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MedVet7 PeríodoDoenças das Aves DomésticasSistema Imune das Aves

Sistema Imune das Aves Domésticas

A organização imune aviária combina órgãos primários, que participam da formação e do amadurecimento dos linfócitos, com órgãos e tecidos secundários.

Duracao: 27 min

Topicos da aula

  • Sistema Imune das Aves

Overview

Panorama do sistema imune aviário

O sistema imune aviário organiza se em respostas inata e adaptativa, órgãos linfoides primários e secundários e tecidos associados às mucosas, à pele e à conjuntiva. Como as aves não possuem linfonodos, essa função é desempenhada por tecido linfoide disseminado, incluindo a bolsa cloacal, o timo, o baço e estruturas especializadas. A proteção começa com barreiras físicas e químicas, seguida pela atuação coordenada de células, citocinas, anticorpos e proteínas de fase aguda. Essas particularidades também orientam a avaliação clínica: diante de sinais frequentemente inespecíficos, a necropsia, a histologia, os testes laboratoriais e o período de ocorrência devem ser integrados para sustentar a suspeita diagnóstica.

Organização do sistema imune

Respostas inata e adaptativa

A funcionalidade do sistema imune compreende a resposta imune inata e a resposta imune adaptativa. Nas aves, essas respostas fazem parte de um sistema organizado em órgãos e tecidos especializados.

A organização difere da observada nos mamíferos, sobretudo porque as aves não possuem linfonodos distribuídos pelo organismo. Nos mamíferos, os linfonodos estão distribuídos por todo o organismo e exercem uma função imune muito importante. Nas aves, essa ausência é compensada pela presença de tecido linfoide disseminado, associado a diferentes órgãos, mucosas e superfícies corporais. Esses tecidos linfoides distribuídos pelo corpo exercem funções equivalentes às dos linfonodos e são considerados, em sua maioria, componentes dos órgãos linfoides secundários.

Órgãos linfoides primários e secundários

A organização imune aviária combina órgãos primários, que participam da formação e do amadurecimento dos linfócitos, com órgãos e tecidos secundários.

  • Órgãos linfoides primários: incluem o timo, a bolsa cloacal ou bolsa de Fabricius e o saco vitelino.
  • Timo: participa do amadurecimento e da proliferação dos linfócitos T.
  • Bolsa cloacal: participa do amadurecimento e da proliferação dos linfócitos B, enquanto seus precursores são produzidos na medula óssea.
  • Bursa de Fabricius: é um órgão linfoide primário adicional, único e exclusivo das aves; também é denominada bolsa cloacal.
  • Resposta imune adaptativa: envolve linfócitos T e linfócitos B; os linfócitos B estão relacionados à bolsa de Fabrício.
  • Órgãos linfoides secundários: incluem o baço, as placas de Peyer, as tonsilas cecais e o divertículo de Meckel.
  • Tecidos linfoides associados: distribuem se pelas mucosas, pelos brônquios, pela cavidade nasal, pelo intestino, pela pele e pela conjuntiva.
  • Glândula de Harder: é um órgão linfoide secundário, assim como as tonsilas cecais.

Siglas ALT e tecidos associados

As siglas ajudam a identificar rapidamente a localização dos tecidos linfoides associados.

  • ALT: as siglas terminadas em ALT indicam tecido linfoide associado, do inglês associated lymphoid tissue.
  • BALT: tecido linfoide associado aos brônquios nas aves.
  • MALT: tecido linfoide associado às mucosas no organismo das aves.
  • NALT: tecido linfoide associado à cavidade nasal.
  • GALT: tecido linfoide associado ao intestino.

Barreiras locais e vulnerabilidade respiratória

Nas aves, o SALT é o sistema imune associado à pele e situa se nos folículos das penas. Os folículos das penas são importantes para o funcionamento desse sistema. O CALT, tecido linfoide associado à conjuntiva, também integra o sistema imune das aves.

Além disso, há tecido linfoide associado nas mucosas do intestino, da traqueia e do oviduto. Essas barreiras locais ganham relevância porque as aves são frequentemente acometidas por doenças respiratórias.

Estruturas linfoides e imunidade local

Nas regiões de entrada do sistema digestório, as tonsilas esofágicas estão situadas entre o esôfago e o proventrículo, enquanto as tonsilas pilóricas estão na saída do proventrículo, no óstio pilórico do estômago.

Ao redor da órbita ocular, a glândula de Harder integra o sistema linfoide das aves e proporciona imunidade local importante. Algumas vacinas aviárias são aplicadas por via ocular, iniciando localmente a resposta imune na glândula de Harder.

Referências intestinais na necropsia

No intestino delgado, as placas de Peyer estão localizadas na camada submucosa. O divertículo de Meckel origina se do pedúnculo do saco vitelino do embrião, permanece como um pedúnculo em formato de cicatriz e está localizado entre o jejuno e o íleo.

