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Doença Infecciosa da Bursa de Fabricius
As doenças infecciosas apresentam órgãos alvo específicos no organismo do hospedeiro. O diagnóstico de enfermidades em um plantel avícola exige a amostragem de aves vivas e de aves mortas por meio de necropsia. A escolha da amostra depende da suspeita clínica e do órgão alvo.
Topicos da aula
- Doença de Gumboro
Overview
Mapa diagnóstico e sanitário
Esta aula apresenta um mapa diagnóstico e sanitário da Doença de Gumboro, conectando agente etiológico, epidemiologia, patogenia, formas clínicas, lesões, diagnóstico e controle. O percurso começa pela investigação do lote, considerando idade, mortalidade, resposta vacinal e situação sanitária, e avança para a escolha da amostra e do método mais adequados. Quando há uma ave morta disponível, a bursa de Fabricius deve ser priorizada para confirmação e caracterização molecular. A interpretação também exige diferenciar cepas, reconhecer a imunossupressão e seus impactos produtivos, e integrar vacinação, biosseguridade, limpeza, desinfecção e notificação às decisões sanitárias. Assim, o diagnóstico orienta medidas coletivas para interromper a disseminação e proteger o desempenho do plantel.
Introdução, epidemiologia e diagnóstico geral
Escopo da investigação aviária
O estudo sistematizado das doenças aviárias deve seguir um roteiro que abranja o agente etiológico, a fonte de infecção, as vias de eliminação e transmissão, a porta de entrada, a patogenia, os sinais clínicos, o diagnóstico, a prevenção e o controle. A epidemiologia permite identificar a origem da infecção, enquanto a patogenia explica as alterações fisiológicas produzidas pelo agente. Os sinais clínicos representam manifestações observáveis dessas alterações. A Salmonella é uma bactéria causadora de doença de grande importância na avicultura comercial; no Brasil, o primeiro isolamento do vírus da Doença de Gumboro ocorreu no final dos anos 1970.
A investigação inicial combina a anamnese, a observação do lote, a necropsia e a observação da situação sanitária na granja. Entretanto, algumas doenças podem causar morte rápida, em 24 ou 48 horas, sem sinais clínicos evidentes. Em determinadas doenças aviárias, a patogenia manifesta se por meio de hemorragia generalizada pelo organismo e pelos órgãos.
Em surtos de alta patogenicidade como a influenza aviária, a mortalidade em galpões avícolas pode atingir 100% das aves em 24 horas. Por isso, a ausência de sinais clínicos prévios não exclui um processo grave, e a integração entre anamnese, observação do lote e necropsia orienta o diagnóstico de doenças em aves.
Amostras conforme alvo diagnóstico
As doenças infecciosas apresentam órgãos alvo específicos no organismo do hospedeiro. O diagnóstico de enfermidades em um plantel avícola exige a amostragem de aves vivas e de aves mortas por meio de necropsia. A escolha da amostra depende da suspeita clínica e do órgão alvo.
| Situação | Amostra recomendada | Uso ou critério diagnóstico |
|---|---|---|
| Aves vivas | swabs e sangue | Exames sorológicos e moleculares |
| Aves vivas | swabs de traqueia e de cloaca | Testes de PCR, diagnóstico molecular e sequenciamento do agente etiológico |
| Aves mortas | tecidos específicos | Coleta durante a necropsia |
| Doenças infecciosas | Órgão alvo específico | A escolha da amostra depende da suspeita clínica e do órgão alvo |
| Diferentes doenças | Amostras podem variar | Não se utiliza necessariamente a mesma amostra para a doença infecciosa da bursa e a salmonelose |
A amostra recomendada varia conforme a suspeita clínica, o órgão alvo e a condição da ave.
Notificação e resposta sanitária
- Etapa: Em 1995, o Brasil estabeleceu um controle sanitário rigoroso na avicultura devido à relevância do setor para a pecuária e a economia do país. O Plano Nacional de Sanidade Avícola (PNSA) do Brasil foi instituído no ano de 1995.
- Etapa: Em doenças de notificação obrigatória na avicultura, é obrigatória a realização do sacrifício sanitário e a incineração da matéria orgânica para impedir a disseminação do agente etiológico. Também pode ser necessário incinerar as aves e impedir a saída de matéria orgânica da propriedade, evitando a disseminação do agente.
- Etapa: Quando a doença não é de notificação obrigatória, o tratamento pode não ser economicamente viável em plantéis numerosos. O tratamento individual tem importância limitada em plantéis comerciais, nos quais as medidas devem ser aplicadas ao conjunto das aves.
- Etapa: Por essa razão, a produção avícola prioriza a prevenção, a biosseguridade, a saúde intestinal e a manutenção de adequada resposta imune.
- Etapa: A prevenção de determinadas afecções na avicultura pode ser realizada por meio da adição de aditivos ou substâncias preventivas na ração das aves.
- Etapa: Em suspeita de surto de influenza aviária em plantel, o serviço oficial realiza a coleta de swabs de traqueia e de cloaca nas aves sobreviventes. A amostra coletada em suspeita de doença de notificação obrigatória como a influenza aviária é enviada a um laboratório federal de referência para confirmação do diagnóstico.
Agente etiológico
Da nefrose à etiologia viral
A doença de Gumboro foi descrita e publicada inicialmente como uma nefrose aviária, porque produzia lesões renais, antes que se reconhecessem o comprometimento da bursa de Fabricius e o agente viral. Os vírus da doença foram isolados inicialmente em perus de criação industrial nos Estados Unidos, onde a doença surgiu.
Esse contexto histórico acompanha o momento em que a identificação científica de que diversas doenças eram causadas por vírus começou a se estabelecer, a partir da década de 1950.
Nomes, sigla e órgão alvo
A doença de Gumboro é uma doença infecciosa da bolsa ou bursa de Fabricius, que constitui o órgão alvo da infecção pelo vírus. Por isso, recebe as denominações doença infecciosa da bursa de Fabricius e doença infecciosa da bursa de Fabrício, além da sigla IBD.
O nome Gumboro faz referência ao município de Gumboro, no estado de Delaware, nos Estados Unidos, onde a doença foi descrita pela primeira vez.
Identidade e genoma do vírus
O vírus da Doença de Gumboro pertence ao gênero Avibirnavirus e à família Birnaviridae, também chamada família dos birnavírus. Seu genoma é constituído por RNA de fita dupla.
Além disso, esse genoma é bissegmentado, ou seja, dividido nos segmentos A e B.
Segmentos e proteínas virais
O genoma segmentado do vírus é formado pelos segmentos A e B. Trata se de um vírus com genoma de RNA bissegmentado, constituído por dois filamentos. O segmento A é uma das fitas do RNA genômico.
