
  • Carpo: o carpo do cavalo costuma ser chamado de joelho.
  • Tarso: O tarso do cavalo costuma ser chamado de jarrete.
  • Boleto: A articulação metacarpofalângica costuma ser chamada de boleto.
  • Soldra: Em equinos, a articulação femorotibiopatelar é denominada popularmente de soldra.
  • Radiografia do potro: Na radiografia de um potro recém nascido, a articulação do carpo já apresenta quase todos os ossos bem formados e visíveis, diferentemente da imagem radiográfica articular de um cão recém nascido.
  • Comunicação profissional: O profissional deve conhecer a nomenclatura técnica e os termos utilizados pelos proprietários para evitar falhas de comunicação.

Principais Mecanismos Etiológicos

Crescimento assimétrico da fise radial

Entre as quatro situações etiológicas que podem provocar deformidades angulares em equinos, as alterações da fise são normalmente congênitas e respondem por cerca de noventa por cento dos casos em potros, por causa de alterações no crescimento ósseo. A primeira causa é a irregularidade na largura da fise radial distal.

O mecanismo é um crescimento assimétrico: um lado da linha de crescimento desenvolve se mais rapidamente que o outro, produzindo o desvio angular. Isso pode resultar de estímulos metabólicos, mecânicos ou de outras condições que modifiquem a atividade dos condrócitos, as células cartilaginosas da fise. A ingestão de plantas tóxicas pode figurar como causa não hereditária de deformidade angular congênita.

Ossificação incompleta sob carga

A segunda causa de deformidade angular é a ossificação ou calcificação incompleta dos ossos do carpo ou do tarso. Em recém nascidos, essa alteração significa menor densidade mineral: ossos com baixa densidade mineral apresentam menor resistência e comportam se como estruturas frágeis. Essa baixa densidade deixa os ossos mais moles e frágeis, favorecendo a deformação sob carga, e está relacionada a uma menor quantidade de cálcio na matéria mineral.

Potros com ossificação incompleta podem nascer com deformidade óssea ou achatamento ósseo pré existente, mas também podem nascer com alinhamento ósseo normal e desenvolver desvio angular após algumas semanas de vida ao praticar exercício. Como as estruturas ainda são imaturas, forças excessivas podem induzir o desvio; manter o potro confinado na cocheira por semanas e soltá lo abruptamente para se exercitar pode induzir ou agravar o desvio angular ( carpo valgo ).

Fraturas e luxações do carpo

A terceira causa de deformidade angular abrange malformações, compressões, fraturas ou luxações dos ossos do carpo e do tarso. Fraturas cárpicas e lesões meniscais representam a minoria dos casos de deformidades angulares, mas fraturas de pequenos ossos podem alterar o alinhamento da articulação.

Nas fraturas dos ossos do carpo, a indicação cirúrgica convencional é a fixação com parafusos. Já lesões mais extensas podem impedir a estabilização cirúrgica; embora esses casos sejam menos frequentes, geralmente apresentam maior gravidade, dor e pior prognóstico funcional.

Flacidez e insuficiência ligamentar

A quarta causa de deformidade angular é a frouxidão do ligamento colateral, quando o ligamento falha em sustentar o membro. A ruptura ou insuficiência de um ligamento colateral reduz o suporte articular e permite o desenvolvimento de desvio. A maioria dos animais recém nascidos apresenta flacidez tendínea e ligamentar nos primeiros dias de vida, o que pode fazer com que o animal aparente um desvio angular articular. A maioria dos recém nascidos com desvio de membro apresenta flacidez ligamentar/tendínea neonatal, e não um desvio angular ósseo estrutural na linha de crescimento. A maioria dos potros não apresenta um desvio angular verdadeiro na linha de crescimento ao nascimento, mas apenas flacidez neonatal.

Traumas em pastagens irregulares, com buracos, raízes ou restos de árvores, podem provocar entorses e rupturas ligamentares. Após aproximadamente 30 dias, pode surgir proliferação e fibrose no local da lesão, como tentativa do organismo de estabilizar a articulação. O animal pode permanecer vivo, mas desenvolver claudicação permanente.

Esmagamento do menisco articular

O esmagamento de menisco articular constitui uma condição lesiva grave.

Tratamento Conservador

Quando escolher tratamento conservador

A escolha do tratamento conservador depende das características da lesão, do paciente e das condições disponíveis para o manejo.