Essa estrutura não desaparece e pode ser visualizada durante a necropsia das aves, tornando se uma referência anatômica observável nesse exame.

Anatomia aplicada à avaliação clínica

Estômagos e estruturas digestórias

Para orientar a avaliação, é importante distinguir a função química da função mecânica no aparelho digestório das aves. As aves não possuem dentes e apresentam dois estômagos: o proventrículo, ou pró ventrículo, que funciona como estômago químico, e a moela, que funciona como estômago mecânico. O esôfago está conectado ao proventrículo.

Na terminologia em inglês, “gizzard” significa moela e “crop” significa papo. O papo é clinicamente relevante porque pode estar repleto em decorrência de determinadas doenças; por isso, sua observação pode compor a avaliação clínica e a necropsia.

Intestino e referências anatômicas

Na leitura anatômica, a localização das estruturas funciona como uma referência espacial para organizar os achados. O intestino das aves compreende intestino delgado, intestino grosso e cecos duplos. O pâncreas localiza se entre as alças do intestino delgado, tem coloração rosada e fica disposto na alça duodenal.

Na anatomia aplicada, o baço situa se entre o fígado e a moela, e cavidade abdominal e cavidade celomática são termos sinônimos. O coração do ganso apresenta dimensões anatomicamente maiores que o coração da galinha. A cloaca é um órgão único de excreção e convergência dos sistemas urinário, reprodutivo e digestório.

Sinais clínicos e pistas diagnósticas

Na avaliação clínica, a interpretação precisa integrar os sinais às estruturas observadas. Os sinais clínicos das doenças das aves são inespecíficos, muito parecidos e semelhantes entre si; por isso, não é possível identificar com segurança a enfermidade apenas pelo sinal, nem estabelecer o diagnóstico definitivo isoladamente pela sintomatologia.

Alguns achados direcionam a investigação anatômica: Bactérias e vírus que infectam o sistema reprodutivo podem causar alterações hemorrágicas nos folículos ovarianos. Determinados vírus replicam se nos folículos das penas e são eliminados da ave por esse tecido. Na avaliação clínica, devem ser observadas estruturas específicas como pernas, olfato e bico, pois diversas doenças acometem as pernas.

Achados anatômicos na necropsia

Na abertura da cavidade celomática, observam se o papo, o fígado, a moela, o coração, os vasos da base cardíaca, o intestino e o pâncreas. O fígado apresenta dois lobos. Já os pulmões e os rins permanecem firmemente aderidos à cavidade celomática e podem ser menos facilmente visualizados.

Os rins são alongados e apresentam formato diferente dos rins dos mamíferos. Em aves machos, os testículos localizam se próximos aos rins e não devem ser confundidos com eles; essa distinção é essencial durante a leitura dos achados anatômicos da necropsia.

Pistas do sistema reprodutivo

Nas fêmeas, observam se o ovário com seus folículos, o infundíbulo, o útero e as demais estruturas do sistema reprodutivo. Algumas bactérias e alguns vírus podem acometer esse sistema e causar alterações nos folículos ovarianos, oferecendo uma pista anatômica para a investigação.

Também pode ocorrer postura de ovos intra abdominal, aumentando o volume da cavidade celomática e provocando marcha semelhante à de um pinguim. Essa alteração do movimento pode auxiliar na suspeita clínica de postura ectópica de ovos.

Necropsia na avaliação do lote

Na avicultura comercial de produção, diferentemente dos mamíferos, o exame de necrópsia é parte integrante da avaliação dos sinais clínicos do lote. Como os sinais clínicos são frequentemente inespecíficos, podem ser examinadas aves mortas e aves moribundas submetidas à eutanásia, permitindo obter informações diagnósticas relevantes.

Os achados macroscópicos devem ser associados à coleta de tecidos para exame histopatológico e testes moleculares, como a reação em cadeia da polimerase. A associação entre sinais clínicos, achados macroscópicos, alterações histológicas e período de ocorrência orienta a suspeita diagnóstica.

Doenças musculoesqueléticas e metabolismo

Na avaliação clínica, além dos órgãos internos, observe pernas, pés, bico, crista, barbela, penas, ossos e musculatura. Doenças ósseas podem estar relacionadas a alterações metabólicas ou deficiências nutricionais.

Atualmente, doenças nutricionais são incomuns na produção, embora possam ocorrer por falhas humanas, como a ausência ou o excesso de algum componente da ração. Já as doenças metabólicas permanecem importantes, em parte porque a seleção genética aumentou o crescimento e o desempenho das aves, sem que todos os sistemas acompanhassem essa velocidade de desenvolvimento.