Ao todo, o vírus possui cinco proteínas virais.
VP2 e variação antigênica
A principal proteína do segmento A é a VP2, que apresenta uma região hipervariável. Alterações ou rearranjos nessa região estão associados às cepas variantes e à variação antigênica.
A VP2 pode escapar da resposta imune, favorecendo o surgimento de novas cepas. Por isso, a análise da VP2 é usada no diagnóstico molecular para identificar possíveis variações antigênicas; as proteínas virais também se relacionam ao surgimento de novas cepas e ao diagnóstico da infecção.
Resistência ambiental sem envelope
O vírus da Doença de Gumboro não possui envelope viral. Essa característica confere elevada resistência ambiental, inclusive ao calor, aos desinfetantes e a procedimentos inadequados de limpeza.
Em comparação, vírus envelopados são destruídos com maior facilidade no ambiente.
Segmentos e proteínas virais
A organização dos segmentos ajuda a entender como a variação genética influencia a caracterização e o controle do vírus.
| Elemento | Informação principal | Implicação |
|---|---|---|
| Segmento A | O segmento A codifica as proteínas VP1, VP2, VP3, VP4 e VP5. | Reúne a informação para cinco proteínas virais |
| Segmento B | O segmento B codifica a VP1, que não representa uma sexta proteína distinta, pois a VP1 também é codificada no segmento A. | Complementa a codificação da VP1 |
| VP2 | A VP2 constitui importante alvo dos anticorpos produzidos pelo hospedeiro e é utilizada na caracterização genética do vírus. | Auxilia na resposta imune e na caracterização genética |
| Variação genômica | Alterações e rearranjos nos segmentos A e B contribuíram para o surgimento de novas cepas e para a dificuldade de controle da doença. | Favorece a emergência de novas cepas |
| Cepas variantes de campo | As cepas variantes de campo sofrem mutações ou rearranjos genéticos que impedem a atuação eficaz das vacinas disponíveis. | Dificultam o controle vacinal |
A VP1 aparece associada aos segmentos A e B; não corresponde a uma sexta proteína distinta.
Sorotipos e patogenicidade
O vírus da doença de Gumboro possui dois sorotipos, denominados sorotipo 1 e sorotipo 2; apenas o sorotipo 1 é patogênico para galinhas.
| Sorotipo | Patogenicidade | Hospedeiros ou contexto |
|---|---|---|
| Sorotipo 1 | Patogênico | Patogênico para galinhas e para aves de produção industrial |
| Sorotipo 2 | Apatogênico | Considerado apatogênico para as aves |
O sorotipo 1 é o único sorotipo patogênico para galinhas.
Cepas clássicas e vacinação
O termo cepa clássica refere se às linhagens iniciais descritas do vírus. As cepas clássicas virulentas são as cepas que originaram a doença, e essas cepas se dividem em virulentas, muito virulentas e atenuadas. A cepa F52 é clássica virulenta.
As cepas clássicas atenuadas são utilizadas na produção de vacinas, inclusive na vacinação comercial. A cepa clássica continua a ser utilizada na produção de vacinas, e as cepas clássicas atenuadas também são usadas na produção de vacinas com vírus vivo atenuado.
Variantes e escape imune
Entre as cepas clássicas, a DK01 é classificada como muito virulenta; a sigla VV significa very virulent. Já a cepa D78 é uma cepa vacinal clássica atenuada.
As cepas variantes surgiram no início da década de 1980 nos Estados Unidos, quando as aves possuíam anticorpos apenas contra as cepas clássicas iniciais. Isso gerou linhagens contra as quais as aves não possuíam anticorpos. As cepas variantes podem escapar da imunidade induzida pelas cepas clássicas e apresentar patogenicidade variável, sendo muito patogênicas ou não patogênicas. Elas não possuem uma subclassificação formal.
Da avicultura tradicional à intensiva
Acompanhe a transformação da avicultura e entenda por que esse cenário amplia o desafio sanitário.
- Etapa: Reconheça o ponto de partida: na década de 1950, um frango de corte precisava de 70 dias para atingir o abate.
- Etapa: Identifique o contexto: Até o início dos anos 1970, a avicultura ainda não tinha o caráter comercial e industrial atual.
- Etapa: Acompanhe a transformação: A partir da década de 1970, modificações genéticas e de produção deram origem ao frango de corte moderno.
- Etapa: Observe a expansão: A avicultura entrou em uma fase de expansão em escala mundial.
- Etapa: Compare o resultado atual: Atualmente, o crescimento ocorre em praticamente metade dos 70 dias necessários nos anos 1950.
- Etapa: Relacione esse cenário ao desafio sanitário: A Doença de Gumboro é uma enfermidade altamente contagiosa com distribuição mundial. A emergência contínua de cepas variantes desafia especialmente a avicultura comercial de frangos de corte.
Emergência e disseminação internacional
O grande desafio do vírus de Gumboro é sua capacidade periódica de originar novas cepas. As cepas variantes surgiram na década de 1980; nos Estados Unidos, cepas com variação antigênica começaram a aparecer no início dessa década.
A Doença de Gumboro surgiu nos Estados Unidos e subsequentemente se disseminou para a Europa. O comércio internacional de aves facilitou a disseminação das cepas variantes. As cepas variantes se espalharam pelo mundo e contribuíram para a emergência contínua de novas variantes. Por isso, a ocorrência e a presença dessas cepas variam entre as regiões, embora a enfermidade tenha alcançado distribuição global.
A mudança do perfil brasileiro
No Brasil, os surtos iniciais da Doença de Gumboro em frangos e galinhas foram causados por cepas clássicas, e o primeiro diagnóstico dessas cepas ocorreu no final dos anos 1970.
O cenário atual é diferente: atualmente, as infecções por Doença de Gumboro ocorrem por cepas emergentes, e não mais pelas cepas clássicas. Os surtos atuais da Doença de Gumboro são causados por cepas variantes do vírus. Também ocorrem no país surtos causados por cepas muito virulentas em aves jovens e mesmo em aves vacinadas.
Como a produção seleciona variantes
O grande aumento da produção avícola favoreceu a emergência de cepas variantes. Em instalações intensivas, o contato populacional entre um grande número de aves gera alta pressão de seleção viral. Os galpões alojam muitos animais; em alguns cenários, cerca de 30 mil frangos são mantidos em centenas de propriedades próximas, produzindo uma imensa pressão de seleção sobre o vírus.
Assim, o vírus permanece sob pressão e seleção constantes. Sua elevada resistência ambiental permite o acúmulo continuado no ambiente, a partir do qual novas cepas virais podem surgir, favorecendo ainda mais a emergência de variantes.