  • Indicação principal: O tratamento conservador é utilizado quando a cirurgia não é viável.
  • Condições econômicas: Pode ser escolhido quando o proprietário não pode arcar com os custos.
  • Estabilização: É uma opção quando a lesão não permite estabilização adequada.
  • Alterações ligamentares tardias: Pode ser indicado em alterações ligamentares tardias, já organizadas por fibrose.
  • Ossificação: Pode ser indicado em casos de ossificação incompleta.
  • Decisão terapêutica: Considera a gravidade, a idade, o grau de desvio, a estrutura acometida, o tempo de evolução e as condições econômicas e de manejo.
  • Desvio leve: Desvios angulares leves causados por flacidez articular podem melhorar apenas com repouso.
  • Indicação cirúrgica: Em contraste, rupturas recentes de ligamento colateral passíveis de sutura ou reconstrução sintética têm indicação cirúrgica.

Tala, posição e repouso

A base do tratamento conservador é a coaptação externa, realizada com tala de PVC, tala confeccionada com couro e alumínio ou gesso sintético. O gesso sintético é o recurso mais utilizado para a confecção de coaptação externa e permite confeccionar um molde específico e removível para o animal, que pode ser aberto e fechado conforme a necessidade.

Nos casos de ossificação incompleta dos ossos do carpo e tarso, a tala deve alinhar o membro e mantê lo em posição adequada para permitir a maturação e a consolidação óssea na posição anatômica original. O protocolo pode incluir tala, repouso e analgésicos.

Cálcio, vitamina D e reavaliação

Nos casos de ossificação incompleta, a imobilização deve ser associada ao suporte metabólico: o processo de calcificação óssea requer cálcio, e a vitamina D é necessária para a assimilação desse cálcio. Além do repouso e da imobilização, a exposição à luz solar é necessária para a síntese endógena de vitamina D no animal.

O animal deve permanecer em repouso, mas pode ser mantido em pequeno piquete quando isso permitir caminhar discretamente e receber exposição solar sem correr. Quando não há iluminação solar disponível, indica se a suplementação de vitamina D3 ativada ou de análogos sintéticos, administrados por via injetável ou spray nasal. O acompanhamento radiográfico deve ser realizado aproximadamente 30 dias depois, observando se a formação dos ossos e a correção ou estabilização da deformidade.

Tratamento Cirúrgico

Indicação e janela de crescimento

Na correção de desvios angulares associados à linha de crescimento, existem duas técnicas cirúrgicas principais. O tratamento dessas alterações por crescimento fiseal é estritamente cirúrgico, e o uso isolado de talas é ineficaz. A técnica de elevação de periósteo utilizada na veterinária é proveniente da medicina humana.

A elevação de periósteo deve ser realizada entre o primeiro e o terceiro mês de vida do potro, fase de crescimento mais acelerado. Entre 30 e 60 dias de vida, o potro apresenta crescimento físico rápido, praticamente dobrando de estatura. A eficácia da elevação de periósteo depende de aproveitar essa fase de crescimento rápido, antes da desaceleração posterior da taxa de crescimento; por isso, o sucesso da correção cirúrgica depende da intervenção precoce, com resultado mais rápido e eficaz especialmente no primeiro mês de vida.

Gravidade e risco fisário

A gravidade define a urgência e a agressividade da abordagem: em deformidades graves, pode se indicar a técnica cirúrgica mais agressiva já no primeiro mês de vida; em casos muito graves, a intervenção cirúrgica deve ser realizada entre uma e duas semanas de vida. Em cirurgia, menor agressividade significa menor manipulação e menor trauma tecidual. Não negligencie a fise: seu fechamento permanente pode causar deformidade angular; uma linha de crescimento calcificada não volta a formar cartilagem, e o fechamento precoce pode deixar o osso afetado mais curto.

Alvo anatômico e incisão

Na elevação de periósteo, a precisão do lado, da incisão e dos planos anatômicos determina a segurança da execução.

  1. Etapa: Escolha a face correta. O alvo da elevação é o lado côncavo do desvio, que cresceu menos; o procedimento busca estimular esse lado a crescer mais.
  2. Etapa: Evite o lado incorreto. A escolha da face é crítica, porque operar o lado incorreto estimula o crescimento do lado inadequado do osso.
  3. Etapa: Localize os planos anatômicos. A linha de crescimento costuma ser identificada como a área de maior volume, enquanto o periósteo fica imediatamente abaixo da pele.
  4. Etapa: Posicione a incisão cutânea. A literatura cita uma incisão cutânea de 10 centímetros, posicionada geralmente um centímetro acima da linha de crescimento.
  5. Etapa: Respeite o trajeto da agulha. Uma agulha não penetra no tecido ósseo, porém penetra na cartilagem de crescimento.
  6. Etapa: Proteja a cartilagem e a linha de crescimento. Essa cartilagem não deve sofrer lesão ou traumatismo direto, e a incisão do periósteo não pode atingir a linha de crescimento.

