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MedVet7 PeríodoCirurgia de Grandes AnimaisP1

Manejo de Feridas em Equinos: Cicatrização, Abordagem e Tratamento

O mesmo processo de cicatrização se apresenta de três formas, e o que define qual delas se aplica é o estado da ferida e a decisão de fechar ou não.

Duracao: 58 min

Topicos da aula

  • Manejo de Feridas em Equinos

Overview

Panorama do Manejo de Feridas

O manejo de feridas em equinos parte de um princípio central: não se trata de classificar produtos como bons ou ruins, mas de reconhecer a fase da ferida para escolher técnica e conduta. A pele equina é muito aderida, o que limita transpor técnicas de pequenos animais, sobretudo em membros e cabeça. A cicatrização pode ser por primeira, segunda ou terceira intenção, e suas fases — inflamatória, debridamento, reparação e maturação — se sobrepõem. Não existe recurso capaz de acelerar a cicatrização; é possível remover o que atrapalha e modular a inflamação. O tratamento é sobretudo mecânico e cirúrgico, envolvendo limpeza, tricotomia, antissépticos, bandagens, controle da granulação e, em casos selecionados, enxertos. Errar no básico compromete o resultado.

Conceitos Gerais e Aplicabilidade

Manejo por Fase, Não por Produto

O manejo de feridas parte do entendimento de que os conceitos de cicatrização são aplicáveis a diferentes espécies, inclusive ao ser humano, e de que a decisão não deve girar em torno de produtos. Ferimentos no cavalo ocorrem em uma infinidade de situações, por isso não existe receita fixa a decorar. O ponto central não é classificar produtos como bons ou ruins de forma absoluta, mas compreender as fases da ferida para indicar o produto, a técnica e a abordagem adequados em cada momento.

O objetivo principal é entender qual fase está presente e, a partir disso, selecionar a conduta mais adequada. Grande parte do tratamento é mecânico e cirúrgico, e não apenas farmacológico: primeiro se resolvem limpeza e debridamento, e só depois se decide sobre o produto. Ao compreender as fases, torna se possível atuar de maneira definida em qualquer espécie, respeitando as particularidades de cada uma.

Dois erros opostos devem ser evitados: a omissão e o uso de produtos inadequados. Nenhum produto é bom ou ruim por si só — sua indicação depende do momento da ferida.

Pele Equina Aderida Limita Transposição

O cavalo apresenta particularidades que dificultam o manejo de feridas, sobretudo em determinadas regiões do corpo. A pele equina é muito aderida, comparável a uma roupa de elastano bem justa, o que impede que seja puxada ou movimentada com facilidade — até mesmo para vesti la há dificuldade. Ou seja, não adianta simplesmente puxar a pele e esperar que ela avance sobre a ferida.

Por esse motivo, técnicas de cirurgia plástica desenvolvidas em pequenos animais não são diretamente transponíveis para o cavalo. No cão, técnicas de cirurgia plástica com mobilização de pele de outro local são viáveis. No cavalo, a transposição direta de técnicas descritas em livros de pequenos animais não funciona na espécie equina.

Diante disso, o caminho é testar e validar as técnicas antes de aplicá las, em vez de transplantá las direto do livro texto. Essa limitação é especialmente relevante em feridas de membros e de cabeça.

Tipos de Cicatrização

Primeira, Segunda e Terceira Intenção

O mesmo processo de cicatrização se apresenta de três formas, e o que define qual delas se aplica é o estado da ferida e a decisão de fechar ou não.

IntençãoEstado da feridaCondutaExemplo
Primeira intençãoFerida incisada e suturada, fechando se imediatamenteFechamento imediato com suturaFerida cirúrgica
Segunda intençãoSem sutura: ferida tratada abertaCicatrização por granulação e pelas fases subsequentesLesão de pele deixada aberta
Terceira intençãoFerida já granulada e limpa (se estiver contaminada, não se deve fechá la)Debridamento e posterior fechamentoQueimaduras, para ganhar tempo quando possível

Em cães, o enxerto de pele retirada de outro local pode ser utilizado; no cavalo isso não funciona.

Cavalo como Criança: Ferimentos Frequentes

Os ferimentos em equinos são extremamente numerosos porque o cavalo se comporta como uma criança pequena: se há qualquer objeto cortante ou pontiagudo no ambiente, ele tende a se machucar. Na rotina da propriedade, isso significa olhar para cada objeto e se perguntar se ele pode causar lesão — porque o cavalo provavelmente vai se ferir nele.

Basta um detalhe aparentemente inofensivo. Um exemplo é o de um cavalo que não tinha nada na cocheira além de um prego deixado no local: ele colocou o nariz no prego, assustou se com alguém passando na porta e rasgou a narina.

Lesões durante o embarque também são comuns, pois o cavalo é assustado e, ao se assustar, joga se para trás, bate a cabeça e se corta. Ou seja, o mesmo temperamento que faz o cavalo se machucar com objetos parados no ambiente também explica os ferimentos no momento de subir no caminhão.

Fases da Cicatrização

Fases Sobrepostas da Cicatrização

A cicatrização é didaticamente dividida em quatro fases: inflamatória, debridamento, reparação ou proliferação e maturação. A primeira é a fase inflamatória, onde tudo começa; depois vêm o debridamento, a reparação e, por fim, a maturação. Essa divisão serve para organizar o raciocínio, não para separar a ferida em compartimentos.

Essas fases não são exatamente separadas nem ocorrem de forma estanque; elas se interpõem e se sobrepõem. A fase inflamatória pode durar pouco ou muito tempo, e a fase seguinte pode iniciar antes que a anterior termine. A fase de reparação pode começar enquanto a inflamação ainda está presente, e a maturação pode ocorrer nas bordas enquanto o centro da ferida permanece aberto. Esse caráter sobreposto é um dos segredos do processo de cicatrização e é o que permite entender a evolução da ferida.

Após a fase inicial, começa a fase de reparação e depois a fase de maturação, quando a ferida já está quase totalmente reparada.

Não Existe Acelerador da Cicatrização

Não existe, até o momento, recurso capaz de acelerar a cicatrização. Quando se atribui a um produto a aceleração da cicatrização, o que ocorreu, na realidade, foi que o produto não atrapalhou; permitiu se que a natureza evoluísse de forma normal. A infecção atrapalha a cicatrização, e removê la ajuda o processo — uma ferida infectada tem a cicatrização prejudicada. O mesmo raciocínio vale para a consolidação de fratura óssea: não há recurso que a acelere. Em compensação, os fatores que atrapalham são muitos, como o uso de óleo queimado, produtos inadequados e corticosteroides, que são excelentes para algumas situações e péssimos para outras. O uso de produtos inadequados atrapalha mais do que ajuda.

Fase Inflamatória

Resposta Vascular e Lidocaína

A fase inflamatória inicia se imediatamente após o trauma. Ocorre resposta vascular caracterizada por vasoconstrição inicial, destinada a conter o sangramento, seguida de vasodilatação após algumas horas. Se houvesse vasodilatação imediata, o sangramento aumentaria: primeiro se contém a hemorragia, e só depois se restabelece o fluxo.

A lidocaína, usada em anestesia local, promove vasodilatação; portanto, uma ferida infiltrada com lidocaína sem vasoconstritor pode sangrar mais. A lidocaína com vasoconstritor aumenta o tempo de ação e diminui o sangramento, mas em algumas regiões pode ser prejudicial. Em cirurgia nasal, que já sangra muito, o uso de solução vasodilatadora pode aumentar ainda mais o sangramento — e em locais que já sangram muito esse é um ponto de atenção antes de infiltrar.

Os leucócitos vão até a ferida para limpar e combater a infecção. A inflamação é benéfica, mas a dor intensa pode ser tratada com anti inflamatório e analgésico. Controlar a dor, porém, não significa abandonar o processo inflamatório, que aqui é benéfico e está a favor da ferida.

Resposta Celular e Mediadores Químicos

Após a resposta vascular, ocorre a resposta celular, com chamamento de células para reparar o tecido. A inflamação inicialmente promove vasoconstrição, que não pode ser sustentada por muito tempo porque surge hipóxia tecidual. Quando a hipóxia se intensifica, mediadores químicos promovem retorno do sangue e novo sangramento.

Simultaneamente, ocorre deposição de fibrina, que serve como primeiro arcabouço para estancar o sangue, e tamponamento linfático, que causa edema e aumento de volume local. Se o edema for muito intenso, atrapalha a cicatrização. Em humanos, feridas mal curadas podem evoluir com trombose em vasos adjacentes; em equinos esse problema é pouco evidente, mas existe — na prática, pouco evidente não significa inexistente.