Variação geográfica das cepas
A Doença de Gumboro tem distribuição mundial, mas a composição das cepas varia conforme a região.
| Região ou período | Descrição das cepas |
|---|---|
| Distribuição mundial | A doença tem distribuição mundial; as variantes não aparecem da mesma forma em todas as regiões. |
| América do Sul — 2015 | Em 2015, foi descrito um vírus filogeneticamente distinto, considerado uma linhagem específica da América do Sul. |
| Itália — 2016 | Em 2016, foi identificada uma cepa emergente na Itália, diferente da cepa sul americana. |
| Final dos anos 1980 e distribuição mundial | As cepas muito virulentas surgiram no final dos anos 1980 e estão distribuídas pelo mundo. |
| Austrália e Nova Zelândia | A doença está presente, mas apenas cepas clássicas estão presentes, sem circulação de cepas variantes mais virulentas. |
Nomenclatura e monitoramento viral
A nomenclatura organiza a classificação das cepas e apoia seu monitoramento.
- Consenso internacional de 2021: Em 2021, um consenso internacional definiu a nomenclatura oficial para classificar as cepas do vírus da Doença de Gumboro.
- Genótipo: O genótipo é determinado pela combinação dos segmentos A e B.
- Nomenclatura oficial: Essa nomenclatura permite identificar e monitorar novas cepas, incluindo sua origem e distribuição.
Genogrupos dos segmentos A e B
No sorotipo 1, a classificação genotípica identifica oito genogrupos, subgrupos ou genótipos no segmento A e cinco genogrupos, subgrupos ou genótipos no segmento B.
| Segmento | Classificação genotípica |
|---|---|
| Segmento A | oito genogrupos, subgrupos ou genótipos |
| Segmento B | cinco genogrupos, subgrupos ou genótipos |
Classificação genotípica do sorotipo 1 por segmento.
Exceções e exemplos recentes
A classificação do vírus inclui diferentes níveis e também amostras ainda incompletamente caracterizadas. O sorotipo 2 possui um genogrupo relacionado ao segmento A e associado a perus, enquanto a designação Bx é usada para uma amostra do segmento B que não foi bem caracterizada.
Entre os exemplos do segmento A, A1 é uma cepa clássica do segmento A e A2 é muito virulenta. A classificação continua incorporando variantes: em 2022, foi identificado em Portugal o genogrupo 9 do segmento A, e na China foi identificado um genogrupo designado A2D.
Impactos econômicos e imunológicos
Bursa e imunidade humoral
A Doença de Gumboro desencadeia uma resposta de anticorpos contra o vírus, mas o órgão alvo do vírus da doença de Gumboro é a bursa de Fabricius. Esse órgão imunológico promove o amadurecimento e a proliferação dos linfócitos B.
A infecção destrói o tecido linfoide da bursa e os linfócitos B. Quando os precursores são destruídos, a maturação celular e a produção de anticorpos ficam comprometidas; por isso, aves infectadas precocemente apresentam severa redução da imunidade humoral.
Variantes e falhas vacinais
A imunossupressão causada pela Doença de Gumboro pode provocar falhas nos programas de vacinação, impedindo a produção adequada de anticorpos. As cepas variantes estão associadas à forma subclínica da enfermidade e podem causar imunossupressão muito grave em aves muito jovens, além de comprometer o lote.
Na forma subclínica, as aves não desenvolvem resposta imune adequada contra agentes infecciosos nem à vacinação. Como consequência, os plantéis ficam altamente suscetíveis a infecções secundárias.
Persistência e impacto no lote
Mesmo quando sobrevive à infecção, a ave pode permanecer imunossuprimida pelo resto da vida. Aves sobreviventes de cepas muito virulentas também podem permanecer imunossuprimidas. Nesse estado, infecções normalmente toleradas podem se agravar, comprometendo a saúde do lote.
Surtos recorrentes de coccidiose e colibacilose indicam imunocomprometimento do lote. A coccidiose recorrente pode ser secundária à imunossupressão provocada pela doença de Gumboro. Esses efeitos contribuem para impactos econômicos significativos na indústria avícola por morbidade, mortalidade e perda de desempenho produtivo. Milhões de frangos de corte são abatidos anualmente.
Citocinas da resposta imune
A resposta inflamatória da Doença de Gumboro combina ativação celular e aumento de mediadores inflamatórios.
- Tempestade de citocinas: Na resposta inflamatória da Doença de Gumboro, ocorre uma tempestade de citocinas, com ativação de macrófagos e aumento da resposta de células T.
- Interleucinas: Em infecção experimental, observa se aumento de interleucina 1 beta, interleucina 4, interleucina 10 e interleucina 12.
- CXN2: O CXN2, uma quimiocina pró inflamatória específica de aves, também aumenta durante a resposta imune.
Micotoxinas ampliam imunossupressão
A presença de pequenas quantidades de micotoxinas nos alimentos é difícil de evitar: elas podem estar presentes desde o campo ou surgir durante o armazenamento, no silo e no transporte. Em aves imunossuprimidas, essas toxinas podem agravar o estado sanitário. A doença infecciosa da bursa não é uma zoonose, mas possui grande importância para frangos de corte e para a produção avícola comercial, especialmente por comprometer a resposta de anticorpos após a vacinação. As cepas variantes da Doença de Gumboro são as principais responsáveis pela maior mortalidade e pelas perdas de aves na produção avícola atual e costumam dizimar a produção de aves. Aves que se recuperam da doença de Gumboro apresentam baixo ganho de peso e redução no desempenho zootécnico no final do ciclo. Na avicultura de corte, a presença de lesões nas aves resulta no desconto do valor pago por frango na comercialização. As micotoxicoses em aves provocam imunossupressão e falhas vacinais, podendo ser confundidas com a Doença de Gumboro.
Epidemiologia
Hospedeiros e formas clínicas
Os hospedeiros naturais do vírus da doença de Gumboro são principalmente galinhas e perus. O vírus também infecta galináceos em geral, como galinhas, faisões e codornas, além de patos e avestruzes, mas a doença clínica manifesta se essencialmente em galinhas.
A apresentação clínica varia conforme o grupo de aves. A forma aguda ocorre frequentemente em galinheiros de quintal e sítios; nesses locais, as aves são suscetíveis porque frequentemente não são vacinadas. A forma subclínica afeta principalmente aves de até duas semanas de vida. Poedeiras comerciais de 4 a 6 semanas são afetadas antes do início da postura de ovos, enquanto frangos de 3 a 6 semanas apresentam a forma clínica, virulenta ou muito virulenta, causada por cepas clássicas. Em geral, a taxa de mortalidade não é elevada, situando se entre 20% e 30%.
