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Aula 10 Doença de Newcastle
A conversão do RNA organiza o ciclo replicativo em uma sequência essencial: converter, copiar e acumular material genômico.
Topicos da aula
- Doença de Newcastle
Overview
Linha do tempo, patogenia e controle
A doença de Newcastle é uma enfermidade viral de grande importância econômica, com circulação mundial, múltiplos hospedeiros e manifestações que variam de formas assintomáticas a quadros altamente letais. Sua compreensão exige integrar a linha do tempo epidemiológica, a estrutura e a replicação do vírus, os critérios de virulência, o tropismo por diferentes tecidos e a relação entre sinais, lesões e amostras diagnósticas. No Brasil, a trajetória passa pela introdução do agente, pela expansão da forma viscerotrópica, pela redução dos focos após o PNSA e pelo episódio controlado de 2024. A vigilância, a vacinação e as medidas de contenção completam a estratégia de controle sanitário.
Importância e histórico
Impacto econômico e risco zoonótico
A doença de Newcastle é uma enfermidade viral de grande importância para a produção avícola. Seu risco zoonótico é distinto daquele observado na influenza, embora a infecção humana seja rara. A transmissão para seres humanos pode ocorrer diretamente a partir de aves doentes ou de materiais contaminados; em humanos, pode causar conjuntivite.
Além do aspecto sanitário, a doença produz impacto econômico expressivo na criação animal e é citada como uma das enfermidades de maior relevância econômica dentro da produção animal.
Primeiros relatos da panzootia
A doença foi reconhecida quase simultaneamente em dois locais distintos: em Java, na Indonésia, e na cidade de Newcastle, na Inglaterra. Os registros ocorreram em 1926 e 1927, respectivamente, e o nome da enfermidade foi associado à cidade inglesa. Os pesquisadores observaram aves com sinais clínicos semelhantes e mortalidade elevada.
Posteriormente, identificou se o agente viral responsável, denominado vírus da doença de Newcastle. Os surtos de 1926 e 1927 marcaram a primeira panzootia da Doença de Newcastle, caracterizada pela disseminação da doença para outros países do mundo.
Segunda onda de disseminação
Desde o surgimento da doença, os autores dividiram sua disseminação histórica em quatro panzootias. A segunda ocorreu durante o início do comércio mais industrializado de aves, iniciado no Oriente Médio, embora ainda não se tratasse predominantemente de produção de subsistência.
Descrita entre 1970 e 1973, essa panzootia durou aproximadamente dez anos. Alguns autores relacionam esse período à grande circulação de aves ornamentais, especialmente papagaios e periquitos.
Pombos e a terceira panzootia
A terceira panzootia da Doença de Newcastle também teve origem no Oriente Médio e teve início em 1980. Sua difusão esteve associada à criação, ao transporte e às corridas de pombos. A criação de pombos correio tornou se popular, e esses animais percorriam grandes distâncias, o que foi considerado uma possível causa da ampliação da disseminação viral.
Posteriormente, a circulação alcançou pombos comuns e pombos silvestres. A introdução do vírus em pombos de vida livre marcou o início da quarta panzootia da Doença de Newcastle.
Ração contaminada e circulação global
Em 1984, foram registrados aproximadamente vinte surtos curtos na Inglaterra, posteriormente relacionados à contaminação da ração de galinhas por fezes de pombos. A fotografia associada ao episódio foi obtida em Liverpool e mostrava uma fábrica de ração. Como o produto foi distribuído para diferentes locais, a investigação identificou, entre 23 surtos, 22 associados a uma variedade de pombos.
Na Inglaterra, 22 dos 23 surtos investigados foram decorrentes de uma variante do vírus adaptada a pombos. Esses achados reforçaram a hipótese de que os pombos contribuíram para a disseminação da doença. A quarta panzootia permanece vigente, com circulação mundial.
Histórico no Brasil
Entrada do vírus no Brasil
O primeiro relato da doença no Brasil ocorreu em 1953. A introdução do vírus da Doença de Newcastle no Brasil é atribuída à importação de carcaças de aves congeladas dos Estados Unidos. A presença do agente viral foi confirmada em 1955, dois anos após o primeiro relato, quando também foi obtido o isolamento viral confirmatório.