Coágulo como Espaço Morto e Cultura

Cuidado com o que você deixa no subcutâneo. O coágulo é útil para conter o sangramento, mas, se permanecer por muito tempo, constitui espaço morto e retarda a cicatrização. Em cirurgias, deixar espaço morto com coágulo no subcutâneo é ruim: as células precisam primeiro limpar aquele material antes de avançar para a reparação. Pior ainda, o coágulo funciona como meio de cultura, e o sangue parado favorece a replicação bacteriana — lembre se de que o ágar sangue é excelente meio de cultura. As bactérias utilizam ferro para se replicar, e a água não fornece esse elemento na mesma medida. A morte de polimorfonucleares com liberação enzimática amplifica a inflamação. Em resumo: espaço morto e sangue parado são combustível para infecção.

Modular, Não Bloquear, a Inflamação

O neutrófilo chega para limpar a ferida, mas pode causar efeitos colaterais e ampliar a inflamação. Quanto mais neutrófilos e liberação enzimática, maior a inflamação; inflamação desmedida prejudica o organismo. Quando essa resposta sai do controle, o próprio organismo se agride. O choque anafilático é exemplo de reação inflamatória exacerbada, na qual o organismo reage de forma intensa contra um antígeno, como resíduo de pasta de amendoim.

A inflamação, então, é necessária — o alvo é modular, não desligar. Estudos com ratos demonstraram que anticorpos monoclonais extremamente eficientes para bloquear a inflamação impedem a cicatrização. Anti inflamatórios convencionais diminuem dor e inflamação, mas não interrompem completamente o processo — não são 100% efetivos. Se a inflamação fosse totalmente bloqueada, a cicatrização também seria barrada; portanto, o objetivo é modular, e não parar a inflamação.

Trauma, Corpo Estranho e Infecção Agravam

Feridas graves, contaminadas e sujas são rotina na clínica de equinos. Não se consegue acelerar o processo, mas é possível identificar exatamente o que o piora.

  • Feridas graves, contaminadas e sujas: são frequentes na rotina, com fragmentos de para choque, asfalto e sujidade, tanto em equinos quanto em cães atropelados.
  • Acelerar o processo: não se consegue acelerar a cicatrização; o que dá para fazer é identificar o que a piora.
  • Grau do trauma: o grau do trauma influencia — quanto maior a lesão, maior a inflamação.
  • Esmagamento e avulsão: lesões por esmagamento e avulsão, com arrancamento de tecido, são mais graves.
  • Corpo estranho: a presença de corpo estranho aumenta a inflamação, como uma farpa de madeira no dedo, que causa dor latejante e não resolve enquanto não for removida.
  • Anti inflamatório sem remover o corpo estranho: podem ser administrados grandes volumes de anti inflamatórios, como litros e 200 mL, sem resolução.
  • Infecção: é possivelmente o pior fator, pois a bactéria adiciona lesão à lesão inicial.
  • Pus: infecções mais piogênicas produzem mais pus.
  • Neutrófilo: o neutrófilo, ao tentar resolver, também destrói tecido.

Fase de Debridamento

Início do Debridamento e Células

Quem limpa a ferida e quando

Depois que a inflamação se instala, as células começam a chegar para limpar a ferida. A primeira etapa é a limpeza, ou debridamento. A imagem útil é a de uma obra após a queda de uma parede: primeiro é preciso retirar os escombros para só depois reconstruir. Não faz sentido reconstruir sobre sujeira.

Em estudos experimentais com camundongos, o debridamento ocorre cerca de seis horas após o trauma, é realizado principalmente pelos polimorfonucleares, sendo o neutrófilo o primeiro a chegar, seguido pelos macrófagos. Guarde essa sequência: o neutrófilo abre o trabalho de limpeza e os macrófagos entram na sequência.

Quanto tempo isso dura? A duração da limpeza depende do grau de sujidade ou contaminação da ferida. Se a ferida for bem limpa, o debridamento ocorre em poucos dias.

Manejo da Dor e do Edema

Quando intervir na dor e no edema

Na fase inflamatória, a inflamação é benéfica — ela é parte do processo de cicatrização, não o inimigo a ser eliminado. Por isso, o alvo do tratamento não é simplesmente "apagar" a inflamação, mas controlar o que ela produz de desconforto para o paciente.

A decisão, então, é guiada por dois sinais. Se a dor for muito intensa, pode se atuar com anti inflamatório e analgésico para diminuir a dor do paciente. Se houver edema acentuado, pode se atuar para diminuir o inchaço com anti inflamatórios. Repare que a conduta acompanha a intensidade do sintoma, e não a presença isolada de inflamação.

Limpeza com Gaze e Soluções Não Agressivas

Gaze, solução não agressiva e volume

A limpeza é realizada com gaze e soluções não agressivas, sendo o soro fisiológico a escolha lógica. A gaze dá o componente mecânico da limpeza; a solução precisa respeitar o tecido, sem agredi lo.

Em equinos, a água pura é muito utilizada porque muitas vezes é necessário grande volume para remover barro. Não confunda essa indicação com qualquer solução agressiva: o que se busca é volume suficiente para arrastar a sujidade, mantendo a limpeza dentro do princípio de não agredir a ferida.

Do Campo à Transição para Soluções Estéreis

Volume escasso primeiro, esterilidade depois

Na rotina de campo, o recurso disponível costuma ser escasso: muitas vezes há apenas 5 litros de soro no carro. Esse volume não é suficiente para iniciar a limpeza de uma ferida muito suja com barro, porque o barro consome a solução antes que a ferida comece a ficar realmente limpa. Por isso, no primeiro momento, pode se usar água de torneira, por exemplo, quando se dispõe de apenas 5 litros de soro disponíveis, pois não seria viável iniciar a limpeza de uma ferida cheia de barro apenas com soro.

A lógica é sequencial: a água de torneira serve para a limpeza grosseira, não para o manejo definitivo, e é justamente a remoção do barro que libera a ferida para a etapa seguinte. Depois que a ferida está limpa, evita se água não estéril e passam se a utilizar soluções estéreis, porque nesse momento a água já é contaminada. Ou seja, a limpeza com água resolve o problema de volume no início, mas não substitui as soluções estéreis quando a ferida já está limpa.

Limpeza Grosseira e Tecido Necrótico

Sinais do tecido inviável e onde parar

A primeira limpeza deve ser grosseira e mecânica. A remoção de tecidos nitidamente inviáveis, que entrarão em necrose ou estão pendurados sem possibilidade de reaproveitamento, integra o debridamento. Se a ferida estiver muito contaminada, o debridamento se prolonga e atrapalha o início da reparação; nesse cenário, o tecido deve ser removido e não se deve suturar.

A necrose nem sempre é imediata: em queimaduras e após extravasamento de quimioterápico, ela pode ser gradativa. O tecido morto é reconhecido por não sangrar, apresentar aspecto diferente, ficar pálido e depois escurecer, além de perder sensibilidade. Remove se com tesoura até se alcançar a borda sangrante, quando se para, pois a remoção do tecido necrótico ganha tempo e melhora a vascularização local.

Debridamento cirúrgico e posição do equino

Debridamento cirúrgico sem centro cirúrgico

Existe o desbridamento cirúrgico, e o debridamento cirúrgico é realizado após limpeza grosseira com água e sabão. A sequência importa: primeiro a lavagem mecânica remove a sujeira e o barro, e só depois o tecido inviável é cortado, evitando que se corte em cima de uma ferida ainda muito contaminada.

Em equinos, o debridamento cirúrgico pode ser feito com o animal em pé, desde que não sinta dor e seja realizada anestesia local. Isso simplifica a rotina: não é obrigatório o centro cirúrgico. O procedimento pode ser resolvido com o cavalo em pé, sob anestesia local, o que é especialmente útil no atendimento a campo.

Agentes de limpeza no primeiro momento

A limpeza inicial da ferida tem um alvo imediato: a sujidade grosseira. Existe mais de um produto capaz de fazer isso, e nada aqui é escolha automática.

  • Iodo polivinilpirrolidona degermante: No primeiro momento, pode se usar iodo polivinilpirrolidona degermante para remover a sujidade grosseira.
  • Água oxigenada: A água oxigenada também pode ser usada no primeiro momento.
  • Escolha do produto de limpeza: Tudo depende da fase da ferida.

Uso diário de degermantes queima a ferida

O iodo polivinilpirrolidona degermante tem papel único. No primeiro momento, pode se usar iodo polivinilpirrolidona degermante para remover a sujidade grosseira. Passado isso, o uso diário contínuo de soluções degermantes queima a ferida e prejudica a cicatrização: se soluções degermantes forem aplicadas todos os dias, a ferida não cicatriza e pode ser queimada. E trocar de produto não resolve a armadilha — o PVP também queima.

Água oxigenada diária impede o fechamento

A água oxigenada também pode ser usada no primeiro momento, mas seu uso diário impede o fechamento da ferida porque queima as células epiteliais. Ou seja, a água oxigenada queima as células da ferida e, em uso diário, a ferida não fecha.

O detalhe que explica tudo é que a água oxigenada queima a célula epitelial que vai fechar a borda da ferida. Se a aplicação se repete todos os dias, você destrói continuamente o epitélio que tentava crescer sobre o defeito, e a ferida fica estagnada. Na prática, a água oxigenada serve como limpeza pontual do primeiro momento — nunca como rotina diária.