Descompasso cardiovascular e ósseo

Em frangos de crescimento rápido, pode haver desproporção entre o desenvolvimento da musculatura e a capacidade cardiovascular. O coração pode ser insuficiente para atender à demanda circulatória aumentada, favorecendo insuficiência cardíaca e morte súbita.

No esqueleto, podem ocorrer alterações na epífise de ossos longos, principalmente fêmur e úmero, com falha na ossificação da cartilagem de crescimento. A permanência de cartilagem em lugar de osso torna a estrutura frágil, compromete o apoio dos membros e causa graves dificuldades de locomoção.

Plexo braquial e nervos ciáticos

Alguns vírus apresentam tropismo pelo sistema nervoso periférico e podem permanecer em estado latente. Por esse motivo, a avaliação dos membros deve incluir o plexo braquial e, especialmente, os nervos ciáticos; alterações nesses nervos podem indicar infecção nervosa.

Quando várias aves estão incapazes de se deslocar ou de alcançar alimento, considere a suspeita de distúrbio ósseo ou neurológico.

Barreiras iniciais e resposta imune

Barreiras antes da resposta imune

A sequência de proteção vai da casca do ovo às respostas imunes inata e adaptativa.

  1. Etapa: Casca do ovo — Nas aves, a casca do ovo é considerada a primeira barreira do sistema imune e atua na proteção do embrião em desenvolvimento. Como o embrião se desenvolve fora do organismo materno e não possui placenta, o ovo protege sua estrutura em desenvolvimento.
  2. Etapa: Saco vitelino — O saco vitelino fornece nutrientes até a eclosão. Durante o desenvolvimento do embrião, o saco vitelino, ou saco da gema, regride progressivamente e diminui de tamanho à medida que suas reservas são consumidas para a nutrição embrionária.
  3. Etapa: Pele e mucosas — Após a eclosão, a pele e as mucosas constituem barreiras físicas e químicas importantes.
  4. Etapa: Muco e tecido linfoide — O muco presente nos tratos respiratório e intestinal, assim como o tecido linfoide das mucosas, especialmente as placas de Peyer, participa da contenção inicial dos agentes infecciosos.
  5. Etapa: Ativação imune — Após a superação dessas barreiras iniciais, ocorre primeiramente a ativação dos mecanismos imunes inatos, seguida rapidamente pela resposta imune adaptativa.

Sinais infecciosos no incubatório

Fungos e bactérias são microrganismos frequentemente encontrados nos incubatórios de pintinhos. A não eclosão do ovo ou a falha na reabsorção do saco vitelino em pintinhos são indicativos de infecções fúngicas ou bacterianas de incubatório. A não eclosão do ovo ou a ausência de reabsorção do saco da gema no pintinho eclodido é um importante sinal de infecção.

Células e complemento na imunidade inata

A resposta imune inata é ativada rapidamente e apresenta caráter inespecífico. Ela reconhece a presença de um agente agressor sem necessariamente identificar de imediato qual patógeno está envolvido. Essa ativação promove resposta inflamatória, recrutamento celular e liberação de mediadores. Entre as células envolvidas estão macrófagos, células dendríticas, heterófilos e outras células de defesa.

A imunidade inata é mediada por essas células e pela produção de citocinas pelos macrófagos. O sistema complemento também participa dessa resposta por meio de uma cascata de substâncias com funções distintas. Nas aves, o sistema complemento atua na realização da fagocitose e na destruição de agentes patogênicos.

Reconhecimento e apresentação antigênica

A resposta imune adaptativa é específica para patógenos, e as células do sistema imune possuem receptores capazes de reconhecer bilhões de antígenos. O passo de apresentação antigênica conecta o reconhecimento do agente à ativação adaptativa.

As células dendríticas e os macrófagos atuam como células apresentadoras de antígenos. Macrófagos e células dendríticas apresentam antígenos para dar início à resposta imune adaptativa. As células apresentadoras de antígenos fragmentam os antígenos e apresentam seus fragmentos aos linfócitos para iniciar a resposta imune adaptativa. As células apresentadoras de antígenos secretam interleucinas.

Funções distintas dos linfócitos T

Os linfócitos T e B são componentes da resposta imune adaptativa. Entre os linfócitos T portadores do receptor alfa beta (αβ), os T CD4+ correspondem às células auxiliares (T helper), enquanto os T CD8+ correspondem às células citotóxicas. Essa distinção organiza duas funções complementares na resposta.

Essas células possuem funções distintas. Os T auxiliares ajudam na produção de citocinas e na mediação da resposta imune, enquanto os T citotóxicos destroem células infectadas por vírus.

Resposta humoral e regulação

A resposta imune adaptativa, em sua dimensão humoral, produz anticorpos específicos contra antígenos por meio dos linfócitos B.