Rotas de transmissão viral
A transmissão do vírus ocorre horizontalmente entre as aves e é direta, predominantemente pela via fecal oral. A ave infectada elimina o vírus no ambiente, e uma ave suscetível pode se infectar pela via oral ou ao inalar poeira e aerossóis contaminados no galpão. Assim, a inalação de poeira e aerossóis contaminados também funciona como porta de entrada para uma ave suscetível.
Não ocorre transmissão vertical da mãe para o filhote. Nas granjas avícolas, os roedores atuam como vetores mecânicos de transporte de patógenos, contribuindo para a manutenção das rotas de exposição no ambiente.
Cronologia e notificação oficial
O período de incubação da doença de Gumboro é de aproximadamente sete dias, ou até 7 dias. O vírus da doença de Gumboro é eliminado nas fezes pela ave infectada, que começa a eliminar o vírus pelas fezes cerca de 48 horas após a infecção. Portanto, a eliminação do vírus pelas fezes inicia se a partir do segundo dia após a infecção.
O período de infecção e eliminação do vírus da Doença de Gumboro pela ave infectada é de 7 dias. No Brasil, a notificação da doença deve ser realizada ao serviço veterinário oficial, como a ADAPAR no Paraná e o Ministério da Agricultura.
Janela etária de suscetibilidade
A janela de suscetibilidade acompanha o desenvolvimento da bursa de Fabricius.
- Faixa etária: A Doença de Gumboro é característica de aves jovens.
- Suscetibilidade: A suscetibilidade começa no nascimento e se estende pelas primeiras dez semanas, até a atrofia da bursa de Fabricius.
- Atrofia da bursa: A atrofia da bursa de Fabricius ocorre por volta da décima semana.
- Bursa aos sete dias: Aos sete dias, a bursa ainda não está desenvolvida.
- Pico de desenvolvimento: Seu pico de desenvolvimento ocorre entre a terceira e a sexta semana de vida.
Atividade da bursa e doença clínica
A doença clínica ocorre principalmente quando a bursa de Fabricius está funcionalmente ativa. O sorotipo 1 causa doença clínica predominantemente em frangos de 3 a 6 semanas. A infecção aguda por cepa virulenta ocorre entre a terceira e a sexta semana de vida porque a bursa de Fabricius está funcionalmente ativa. Nesse período, os linfócitos B proliferam e sofrem a ação do vírus.
A Doença de Gumboro é grave em aves com a bursa de Fabricius ativa, onde os linfócitos B proliferam e sofrem a ação do vírus. A manifestação clínica requer uma bursa de Fabricius funcionalmente ativa. Aves mais velhas infectadas pelo vírus de Gumboro não desenvolvem sinais clínicos porque não possuem mais a bursa de Fabricius ativa. As seis semanas, ou 42 dias, correspondem à época de abate do frango de corte.
Implicações para poedeiras comerciais
A bursa de Fabricius involui com o crescimento e não está mais presente em galinhas adultas durante a postura. Ainda assim, as galinhas poedeiras comerciais são mais suscetíveis à infecção pelo vírus da Doença de Gumboro do que os frangos de corte. Os frangos de corte apresentam uma resposta imune mais equilibrada diante da infecção pelo vírus de Gumboro.
As poedeiras comerciais na fase inicial de vida, antes da recria e da postura, apresentam maior suscetibilidade à infecção pelo vírus da doença de Gumboro. A Doença de Gumboro é clinicamente importante em poedeiras comerciais na fase inicial de vida, antes do início da recria e da postura, devido à maior suscetibilidade dessas aves. Galinhas poedeiras comerciais podem apresentar sinais da doença de Gumboro no início da postura de ovos, por volta de 18 semanas de vida, caso tenham sido infectadas enquanto jovens. As galinhas poedeiras permanecem em período de postura até 100 semanas de vida.
Biosseguridade contra transmissão indireta
A biosseguridade interrompe a cadeia de transmissão indireta ao controlar pessoas, materiais, veículos e vetores.
- Transmissão indireta: O vírus é resistente no ambiente e pode ser transportado por pessoas, veículos, equipamentos, ração, vetores e roedores.
- Cascudinho: Pequeno besouro escuro que prolifera em locais quentes e úmidos, como a cama do aviário, e pode transportar diversos agentes patogênicos.
- Vetor de Salmonella: O besouro cascudinho é um importante vetor da bactéria Salmonella em granjas aviárias.
- Roedores: Constituem risco devido à disponibilidade de alimento nas granjas.
- Barreiras de entrada e saída: Incluem banho na entrada e na saída, troca de roupas, separação entre áreas suja e limpa, pedilúvios e rodolúvios.
- Circulação: Recomenda se restringir visitantes e veículos, controlar vetores e limitar a circulação de veículos e pessoas na granja.
- Trabalho simultâneo: Deve se impedir o trabalho simultâneo em granjas de espécies ou lotes diferentes.
Notificação e vigilância das variantes
Recomenda se a notificação dos casos ao serviço veterinário oficial para acompanhar a ocorrência e a distribuição das cepas variantes. No Brasil, há escassez de estudos sobre a ocorrência dessas cepas, o que torna o monitoramento epidemiológico especialmente necessário.
A notificação não implica necessariamente bloqueio da propriedade nos mesmos moldes aplicados à influenza aviária, mas permite o sequenciamento viral, a identificação da cepa e o acompanhamento de sua distribuição. O subdiagnóstico em avicultura industrial pode agravar a situação sanitária ao favorecer a seleção e o surgimento de cepas variantes de patógenos no plantel; por isso, esse acompanhamento ajuda a compreender a emergência das variantes e a orientar futuras estratégias vacinais.
Patogenia
Vulnerabilidade e organização imune
Em aves jovens, a infecção precoce pela cepa variante do vírus de Gumboro causa severa imunossupressão, alta mortalidade e desempenho produtivo deficiente. Essa vulnerabilidade se relaciona à organização dos tecidos linfoides: os precursores dos linfócitos B são produzidos na medula óssea e migram para a bolsa de Fabricius, enquanto os precursores dos linfócitos T migram para o timo.
Aves mais velhas também possuem outros tecidos linfoides com populações de linfócitos B capazes de produzir anticorpos. Nas aves jovens, o manejo das matrizes busca garantir imunidade passiva materna; ainda assim, a infecção em poedeiras de três a seis semanas pode induzir uma tempestade de citocinas.
Entrada e replicação intestinal
O vírus da doença de Gumboro entra por ingestão ou inalação e alcança o intestino; após ser inalado, o vírus alcança diretamente o intestino. Na mucosa intestinal, o vírus infecta e replica se em macrófagos e no tecido linfoide associado ao intestino (GALT), incluindo as placas de Peyer.
As placas de Peyer integram o tecido linfoide associado ao intestino (GALT), e as tonsilas cecais constituem tecido linfoide intestinal. O vírus também se replica nos macrófagos desse tecido, e esses macrófagos fagocitam partículas virais.