Execução e resposta tecidual

A execução inclui tricotomia, preparo do campo, incisão cutânea e elevação do periósteo. Cada segmento leva cerca de 5 a 10 minutos. Ao final da manipulação, realiza se a sutura da pele e aplica se bandagem.

O periósteo neonatal é consideravelmente mais espesso que o do cavalo adulto, além de ser extremamente inervado e uma das estruturas anatômicas mais sensíveis à dor. Junto com o endósteo, o periósteo participa da irrigação sanguínea do osso em crescimento. Depois da cirurgia, é esperado aumento de volume e edema significativo na região operada.

Janela de estímulo e escalonamento

A decisão terapêutica depende da resposta ao estímulo inicial e da gravidade do desvio.

  1. Etapa: Estimule o crescimento: a elevação do periósteo promove estímulo de crescimento por aproximadamente 30 dias.
  2. Etapa: Reavalie o desvio angular ao fim desse período; se não for corrigido em 30 dias, pode ser indicada nova intervenção cirúrgica.
  3. Etapa: Progrida quando necessário: sem resposta satisfatória dentro do prazo limite, a conduta progride para a técnica de ponte transfisária temporária.
  4. Etapa: Mantenha o implante por 2 a 6 meses nos casos graves.

Ponte transfisária com implantes

A ponte transfisária temporária depende da montagem correta dos implantes e da vigilância de suas complicações.

  1. Etapa: Em potros de dois meses com desvio angular acentuado, associe a elevação de periósteo à aplicação simultânea de grampo ou parafuso.
  2. Etapa: Considere que não é comum o parafuso causar reação inflamatória local.
  3. Etapa: Na ponte transfisária temporária, use parafusos de 4,5 mm de diâmetro.
  4. Etapa: Conecte os parafusos com cerclagem de arame por baixo da pele.
  5. Etapa: Se o arame romper, indique nova intervenção cirúrgica.

Resposta periosteal e sinalização celular

A lesão tecidual desencadeia uma resposta inflamatória e reparadora no periósteo, com liberação de fatores de crescimento e citocinas. Esses sinalizadores migram para a região e estimulam as células da cartilagem de crescimento a aumentar sua atividade expansiva.

Esse estímulo celular é temporário: o efeito do estímulo cessa quando ocorre a cicatrização periosteal.

Indicação conforme a gravidade

A técnica de elevação de periósteo é indicada principalmente para desvios angulares leves a moderados, com boa indicação para desvios de até 15 graus. Um desvio angular de 15 graus não deve ser considerado pequeno. O limite para indicar intervenção pode ser estabelecido em 15 ou até 20 graus, dependendo da idade do animal. Acima de 15 ou 20 graus, a técnica isolada pode não ser suficiente e não apresenta eficácia nos casos muito graves.

Janela de ação e alinhamento

A correção pela elevação de periósteo é autolimitante: quando o membro atinge o alinhamento, a progressão do desvio tende a cessar. Após esse alinhamento, a técnica não provoca supercorreção nem desvio angular para o lado oposto. Em animais muito novos, o efeito dura cerca de 30 dias e cessa depois desse período; por isso, um potro não continua melhorando por ação da técnica após a janela inicial.

Indicação após três meses

Após os 3 meses de idade, a indicação cirúrgica muda para a ponte transfisária temporária, também conhecida como técnica do grampo. Ela é indicada principalmente entre três e seis meses de idade e em deformidades mais graves.

A elevação de periósteo é uma técnica menos agressiva em comparação com a técnica cirúrgica indicada para potros de 3 a 6 meses.

Como a ponte restringe o crescimento

A ponte transfisária temporária restringe o crescimento no lado maior da deformidade por meio de uma ponte sobre a fise.

  1. Etapa: Instale o implante no lado maior da deformidade para conter seu crescimento ósseo na fise.
  2. Etapa: Forme a ponte sobre a linha de crescimento com dois parafusos e cerclagem, uma abordagem possível para realizar a técnica.
  3. Etapa: Oriente o posicionamento dos implantes por exame radiográfico, que auxilia na identificação da linha de crescimento e no refinamento da técnica cirúrgica.