Além da produção de anticorpos, a coexpressão dos marcadores CD4 e CD25 em células T promove uma resposta anti inflamatória regulatória, contribuindo para o controle da ativação imune.

Imunidade celular, humoral e IgY

A resposta imune divide se em resposta imune celular e resposta imune humoral. A resposta imune mediada por células envolve principalmente os linfócitos T, mas também inclui o sistema complemento e citocinas. Já a resposta imune humoral é caracterizada por fatores solúveis, ou fatores líquidos, como proteínas de fase aguda, anticorpos, citocinas, quimiocinas e peptídeos.

Na imunidade humoral, plasmócitos e anticorpos atuam na neutralização de patógenos, na opsonização e na ativação do sistema complemento. Nas aves, a imunoglobulina Y (IgY), em substituição à IgG, é a classe de anticorpo predominantemente circulante no plasma, desempenha função análoga à IgG de mamíferos e é a imunoglobulina predominante nas lágrimas.

As aves também possuem as imunoglobulinas IgA, IgM e IgY (referida no texto transcrito como IgE).

Equilíbrio entre citocinas inflamatórias

A resposta inflamatória altera o estado normal de homeostasia e equilíbrio do organismo. Nesse processo, as citocinas pró inflamatórias iniciam os mecanismos de defesa; entre as interleucinas, há funções pró inflamatórias e anti inflamatórias.

IL 1, IL 6 e fator de necrose tumoral alfa são exemplos pró inflamatórios. Para cessar a resposta e buscar o retorno à homeostasia, o organismo libera interleucinas anti inflamatórias, como IL 10, IL 4 e IL 12. A IL 10 é considerada a citocina anti inflamatória mais importante.

Fígado e proteínas de fase aguda

Na resposta imune sistêmica, as interleucinas produzidas no local da infecção chegam ao fígado. O fígado atrai células imunes e produz quimiocinas para combater a infecção. As citocinas pró inflamatórias atuam no fígado, estimulando a produção e a liberação de proteínas de fase aguda.

As proteínas de fase aguda correspondem às alfa globulinas e beta globulinas, sendo compostas por esses dois grupos. O fígado produz alfa globulinas e beta globulinas e as libera na circulação sanguínea. As alfa e beta globulinas podem se ligar a nutrientes do organismo para evitar o desenvolvimento de bactérias.

Proteínas específicas das aves

Entre as proteínas de fase aguda específicas de aves está a ovotransferrina, relacionada à transferrina e presente em machos e fêmeas. Nas aves, a ovotransferrina atua aumentando a resposta inflamatória. Em contraste, a hemopexina em aves não apresenta aumento de concentração em algumas infecções bacterianas, como as causadas por Escherichia coli.

Dosagem e especificidade por espécie

As proteínas de fase aguda possuem especificidade de espécie e podem ser dosadas por imunoensaio ELISA. Por essa especificidade, kits de proteína C reativa desenvolvidos para cães ou humanos não funcionam para outras espécies. O método SPARCL por quimioluminescência possui kit específico para dosar proteínas de fase aguda em aves. Esses kits têm custo elevado e são usados predominantemente no âmbito da pesquisa.

Quando surge a tempestade inflamatória

Uma resposta inflamatória excessiva pode causar perda do controle regulatório do sistema imune, situação descrita como tempestade de citocinas. Isso ocorre quando o organismo perde o controle sobre a resposta inflamatória e libera uma quantidade exacerbada de citocinas. A produção exacerbada de interleucinas e outros mediadores pode prejudicar o organismo em vez de resolver a infecção. A resposta torna se intensa e autossustentada, dificultando a eliminação do agente e a recuperação do equilíbrio fisiológico.

Células sanguíneas das aves

Classificação dos leucócitos mamíferos

Nos mamíferos, os leucócitos podem ser organizados pela presença ou ausência de grânulos.

ClassificaçãoCélulas ou formaCaracterísticas
GranulócitosNos mamíferos, os granulócitos incluem os neutrófilos, os basófilos e os eosinófilos.Os granulócitos são leucócitos que contêm grânulos e atuam como células de defesa.
AgranulócitosNos mamíferos, os agranulócitos são linfócitos e monócitos.
Forma jovem do neutrófiloO neutrófilo bastoneteCorresponde à forma jovem do neutrófilo.

Heterófilos substituem neutrófilos

Nas aves, estão presentes basófilos, eosinófilos, linfócitos e monócitos, mas não neutrófilos. Em substituição aos neutrófilos, as aves possuem heterófilos.

Os heterófilos são granulócitos presentes no sangue das aves que não existem nos mamíferos. Nas aves, o heterófilo é o principal granulócito e exerce função equivalente à do neutrófilo.