Vascularização, Edema e Gelo

A vascularização local é melhorada evitando se que a ferida seque, então não deixe a ferida ressecar. O edema deve ser reduzido, pois comprime os vasos: em uma pata edemaciada, há líquido fora da célula comprimindo os vasos e prejudicando a circulação. Repare que o problema é mecânico — o líquido no espaço extravascular ocupa lugar e fecha o vaso, e é assim que o edema atrapalha a circulação.

Para reduzir esse edema, no primeiro momento utiliza se gelo; o calor não deve ser usado antes de 48 horas, pois aumenta o edema. Calor antes de 48 horas é conduta errada, porque agrava justamente o que você quer controlar. Anti inflamatórios também atuam nesse controle e, em situações de edema muito intenso, podem ser usados diuréticos.

Antissépticos são utilizados para reduzir a carga bacteriana e prevenir infecção. Em infecções graves, apenas o antisséptico não resolve, sendo necessário antibiótico — mas não adianta administrar antibiótico com a ferida cheia de barro: primeiro vem a limpeza mecânica, e só depois faz sentido discutir a terapia antimicrobiana.

Antisséptico, Antibiótico e Desinfetante

Antes de escolher o que jogar na ferida, fixe a diferença entre os três grupos:

  • Antisséptico: antimicrobiano de uso tópico; nem todos são antibióticos e muitos não têm apresentação injetável.
  • Antibiótico: classicamente usado por via sistêmica, embora existam antibióticos que não devem ser usados por essa via.
  • Neomicina: aminoglicosídeo, parente da gentamicina; não existe neomicina injetável porque é tóxica, e sua toxicidade não justifica o uso sistêmico.
  • Desinfetante: destinado a superfícies inanimadas, como mesa, piso e equipamentos, e não deve ser usado em pele ou superfícies vivas porque é agressivo e tóxico.
  • Amônia quaternária: exemplo de desinfetante usado em centro cirúrgico, que não deve ser aplicada na pele.
  • Antibiótico como antisséptico: pode se usar, mas essa não é necessariamente a conduta mais correta.

Custo e Uso Racional das Soluções

A água sanitária, ou hipoclorito, é muito utilizada; quando bem diluída, pode ser empregada, assim como o líquido de Dakin. O Dakin é barato e corresponde a água com hipoclorito. A água mineral e a água de torneira também contêm hipoclorito em menor quantidade e, dependendo da concentração, essas soluções podem ser utilizadas.

O que decide a escolha é o custo: um litro de água sanitária é barato, antissépticos são mais caros e antibióticos mais caros ainda. O antibiótico entra depois, e não como primeira opção para lavar a ferida.

Não se deve usar gentamicina para lavar feridas, pois isso seleciona resistência microbiana e pode criar superbactérias na clínica ou no hospital. Ou seja, transformar antibiótico em antisséptico sai caro e ainda seleciona resistência.

Tricotomia Ampla e Fechamento Primário

Uma ferida pode já ter sido lavada e ainda assim apresentar sujeira e tecido necrótico; nesse caso, segue se ao debridamento. E quando há osso exposto, ele deve ser abordado após a limpeza, não antes.

O tempo é o que limita a decisão de fechar. Após 8 a 10 horas da ferida, o fechamento primário torna se limitado. Em uma ferida com 48 horas, como um corte na cerca que demorou a ser trazido, o fechamento primário já fica limitado.

A tricotomia é detalhe muito importante: o principal foco de infecção de uma ferida é o pelo, e não adianta limpar a ferida mantendo pelos ao redor — manter o pelo na região é um erro grave. Deve se realizar tricotomia ampla em volta, com cuidado para que os pelos não grudem na ferida, pois isso dificulta o debridamento.

Sequência com Emulsão Gel e Tricotomia

A limpeza inicial é mecânica e depende de ordem: escolher o produto, proteger a ferida do pelo e só então lavar. O detalhe que mais muda o resultado é onde o pelo cai.

  1. Etapa: Para limpeza mais grosseira, pode se usar detergente, que são substâncias que degradam gordura.
  2. Etapa: Detergente lipolítico de cozinha não é muito indicado — existem substâncias detergentes em produtos como o iodo polivinilpirrolidona degermante.
  3. Etapa: Faça tricotomia ampla antes de lavar — sem tricotomia, os pelos vão para dentro da ferida.
  4. Etapa: Para evitar que os pelos grudem, pode se aplicar emulsão gel na ferida, como lidocaína gel ou gel lubrificante estéril, formando uma camada que retém os pelos.
  5. Etapa: A sequência é: passar a emulsão gel, realizar a tricotomia e depois lavar.
  6. Etapa: Lave a ferida com soro ou água: o gel retém os pelos, que saem na lavagem com soro ou água.

Descontaminação Antes do Fechamento Tardio

Quando a ferida já está infectada e havia intenção de suturar, essa ideia precisa ser abandonada inicialmente. Em vez de fechar de imediato, pode se realizar boa limpeza e descontaminação por dois a três dias, sem necessariamente debridar totalmente, e depois proceder ao fechamento. Esse é o princípio do fechamento tardio.

Um caso descrito ilustra essa conduta: realizou se sutura com cerca de uma semana de evolução, mantendo o tecido fechado e umidificado para que a pele não corresse.

Vale reforçar que a tricotomia deve ser ampla, pois não se deve limpar a ferida sem remover os pelos ao redor.

Fase de Reparação ou Proliferação

Granulação Exuberante no Cavalo

A fase de reparação, ou proliferação, inicia se a partir de cerca de 12 horas da evolução da ferida. Nesse período ocorrem inicialmente epitelização e fibroplasia, com produção de tecido fibroso e formação de tecido de granulação. O tecido de granulação é rosado, com aspecto de grânulos, e é altamente vascularizado.

No cavalo, o tecido de granulação começa a surgir rapidamente, sendo visível a olho nu por volta do quinto dia. Além disso, no cavalo, a granulação tende a ser mais exuberante, mais rápida e desordenada do que em outras espécies. Já em cães e gatos, estimula se a granulação e ela tende a parar sozinha; no cavalo, ela continua progredindo, exigindo tempo e produtos para controle.

Como consequência de uma granulação que continua progredindo sem parar sozinha, surgiram técnicas errôneas e agressivas no manejo de feridas em equinos — um alerta para não tratar o cavalo como se fosse um cão ou gato.

Contração pelos Miofibroblastos

A reparação ocorre pela proliferação de tecido no leito da ferida, com granulação, e pela replicação das células epiteliais a partir das bordas. As células epiteliais migram da periferia até se encontrarem e fecharem a ferida.

Além disso, formam se miofibroblastos ao redor da ferida, que têm força contrátil e promovem a contração, aproximando as bordas. A ferida, portanto, fecha não apenas pelo preenchimento com tecido de granulação, mas também pela contração.

Na prática, a granulação preenche o defeito, enquanto a contração reduz a área cruenta. A miofibroblastose e a retração contribuem para o fechamento, embora a velocidade final dependa de múltiplos fatores.

Controle da Granulação Excessiva

Para a ferida fechar, as bordas epiteliais precisam se encontrar. As células epiteliais param de se replicar quando se encontram, por mecanismo de inibição por contato. Se houver granulação excessiva, as células não conseguem se encontrar e a epitelização não se completa; a granulação passa a atrapalhar.

Pior: a granulação em excesso sangra, arranca fragmentos, inflama e perpetua o processo — ela deixa de ser reparo e vira obstáculo ao fechamento. Para controlar, pode se atuar de duas formas: medicamentosa, com corticosteroides em granulação jovem, ou cirúrgica, com bisturi, retirando se o excesso.

Epitelização: Corpo Versus Pata

A velocidade de epitelização é de cerca de 0,2 mm por dia no corpo, com estudos mostrando valores de até 0,5 mm por dia. Há estudos indicando até 0,8 mm por dia no cavalo. Em uma ferida de 2 cm, as células de ambos os lados precisam percorrer cerca de 1 cm cada; com 0,2 mm por dia, seriam cerca de 50 dias, mas na prática o fechamento ocorre em torno de 20 dias em condições ideais. Na pata, a velocidade é muito menor, praticamente 0 mm por dia, porque a pele é muito tensa e esticada.

AspectoCorpoPata
Velocidade de epitelizaçãoCerca de 0,2 mm por dia; estudos citam até 0,5 a 0,8 mm por diaPraticamente 0 mm por dia
Motivo da diferençaMiofibroblastose e retração auxiliam o fechamentoPele muito tensa e esticada
Ferida de 2 cm (1 cm por borda)50 dias pela conta de 0,2 mm por dia; cerca de 20 dias na práticaFechamento bem mais lento
Tempo de fechamentoFecha em 10 a 20 diasPode levar quase 100 dias, cerca de 3 meses
Comparação entre os locaisCicatrização até cinco vezes mais rápida que na pataAs feridas de pata são o maior problema

A miofibroblastose e a retração também auxiliam o fechamento, mas a ciência não é exata. Atenção: o ritmo de fechamento do corpo não se repete na pata.