Durante esse período, foram observados alguns casos, embora a maior expansão da enfermidade tenha ocorrido posteriormente.
Expansão viscerotrópica na avicultura
A forma viscerotrópica da Doença de Newcastle foi introduzida no Brasil em 1970, em um período de crescimento da avicultura industrial e de aumento das criações comerciais. Trata se de uma das apresentações mais graves da doença, associada a mortalidade elevada.
Entre 1970 e 1975, foram registrados muitos casos, totalizando quase 1.400 ocorrências em cinco anos. Embora tenham sido controlados, diversos focos continuaram sendo observados durante esse intervalo.
PNSA e redução dos focos
Em 1994, o Brasil investiu fortemente em biosseguridade com a criação do Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA). Entre seus objetivos está o controle de enfermidades de grande importância econômica e capazes de produzir prejuízos relevantes à agricultura. Após a criação do programa, o número de casos diminuiu progressivamente.
Em 2003, o Brasil foi declarado livre da doença relacionada à produção avícola industrial. Em 2006, ocorreram os últimos focos registrados em aves de subsistência, nos estados do Amazonas e do Rio Grande do Sul.
Foco de Anta Gorda em 2024
Em 2024, foi confirmado um foco no Rio Grande do Sul, na cidade de Anta Gorda. Tratou se de um único foco, controlado rapidamente, mas que resultou no registro temporário da doença. O Ministério da Agricultura e os laboratórios federais conduziram o procedimento com rapidez.
Em julho, foi declarada a emergência sanitária. Aproximadamente um mês depois, em agosto, o país recuperou o status de livre da doença, após as confirmações necessárias e a ausência de novos focos. No episódio brasileiro de 2024, a emergência zoossanitária declarada em julho foi encerrada em agosto, restabelecendo o status sanitário de livre.
Frio e persistência viral no Brasil
A entrada presumida do vírus no Brasil por meio de carcaças de aves congeladas destaca a importância de sua persistência ambiental. O agente pode permanecer por períodos prolongados em materiais congelados e no ambiente, apresentando alta resistência e viabilidade prolongada em temperaturas baixas e em produtos congelados.
Entre aproximadamente 1970 e 1975 e até aproximadamente 1994 ou 1995, a doença esteve presente em todos os estados brasileiros. Para mudar esse cenário, o país investiu significativamente em biosseguridade e controle sanitário, com vários anos de esforço para eliminar e controlar os focos.
Agente etiológico e replicação viral
Estrutura do paramixovírus aviário
A Doença de Newcastle é causada pelo paramixovírus aviário do tipo 1, pertencente à família Paramyxoviridae, à subfamília Avulavirinae e ao gênero Orthoavulavirus. Trata se de um vírus de RNA de fita simples, não segmentado e envelopado.
O agente apresenta seis proteínas estruturais, cada uma associada a uma função no ciclo de vida viral. Entre elas, destacam se a hemaglutinina neuraminidase, a proteína de fusão e a proteína de matriz.
Ligação, fusão e entrada celular
A entrada na célula começa quando a hemaglutinina neuraminidase se liga aos receptores presentes na célula do hospedeiro. Em seguida, a proteína de fusão promove a fusão entre o envelope viral e a membrana celular.
Esse processo permite a entrada do nucleocapsídeo, que transporta o material genético viral para o interior da célula. A partir desse momento, iniciam se simultaneamente a replicação do material genético e a produção das proteínas virais.
Conversão e cópia do RNA
A conversão do RNA organiza o ciclo replicativo em uma sequência essencial: converter, copiar e acumular material genômico.
- Etapa: O ciclo de replicação viral dura aproximadamente 14 a 30 horas, embora, em sistemas mais virulentos, já tenha sido descrito período de aproximadamente dez horas.
- Etapa: O RNA genômico apresenta polaridade negativa e não pode ser utilizado diretamente para produzir novas cópias. A transcriptase viral converte esse RNA em RNA antigenômico de polaridade positiva.