Funções da defesa aviária

Os heterófilos são as primeiras células de defesa a chegar ao foco infeccioso nas aves. Seus grânulos contêm substâncias que auxiliam a fagocitose, a lise celular e a atração de monócitos.

Além dos heterófilos, o sistema imunológico aviário apresenta centros germinativos de linfócitos e a imunoglobulina IgY.

Monócitos, macrófagos e células NK

Os monócitos estão presentes no sangue, enquanto os macrófagos localizam se nos tecidos após a ativação dos monócitos; não há macrófagos no sangue. Nesse processo, o monócito transforma se em macrófago ao migrar para o tecido e ser ativado. Assim, macrófagos são monócitos ativados presentes nos tecidos.

As células NK são linfócitos especializados que não são classificados como linfócitos B ou T. O sistema complemento é constituído por uma cascata de substâncias que contribui para a fagocitose e a destruição de agentes infecciosos.

Eritrócitos nucleados e trombócitos

No esfregaço sanguíneo, reconheça primeiro a presença do núcleo e diferencie plaquetas de trombócitos pela estrutura celular completa.

AspectoAvesMamíferosRépteis, anfíbios e peixes
EritrócitosOs eritrócitos das aves são nucleados, ao contrário dos eritrócitos dos mamíferos. Apresentam núcleo oval; as formas jovens correspondem aos reticulócitos.Os eritrócitos não possuem núcleo.Essa característica também está presente nos eritrócitos de répteis, anfíbios e peixes.
Plaquetas e trombócitosAs aves não possuem plaquetas típicas. Possuem trombócitos, que são células completas, com citoplasma, núcleo e grânulos.As plaquetas são fragmentos citoplasmáticos derivados dos megacariócitos.Nas aves, répteis, peixes e anfíbios, as plaquetas correspondem a células completas denominadas trombócitos, que contêm citoplasma, núcleo e grânulos.
Funções dos trombócitosOs trombócitos estão relacionados com a resposta inflamatória e auxiliam na realização da fagocitose. Os trombócitos das aves participam dos processos de hemostasia e coagulação sanguínea.

Comparação entre eritrócitos, plaquetas e trombócitos em diferentes grupos de vertebrados.

Morfologia variável no esfregaço

No esfregaço sanguíneo, o heterófilo apresenta núcleo lobulado semelhante ao do neutrófilo, porém contém grânulos eosinofílicos em formato semelhante ao de um grão de arroz. Eosinófilos e basófilos também podem ser identificados, assim como linfócitos e monócitos. Os linfócitos e monócitos constituem os agranulócitos encontrados no sangue das aves. Os eosinófilos das aves possuem grânulos eosinofílicos arredondados, enquanto os basófilos das aves apresentam grânulos de coloração azul escura.

A morfologia dessas células varia entre espécies. Galinhas, faisões, marrecos, papagaios, répteis, serpentes e lagartos podem apresentar diferenças importantes na aparência de heterófilos, eosinófilos e basófilos. Os anfíbios possuem tanto heterófilos quanto neutrófilos em seu sangue. Os répteis possuem heterófilos em seu sangue e não possuem neutrófilos. A identificação adequada depende da observação e do treinamento morfológico; nos monócitos das aves, procure o núcleo reniforme (em forma de ferradura) e os vacúolos no citoplasma.

Proteínas de fase aguda

Funções principais da albumina

As proteínas totais do sangue resultam da soma da albumina com as globulinas. A albumina é a principal proteína presente no sangue, atua no transporte de substâncias e regula a pressão oncótica. Apesar dessas funções, a albumina não exerce função direta na resposta inflamatória.

Inflamação e perdas de albumina

Na resposta inflamatória, a concentração de albumina frequentemente diminui porque o organismo prioriza a produção de globulinas. As globulinas plasmáticas dividem se em alfa, beta e gama; as gama globulinas correspondem às imunoglobulinas ou anticorpos.

Além da redução associada à inflamação, a albumina também pode ser perdida pela urina, em casos de albuminúria, e pelas fezes durante quadros de diarreia.

Fibrinogênio como marcador tardio

O fibrinogênio é uma beta globulina que corresponde ao fator I da coagulação. Como proteína de fase aguda relativamente tardia, seu aumento costuma ocorrer aproximadamente cinco a sete dias após o início da inflamação ou da infecção. Esse intervalo não permite determinar sozinho o momento exato da resposta inflamatória, porque a elevação geralmente é discreta.

A avaliação pode ser feita por precipitação e desnaturação térmica utilizando tubos capilares de hematócrito. Entre as opções disponíveis, o método de precipitação térmica em banho maria é simples, rápido e de baixo custo, embora também existam métodos bioquímicos mais sofisticados.