Da circulação ao fígado
A patogenia avança do tecido linfoide intestinal ao fígado em uma sequência espacial e temporal.
- Etapa: Ativar células T: após a infecção, a entrada do vírus nas células desencadeia a ativação das células T.
- Etapa: Ativar macrófagos: a primeira resposta imune ocorre entre 24 e 48 horas.
- Etapa: Passar à circulação: as células infectadas do tecido linfoide intestinal passam à corrente sanguínea pela circulação mesentérica.
- Etapa: Formar a veia porta hepática: os vasos mesentéricos se unem para formar a veia porta hepática; a circulação mesentérica drena para essa veia, conduzindo o sangue intestinal ao fígado.
- Etapa: Alcançar o fígado: macrófagos infectados chegam ao fígado pela veia porta hepática. Durante esse trajeto ocorre a primeira replicação viral, e sua presença no sangue caracteriza a viremia primária.
Escape hepático e viremia secundária
Depois de chegar ao fígado, o vírus enfrenta uma tentativa de neutralização antes de alcançar a bursa e disseminar se.
- Etapa: Fagocitar no fígado: os macrófagos do tecido linfoide hepático, chamados células de Kupffer, fagocitam macrófagos infectados e tentam neutralizar o vírus.
- Etapa: Reconhecer a resposta imune: a neutralização viral é uma modalidade de resposta imune.
- Etapa: Retornar à circulação: partículas virais livres que não são neutralizadas retornam à circulação sanguínea e passam para a circulação sistêmica.
- Etapa: Replicar se na bursa: em seguida, ocorre na bursa de Fabricius a segunda replicação viral e a viremia secundária.
- Etapa: Distribuir se pelo tecido linfoide: a partir da bursa, o vírus é distribuído para todos os órgãos linfoides.
- Etapa: Eliminar secreções: no proctodeu existe uma abertura por onde são eliminadas as secreções da bursa de Fabricius.
Da bursa à eliminação fecal
A chegada à bursa conecta a segunda viremia à disseminação linfoide e à eliminação fecal.
- Etapa: Alcançar a bursa: as partículas não neutralizadas retornam à circulação e alcançam a bursa de Fabricius pelo sangue.
- Etapa: Replicar se intensamente: na bursa ocorre intensa replicação viral, seguida de distribuição para outros órgãos linfoides e eliminação nas fezes.
- Etapa: Relacionar localização e eliminação: a localização anatômica da bursa, dorsal à cloaca, explica a presença do vírus nas fezes.
- Etapa: Comunicar se com a cloaca: a bursa comunica se com a cloaca por uma abertura no proctodeu, permitindo que o vírus seja eliminado juntamente com o conteúdo intestinal.
Folículos e destruição linfoide
A parede interna da bursa de Fabricius possui folículos bursais ricos em linfócitos B. Na doença de Gumboro, o vírus replica se intensamente nesses folículos e destrói os linfócitos B, compondo um dos principais mecanismos da patogênese.
A depressão linfoide corresponde à destruição do tecido linfoide da bursa por replicação viral, infiltração de células inflamatórias e necrose.
Resposta inflamatória na bursa
A infecção pelo vírus de Gumboro promove a destruição ou deleção das células B na bursa de Fabricius e desencadeia mobilização do sistema imunológico, com atração de linfócitos para o órgão.
Nos folículos, a replicação viral atrai linfócitos T, e a lise dos linfócitos B na bursa de Fabricius aumenta a infiltração de linfócitos T na bursa. Como resultado da lesão inflamatória, a bursa pode perder o contorno dos folículos e apresentar edema, inflamação e bursite.
Edema seguido de atrofia
A evolução da bursa de Fabricius segue uma sequência temporal característica.
- Etapa: No início da infecção, a bursa de Fabricius aumenta de volume por edema inflamatório.
- Etapa: Nos dois primeiros dias, esse aumento é seguido por atrofia progressiva.
- Etapa: Logo após esse período, a bursa começa a atrofiar devido à destruição, podendo chegar à atrofia total e à destruição total do órgão.
Citocinas e gravidade da resposta
Logo após a infecção pela Doença de Gumboro ocorre uma tempestade de citocinas. A infecção ativa macrófagos, linfócitos T e citocinas inflamatórias, com aumentos observados de interleucina 1 beta, interleucinas 4, 10 e 12, interferons, fatores de necrose tumoral alfa e beta e CXCL2, uma quimiocina pró inflamatória. A resposta exacerbada pode contribuir para a mortalidade, especialmente em aves jovens; esse quadro grave é mais comum em poedeiras jovens e raro em frangos de corte.
Os precursores de linfócitos B em aves são produzidos na medula óssea. Quando a infecção ocorre antes do desenvolvimento adequado da bursa, precursores de linfócitos B podem ser destruídos antes de colonizarem o órgão, provocando imunossupressão grave. Durante a recuperação da ave infectada, a quantidade de anticorpos aumenta, o número de células infectadas diminui e a ativação de células T reduz.
Órgãos linfoides e imunossupressão
Após a replicação na bursa, o vírus pode alcançar outros órgãos linfoides, incluindo baço, timo, tonsilas cecais e medula óssea. A consequência direta consiste na lesão da bursa. Como os linfócitos B são destruídos, A destruição dos linfócitos B reduz a produção de anticorpos e compromete a resposta imune humoral.
A consequência indireta consiste na imunossupressão. Na ave infectada pela Doença de Gumboro, essa imunossupressão é uma consequência indireta da infecção e aumenta a suscetibilidade a coccidiose, colibacilose, micotoxicose e outras infecções.
Formas clínicas
Mecanismo em aves jovens
Em aves muito jovens, especialmente entre 10 e 15 dias, cepas variantes podem destruir os linfócitos B em proliferação inicial na bursa de Fabricius, comprometendo o sistema imune. A bursa pode estar atrofiada na necropsia.
Nesse período, a forma subclínica pode causar mortalidade elevada. Aos 15 dias, a associação entre mortalidade elevada e atrofia da bursa indica um possível problema por cepa variante.
Forma subclínica e vacinação
A forma subclínica por cepa variante pode não apresentar sinais clínicos evidentes antes do pico de mortalidade. A ausência de sinais clínicos sugere a presença de uma variante, sem indicar doença leve.
Aves vacinadas no incubatório contra a cepa clássica que sofrem desafio de campo por uma cepa variante podem desenvolver a forma subclínica grave, com resposta imunológica extremamente baixa e falha maciça na produção de anticorpos. Em contraste, aves vacinadas infectadas pela cepa clássica desenvolvem resposta imune e têm mortalidade inferior. Quando a variante atinge aves mais velhas, algumas conseguem responder e sobreviver.