- Etapa: A partir do RNA positivo, são produzidas novas moléculas negativas e, posteriormente, novas moléculas positivas, permitindo a formação de material genômico suficiente.
Montagem e brotamento viral
Depois da síntese do material viral, a sequência passa pela maturação das proteínas, montagem das partículas e liberação para infectar outras células.
- Etapa: Ao mesmo tempo em que ocorre a replicação genômica, a transcriptase produz RNA mensageiro para a síntese das proteínas virais.
- Etapa: As proteínas hemaglutinina neuraminidase e de fusão passam pelo retículo endoplasmático e pelo complexo de Golgi.
- Etapa: No complexo de Golgi, a proteína de fusão é clivada em F1 e F2, processo importante para a definição da patogenicidade da cepa.
- Etapa: Na membrana celular da célula hospedeira, a proteína de matriz (M) é responsável por associar os componentes virais replicados e formar novas partículas virais, cuja liberação ocorre por brotamento; essas partículas infectam outras células.
Sobrevivência ambiental e inativação
O vírus pode sobreviver por períodos prolongados em determinados materiais, especialmente quando congelados, na água e no ambiente. Entretanto, por ser envelopado, pode ser inativado e desnaturado com relativa facilidade por alguns procedimentos. Entre os métodos mencionados estão o uso de desinfetantes, incluindo compostos à base de formaldeído, e métodos físicos, como a aplicação de temperatura.
Na carne de frango, a inativação depende da relação entre temperatura e tempo de cozimento: quanto maior a temperatura, menor o tempo necessário. Especificamente, o vírus da Doença de Newcastle na carne de frango é inativado a 80 °C em cerca de três segundos.
Classificação da virulência
Classes virais e relevância clínica
- Classes virais: O gênero viral é dividido em duas classes.
- Classe 1: A classe 1 do gênero Orthoavulavirus possui apenas um genótipo, caracteriza se por baixa virulência e acomete principalmente aves aquáticas, estando associada a menor importância clínica.
- Classe 2: A classe 2 é a mais relevante para as aves domésticas e contém mais de 20 genótipos, dos quais aproximadamente três ou quatro são mais conhecidos.
- Virulência da Classe 2: As cepas dessa classe podem apresentar alta virulência e causar doença grave em aves domésticas.
IPIC: teste e ponto de corte
A Organização Mundial de Saúde Animal utiliza dois critérios para avaliar a virulência viral, e essa avaliação inclui a determinação do Índice de Patogenicidade Intracerebral (IPIC). Nesse teste, o vírus é injetado por via intracerebral em pintinhos de um dia, geralmente dez animais, observados durante oito dias. Diariamente, cada ave recebe uma graduação: zero para ausência de sinais clínicos, um para presença de sinais e dois para morte. As avaliações são somadas e divididas pelo total de observações; para esse critério, o IPIC deve ser igual ou superior a 0,7 para o vírus ser classificado como virulento.
Cálculo seriado do IPIC
No cálculo do IPIC, uma ave que morre no primeiro dia continua sendo contabilizada durante todos os oito dias previstos. Ela continua sendo computada com escore 2 em todos os dias subsequentes até o oitavo dia, de modo que cada animal permaneça representado nas avaliações correspondentes ao período completo.
O cálculo final divide a soma total dos escores diários pelo total de avaliações. Considerando se, por exemplo, a soma total de 56 pontos em 80 avaliações, o resultado será 0,7. Para que o vírus seja considerado patogênico segundo esse índice, o valor deve ser igual ou superior a 0,7, um limite frequentemente cobrado em provas.
Critério molecular de virulência
O segundo critério de virulência está relacionado ao local de clivagem da proteína de fusão. Após a separação em F1 e F2, avalia se a sequência entre os resíduos 113 e 116 da proteína F1. A presença de pelo menos três resíduos de arginina ou lisina entre os resíduos 113 e 116 caracteriza a cepa como virulenta.
Na proteína F2, a presença de fenilalanina na posição 117 não é considerada compatível com a mesma classificação de alta virulência. Esses critérios são utilizados para definir a patogenicidade da cepa.