Infecção, Bandagem e Fatores Locais

A localização da ferida muda completamente o prognóstico. Feridas no pescoço, no peito e no flanco cicatrizam bem mais rápido, enquanto as feridas de pata são lentas, como se fossem de um indivíduo diferente. A pata não cicatriza bem porque a irrigação é muito lenta, as células epiteliais replicam mais lentamente, há menor irrigação, pressão mais alta e maior formação de edema. O leito também pesa. Ferida sobre músculo cicatriza rapidamente; ferida sobre osso não recebe a mesma nutrição e demora. Como as patas têm pouca musculatura, muito tendão e, muitas vezes, osso exposto, a granulação é mais lenta.

A infecção pode surgir mesmo em ferida que estava limpa, por exemplo, quando o cavalo deita sobre fezes ou quando a cama está suja. Na hora de bandagear, o detalhe decide o resultado. A gaze gruda e, ao ser puxada, arranca células; por isso, devem se escolher bandagens não aderentes ou torná las não aderentes com produtos.

A hipotermia causa vasoconstrição e atrapalha; o gelo deve ser aplicado por cerca de 15 minutos, duas vezes ao dia, sem manter o membro imerso em gelo. A dessecação é prejudicial; a ferida deve ser mantida levemente úmida, mas úmido demais é meio de cultura. Por fim, a troca frequente de bandagens irrita a granulação e pode estimulá la excessivamente.

Granulação Jovem Versus Velha

A conduta depende de reconhecer qual granulação está na frente. O tecido de granulação é inicialmente composto por vasos, fluidos e tecido conjuntivo mais frouxo. Com o tempo, fibroblastos migram, e a granulação, inicialmente muito irrigada e sangrante, torna se mais rígida e endurecida pela deposição de colágeno. Regra prática: o que funciona na granulação jovem não funciona na velha.

AspectoGranulação jovemGranulação velha
ComposiçãoVasos, fluidos e tecido conjuntivo mais frouxoFibrose estabelecida, com deposição de colágeno
Consistência e irrigaçãoMuito irrigada e sangranteMais rígida e endurecida
Resposta ao corticosteroideA granulação jovem, bastante irrigada, responde a medicamentos como corticosteroidesJá a granulação velha, com fibrose estabelecida, não responde ao corticosteroide, sendo necessário removê la com bisturi
CondutaO corticoide tópico é usado por 2 ou 3 dias para o controle da granulaçãoRemoção com bisturi

Atenção: o corticoide controla apenas a granulação jovem — o tecido de granulação excessiva, fibroso e duro é resolvido apenas com bisturi.

Por que a granulação resiste à infecção

A vantagem do tecido de granulação é o preenchimento — ele ocupa o defeito e devolve volume à ferida. Ao mesmo tempo, é um tecido extremamente vascularizado, e é essa irrigação abundante que leva células de defesa ao local.

É daí que vem a característica mais útil na clínica. A granulação é um tecido extremamente resistente à infecção por ser altamente vascularizado: quanto mais sangue chega, mais células de defesa chegam até ali, e a barreira contra a contaminação se mantém de pé.

Isso muda a forma de ler a ferida. Quando há tecido de granulação, a infecção está superficial; abaixo dele não há mais infecção — a granulação funciona como um piso que separa a contaminação de superfície do tecido profundo. Não confunda: havendo granulação, o problema infeccioso está acima dela, e não abaixo.

Fechamento de terceira intenção e granulação excessiva

A vantagem do tecido de granulação é o preenchimento e a grande vascularização, que leva células de defesa ao local. Quando há tecido de granulação, a infecção está superficial; abaixo dele não há mais infecção. Após a granulação, pode se retirar uma camada superficial de cerca de meio a um centímetro; o tecido exposto abaixo é estéril, permitindo o fechamento. Por isso, espera se de cinco a sete dias para o fechamento por terceira intenção.

  1. Etapa: Esperar a granulação — o fechamento de terceira intenção é a etapa que vem depois que a ferida já granular.
  2. Etapa: Contar o tempo — espera se de cinco a sete dias para o fechamento por terceira intenção.
  3. Etapa: Confirmar onde está a infecção — quando há tecido de granulação, a infecção está superficial, acima dele; abaixo dele não há mais infecção.
  4. Etapa: Limpar a camada superficial contaminada — retirar de meio a um centímetro da camada superficial, deixando exposto um tecido estéril.
  5. Etapa: Fechar a ferida — com o tecido exposto estéril, o fechamento da ferida é possível.
  6. Etapa: Vigiar o excesso — a granulação não é ruim; ela é ruim se passar demais. Entretanto, quando excessiva, torna se prejudicial.

Cáusticos Queimam a Granulação

Quando a granulação fica dura como pedra e a ferida pode durar mais de um ano, o manejo é tricotomia, limpeza e escolha adequada de produtos — e, para remover tecido de granulação crônico, o bisturi é o recurso indicado. Não caia na tentação do sulfato de cobre, aquele produto azul muito usado em grandes animais — ele queima e provoca queimadura. O mesmo vale para o velho truque do açúcar em cotonete, que queimava e soltava fumaça: na medicina de pequenos animais e na medicina humana não se usam cáusticos, e mesmo em cavalos essas práticas não são mais indicadas.

Cáusticos Desorganizam Miofibroblastos

Estudos mostram que o sulfato de cobre queima e desorganiza os miofibroblastos, células essenciais para a retração da ferida. É uma armadilha: embora reduza a granulação, impede o fechamento. Feridas tratadas com cáusticos podem desenvolver queloides, fibrose excessiva e endurecimento por desorganização dos miofibroblastos; em vez de retração adequada, forma se uma cicatriz dura e espessa. E atenção à borda: produtos mais agressivos não devem ser colocados na borda da ferida, pois queimam a célula epitelial — o PVPI também queima e mata, embora seja menos agressivo que o sulfato de cobre.

Queloide e Adesão do Proprietário

Feridas com queloide, nas quais já se usou de tudo, são extremamente difíceis. Quando a ferida não consegue fechar, o organismo forma um queloide. Em alguns casos, quase não há o que fazer além de um reset, com debridamento completo e mais de um ano para fechar. Uma ferida com quase dois anos de evolução ilustra bem esse problema.

O outro lado dessa história é o manejo. Muitas vezes o proprietário não deixa o cavalo internado, volta para casa e recebe prescrição; no terceiro mês, considera o tratamento lento e passa a seguir sugestões de vizinhos, como unha de vaca, excremento de galinha ou extrato de planta. Todo o processo reinicia. Por isso, a orientação ao proprietário deve ser adequada, pois muitas dessas situações poderiam ser evitadas.

Geometria da Ferida e Velocidade

Considerando se a granulação somada à ação dos miofibroblastos, atinge se cerca de 0,2 mm por dia no membro e 1 mm por dia no corpo. Velocidade menor pode ocorrer se algo atrapalhar a ferida: colocar qualquer coisa que atrapalhe reduz a velocidade de contração ou impede o fechamento. No membro, portanto, o fechamento é muito mais lento do que no corpo.

A geometria da ferida influencia o resultado final estético. Feridas quadradas, retangulares, triangulares e circulares evoluem de formas diferentes; feridas circulares são cerca de 30% mais lentas. Em estudo comparativo com pomadas e produtos fitoterápicos, uma ferida no meio de determinado modelo apresentou pouca evolução em 30 dias.

Um erro grave é não retirar o pelo; recomenda se tricotomia de pelo menos dois dedos na borda, mesmo que não seja ampla. Feridas na paleta, região na qual o cavalo bate ao correr e machuca na cerca, podem ser gigantes e deixar perda de massa muscular, mas com resultado estético aceitável. Granulação excessiva na parte alta preocupa menos; o problema maior está nos membros.

Fase de Maturação

Colágeno Tipo 3 para Tipo 1

A fase de maturação ocorre depois que a ferida está quase fechada, ou nas bordas já fechadas enquanto o centro permanece aberto. Caracteriza se pela substituição do tecido fibroso e pela maturação do colágeno. O colágeno inicial é normalmente do tipo 3, e o colágeno de maior resistência é o tipo 1 — a troca é gradual, e é isso que dá solidez à cicatriz.

O organismo troca gradualmente o colágeno, modificando o tecido para que ganhe resistência ao longo do tempo. Dependendo da ferida, a maturação pode demorar até um ano. Quanto mais tempo, maior a resistência da ferida — e é por isso que cicatriz recente é frágil.

Em regiões de muita tensão de pele, como dobras de articulação, a ferida pode estar esteticamente bonita, mas, se o cavalo voltar a ser montado para esporte antes da maturação completa, a pele pode rasgar. Nessas dobras o tecido estica muito, e o retorno ao esporte precisa respeitar o tempo de maturação.