Remoção e risco de supercorreção

Atenção: A ponte transfisária temporária limita o crescimento apenas enquanto a linha de crescimento permanece ativa. Os implantes devem ser removidos cirurgicamente assim que o membro atingir o alinhamento reto. Se permanecerem por tempo excessivo, podem causar supercorreção ou entortamento inverso do membro. Animais encaminhados após uma primeira intervenção de desvio angular podem necessitar de uma segunda cirurgia para inserção do grampo.

Complicações e seguimento da ponte

A ponte transfisária exige maior tempo cirúrgico, equipamento radiográfico, anestesia, ambiente cirúrgico e acompanhamento pós operatório. A realização da cirurgia de ponte transfisária com acompanhamento radiográfico demora cerca de 30 minutos. A técnica de ponte transfisária apresenta maior risco cirúrgico devido à necessidade de anestesia mais prolongada. A técnica envolve risco de contaminação cirúrgica, e o custo financeiro da cirurgia de ponte transfisária varia do dobro ao triplo do custo da elevação de periósteo. Geralmente são necessárias duas intervenções, uma para a colocação e outra para a retirada do implante. A segunda intervenção é feita para a retirada do implante. O proprietário deve acompanhar o animal e comunicar alterações precocemente, pois complicações incluem infecção subcutânea e infecção óssea, falha ou ruptura do implante, sobrecorreção e fechamento permanente da fise. Infecções pós cirúrgicas restritas ao tecido subcutâneo apresentam menor gravidade clínica e melhor prognóstico. Quando uma infecção pós cirúrgica atinge a estrutura óssea, ela pode evoluir para osteomielite e exigir a remoção completa de todos os implantes cirúrgicos. O acompanhamento periódico é indispensável.

Parafuso transfisário e técnicas associadas

Em determinadas situações, podem ser utilizadas placas ou parafusos transfisários. A técnica com parafuso transfisário, derivada da medicina humana, consiste em inserir um parafuso através da metáfise, transfixando a linha de crescimento epifisária para travar o crescimento ósseo, sendo indicada quando se necessita de um efeito maior para a correção do desvio angular.

O parafuso transfisário atravessa a metáfise e pode estabilizar o crescimento, mas apresenta risco de atingir a articulação, induzir artrose ou traumatizar a fise, levando à calcificação e ao fechamento permanente. Por esse motivo, sua utilização é restrita a situações específicas. Em desvios graves, a elevação periosteal e a ponte transfisária podem ser associadas, desde que o caso seja cuidadosamente avaliado.

Prognóstico e Decisão Terapêutica

Correção espontânea no neonato

Em recém nascidos com desvios angulares leves, recomenda se observação e acompanhamento inicial antes de qualquer intervenção cirúrgica. O período recomendado de observação é de 30 dias, e cerca de 80% desses casos apresentam melhora espontânea. Conforme o potro neonato se exercita e as estruturas tendíneas ganham força, o desvio por flacidez pode se corrigir espontaneamente, aprumando o membro.

Essa evolução está relacionada à idade: o crescimento da linha de crescimento cessa quase completamente após cerca de 8 meses, enquanto a metáfise reduz sua atividade e desaparece com o avanço da idade, quando o animal se torna adulto.

Causa e timing definem prognóstico

O prognóstico varia conforme a causa e o momento de atuação. Deformidades angulares decorrentes de alterações no crescimento ósseo apresentam o melhor prognóstico de tratamento e, quando operadas precocemente, a grande maioria dos animais apresenta boa evolução. Na ossificação incompleta dos ossos do carpo ou tarso, o prognóstico depende do momento de atuação. O tratamento das retrações ou encurtamentos de estruturas moles apresenta o melhor prognóstico.

Em contraste, fraturas do carpo tratadas conservadoramente podem evoluir com consolidação viciosa, resultando em deformidade do membro e claudicação, além de predispor ao desenvolvimento de artrose secundária.

Paciente, proprietário e viabilidade terapêutica

A indicação cirúrgica deve considerar o valor e a finalidade do animal, as condições de hospitalização, a capacidade de acompanhamento e a compreensão do proprietário. Na rotina veterinária de campo, cerca de 80% a 90% dos casos de desvio angular são resolvidos pelo veterinário de rotina do haras. Os potros encaminhados para hospital veterinário geralmente apresentam desvios angulares mais graves, e o uso de implantes como grampos e parafusos para correção de deformidade angular é indicado na minoria dos casos.