Hospedeiros e epidemiologia
Aves suscetíveis e transmissão
A doença já foi descrita em mais de 250 espécies de aves, mostrando a amplitude de seus hospedeiros. As galinhas são altamente suscetíveis, enquanto os perus também podem desenvolver a enfermidade, embora a evolução possa ser menos aguda. Marrecos, gansos, aves ornamentais, pombos, periquitos, perdizes e codornas também participam da epidemiologia; em algumas dessas espécies, a doença é mais branda, mas ainda pode haver transmissão do vírus para galinhas e outras aves suscetíveis.
Portadores sem sinais clínicos
Algumas aves são refratárias à manifestação clínica, mas permanecem epidemiologicamente importantes porque podem adquirir e eliminar o vírus. Entre as espécies mencionadas estão marrecos, Agapornis, periquito australiano, perdizes e codornas. Essas aves podem permanecer portadoras por período prolongado sem apresentar sinais clínicos, tornando se fontes silenciosas de infecção. Essa condição dificulta o controle em zoológicos, criações de subsistência e locais onde várias espécies convivem.
Rotas horizontais e migratórias
A transmissão ocorre horizontalmente por contato direto e por secreções respiratórias e excretas. Água, ração, botas, veículos, equipamentos e outros materiais que entram em contato com secreções de aves podem atuar como meios de transmissão, funcionando como fômites. As aves migratórias também podem introduzir o vírus em diferentes regiões, conectando áreas da América, do Oriente Médio, da Europa e dos Estados Unidos ao restante do continente. A Doença de Newcastle tem potencial para ocorrência de focos em todo o mundo, com exceção da Antártida.
Formas clínicas e lesões
Cinco patotipos e gravidade
O vírus apresenta tropismo pelos sistemas respiratório, nervoso, gastrointestinal e reprodutivo. A manifestação clínica varia conforme a cepa, a idade e o estado imunológico da ave. A doença pode ser dividida em cinco patotipos: viscerotrópico velogênico, neurotrópico velogênico, mesogênico, lentogênico e assintomático. Essa classificação também pode ser expressa como velogênico viscerotrópico, velogênico neurotrópico, mesogênico, lentogênico e assintomático entérico.
As formas velogênicas, viscerotrópica e neurotrópica, são as altamente patogênicas. Essas formas são graves e ocasionam lesões agudas e letais. A classificação é principalmente didática, pois, na prática, diferentes manifestações podem ocorrer simultaneamente.
Lesões da forma viscerotrópica
A forma viscerotrópica velogênica provoca doença aguda e letal, com mortalidade elevada. Pode causar apatia, prostração, hemorragias e edema, especialmente em olhos e cabeça. Também podem ser observadas áreas hemorrágicas em diferentes órgãos, diarreia esverdeada e alterações viscerais intensas.
A gravidade da apresentação está relacionada à elevada patogenicidade da cepa, o que ajuda a compreender a intensidade dos sinais sistêmicos e das alterações viscerais.
Sinais neurológicos velogênicos
A forma neurotrópica velogênica também apresenta mortalidade elevada e pode produzir sinais respiratórios associados a alterações neurológicas. Essa forma causa alta mortalidade e sinais neurológicos, incluindo torcicolo, opistótono e paralisia de asas e pernas; também pode ocorrer paralisia ou paresia das pernas.
As manifestações neurológicas podem coexistir com edema de cabeça, hemorragias e sinais de comprometimento sistêmico. A ocorrência simultânea de sinais respiratórios, neurológicos e viscerais é possível nas cepas de maior patogenicidade.
Gradiente clínico das formas leves
A forma mesogênica é menos grave e pode permitir evolução mais prolongada, porque as aves não morrem tão rapidamente. A forma mesogênica apresenta virulência intermediária e manifesta principalmente sinais respiratórios. Pode ocorrer queda na produção de ovos, com eliminação de ovos deformados.