Cicatriz Recente Rasga sob Esforço

O osso é a exceção: a maioria dos tecidos fica mais fraca

Uma ferida recente e não bem maturada é mais fraca — e isso vale para quase todos os tecidos. De modo geral, o único tecido que fica mais forte após uma lesão é o osso; dificilmente ele quebra novamente no mesmo local. Os demais tecidos não apresentam esse comportamento. O intestino suturado pode ficar mais fraco, e a pele com queloide ou cicatriz é mais fraca.

Por isso, não se deve seccionar músculos; na cirurgia ortopédica, os músculos são separados, não cortados, pois onde há corte surge um ponto de fragilidade. Na pele ocorre o mesmo: toda incisão cria um ponto de fraqueza permanente.

Atenção: uma ferida recente e não bem maturada pode voltar a rasgar quando o cavalo é submetido a esforço, como galope, por tensão da pele. A cicatriz pode estar esteticamente fechada e ainda assim não ter resistência para suportar essa tração.

Fatores que Prejudicam a Cicatrização

Idade, Nutrição e Anemia

Antes de culpar a ferida, olhe para o que vem de dentro do animal. Estes fatores sistêmicos explicam cicatrizações lentas ou desorganizadas.

  • Idade avançada: animais mais velhos cicatrizam mais lentamente.
  • Animal jovem: animais jovens cicatrizam mais rapidamente.
  • Desnutrição: A desnutrição prejudica a cicatrização; um cavalo resgatado, em condições de pele e osso, atropelado, sem proteína, não formará colágeno adequadamente, sendo necessário alimentá lo.
  • Anemia: A anemia também prejudica, pois as células precisam de oxigênio; se não há hemoglobina suficiente para carregar oxigênio, a célula fica mais lenta.
  • Zinco e vitaminas: Deficiências de zinco e vitaminas e neoplasias também interferem.
  • Neoplasia: Neoplasias frequentemente não cicatrizam ou cicatrizam de forma desorganizada.
  • Ferida de pele que não cicatriza: deve levantar suspeita, especialmente em feridas de pele que não cicatrizam.

Carcinoma Solar no Cavalo Despigmentado

O carcinoma de pele é comum em animais expostos ao sol, como o Boxer branco e o cavalo despigmentado. O carcinoma causado pelo sol é a neoplasia cutânea mais comum no cavalo. Um exemplo é um cavalo branco, com olhos claros, que desenvolveu neoplasia no olho e foi operado.

A recomendação foi uso de protetor solar, embora na prática isso seja difícil. Alternativamente, o cavalo pode ser mantido preso durante o dia e solto após as 17 horas; no caso descrito, inverteu se a rotina, deixando o solto à noite e preso durante o dia.

Em dia de exposição ou desfile, pode se passar protetor solar, pois um dia de sol não mata o cavalo; entretanto, se não houver cuidado, a neoplasia pode surgir no outro olho e o animal retornar para nova cirurgia. Animais despigmentados devem ser evitados na compra, pois são os que mais dão problema; no cavalo, o animal é comprado, e não se deve adquirir um animal que sabidamente dará problema.

Melanoma Quieto: Operar ou Não?

Um exemplo de neoplasia é o melanoma atrás da orelha. A recomendação inicial foi não operar, pois o melanoma estava quieto. A proprietária, entretanto, optou por operar, e três meses depois o animal retornou com retorno agressivo da lesão; após mais três meses de tentativa de tratamento, o cavalo foi perdido.

O melanoma é sempre maligno, mas no cavalo pode apresentar comportamento benigno e permanecer quieto por anos. Em outras espécies, a conduta costuma ser sempre a remoção; no cavalo, sobretudo em regiões difíceis, nas quais a margem exigiria remover a orelha, deve se avaliar se vale a pena mexer. Se a lesão está crescendo, a indicação cirúrgica é válida, com margem.

Entretanto, operar uma lesão quieta pode estimular o efeito distórico, com liberação de citocinas e fatores de crescimento que beneficiam o tumor, que se replica mais rápido que as células normais, levando ao crescimento agressivo.

Deiscência e Suspeita de Neoplasia

A deiscência da ferida pode ocorrer quando há neoplasia associada. Em um caso, uma ferida de um colega veterinário tinha um ano de evolução e não cicatrizava; a suspeita foi de neoplasia, e recomendou se biópsia. O caso chamou atenção porque a região era de pescoço; havia possibilidade de corpo estranho, reação cicatricial ou neoplasia.

Lesões diagnosticadas como sarcoide podem ser superficiais, e a remoção deve incluir a massa. Já em modelo experimental de carcinoma, coelhos brancos tiveram a orelha tratada diariamente com Lugol e desenvolveram carcinoma em 30 a 60 dias.

A inflamação crônica pode desencadear neoplasia, embora não necessariamente; no modelo experimental, o que surgiu foi um carcinoma na orelha. Ferida crônica mal tratada pode deixar de cicatrizar e evoluir para neoplasia; por isso, deve se manter suspeita.

Biópsia Intraoperatória e Margens

Ao realizar a biópsia de uma massa, o material deve ser enviado para avaliação histopatológica. Em alguns casos, envia se a amostra para avaliação intraoperatória: o patologista retorna em cerca de 15 a 20 minutos informando se as margens estão limpas ou se há neoplasia. Com essa resposta rápida, é possível decidir durante a cirurgia se é necessário ampliar a ressecção, e o custo desse serviço gira em torno de R$ 200,00 — um valor baixo diante da complicação que se evita.

Há regiões em que a anatomia limita a conduta. Se o local for perigoso, como atrás da orelha, próxima ao nervo facial, pode não ser possível aprofundar a ressecção sem lesar o nervo; nesse caso, pode ser necessário preparar o proprietário para um possível desvio do focinho.

Atenção ao combinado com o tutor: cirurgias oncológicas podem ser mutiladoras, e o proprietário deve ser previamente informado. Lembre do cão submetido à remoção total do focinho sem orientação prévia — o proprietário quis sacrificar o animal depois. Por isso, é essencial combinar e mostrar como o animal ficará.

Eletroquimioterapia no Carcinoma

A eletroquimioterapia é uma opção terapêutica para feridas com suspeita de neoplasia. A eletroquimioterapia consiste na aplicação local de quimioterápico e posterior descarga elétrica, que concentra o fármaco no local. Em cães, o tratamento pode ser sistêmico; em cavalos, é sempre local. A indicação principal é o carcinoma.

Na prática, o aparelho custa cerca de 40 a 50 mil, e o serviço costuma ser realizado por oncologistas chamados de fora. Muitas vezes, o cirurgião realiza a cirurgia e o oncologista aplica a eletroquimioterapia.

Corticoides e Trauma Repetitivo

Fatores locais e anti inflamatórios que atrapalham a cicatrização — com o corticoide como exceção de poucos dias.

  • Corticoide para edema: Corticosteroides podem ser usados por dois a três dias para controle de edema.
  • Corticoide prolongado: se usados por 15 dias, são eficientes para impedir a cicatrização.
  • Suspensão do corticoide: Deve se parar o corticoide quando a granulação está baixinha e a pele começou a passar.
  • Anti inflamatórios não esteroidais: Anti inflamatórios não atrapalham tanto a cicatrização, mas têm toxicidade, como gastrite, colite e outras complicações.
  • Uso excessivo de anti inflamatório: o uso excessivo pode fazer o animal parar de comer e agravar a desnutrição.
  • Favorecem infecção: corpo estranho, tecido necrótico, hemorragia excessiva e queda de imunidade local ou vascularização inadequada.
  • Trauma repetitivo e manipulação excessiva: entre os fatores locais que atrapalham a cicatrização estão o uso excessivo de corticosteroides, o trauma repetitivo e a manipulação excessiva da ferida.
  • Fatores locais (cáusticos, granulação exuberante e movimento): Também são fatores locais que prejudicam a cicatrização o uso de cáusticos, o tecido de granulação exuberante e a movimentação excessiva das bordas da ferida; além disso, feridas perto de articulação são difíceis de cicatrizar porque o movimento excessivo na borda retarda a cicatrização.

Fístulas

Investigação da Fístula Equina

A fístula é uma abertura persistente que permanece enquanto algo agride o organismo. Na prática, a fístula ocorre quando a ferida está cicatrizando, mas permanece uma abertura com drenagem de alguma coisa — ou seja, a ferida se fecha em volta de um problema que continua lá dentro. Em equinos, é comum a fístula estar associada a corpo estranho, e a primeira providência diante dela é procurar esse corpo estranho, frequentemente um pedaço de vegetal ou bambu. Quando ele está presente, exige novo debridamento.