SAA, haptoglobina e PIT54

Entre as proteínas de fase aguda precoces, a amiloide A sérica, abreviada como SAA, destaca se por estar presente em diversas espécies, como equinos, bovinos, cães, gatos, ovinos e caprinos. A haptoglobina também é precoce, especialmente em ruminantes.

Nas aves, a proteína correspondente à haptoglobina é denominada PIT54. A PIT54 possui massa molecular de aproximadamente 54 mil daltons, enquanto a haptoglobina apresenta massa molecular de aproximadamente 45 a 50 mil daltons. Embora relacionadas funcionalmente, PIT54 e haptoglobina não são a mesma proteína: suas sequências gênicas e estruturas são diferentes.

CRP, AGP e confusões de sigla

AGP é uma proteína de fase aguda especialmente útil na avaliação de gatos: na medicina de felinos, tem grande utilidade diagnóstica e pode auxiliar na investigação de peritonite infecciosa felina quando apresenta concentração elevada. A proteína C reativa é um marcador de resposta inflamatória precoce, utilizado em cães, suínos e seres humanos; pode aumentar a partir da sexta hora, e valores elevados indicam que o paciente provavelmente está nas primeiras 24 horas da resposta inflamatória. Não confunda: internacionalmente, a sigla é CRP ( C Reactive Protein ); PCR, embora usada coloquialmente para a proteína C reativa, também designa a reação em cadeia da polimerase.

Sinalização hepática das proteínas

As proteínas de fase aguda são produzidas principalmente pelo fígado após o recebimento de sinais provenientes de citocinas pró inflamatórias. Entre os mediadores envolvidos estão as interleucinas 1 e 6 e o fator de necrose tumoral alfa. As citocinas pró inflamatórias que estimulam a produção hepática de proteínas de fase aguda incluem interleucina 1 beta, interleucina 6 e fator de necrose tumoral.

Quando essas citocinas alcançam o fígado, a resposta deixa de ser apenas local e passa a apresentar caráter sistêmico. As aves possuem proteínas de fase aguda da inflamação, como a amiloide A sérica e a haptoglobina. Nas aves, são investigadas a amiloide A sérica, a PIT54, a proteína C reativa e a AGP; outras proteínas permanecem em estudo.

Leitura integrada da eletroforese

A eletroforese de proteínas, também denominada eletroforetograma, permite fracionar as proteínas sanguíneas. O traçado inclui albumina, alfa 1 globulinas, alfa 2 globulinas, beta 1 globulinas, beta 2 globulinas e gamaglobulinas. A albumina representa aproximadamente 50% a 60% das proteínas sanguíneas e apresenta o maior pico. A pré albumina pode aparecer em uma fração pequena e nem todas as espécies de aves a apresentam. A fração de pré albumina é composta predominantemente por apolipoproteínas. Infecções podem aumentar as gamaglobulinas, enquanto inflamações podem alterar as frações alfa e beta. A fração de gamaglobulinas corresponde aos anticorpos, e um pico mais estreito indica diminuição da concentração da respectiva fração proteica. Infecções fúngicas em aves causam aumento das frações de alfa globulina, beta globulina e gamaglobulina, correspondente aos anticorpos. Em calopsitas, a eletroforese de proteínas permite identificar alterações proteicas decorrentes de infecções fúngicas.

Elemento ou situaçãoAchado no eletroforetogramaLeitura interpretativa
Albumina
Representa aproximadamente 50% a 60% das proteínas sanguíneas e apresenta o maior pico.
Fração predominante no traçado.
Pré albumina
Pode aparecer em uma fração pequena; nem todas as espécies de aves a apresentam.
Composta predominantemente por apolipoproteínas.
Fração globulínica
Inclui alfa 1 globulinas, alfa 2 globulinas, beta 1 globulinas, beta 2 globulinas e gamaglobulinas.
Organiza a leitura das frações proteicas.
Gamaglobulinas
A fração de gamaglobulinas corresponde aos anticorpos.
Infecções podem aumentar as gamaglobulinas.
Padrão do pico
Um pico mais estreito indica diminuição da concentração da respectiva fração proteica.
Avaliar a fração correspondente ao pico.
Inflamação
Inflamações podem alterar as frações alfa e beta.
Interpretar as alterações junto ao padrão global.
Infecção fúngica em aves
Causa aumento das frações de alfa globulina, beta globulina e gamaglobulina, correspondente aos anticorpos.
Elevação conjunta das três frações.
Calopsitas
A eletroforese de proteínas permite identificar alterações proteicas decorrentes de infecções fúngicas.
Aplicação na identificação dessas alterações.

A interpretação depende da fração alterada e do padrão do pico.