A forma lentogênica é quase assintomática, embora possa causar sinais digestórios e respiratórios. As vacinas utilizadas no Brasil são produzidas com cepas lentogênicas. Vacinas de cepas mesogênicas existem, mas são proibidas no Brasil por serem consideradas fortes.
Achados histopatológicos complementares
No cérebro e no cerebelo, podem ser observados infiltrado celular, necrose de células de Purkinje e gliose. A gliose consiste no acúmulo de células da glia no sistema nervoso central, em um processo associado à resposta do sistema nervoso.
Na traqueia, podem ocorrer descamação, descilição e congestão tecidual. Essas alterações microscópicas complementam os achados clínicos e macroscópicos e devem ser interpretadas em conjunto com a patogenia e os resultados laboratoriais.
Patogenia
Tropismo endotelial e respiratório
As células endoteliais revestem os vasos sanguíneos e podem ser altamente suscetíveis à invasão e à replicação viral. Por esse tropismo, o vírus da Doença de Newcastle e o vírus da Influenza Aviária causam lesões semelhantes, como traqueíte e hemorragias pulmonares, devido ao tropismo pelas células endoteliais dos vasos sanguíneos.
O vírus também apresenta tropismo importante pelas células do epitélio respiratório, nas quais se replica com eficiência. Por isso, a traqueia é uma estrutura relevante na avaliação das aves.
Disseminação gastrointestinal e nervosa
Nas aves, o vírus da Doença de Newcastle replica se intensamente nas células do trato gastrointestinal, gerando mucosa intestinal hemorrágica e lesões no proventrículo. O tropismo pelo tecido nervoso justifica as lesões observadas no cérebro e no cerebelo.
A disseminação para diferentes tecidos pode ocorrer por meio de macrófagos, que transportam o vírus pela circulação. Os tecidos linfoides das aves também são suscetíveis à infecção pelo vírus da Doença de Newcastle. Embora quase todos os tecidos possam ser suscetíveis, a distribuição não é absolutamente generalizada como na influenza.
Amostras guiadas pela patogenia
Da patogenia à escolha da amostra
A compreensão da patogenia permite relacionar os sinais clínicos às alterações macroscópicas e microscópicas e orienta a escolha das amostras. Como o vírus é eliminado por secreções respiratórias, essas secreções são relevantes em aves vivas.
Em aves mortas, podem ser utilizados o sistema nervoso central, o cérebro, o intestino, a traqueia e os pulmões. A avaliação dos tecidos mais suscetíveis é essencial para aumentar a possibilidade de detecção do agente.
Diagnóstico
Amostras e métodos confirmatórios
A confirmação depende do tipo de ave e da suspeita clínica: primeiro, escolha a amostra adequada; depois, aplique o método laboratorial de rotina.
- Confirmação laboratorial: O diagnóstico da doença de Newcastle deve ser confirmado por laboratório.
- Métodos laboratoriais de rotina: Entre os métodos laboratoriais utilizados na rotina estão a inibição da hemaglutinação, o ELISA e a reação em cadeia da polimerase em tempo real.
- Aves vivas: Em aves vivas, podem ser coletadas amostras de secreção ou swabs traqueais.
- Aves mortas: Em aves mortas, podem ser utilizados tecidos do sistema nervoso central, cérebro, cerebelo, intestino, traqueia e pulmão, especialmente quando predominam sinais respiratórios, nervosos ou entéricos.
- PCR em tempo real: Pode ser realizado em amostras colhidas tanto de aves vivas quanto de aves mortas.
Como funciona a hemaglutinação
A hemaglutinina viral liga se aos receptores das células hospedeiras e produz hemaglutinação. Na prova de inibição da hemaglutinação, adiciona se previamente um anticorpo contra a hemaglutinina. O anticorpo compete com o receptor celular e impede a ligação do vírus às células, bloqueando a aglutinação.
Esse resultado indica a presença de anticorpos específicos. A técnica é considerada método padrão ouro para monitoramento da resposta vacinal; porém, não confirma isoladamente a infecção em aves vacinadas.