A localização orienta a suspeita. Em fístulas de cernelha e base de orelha, deve se considerar corpo estranho; na base da orelha, a fístula está frequentemente associada a cisto dentígero, e é aí que entra a radiografia: a fístula na base da orelha do cavalo está frequentemente associada a cisto dentígero e deve ser radiografada para investigar cisto dentígero. Nos membros, as duas causas mais comuns são corpo estranho e sequestro ósseo. O sequestro ósseo ocorre quando uma pancada desvitaliza uma lasca de osso, que se solta; o organismo a interpreta como corpo estranho e abre uma fístula para expulsá la.

Radiograficamente, pode se visualizar o canal da fístula e o sequestro, além de uma estrutura radiográfica característica descrita na literatura. O ponto de atenção é o material vegetal: corpos estranhos vegetais não aparecem na radiografia, sendo necessário ultrassom, cujo resultado depende muito do operador. Portanto, não descarte a suspeita de corpo estranho vegetal só porque a radiografia veio limpa.

Localização e Causa Provável da Fístula

Diante de uma fístula, a localização do orifício já direciona a suspeita. Fístulas de base de orelha costumam estar associadas a cisto dentígero; fístulas na face, a sinusite; fístulas de castração, a corpo estranho, como fio de algodão. Antigamente, veterinários realizavam castração com fio de algodão; mesmo quando autoclavado, o que é errado, a fístula podia aparecer um ou dois anos depois por se tratar de corpo estranho. Fístula de cernelha também exige cuidado, podendo estar associada a corpo estranho, embora não necessariamente. Vale ainda diferenciar luva cirúrgica estéril de luva de procedimento: a cirúrgica é cara e nem sempre está disponível, enquanto a de procedimento é mais acessível.

Localização da fístulaCausa provávelPonto de atenção
Base de orelhaCisto dentígeroRadiografia indicada
FaceSinusiteInvestigação por imagem
CastraçãoCorpo estranho: fio de algodãoPode surgir 1 ou 2 anos depois
CernelhaCorpo estranho — não necessariamenteExige cuidado na investigação

O diagnóstico exige investigação com radiografia e, em alguns casos, ultrassom: O raio x digital atualmente é mais tolerante a erros de técnica, pois o software compensa parte das limitações; o ultrassom, no entanto, permanece muito dependente do operador.

Imobilização em Fístula Articular

A imobilização pode ser útil em fístulas localizadas em articulações que dobram, por meio de tala ou molde, para reduzir a mobilidade e favorecer o fechamento.

Um problema descrito é a fístula após artroscopia, que surgiu por volta do quinto ou sexto dia, ou logo após a retirada dos pontos. Essa situação gera preocupação porque há risco de contaminar a articulação e causar artrite séptica, com possibilidade de perda do cavalo.

A conduta inclui antibiótico, imobilização da articulação por cerca de 10 dias, utilizando tala de PVC ou gesso, com abertura apenas para confecção do molde. Com a imobilização, a fístula fechou.

Antissépticos e Soluções Tópicas

PVPI Diluído em Soro Fisiológico

As soluções mais utilizadas são a solução fisiológica e o iodo. A primeira escolha é a solução fisiológica, que não agride o tecido, enquanto a solução de iodo é muito utilizada em cavalos por ser uma das soluções mais baratas.

O PVPI vem a 10%, mas o iodo puro é outra apresentação; dilui se cerca de 100 vezes. Na prática, utiliza se no máximo 10 mL de PVPI em 1 litro de soro, resultando em coloração semelhante à de uísque. A solução diluída de iodo deve ficar com coloração de uísque translúcida, permitindo enxergar do outro lado.

O PVPI puro queima e não é indicado; pode ser indicado no primeiro momento, quando a ferida está muito suja ou contaminada. Depois, na fase de reparação, se for utilizado, deve ser diluído. Nessa diluição, a solução tem efeito antisséptico e não é agressiva ao tecido.

Clorexidina: Diluição e Toxicidade

A clorexidina verde forte é destinada à lavagem de mãos e à aplicação em tecido córneo, que é tecido morto, como a superfície da pele.

Em ferida aberta, a clorexidina pura é tóxica e deve ser bem diluída.

Existe clorexidina para preparação cirúrgica. O spray de clorexidina vendido em farmácia é, na prática, soro com pequena quantidade de clorexidina, e muitas pessoas o adquirem para uso em feridas.

Água Oxigenada: Uso Curto

O peróxido de hidrogênio, conhecido como água oxigenada, gera controvérsia. Em um caso, um cavalo apresentou ferimento no pescoço após injeção, com abscesso do tamanho de um braço; a ferida estava rosada, mas não granulava. O proprietário tratou por duas semanas com água oxigenada, tendo usado cerca de 20 litros do produto.

O excesso de água oxigenada queimava as células epiteliais, mantendo a ferida parada. Orientou se suspender a água oxigenada e usar apenas soro; duas semanas depois, a ferida estava muito melhor. A explicação é direta: o uso diário queima as células epiteliais e impede o fechamento.

A água oxigenada é útil para limpeza inicial e descontaminação e para controle de granulação jovem, mas deve ser usada por um a três dias e suspensa. Indica se a água oxigenada apenas para limpeza inicial e descontaminação da ferida, devendo ser suspensa após esse primeiro momento. Regra do bloco: pensou em água oxigenada, pensou em uso curto — passou do prazo, suspende e segue só com soro.

Álcool, Nitrofurazona e Acúmulo

Álcool não deve ser usado em ferida aberta. Em ferida cirúrgica, após sutura, ele é excelente; para limpeza de ferida aberta de segunda intenção, não é indicado. A diferença é de fase e de objetivo: a ferida já suturada tolera o produto, enquanto a ferida aberta em cicatrização por segunda intenção não tolera. Não troque os cenários — o mesmo produto que ajuda na ferida cirúrgica atrapalha na ferida aberta.

A nitrofurazona pode ser usada em grandes animais, mas apresenta problema de acúmulo, não sendo recomendada para animais de produção, pelo efeito acumulativo e potencial carcinogênico para quem consome a carne, conforme estudos de longo prazo. Por isso, hoje é mais difícil comprar nitrofurazona. Suas vantagens são o baixo custo, a boa eficácia e o estímulo à granulação. É frequentemente misturada com açúcar.

Açúcar, Mel e Pomadas Antibióticas

O açúcar é usado para estimular a granulação. Deve se usar açúcar cristal, e não refinado ou em pó, pois o refinado não é adequado. A ação do açúcar dura cerca de seis a oito horas, exigindo curativos duas a três vezes por dia, o que pode ser inviável. Depois desse período, o açúcar pode servir de substrato; quando misturado à nitrofurazona, mesmo após o efeito do açúcar, não se torna substrato para bactérias.

Há estudos com mel, inclusive pomadas à base de mel, muitas delas caras; a maioria dos estudos é realizada na África e na Índia, em populações pobres, com resultados interessantes. O mel é excelente produto, mas o perfil do cliente deve ser considerado.

Pomadas antibióticas são várias, eficazes para as feridas, porém mais caras; bisnagas custam cerca de 20 a 30 reais, e uma pode ser usada por dia. No interior, 1 kg de produto pode custar cerca de 30 reais. Regra prática: é melhor indicar um produto barato que o proprietário use do que uma receita cara que ele não seguirá.

Alantoína, Aloe e Corticoide Tópico

Existe no mercado uma grande variedade de produtos à base de alantoína, aloe vera e outros compostos. A questão central é que dependendo da pomada usada na ferida, muitas vezes ela acaba mais atrapalhando do que ajudando. Por isso, deve se ter cuidado com o veículo: alguns são muito grudentos e atrapalham a limpeza da ferida, o que compromete o curativo.

As pomadas de corticosteroide têm um papel pontual: podem ser usadas por dois a três dias para controle de granulação exuberante. O limite é a pele: quando a granulação baixa, o corticosteroide deve ser suspenso e retorna se à outra pomada.

Antes de continuar com o corticosteroide, é preciso avaliar por que a granulação está acumulando — se a gaze está sendo mantida por tempo excessivo e estimulando a granulação, ou se é necessário trocar a bandagem. Esse acompanhamento é fácil no hospital, com observação diária da ferida, mas quando o animal vai para casa o proprietário não tem essa noção. A conduta é prescrever algo simples e viável e acompanhar com fotos a cada dois ou três dias.

Bandagens

Funções Fisiológicas das Bandagens

Bandagem não é só cobertura: ela age sobre a ferida e sobre o cavalo. Estas são as funções que você precisa reconhecer para decidir quando usar e quando suspender.

  • Compressão e edema: Reduzem o edema local por compressão, efeito benéfico no manejo da ferida.
  • Acidificação do meio: Diminuem o pH tecidual, acidificando o meio, e consequentemente estimulam angiogênese, colágeno e epitelização.
  • Temperatura local: Elevam a temperatura local, lembrando que o frio atrapalha, e assim melhoram a cicatrização.
  • Bandagem não aderente: Quando não aderentes, causam menos escaras e menos feridas por pressão.
  • Proteção da ferida: Também protegem a ferida, pois o cavalo pode deitar em local contaminado; a bandagem é contaminada em vez da ferida.
  • Suspensão do uso: Na prática, usam se bandagens nas fases iniciais e, quando a ferida está mais organizada, suspende se o uso.