Nos casos graves, é essencial explicar com clareza as possibilidades de melhora, os riscos, os custos e a necessidade de reavaliação. A cirurgia para correção de deformidades angulares bilaterais em potros pode ser realizada simultaneamente nos dois membros. Em fraturas cominuídas com fragmentação óssea excessiva, quando não é possível operar ou estabilizar, a cirurgia é contraindicada. Mesmo quando a técnica cirúrgica é adequada, o resultado pode ser comprometido se o animal for levado para um local sem estrutura, se as recomendações não forem cumpridas ou se não houver profissional responsável pelo acompanhamento.

Analgesia e Cuidados Perioperatórios

Prevenção antes do estímulo doloroso

O controle da dor deve ser preventivo, iniciado antes que o processo doloroso se instale. A analgesia preemptiva aplica anti inflamatórios e analgésicos antes do estímulo nociceptivo cirúrgico, portanto a administração preventiva do anti inflamatório deve ocorrer antes da intervenção.

Na anestesia preemptiva, o paciente é anestesiado antes do estímulo doloroso, uma técnica eficaz no manejo da dor cirúrgica. Em neonatos e animais grandes, iniciar o anti inflamatório somente após o despertar permite que dor e inflamação se retroalimentem.

Consequências e sinais da dor

A dor estimula a liberação sistêmica de cortisol, e níveis elevados desse hormônio prejudicam o organismo. O manejo adequado da dor melhora a cicatrização, enquanto a dor pós operatória causa complicações clínicas, incluindo comprometimento da cicatrização. No cavalo com dor intensa, podem ocorrer frequência cardíaca elevada, adipsia, anorexia, incapacidade de se movimentar ou permanência em decúbito.

Nas cirurgias de elevação do periósteo e colocação de parafuso, a dor responde satisfatoriamente aos analgésicos e não tende a ser intensa quando há analgesia adequada. Na artrodese interfalangiana proximal, abre se a articulação, remove se a cartilagem com broca, alinha se a estrutura, fixa se com placa e parafusos e promove se a fusão articular.

Fármacos, riscos e duração

A escolha dos fármacos deve considerar tanto a eficácia quanto o risco para o paciente. A dipirona veterinária tem a mesma composição e o mesmo princípio ativo da dipirona de uso humano. Entre os anti inflamatórios, o flunixin meglumine pode ser uma alternativa menos agressiva ao diclofenaco. Ainda assim, fenilbutazona e flunixin são considerados agressivos ao organismo, enquanto o diclofenaco é potente, mas apresenta expressiva agressividade ao trato gastrintestinal.

No período pós operatório, a anestesia com cetamina e xilazina, sem protocolo analgésico adequado, pode causar inapetência e gastrite. Por isso, o plano deve ser adequado desde o início: com um plano de analgesia adequado, o uso de anti inflamatórios por dois a três dias no pós operatório é suficiente.

Analgesia multimodal no pós operatório

No pós operatório ortopédico em equinos, o protocolo deve combinar estratégias. O protocolo pós operatório ortopédico em equinos deve incluir um anti inflamatório não esteroidal associado a opioides. Em cavalos submetidos à artrodese, a administração de buprenorfina via epidural promove analgesia eficaz e controle da dor.

O bloqueio anestésico local atua por mecanismo distinto do mecanismo analgésico central. Essa técnica proporciona menor risco anestésico e menor consumo de anestésicos gerais, além de reduzir a necessidade de manter o paciente em plano anestésico profundo. Assim, a associação de técnicas analgésicas reduz a quantidade de dias de uso de anti inflamatórios no pós operatório.

Dicas Para Provas

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Na radiografia de um potro recém nascido, a articulação do carpo apresenta ossos formados visíveis, diferente da imagem radiográfica articular de um cão recém nascido.
Na radiografia, a articulação do potro já apresenta quase todos os ossos bem formados.
Na radiografia, o osso é representado pela cor branca e o tendão pela cor preta.

Reflexão Sion

Quando é tempo de alinhar

Em potros, um desvio angular pode concentrar forças, prejudicar a locomoção e se agravar quando não é acompanhado durante o crescimento. Assim como a correção precoce restaura o prumo do membro, Jesus encontra nossas desordens antes que elas definam todo o caminho. Nele há esperança para recomeçar com direção, cuidado e propósito.

Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.Mateus 11:28

Leia e reflita sobre o tempo certo para buscar alinhamento.

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