Sorologia não confirma infecção
Atenção: a inibição da hemaglutinação e o teste de ELISA são utilizados principalmente no monitoramento dos plantéis. Como as aves são vacinadas, uma amostra sérica positiva pode refletir resposta vacinal, e não infecção natural; por isso, o diagnóstico confirmatório em situações de suspeita depende da detecção do agente, especialmente por PCR e isolamento viral. A sorologia possui maior utilidade em aves não vacinadas, como aquelas provenientes de criações de subsistência.
Diferenciais respiratórios e hemorrágicos
Os diagnósticos diferenciais combinam sinais respiratórios e lesões hemorrágicas; a diferenciação depende da avaliação clínica e da confirmação laboratorial.
- Influenza aviária: O diagnóstico diferencial inclui a influenza aviária, especialmente porque ambas podem causar sinais clínicos e lesões hemorrágicas semelhantes.
- Bronquite infecciosa: Deve ser considerada por sua associação com sinais respiratórios e entra no diagnóstico diferencial com outras doenças respiratórias.
- Outras enfermidades respiratórias: Também devem ser consideradas hipoplasia, micoplasmose e traqueíte.
- Micoplasmose aviária e laringotraqueíte infecciosa: Nesse contexto, a micoplasmose aviária e a laringotraqueíte infecciosa também entram como diagnósticos diferenciais de doenças respiratórias de aves.
- Diferenciação: Exige avaliação clínica, necropsia, coleta adequada de amostras e confirmação por métodos laboratoriais.
Vigilância e planos sanitários
Triagem ativa e encaminhamento
A vigilância ativa acompanha o status sanitário por uma sequência planejada de coleta, triagem e encaminhamento.
- Etapa: A vigilância ativa é realizada sem suspeita clínica específica, conforme previsto na legislação, para confirmar a manutenção do status sanitário.
- Etapa: Em aves comerciais, são coletadas amostras para PCR; entre elas, podem estar swabs de traqueia e cloaca, além de outras secreções.
- Etapa: Na vigilância ativa de granjas avícolas, realiza se a coleta de amostras agrupadas ( pool ).
- Etapa: Em aves de subsistência, que geralmente não são vacinadas, podem ser utilizados ELISA e inibição da hemaglutinação.
- Etapa: Caso algum resultado seja positivo, a investigação não deve continuar no laboratório local. Amostras positivas na triagem diagnóstica são encaminhadas diretamente ao Laboratório Federal em Campinas para processamento.
Suspeita e resposta oficial
Na presença de suspeita, o fluxo muda: a notificação, a coleta e o processamento seguem diretamente a resposta oficial.
- Etapa: A vigilância passiva inicia se quando existe suspeita da doença, incluindo suspeita de doença de notificação obrigatória.
- Etapa: Na ocorrência de suspeita da doença, procede se diretamente ao PCR.
- Etapa: A notificação é encaminhada diretamente ao serviço veterinário oficial e ao laboratório federal responsável; o serviço veterinário estadual pode participar da notificação inicial e da coleta.
- Etapa: Em casos de vigilância passiva por suspeita da doença, cabe ao Serviço Veterinário Oficial (Ministério da Agricultura e Pecuária) comparecer à granja para a colheita das amostras.
- Etapa: As amostras não devem ser processadas em laboratórios locais quando já existe suspeita de doença de notificação obrigatória.
- Etapa: As amostras recolhidas pelo Serviço Veterinário Oficial devem ser enviadas a Campinas, para laboratório com maior nível de biossegurança, exigido para o isolamento viral e o processamento das amostras positivas; nesse laboratório, também será realizado o sequenciamento.
Fluxo do programa sanitário nacional
O PNSA organiza a resposta sanitária em uma sequência institucional, da notificação às medidas de controle.
- Etapa: O Brasil dispõe do Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA), como estratégia para o controle e a erradicação de enfermidades avícolas.
- Etapa: O programa nacional de sanidade avícola funciona como estratégia de controle e prevenção da doença, com planos de vigilância e contingência.
- Etapa: Nos planos de contingência, essas etapas abrangem a notificação e a colheita de material, o isolamento da granja, o estabelecimento de zonas de foco e perifoco e a destruição de materiais.