Três Camadas e Contato com a Ferida

Classicamente, as bandagens têm três camadas. A primeira é a camada de contato, interface direta com a ferida, que pode ser aderente ou não aderente, conforme o objetivo.

Se se deseja estimular a granulação, usa se camada aderente: ela estimula a formação de granulação e, ao ser arrancada, irrita a granulação, reforçando esse estímulo. Assim, a escolha da aderência depende do efeito desejado sobre o leito da ferida.

Camada Intermediária e Controle de Exsudato

A camada intermediária é responsável pela absorção do exsudato e pelo amortecimento contra pancadas. Seu ajuste fino é este: deve manter o leito úmido, mas deve absorver o líquido excessivo, sem permitir que a ferida fique encharcada. É esse equilíbrio entre umidade e excesso de líquido que define a necessidade de troca.

O algodão ortopédico funciona bem como camada intermediária porque não fica molhado. Já na fase inicial, quando há muito exsudato, podem se usar fraldas como camada absorvente, e às vezes é preciso trocar o curativo duas vezes ao dia.

Camada Externa e o Perigo do Plástico

A camada externa da bandagem fornece pressão mecânica e fixação, sendo composta por atadura. Não se deve usar plástico, pois ele abafa a ferida. Enrolar um plástico na ferida é a pior situação possível de oclusão: ele cria um microclima aquecido que favorece fungos, acumula líquido e favorece infecção.

Bandagem Aderente, Não Aderente e Oclusiva

Na veterinária, existem poucas opções de bandagens; na medicina humana há muitas, mas geralmente são caras — 300 a 400 reais por bandagem é inviável na rotina. A escolha do material acompanha a fase da ferida, e cada tipo tem um momento certo e um cuidado específico.

Tipo de bandagemQuando usarO que fazCuidado e alerta
Aderente (gaze)Só no começo, na fase de debridamentoAs bandagens aderentes são interessantes no início, na fase de debridamento, para remover tecido necrótico e estimular a granulação.A bandagem aderente de gaze com muitas camadas torna se oclusiva e úmida demais, devendo ser trocada com frequência conforme a fase da ferida. Usa se só no começo; depois evita se porque atrapalha.
Não aderenteFase de reparaçãoAs não aderentes são usadas na fase de reparação, pois não grudam e não arrancam o tecido ao serem retiradas.As não aderentes previnem ressecamento, formação de escaras e protegem a ferida.
OclusivaFerida muito limpa, quase sem secreçãoFecha completamente a ferida, sem ventilação adequadaAs oclusivas fecham completamente, são menos utilizadas, mais caras e exigem ferida muito limpa; caso contrário, aumentam a exsudação e a cultura bacteriana.
RayonMuito usada, barata e facilmente adquirida em plataformas comerciaisA bandagem de rayon parece algodão, mas solta quando molhada; foi desenvolvida para queimadosDeve ser umedecida com soro antes da retirada.

Bandagens muito oclusivas, que não deixam a ferida respirar, prejudicam a cicatrização.

Membrana Amniótica na Prática

A cobertura biológica mais frequente na rotina de equinos é a membrana amniótica. Na prática veterinária, a mais usada é a membrana amniótica congelada, aplicada como cobertura biológica diretamente sobre o leito da ferida. Ao ser colocada sobre a ferida, ela contém fatores biológicos que atuam na lesão, com resultados interessantes do ponto de vista clínico.

O preparo é simples: veterinários de equinos costumam lavar a membrana amniótica, recortá la em tiras e armazená la em saco com gel. Sobre a ferida, a tira é trocada diariamente — a troca diária faz parte do protocolo e não pode ser esquecida, porque é isso que mantém a cobertura ativa e limpa.

O que limita o uso não é o desempenho, e sim a logística: não existe produto comercial disponível, e a obtenção fora de áreas específicas é difícil. Ou seja, quando a membrana amniótica está acessível ela é uma boa opção; quando não está, o obstáculo é prático, e não biológico.

Coberturas Biológicas Comerciais

Existem coberturas biológicas comerciais à base de celulose produzida por bactérias, e essas coberturas são estéreis.

  • Cobertura comercial de celulose: cobertura biológica comercial feita de celulose, usada no manejo de feridas.
  • Origem da celulose: a celulose dessas coberturas é produzida por bactérias.
  • Esterilidade: as coberturas biológicas produzidas comercialmente são estéreis.
  • Pele de tilápia: outro exemplo de cobertura biológica comercial disponível.

Vantagens, Custos e Indicações

Ganho no armazenamento, custo no tratamento

As coberturas comerciais têm como vantagem a facilidade de armazenamento, e algumas não precisam de refrigeração. Em contrapartida, aumentam o custo do tratamento, o que entra na conta na hora de escolher o material.

Em equinos, costumam ser usadas na fase inicial e em cavalos de maior valor; depois que a ferida está mais organizada, troca se para o curativo convencional. Ou seja: a cobertura comercial é um recurso de fase e de seleção, não a regra para todo ferimento.

Enxertos de Pele

Enxerto Autólogo: Pediculado e Livre

Pediculado versus livre no cavalo

O enxerto de pele é uma técnica antiga. Em nossa realidade, o enxerto de pele é sempre autólogo: enxerto de outra espécie ou de outro animal não funciona. Existem diferentes formas de realizá lo.

O enxerto pediculado, ou retalho, é feito no desvio e é muito usado em cães, com excelentes resultados. No cavalo, sua limitação é a dificuldade de obtenção: no peito e em algumas áreas do corpo é possível, mas em patas e cabeça não há pele para movimentar. Apesar de ser a melhor opção, é a mais difícil de conseguir no cavalo.

O enxerto livre é o mais usado: retira se um fragmento de pele e coloca se no leito receptor, fixando o com sutura. No cavalo, o peito é o local doador do enxerto livre, pois sua pele é fina e permite retirar um fragmento e suturar sem deixar a ferida aberta.

Embebição e Leito Sem Gordura

O leito decide o destino do enxerto

No enxerto pediculado, é necessário conhecer a anatomia e preservar o vaso principal que irriga o retalho. No enxerto livre, a ligação é interrompida: o enxerto sobrevive inicialmente por embebição, isto é, os líquidos teciduais do leito penetram nas células do enxerto. Depois, migram capilares do tecido adjacente.

A pele tem grande capacidade de tolerar hipóxia, mas precisa de nutrientes. Por isso, não pode haver gordura no leito, pois ela bloqueia a embebição e o enxerto morre; infecção também leva à perda do enxerto.

O leito deve ser sadio, de preferência com músculo ou granulação saudável. Enxerto sobre osso não funciona, pois não há sangue vindo do leito. Vale pensar no enxerto como uma plantação: é preciso boa terra e nutrientes.

Enxerto Total Versus Parcial

O enxerto livre pode ser total ou parcial. Em ambos vale a mesma regra: o enxerto não pode se movimentar — se houver movimentação, os vasos e capilares que estão crescendo não se estabelecem e o enxerto morre.

AspectoEnxerto livre totalEnxerto livre parcial
O que se retiraO fragmento inteiroMetade da espessura da pele, incluindo parte da derme
Instrumento—Faca de enxerto, semelhante a uma lâmina de estilete
Leito doador—A derme permanece no leito doador, que fica com menos pelo
Sutura—Não é necessário suturar
Tamanho do enxerto—É possível retirar enxertos maiores, de até cerca de 10 cm
Origem do enxerto—Geralmente da barriga do cavalo
Cuidados exigidosSem gordura no leito, sem infecção e sem movimentação; apoio com bandagem—

Traço (—) indica aspecto não descrito para essa modalidade. Enxerto em articulação é muito difícil: áreas de muita movimentação são mais difíceis de conter com bandagem adequada.

Estética e Pega do Enxerto

O resultado estético do enxerto total é muito bom, desde que o pelo não seja colocado virado, pois ele cresce ao contrário. No enxerto parcial, o leito doador fica com menos pelo, de forma quase imperceptível, e o resultado estético é muito bom; a pega depende da região.

Ainda assim, pode ocorrer pega parcial no enxerto total, com uma parte que pega e outra que não pega. Mesmo quando o enxerto parece morrer, ele pode ficar seco superficialmente e soltar parte, mas parte da derme permanece e há efeito satisfatório.

Pós Operatório, Infecção e Falhas

O que mata o enxerto

O pós operatório é muito importante no enxerto de pele. O enxerto morre por movimentação excessiva, seroma embaixo ou contaminação.

Em um experimento de mestrado realizado em 2000, os enxertos estavam morrendo; um cirurgião clássico e pesquisador sugeriu o uso de neomicina, e os enxertos pararam de morrer, mostrando que o problema era infecção. Por isso, usa se pomada de neomicina sobre o enxerto.

Fica a regra prática: não adianta em tecido infectado ou sobre osso infectado — insistir no enxerto nesse cenário é perda de tempo.