Virulência e impacto no plantel
A evolução por cepas muito virulentas deve ser diferenciada da forma subclínica por variante. A forma clínica por cepa muito virulenta requer que a bursa de Fabricius esteja funcionalmente ativa; quanto maior a virulência da cepa, maior a gravidade da doença.
A mortalidade pode alcançar 20% a 30% entre o quinto e o sétimo dia após a infecção. No primeiro contato do lote com uma cepa muito virulenta, pode haver alta mortalidade mesmo em aves vacinadas. A desidratação é um achado comum a várias doenças avícolas e decorre da prostração e da incapacidade de locomoção. Na necropsia, bursas atrofiadas indicam imunossupressão no restante do plantel até o final do ciclo de produção.
Quadro clínico na fase aguda
A Doença de Gumboro apresenta formas clínicas reconhecíveis. As formas clínicas da Doença de Gumboro compreendem a cepa clássica virulenta e a cepa clássica muito virulenta.
A cepa clássica virulenta causa infecção aguda principalmente entre a terceira e a sexta semana de vida. Nessa fase, as aves podem ficar prostradas, com penas arrepiadas, diarreia esbranquiçada e desenvolvimento desuniforme no lote.
Desidratação e sinais associados
Na fase aguda, a prostração pode fazer com que as aves deixem de andar e de ingerir água. Como a doença de Gumboro também provoca desidratação, esses animais podem morrer rapidamente por essa consequência. O quadro exige atenção porque a interrupção simultânea da locomoção e da ingestão de água agrava a perda hídrica.
As aves infectadas que não morrem na fase aguda podem se recuperar algumas semanas após a infecção. Também pode ocorrer leve conjuntivite ou irritação ocular. Já o eriçamento de penas não é específico: deve ser interpretado com cautela, pois é um sinal clínico genérico presente em diversas enfermidades avícolas.
Mortalidade da cepa muito virulenta
A cepa clássica muito virulenta pode provocar mortalidade súbita e elevada, sobretudo durante o primeiro surto na propriedade. Na forma clínica da doença de Gumboro, tanto a cepa clássica virulenta quanto a muito virulenta podem causar mortalidade súbita no primeiro surto. Esse padrão pode se assemelhar inicialmente à Influenza Aviária, com grande número de aves mortas no lote ou no galpão.
Entre as sobreviventes, observam se prostração, penas arrepiadas, diarreia e tremores. As cepas muito virulentas do vírus da doença de Gumboro causam doença em aves não vacinadas; além disso, embora a vacinação contra cepas clássicas ofereça proteção parcial, muitas aves podem adoecer quando expostas a uma cepa muito virulenta. A ausência de sinais respiratórios e de lesões pulmonares auxilia na diferenciação em relação à Influenza Aviária e à doença de Newcastle. No exame necroscópico, a ausência de lesões hemorrágicas afasta esses diagnósticos.
Lesões macroscópicas e microscópicas
Distribuição das lesões sistêmicas
Além da bursa de Fabricius, a Doença de Gumboro pode atingir rins, fígado e baço. A Doença de Gumboro provoca alterações patológicas no baço. A Doença de Gumboro também pode causar alterações na medula óssea.
Entre os tecidos linfoides mais afetados estão o timo e as tonsilas retais, que podem apresentar alterações importantes e destruição acentuada. Na necropsia aviária, os rins ficam no fundo da cavidade celomática e estão profundamente aderidos à parede.
Mecanismo das lesões renais
Nos rins, a Doença de Gumboro está relacionada ao acúmulo de urato. Nas aves, o ácido úrico é a forma de eliminação do resíduo de nitrogênio oriundo do metabolismo de proteínas. O urato corresponde à forma cristalizada do ácido úrico.
Nos rins das aves com doença de Gumboro ocorre depósito de urato, que é a forma cristalizada do ácido úrico. Na doença de Gumboro, o rim da ave pode apresentar se totalmente esbranquiçado devido ao depósito de urato decorrente de lesão renal que impede sua eliminação. Na doença de Gumboro, os rins ficam aumentados e pálidos devido ao acúmulo de urato.
Alterações no proventrículo
O proventrículo é o estômago químico das aves. O vírus da Doença de Gumboro ativa o tecido linfoide intestinal e pode causar alterações no tecido linfoide e na mucosa do proventrículo.
A Doença de Gumboro pode provocar hemorragia na mucosa do proventrículo devido à alteração decorrente da replicação do vírus no tecido linfoide. A hemorragia na mucosa é encontrada mais caracteristicamente na região de transição entre o proventrículo e a moela. O exame histopatológico pode demonstrar alterações na mucosa do proventrículo provocadas pelo vírus da Doença de Gumboro.
Hemorragias musculares na necropsia
Na necropsia de aves com suspeita de Doença de Gumboro, a musculatura pode apresentar petéquias e hemorragias, especialmente em coxas, peito e pernas. Esse padrão pode ocorrer devido ao tropismo viral pelo endotélio dos capilares da musculatura.
O exame da musculatura deve ser integrado à avaliação da bursa, dos rins, do baço, do proventrículo e da moela. Quando essas lesões são identificadas no abatedouro, podem resultar na condenação das partes afetadas. Por isso, a realização de necropsia é parte integrante do exame clínico e físico das aves.
Achados conforme a cepa
A histopatologia permite diferenciar os padrões associados às cepas da Doença de Gumboro na bursa de Fabrício. A cepa variante produz atrofia tecidual acentuada e inflamação, enquanto a cepa clássica causa quadro predominantemente inflamado, hemorrágico e com edema.
Além da bursa, também podem ser encontradas alterações na região e na mucosa do proventrículo devido ao contato direto com o vírus. Assim, o padrão histopatológico deve ser interpretado considerando a cepa envolvida e o órgão examinado.
Escore das lesões bursais
Foi proposto um escore histopatológico para classificar a gravidade das lesões na bursa de Fabrício.
| Escore histopatológico | Interpretação das lesões na bursa de Fabrício |
|---|---|
| 0 | Ausência de lesão. |
| 3 | 50% de atrofia grave e difusa. |
| 5 | 100% dos folículos acometidos, com depressão linfoide completa. |
Valor e limites diagnósticos
Embora seja demorado para ficar pronto, o exame histopatológico fornece muitas informações, principalmente no estudo de cepas variantes da doença de Gumboro. Ele auxilia na diferenciação entre cepas clássicas e variantes, e sua classificação em escores tem valor relevante principalmente para esse estudo.
Seu papel, porém, é de método complementar, pois não é utilizado na rotina diária como diagnóstico final. A diferenciação definitiva e a confirmação da cepa variante dependem de métodos de biologia molecular.