- Etapa: O plano apresenta procedimentos detalhados para o controle da enfermidade e para a manutenção da segurança sanitária nacional.
Vacinação
Objetivos e alcance vacinal
No Brasil, a vacinação contra a doença de Newcastle é obrigatória, enquanto a vacinação contra a influenza aviária não é permitida. Por isso, a doença de Newcastle não é considerada exótica no país, ao contrário da influenza aviária.
Na avicultura industrial, a vacinação é realizada rotineiramente para proteger os plantéis e reduzir a transmissão. Há vacina destinada a galinhas de produção comercial, incluindo aves de postura e de corte; o programa não abrange espécies alternativas, aves silvestres ou aves refratárias.
Comparação entre cepas atenuadas
Entre as cepas vacinais atenuadas, a Ulster 2C induz a menor resposta vacinal e os menores títulos de anticorpos. Em contraste, a LaSota promove resposta imunológica mais intensa e gera títulos de anticorpos maiores do que os da B1.
Essa vantagem imunológica da LaSota vem acompanhada de uma ressalva: por ser mais virulenta, ela apresenta maior probabilidade de causar reação vacinal.
Modalidades e vias de aplicação
As vacinas recombinantes para aves podem ser administradas in ovo. Para aves de vida longa, como poedeiras e reprodutoras ou matrizes, indicam se vacinas inativadas com adjuvante oleoso.
Essas vacinas são aplicadas por via subcutânea ou intramuscular. Nessa formulação, o adjuvante potencializa e melhora a resposta imunológica.
Cepas vivas e vias de aplicação
As vacinas vivas atenuadas utilizam cepas lentogênicas com diferenças de aplicação e reatividade.
- Principais cepas: Essas são as principais cepas lentogênicas utilizadas em vacinas vivas atenuadas contra a Doença de Newcastle: B1, La Sota e Ulster 2C.
- B1: A B1 é frequentemente utilizada em pintinhos com um dia de idade ou até sete dias, principalmente pelas vias ocular ou oral.
- La Sota: Pode ser administrada pelas vias ocular ou oral e apresenta maior possibilidade de reação vacinal do que as demais, por ser considerada um pouco mais forte.
- Aplicação da LaSota: A vacina com a cepa LaSota também pode ser administrada por via ocular ou em gota, utilizando se corante azul para verificar a correta ingestão ou absorção da vacina.
- Ulster 2C: Continua sendo utilizada, embora menos do que anteriormente.
Proteção inativada e recombinante
As vacinas inativadas são utilizadas principalmente em aves de ciclo mais longo e em criações de subsistência, pois estão relacionadas à necessidade de proteção prolongada. Contêm adjuvante para melhorar a resposta imune e devem ser administradas por via subcutânea ou intramuscular. A cepa La Sota inativada é a principal formulação mencionada.
As vacinas recombinantes são produzidas em ovos. Já as vacinas inativadas não são utilizadas em frangos de corte, permanecendo associadas principalmente a aves de subsistência e a criações de ciclo mais longo.
Resposta vacinal em espécies refratárias
Testes com vacinas destinadas à avicultura industrial em outras espécies demonstraram produção de anticorpos, embora as aves refratárias à doença clínica apresentassem títulos menores do que os observados em galinhas. Portanto, a vacinação dessas espécies pode ser avaliada experimentalmente, mas a resposta tende a ser inferior.
Não existe uma vacina específica contra a doença de Newcastle para todas as espécies, como marrecos, perdizes e codornas. Mesmo quando uma ave pode desenvolver a doença sem morrer, a vacinação permanece relacionada ao controle da transmissão e à proteção do plantel.
Medidas de controle
Eliminação das aves e materiais
A resposta ao foco começa pela eliminação das aves e dos materiais potencialmente contaminados.
- Etapa: Na ocorrência de um foco, deve ser realizado o sacrifício sanitário.
- Etapa: Os planos de contingência regulamentam os métodos permitidos de atordoamento das aves para o procedimento de eutanásia ou abate sanitário.
- Etapa: Todas as aves presentes na granja que tenham sido expostas ou estejam dentro da área de foco devem ser eliminadas, e as aves sacrificadas também devem ser destruídas.