Imunidade adaptativa das aves

Receptores e regulação dos linfócitos T

A imunidade adaptativa se caracteriza pela alta especificidade: as células T possuem bilhões de variações de receptores para reconhecer diversos antígenos patogênicos. O receptor de célula T, ou TCR, pode ser do tipo alfa beta ou gama delta. Os linfócitos T CD4 auxiliares e os linfócitos T CD8 citotóxicos apresentam receptores alfa beta.

Entre os linfócitos T CD4 encontram se os linfócitos T reguladores. A associação entre CD4 e CD25 participa de uma resposta regulatória anti inflamatória, reduzindo a intensidade da ativação imune.

Linfócitos gama delta no intestino

Os linfócitos T gama delta são particularmente importantes nas aves porque estão amplamente distribuídos pelo epitélio intestinal. A presença de tecido linfoide ao longo de todo o intestino das aves permite utilizar estratégias nutricionais e produtos para otimizar a resposta imune, preservando a saúde intestinal. Aproximadamente 60% dos linfócitos presentes nesse epitélio podem apresentar esse tipo de receptor.

Essas células produzem citocinas e apresentam atividade citotóxica, auxiliando na eliminação de células infectadas por agentes como Salmonella e por alguns vírus. No sangue periférico das aves, as células T gama delta (γδ) dividem se nos fenótipos CD8 negativo, CD8 alfa alfa positivo e CD8 alfa beta positivo. Essa proporção é significativamente maior nas aves do que a encontrada em mamíferos.

Th1, Th2 e citotoxicidade

Os linfócitos T auxiliares coordenam a resposta imune por meio da produção de citocinas, estimulando macrófagos e auxiliando os linfócitos B na produção de anticorpos. As respostas mediadas por linfócitos T Helper 1 (Th1) dirigem se à eliminação de patógenos intracelulares, enquanto as mediadas por T Helper 2 (Th2) combatem patógenos extracelulares. As células Th2 auxiliam as células B na síntese de anticorpos específicos e na formação de células de memória.

As células T Helper promovem a proliferação de células T CD8+ e estimulam a ativação de macrófagos para a produção de interleucinas. Assim, a resposta adaptativa ajusta se ao tipo de patógeno envolvido. Quando o sistema imune local na mucosa não consegue conter uma infecção, entra em ação a resposta imune sistêmica.

Anticorpos da imunidade humoral

A imunidade humoral envolve anticorpos produzidos pelos linfócitos B. Quando ativado, o linfócito B se diferencia em plasmócito, e esses anticorpos neutralizam patógenos, promovem opsonização e podem ativar o sistema complemento. Nas aves, a IgY é a imunoglobulina predominante; a IgA e a IgM também estão presentes e participam da proteção das mucosas e da imunidade sistêmica.

Transferência de imunidade materna

Trajeto materno da IgY

O trajeto da IgY acompanha a sequência entre o folículo ovariano, o saco vitelino e a circulação do pintinho.

  1. Etapa: Transferir a IgY da ave mãe para o ovo por meio do folículo ovariano, acumulando a no saco vitelino.
  2. Etapa: Reabsorver o conteúdo residual do saco vitelino aproximadamente nas primeiras 24 horas após a eclosão.
  3. Etapa: Absorver o saco vitelino para o intestino, deixando uma cicatriz remanescente.
  4. Etapa: Absorver a IgY no final da reabsorção do saco da gema; a IgM é absorvida quando o embrião engole o líquido amniótico restante na eclosão.
  5. Etapa: Passar a IgY para a circulação do pintinho recém eclodido, fornecendo imunidade materna temporária que diminui rapidamente e dura aproximadamente quatro dias.

Transferência de IgM e IgA

A transferência de IgM e IgA segue o trajeto do oviduto ao líquido amniótico e, depois, ao intestino do pintinho.

  1. Etapa: Localizar as imunoglobulinas IgM e IgA na parede do oviduto, e não no folículo ovariano como a IgY.
  2. Etapa: Adicionar IgM e IgA ao ovo durante sua passagem pelo oviduto.
  3. Etapa: Manter essas imunoglobulinas no conteúdo associado ao embrião, onde podem ser absorvidas por meio do líquido amniótico.
  4. Etapa: Engolir o líquido amniótico presente no ovo durante o processo de eclosão.
  5. Etapa: Apresentar, após a eclosão, IgY na circulação e quantidades importantes de IgA e IgM no intestino.

Imunidade materna orienta vacinação

A imunidade materna deve ser considerada nos protocolos vacinais. Frangos de corte vivem aproximadamente 42 dias, enquanto poedeiras e matrizes podem viver mais de 100 semanas. Por isso, os protocolos diferem conforme a finalidade produtiva e também conforme a região.

Nas matrizes destinadas à produção de ovos para obtenção de novos pintinhos, o programa vacinal deve favorecer a transferência de imunidade materna para a descendência.