Diagnóstico
Contexto clínico antes da confirmação
Siga a investigação integrando contexto epidemiológico, quadro clínico e achados de necropsia.
- Etapa: Avalie a distribuição da doença na região, a ocorrência em granjas próximas, a idade das aves, a forma clínica ou subclínica, a mortalidade, a resposta vacinal e os resultados de necropsia.
- Etapa: Considere a idade ao interpretar a forma: a forma subclínica por cepas variantes é mais provável em aves muito jovens, até a segunda semana de vida.
- Etapa: Relacione a forma clínica por cepas clássicas principalmente a frangos entre três e seis semanas.
- Etapa: Em poedeiras comerciais, considere que a infecção precoce pode comprometer a produção posterior.
- Etapa: Mantenha a suspeita mesmo sem detecção durante o curso: A Doença de Gumboro frequentemente não é detectada durante o curso da infecção, sendo identificada apenas no abate devido ao baixo desempenho dos frangos.
Pistas indiretas de imunossupressão
Alguns achados indiretos podem sinalizar imunossupressão no lote.
- Resposta sorológica à vacinação: A redução da resposta sorológica à vacinação pode indicar imunossupressão causada pela doença.
- Coccidiose e colibacilose: A ocorrência recorrente pode indicar imunossupressão; a coccidiose é causada por espécies de Eimeria, e a colibacilose, por Escherichia coli.
- Desuniformidade do lote: Pode indicar imunossupressão causada pela doença.
- Bursa atrofiada: A observação na necropsia sugere que o restante do plantel poderá permanecer imunossuprimido durante a produção.
Sorologia e resposta vacinal
Em aves vivas, coleta se sangue para avaliar anticorpos. Para pesquisa molecular da Doença de Gumboro, em aves vivas, coletam se amostras de sangue e swabs. O teste de vírus neutralização foi considerado o padrão ouro, mas é complexo. A técnica de ELISA constitui alternativa mais rápida, automatizada e adequada para triagem, apresentando boa correlação com os títulos de vírus neutralização, além de sensibilidade e especificidade elevadas.
A sorologia auxilia na identificação de exposição e na avaliação da resposta vacinal, mas não define sozinha a cepa responsável pela infecção.
RT PCR e caracterização da cepa
A confirmação molecular integra a escolha correta da amostra, a detecção do RNA viral e a caracterização da região VP2.
- Etapa: Para confirmação e caracterização da cepa, selecione um fragmento da bursa de Fabricius de aves mortas: a amostra ideal é um fragmento da bursa de Fabricius de aves mortas. O tecido deve ser refrigerado ou congelado e não permanecer em temperatura ambiente.
- Etapa: Realize RT PCR, precedido de transcrição reversa, pois o agente é um vírus de RNA.
- Etapa: Use a amplificação e o sequenciamento da região hipervariável da VP2 para identificar variações antigênicas e distinguir cepas clássicas de variantes.
- Etapa: Aplique o RT PCR multiplex para identificar a região hipervariável do gene VP2 do vírus da Doença de Gumboro.
- Etapa: Interprete o resultado considerando que o diagnóstico molecular permite a detecção viral e a caracterização genética de variações na proteína VP2 do vírus da Doença de Gumboro.
- Etapa: Considere o contexto histórico: o surgimento das cepas variantes não foi detectado adequadamente na época devido à ausência de ferramentas de diagnóstico molecular.
- Etapa: Reconheça que o sequenciamento genômico utilizado no diagnóstico molecular de enfermidades infecciosas é uma tecnologia recente na medicina veterinária.
Quando priorizar a bursa
Quando houver ave morta disponível, priorize a bursa de Fabricius: a carga viral geralmente é superior à do suabe cloacal, cuja sensibilidade varia conforme a cepa e o momento da infecção. O suabe cloacal pode ser utilizado para pesquisa molecular, mas, na pesquisa molecular da Doença de Gumboro, o swab cloacal também não permite quantificar a carga viral e pode resultar em falhas no sequenciamento. No início da infecção por cepas virulentas de Gumboro, o swab de cloaca não apresenta carga viral detectável significativa em comparação com a bursa. A partir do terceiro dia de infecção, observa se uma disparidade significativa entre a carga viral detectada na bursa de Fabricius e a detectada no swab de cloaca. Quando a bursa de Fabricius se encontra involuída, recomenda se a coleta complementar de outros órgãos, como fígado, baço e intestino. O tecido linfoide do intestino pode ser coletado para o diagnóstico de Gumboro, embora a bursa de Fabricius seja o órgão principal. O suabe traqueal não é a amostra ideal para essa doença e deve ser reservado à investigação de doenças respiratórias concomitantes ou diferenciais.
Diarreia e limites diagnósticos
A Doença de Gumboro deve ser considerada no diagnóstico diferencial de doenças aviárias que causam imunossupressão. Na avaliação de aves com diarreia, tanto a coccidiose quanto a colibacilose podem produzir esse sinal.
A diarreia pode apresentar coloração esverdeada, amarelada ou esbranquiçada. Em pintinhos, a infecção por Salmonella pullorum causa diarreia esbranquiçada; entretanto, a cor das fezes, isoladamente, não é suficiente para estabelecer o diagnóstico diferencial definitivo.
Sinais respiratórios e hemorrágicos
A bronquite infecciosa deve ser lembrada no diagnóstico diferencial da Doença de Gumboro, especialmente em sua forma renal. Ela é um complexo patológico que pode afetar os sistemas reprodutivo, digestório, respiratório e renal.
Entre as patologias citadas, a bronquite infecciosa é a única que cursa com sinais respiratórios. Já na influenza aviária, a hemorragia em órgãos e na cavidade corporal está relacionada à predileção viral pelas células do endotélio vascular.
Imunossupressão e mortalidade súbita
A doença de Marek deve ser considerada entre as patologias aviárias imunossupressoras. Ela induz imunossupressão, promove linfomas de células T e apresenta duas formas de infecção viral: latente e ativa.
Em um surto de mortalidade súbita, as suspeitas diagnósticas iniciais incluem Doença de Gumboro, Influenza Aviária e Doença de Newcastle. Quando as alterações respiratórias e hemorrágicas são descartadas nesse contexto, confirma se a suspeita de Doença de Gumboro na forma clássica muito virulenta.
Prevenção e controle
Base da vacinação e biosseguridade
Como a Doença de Gumboro não possui tratamento específico, a vacinação é a principal medida de controle. No Brasil, a prevenção combina vacinação com biosseguridade conforme o Plano Nacional de Sanidade Avícola (PNSA), do Ministério da Agricultura, formado por portarias e instruções normativas. A avicultura brasileira segue rigorosamente o PNSA. Assim, vacinação e biosseguridade formam a base da prevenção no campo.