- Etapa: Devem ser eliminados ainda a ração, a cama, a água e os demais materiais existentes na granja, pois podem manter o vírus e favorecer sua disseminação.
Emergência e bloqueio da granja
Com o foco identificado, a granja é bloqueada e a liberação depende da comprovação sanitária.
- Etapa: A ocorrência de foco determina estado de emergência sanitária e restrição do comércio interno e externo.
- Etapa: As aves provenientes do foco não podem ser comercializadas, assim como sua carne, devido à restrição do comércio interno e externo.
- Etapa: Nada deve entrar ou sair da granja suspeita ou afetada até a conclusão dos procedimentos sanitários.
- Etapa: Os materiais devem ser tratados e incinerados ou enterrados dentro da própria granja, conforme o procedimento estabelecido.
- Etapa: Exames periódicos são necessários para comprovar a ausência da doença e permitir a retirada do estado de emergência sanitária.
Vazio sanitário e reintrodução
Depois do vazio sanitário, a reintrodução deve ser gradual e monitorada com aves sentinelas.
- Etapa: Após a eliminação das aves e a desinfecção, a granja deve permanecer em vazio sanitário.
- Etapa: Foram mencionados períodos mínimos de três a quatro semanas e, em outro contexto, de 60 a 90 dias antes da reintrodução; as primeiras aves introduzidas devem ser aves SPF.
- Etapa: O repovoamento deve ocorrer lentamente, com divisão do galpão em áreas ou etapas.
- Etapa: As primeiras aves introduzidas devem ser aves SPF, livres de patógenos específicos, não vacinadas e sem doenças conhecidas, por apresentarem elevada suscetibilidade e funcionarem como sentinelas.
- Etapa: Essas aves nunca foram vacinadas e não apresentam anticorpos nem doenças, atuando como aves sentinelas altamente suscetíveis à infecção.
Sentinelas e retomada produtiva
A retomada ocorre de forma gradual: a resposta das aves SPF orienta a decisão sobre a continuidade do repovoamento e o retorno da produção.
- Etapa: Introduzir aves SPF como sentinelas para avaliar a persistência do vírus no galpão.
- Etapa: Se as aves SPF morrerem após a introdução, considerar a possibilidade de persistência do vírus e realizar nova desinfecção.
- Etapa: Se permanecerem vivas, ampliar progressivamente a área ocupada e introduzir mais aves.
- Etapa: Somente após essa etapa, reintroduzir as aves industriais.
- Etapa: Monitorar continuamente o plantel.
- Etapa: Na ausência de mortalidade e de evidências de circulação viral, retomar a produção; o retorno completo pode levar, em média, quatro meses.
Notificações sanitárias
Consulta aos sistemas oficiais
Os sistemas oficiais de notificação permitem consultar focos, declarações sanitárias e atualizações epidemiológicas. A pesquisa pode ser filtrada por doença, país e espécie, e a plataforma reúne notificações de diferentes enfermidades e espécies, com informações sobre o local do foco, os exames realizados e o controle do estado sanitário.
O site da Organização Mundial de Saúde Animal disponibiliza notificações de doenças de todas as espécies de animais. Também permite visualizar mapas com a situação atual da doença em cada país e registros de áreas livres. Para obter a declaração de país livre da doença, o Ministério da Agricultura e Pecuária precisava enviar à Organização Mundial de Saúde Animal comprovação de exames negativos a cada 7 dias.
Reflexão Sion
O que guardamos
Na doença de Newcastle, materiais contaminados e congelados podem manter o vírus, enquanto vigilância, vacinação e controle rápido reduzem sua disseminação. Assim como a biosseguridade exige atenção ao que entra e circula no plantel, também precisamos discernir o que permitimos permanecer em nosso interior. Jesus oferece esperança e transformação para quem se volta a ele com sinceridade.
Sobre tudo o que se deve guardar, guarde o seu coração, pois dele procedem as fontes da vida.Provérbios 4:23
Leia e reflita: o que tem circulado dentro de você?