Expansão do Enxerto com Expansor

A expansão do enxerto parte de um enxerto total submetido ao expansor. Vale fixar o que é o equipamento, o que ele resolve no subcutâneo e onde está o gargalo do uso em equinos.

  • Expansão do enxerto: técnica em que se pega um enxerto total e se utiliza um expansor.
  • Expansor: equipamento com várias lâminas que faz pequenos cortes no tecido para que ele expanda.
  • Vantagem da expansão: não acumula líquido no subcutâneo, pois o líquido drena pelos orifícios.
  • Cobertura: usa se camada oclusiva por cima, que permite a passagem do líquido, e absorvente.
  • Expansor elétrico: versão motorizada, de custo alto.
  • Expansor laminar manual: versão manual, de acionamento por lâminas.
  • Uso em equinos: as técnicas com expansores de pele já estão descritas para o cavalo.
  • Maior limitação atual: o conhecimento, não o custo.

Enxerto em Pastilhas com Punch

A sequência do enxerto em pastilhas, do preparo do leito receptor até a inserção do fragmento — quase toda feita com o animal em pé.

  1. Indicação: o enxerto em pastilhas, também chamado de enxerto de punch, é a técnica mais utilizada. É a mais simples e pode ser realizada com o animal em pé.
  2. Reputação clínica: é uma opção bastante usada porque é bom, bonito e barato e porque pode ser feita com o animal em pé.
  3. Limitação: nos membros, há limitação para o enxerto total, principalmente sobre osso, e muitas vezes é necessário centro cirúrgico.
  4. Preparo do leito receptor: o procedimento inicia se com a limpeza da granulação, remoção do excesso e exposição do leito.
  5. Leito doador: geralmente a lateral das costelas, com tricotomia, limpeza e anestesia local.
  6. Coleta: usa se punch de 6 mm a 8 mm, e retiram se fragmentos de 8 mm.
  7. Conservação: os fragmentos são colocados em cuba com solução fisiológica para nutrição, evitando que ressequem.
  8. Punch receptor: no leito receptor, utiliza se punch de 6 mm, pois a pele retrai; se fosse usado punch de 8 mm, o enxerto ficaria solto.
  9. Confecção do orifício: fura se a granulação, puxa se com pinça e corta se com tesoura, formando um orifício no qual o enxerto é inserido justo.
  10. Detalhe intencional: a diferença de 2 mm é intencional — não é erro de escolha do instrumental.
  11. Vantagens: a facilidade da técnica, o equipamento barato e descartável (custo de cerca de 10 reais ) e o ganho de tempo na cicatrização.

Pega do Enxerto e Resultado Estético

A taxa de pega do enxerto em pastilhas é de cerca de 50%. Quando os enxertos pegam, eles crescem em círculo: cada ilha se expande até que os círculos se encontrem e a ferida feche. O ganho de tempo é grande — uma ferida que levaria cerca de 120 dias para debridar pode fechar em cerca de 60 dias com as pastilhas.

O resultado estético, porém, tem limites. O enxerto fica rosado, e não cresce pelo, exceto no local do punch, pois o folículo piloso permanece apenas onde foi feito o enxerto — por isso a área de proliferação epitelial fica rosada e sem pelo. Formam se tufos, e não se consegue alinhar o pelo, ficando aspecto semelhante a uma plantação de cebola; essa é uma limitação da técnica. O resultado estético não é muito bom, mas é melhor que a ferida fechando por completo.

Ainda assim, as vantagens sustentam o uso da técnica: a facilidade técnica, o equipamento barato e o ganho de tempo.

Curativo Inicial e Troca de Bandagem

Nos primeiros dias, o enxerto deve ser mantido com bandagem não aderente, como rayon ou ataduras superficiais, e não oclusiva, que permita respirar, preferencialmente em área de pouca mobilidade. Usa se pomada à base de neomicina, que contém vaselina e não deixa grudar.

A troca de bandagem é feita a cada três dias, com manipulação mínima por cima — não se troca no mesmo dia. Tocar o mínimo possível preserva o enxerto recém colocado.

Atenção na retirada: na hora de retirar a bandagem, é preciso umedecer antes com solução fisiológica para não grudar. Ao retirar a bandagem, se for rayon, deve se umedecer com solução fisiológica para não grudar — pois, se o curativo não for umedecido, normalmente mata se o enxerto na retirada.

Sangramento do Leito Antes do Enxerto

Se o leito receptor estiver sangrando, o sangue empurra o enxerto para fora — por isso não se assenta o enxerto sobre leito sangrante. Se houver sangramento no orifício, deve se esperar de 15 a 20 minutos com cotonetes até parar, pois o sangue empurra o enxerto para fora.

Nessa técnica, esterilizam se vários cotonetes cortados no meio para controlar o sangramento do leito. Normalmente, aguardar de 15 a 20 minutos é suficiente para o sangramento do leito parar antes de colocar o enxerto.

Anestesia no Leito Doador e Receptor

O tecido de granulação normalmente não tem inervação, exceto se for muito velho. Por isso o procedimento não dói no leito receptor: o tecido de granulação em equinos não dói à manipulação.

Assim, no enxerto em equinos, o local doador precisa ser anestesiado, enquanto o local receptor normalmente precisa apenas de sedação. Essa assimetria é o que permite conduzir boa parte desses casos com o animal em pé.

E o custo pesa: a cirurgia com anestesia geral acrescenta cerca de 3 mil reais ao custo em relação ao procedimento em pé.

Considerações Finais e Terapias Complementares

Laser, Ozônio e Células Tronco

O tema de feridas é amplo — existe livro específico sobre feridas com mais de 200 páginas — e novas terapias alternativas surgem o tempo todo, como laser, ozônio, células tronco e plasma rico em plaquetas. Duas delas merecem destaque prático: existe indicação para fazer laser no tratamento de feridas em equinos, e o ozônio é útil localmente para descontaminação de feridas, não por via retal ou endovenosa.

Vale entender por que tantos produtos aparecem no mercado: a indústria tem interesse em pesquisas sobre feridas porque os estudos são fáceis, rápidos e de baixo custo, o que permite levar produtos rapidamente ao mercado. O reflexo chega à rotina — em qualquer farmácia veterinária, muitas vezes faltam antibióticos, mas há grande quantidade de pomadas.

Corticoides Escondidos em Pomadas

Pomadas com repelentes são interessantes em grandes animais, mas só rendem resultado se você souber exatamente o que está aplicando. Deve se verificar qual produto é utilizado, pois alguns são mais tóxicos que outros; geralmente os piretroides são menos agressivos.

O ponto crítico é a composição: é importante conhecer a composição das pomadas, pois muitas contêm corticosteroides, que podem atrapalhar a cicatrização. Se a ferida não evolui e ninguém sabe por quê, verifique se há corticoide na formulação.

O profissional deve saber o que está usando e não indicar produtos apenas por marketing ou brindes.

Manejo Básico Diferencia Profissionais

O manejo de feridas é rotina diária na clínica de equinos, e por isso mesmo exige domínio do essencial. O aparelho locomotor representa cerca de 50% dos casos, e as feridas são frequentes nesse contexto, porque o cavalo se corta muito.

Muitas feridas são mal manejadas, com condutas incorretas, mesmo quando há intenção de ajudar. A diferença entre um tratamento que dá certo e outro que dá errado é, muitas vezes, mínima: um atrapalha, enquanto o outro apenas permite que a ferida siga seu fluxo natural e ajuda no que é necessário.

Por isso, o básico deve ser seguido, pois, apesar de o assunto ser simples, ele diferencia profissionais. Erros podem ocorrer, mas não se pode errar no básico.

Expansores de Silicone em Equinos

O uso de expansores de silicone é uma opção pouco comentada. O expansor é implantado e inflado diariamente com pequena quantidade, promovendo excesso de pele; depois, retira se o expansor e realiza se a cirurgia. A ideia é ganhar pele em excesso antes de operar, estratégia muito usada em cirurgia plástica e em reconstrução mamária.

Antigamente era caro, mas atualmente não é tão caro devido à maior produção. O implante exige técnica asséptica.

Essas técnicas já estão descritas para equinos, mas são pouco utilizadas, em parte porque se pensa de forma limitada. A maior limitação não é o custo, mas o conhecimento.

Reflexão Sion

Curar não é calar a dor

Bloquear totalmente a inflamação impede a cicatrização: o corpo precisa dessa resposta para limpar e reconstruir, e o certo é modular, não desligar. O mesmo vale para nós — dá para calar a dor sem nunca tratar a ferida, e muita gente passa anos sentindo menos sem estar curada. Jesus não age como anestésico: Ele entra na ferida aberta, limpa o que precisa ser limpo e reconstrói por dentro, no ritmo de quem sara de verdade.

Ele sara os que têm o coração quebrantado e trata das suas feridas.Salmos 147:3

Leia o Salmo 147 inteiro hoje e repare no versículo 3.

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