Desenvolvimento dos órgãos linfoides

Atividade e involução da bolsa

Acompanhe a linha temporal da bolsa cloacal e relacione sua involução à repercussão das infecções conforme a idade da ave.

  1. Etapa: A bolsa cloacal começa a apresentar atividade aproximadamente a partir do vigésimo dia de vida, com maior atividade entre a segunda e a terceira semana.
  2. Etapa: A estrutura está localizada dorsalmente à cloaca.
  3. Etapa: A partir da décima semana, inicia se sua involução.
  4. Etapa: Vírus que acometem esse órgão produzem efeitos principalmente em aves jovens, enquanto aves adultas podem apresentar menor repercussão, pois a bolsa já se encontra em processo de involução.
  5. Etapa: Na nomenclatura anatômica moderna, o termo “bolsa cloacal” substituiu o epônimo “bolsa de Fabricius”.

Timo, baço e medula óssea

O timo participa do amadurecimento dos linfócitos T, enquanto a bolsa cloacal participa do amadurecimento dos linfócitos B. A medula óssea produz os precursores dessas células. O timo é um órgão linfóide primário nos mamíferos. A medula óssea é um órgão linfóide primário nos mamíferos.

Após a involução da bolsa de Fabricius, o baço assume o papel principal na manutenção e resposta dos linfócitos B nas aves. O baço apresenta polpa branca e polpa vermelha, cuja organização e irrigação diferem parcialmente das observadas nos mamíferos. O linfonodo é considerado um órgão linfóide secundário.

Lesão da bolsa e falha vacinal

Quando a bolsa cloacal é comprometida, ocorre redução dos linfócitos B. Como os linfócitos B ativados originam plasmócitos, responsáveis pela produção de anticorpos, a lesão da bolsa pode causar diminuição ou ausência de anticorpos. As aves afetadas apresentam falha imunológica e respostas inadequadas às vacinas. Isso evidencia a importância dos órgãos linfoides primários para a proteção contra doenças.

Aplicação diagnóstica

Tecidos examinados na necropsia

  • Estruturas examinadas: Durante a necropsia e a avaliação histológica, devem ser examinados o timo, a bolsa cloacal, o baço, a glândula de Harder, as tonsilas cecais, o divertículo de Meckel e os tecidos linfoides associados às mucosas.
  • Visualização: Esses tecidos podem ser observados macroscopicamente ou microscopicamente.
  • Equivalência funcional: Esses tecidos exercem funções equivalentes às dos linfonodos dos mamíferos.
  • Aplicação diagnóstica: A análise dessas estruturas auxilia na compreensão da resposta imune e no estabelecimento do diagnóstico.

Marcas do sistema imune aviário

O sistema imune aviário apresenta características próprias que orientam a interpretação diagnóstica. As aves não apresentam linfonodos, possuem a bolsa cloacal e contam com tecidos linfoides disseminados. Também predomina a IgY, há heterófilos em vez de neutrófilos e existe grande quantidade de linfócitos T com receptores gama delta no intestino.

Além disso, os trombócitos participam da resposta inflamatória e exercem funções relacionadas à hemostasia e à coagulação.

Sinais inespecíficos exigem integração

Os sinais clínicos das doenças das aves são frequentemente inespecíficos, e nenhuma doença apresenta necessariamente um sinal patognomônico. Um sinal patognomônico é uma manifestação clínica específica que indica inequivocamente uma determinada doença; portanto, sua ausência ou presença isolada não deve encerrar o raciocínio diagnóstico.

A suspeita diagnóstica resulta da combinação de sinais clínicos, alterações macroscópicas observadas na necropsia, achados microscópicos, resultados laboratoriais e período de ocorrência. Por causa da inespecificidade dos sinais clínicos, o diagnóstico histopatológico em aves apoia se na avaliação macroscópica e microscópica dos órgãos e tecidos linfoides, cujo exame ajuda a compreender a resposta do organismo e a auxiliar no diagnóstico final.

Dicas Para Provas

Dicas Para Provas

Dicas Para Provas
No sangue periférico de aves, as células T gama delta (γδ) dividem se nos fenótipos CD8 negativo, CD8 alfa alfa positivo e CD8 alfa beta positivo.

Reflexão Sion

Proteção em rede

Nas aves, a defesa depende de barreiras, órgãos e células diferentes que atuam em conjunto e precisam manter o equilíbrio inflamatório. Isso lembra que a vida não é autossuficiente: cada parte tem uma função, mas a proteção se fortalece na integração. Em Jesus, encontramos esperança e um convite para viver com humildade, cuidado e confiança nele.

Assim como o corpo, embora um, tem muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo.1 Coríntios 12:12

Reflita sobre proteção, equilíbrio e dependência.

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