As vacinas comerciais são produzidas com cepas clássicas, incluindo a 6877, uma cepa clássica atenuada forte, e a Winterfield, uma cepa clássica intermediária. A existência de vacinas eficazes contra cepas clássicas explica a ausência de surtos por essas cepas.
Limites contra cepas variantes
As aves conseguem desenvolver imunidade contra cepas virulentas e muito virulentas da Doença de Gumboro. Porém, a vacina de cepa clássica oferece apenas proteção parcial contra cepas variantes de campo, e as vacinas existentes não controlavam essas variantes.
As vacinas disponíveis ou comerciais são dirigidas às cepas clássicas, sem vacinas específicas ou comerciais amplas contra cepas variantes. Por isso, a biosseguridade rigorosa é indispensável. Como exceção regional, algumas localidades produzem vacinas específicas contra variantes locais.
Protocolo ajustado ao risco
A vacinação deve acompanhar o risco epidemiológico e as condições da propriedade, com atenção à execução uniforme e ao monitoramento da resposta.
- Etapa: O médico veterinário deve estudar a situação epidemiológica e estabelecer o protocolo vacinal específico para cada propriedade. O protocolo deve ser específico e regionalizado conforme o tipo de produção, a ocorrência de infecção e as características da propriedade.
- Etapa: Os frangos de corte recebem a primeira dose; a segunda e a terceira são acrescentadas principalmente quando há risco de infecção. Quando não há esse risco, a primeira dose é suficiente.
- Etapa: Na vacinação pela água de bebida, antes da administração da solução vacinal, o fornecimento de água às aves deve ser suspenso por duas horas. Nem todas as aves podem ingerir a mesma quantidade e, portanto, pode ocorrer falha individual de imunização.
- Etapa: O monitoramento sorológico verifica a resposta vacinal. Na avicultura de corte, todas as aves de todos os galpões devem ser vacinadas simultaneamente.
- Etapa: Ruídos excessivos e construções próximas devem ser evitados para reduzir o estresse das aves.
Estratégias por ave e plataforma
A vacinação depende da categoria das aves e da plataforma utilizada. Aves comerciais de 15 dias rotineiramente saem do incubatório vacinadas contra a cepa clássica. No Brasil, 98% dos frangos de corte são vacinados contra cepas clássicas ainda no incubatório, assim como 98% das aves destinadas ao corte; praticamente 100% do plantel recebe essa vacinação no incubatório.
Na plataforma in ovo, a vacina recombinante e vetorizada não interfere nos anticorpos maternos. O herpesvírus de peru (HVT) usado como vetor é apatogênico. Para matrizes avícolas, aplica se uma dose de vacina inativada, geralmente no início da produção de ovos.
Protocolo e resposta vacinal
Para matrizes adultas, a vacinação contra a Doença de Gumboro utiliza vacina inativada, com vírus morto, administrada individualmente por via subcutânea. Na vacinação de matrizes adultas, utiliza se vírus morto, e não uma cepa viva. Por conter vírus morto, essa vacina não sofre reativação viral.
A formulação pode incluir adjuvante oleoso, que auxilia na indução de uma resposta imune longa. Em contraste, a vacina de vírus vivo induz resposta imune imediata, enquanto a vacina inativada com adjuvante promove resposta imune prolongada.
Transferência e queda de anticorpos
O objetivo de vacinar as matrizes é produzir anticorpos maternos e transferir imunidade aos pintinhos que vão nascer. A vacinação com vacina inativada no início do período de postura é indicada para matrizes, mas não é necessária para poedeiras comerciais destinadas à produção de ovos para consumo, pois nelas não se aplica a transferência de anticorpos aos descendentes.
Nos pintinhos, ocorre um pico de anticorpos maternos contra Gumboro no dia da eclosão. Esse pico é seguido por uma queda acentuada por volta do quinto dia de vida.
Vacinação in ovo no incubatório
A primeira dose pode ser administrada no incubatório, no décimo oitavo dia de incubação, por vacinação in ovo. Máquinas com agulhas individualizadas aplicam a vacina nos ovos, permitindo que os pintinhos já nasçam protegidos. Essa estratégia reduz falhas relacionadas ao consumo desigual de água e é utilizada em grande parte dos frangos de corte.
Pode ser empregada uma vacina vetorizada, utilizando o vírus de Marek como vetor para o gene da VP2 do vírus da doença infecciosa da bursa.
Manejo integrado da biosseguridade
A prevenção eficaz combina vacinação uniforme, organização do lote e medidas contínuas de biosseguridade.
- Biosseguridade: A vacinação deve ser associada à biosseguridade. O Brasil é referência mundial na produção avícola industrial em razão da eficiência do seu sistema de biosseguridade.
- Alojamento: Recomenda se alojar aves da mesma idade no mesmo núcleo, utilizando o sistema all in/all out, no qual todo o lote entra e sai simultaneamente.
- Vacinação: A vacinação deve ser realizada de forma uniforme.
- Monitoramento: Também são necessários monitoramento de cepas emergentes, controle de temperatura e redução de estresse ambiental.
- Acesso e vetores: São necessárias restrição de pessoas e veículos, além de controle de vetores e roedores.
- Vazio sanitário: Devem ser respeitados períodos adequados de vazio sanitário.
Limpeza antes da desinfecção
A limpeza precisa preparar o ambiente para que a desinfecção seja eficaz.
- Etapa: Após a saída do lote, deve se remover completamente a cama, as fezes, as penas, a poeira e toda a matéria orgânica.
- Etapa: Realize a limpeza antes da desinfecção: somente depois da limpeza é que se realiza a desinfecção.
- Etapa: Considere que a presença de matéria orgânica reduz a eficácia dos desinfetantes, especialmente diante de um vírus sem envelope e ambientalmente resistente.
- Etapa: Lembre se de que a matéria orgânica presente no galpão, como a cama contendo fezes, penas e poeira, favorece a proliferação e a sobrevivência de vírus e bactérias.
- Etapa: Combine vacinação, limpeza, desinfecção, controle de vetores, restrição de trânsito e monitoramento epidemiológico para o controle efetivo da doença.
Reflexão Sion
Quando o invisível enfraquece
Na Doença de Gumboro, a destruição da bursa de Fabricius em aves jovens elimina linfócitos B e pode gerar imunossupressão grave mesmo quando os sinais clínicos são discretos. Assim como um lote pode parecer estável enquanto sua defesa foi silenciosamente comprometida, também precisamos reconhecer o que enfraquece nossa vida por dentro. Jesus se apresenta como o caminho seguro para uma esperança que não depende das aparências, convidando nos a buscar restauração verdadeira.
Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.João 14:6
Leia e reflita sobre o que sustenta sua defesa interior.