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MedVet7 PeríodoEconomia RuralFatores de Produção, Tecnologia e Mercado na Economia Rural

Fatores de Produção, Tecnologia e Mercado na Economia Rural

O fluxo econômico começa na avaliação do que o consumidor deseja e termina quando o produto retorna a ele, fechando o ciclo.

Duracao: 49 min

Topicos da aula

  • Fatores de Produção, Tecnologia e Mercado na Economia Rural

Overview

Visão panorâmica da economia rural

A economia rural parte de um problema central: a escassez de fatores de produção. Para resolvê la, é preciso combinar de forma eficiente os três elementos chave — recursos econômicos (terra, água, bens de capital e trabalho), tecnologia e mercado. O consumidor é o início e o fim de todo o processo: ao comprar, ele gera o sinal de reposição que percorre a cadeia produtiva, aciona o uso de fatores e realimenta um círculo virtuoso de renda, emprego e crescimento. Nesse contexto, o Brasil se destaca como protagonista mundial, pois reúne solo agrícola abundante, a maior reserva de água potável do planeta e tecnologia capaz de multiplicar a produtividade sem expandir área. Cabe ao veterinário compreender essa engrenagem para atuar na produção de alimentos e serviços com visão estratégica.

Fundamentos da Ciência Econômica

Conceito, escassez e objetivo da economia

A economia é uma ciência social que utiliza ferramentas das ciências exatas para analisar e solucionar problemas relacionados à escassez. Em qualquer economia do mundo, não há disponibilidade suficiente de fatores, em quantidade e qualidade, para produzir tudo aquilo de que a sociedade necessita. Diante desse problema central, torna se imperativa a realização de uma gestão eficiente, que empregue adequadamente os fatores disponíveis, combinando os para gerar bens e serviços capazes de atender à coletividade.

A produção veterinária abrange pecuária de corte, pecuária de leite, agricultura e suinocultura. Podem ser gerados produtos como carne bovina, carne suína, frango, leite, ovos e demais produtos agrícolas, bem como serviços, a exemplo de consultorias, cirurgias, atendimentos, imagens e exames laboratoriais.

Consumidor, renda e círculo virtuoso

O foco fundamental da economia é organizar todo o processo produtivo para atender ao consumidor, que representa o ponto inicial e final de toda a cadeia. A economia somente se organiza, produz e distribui porque existem consumidores, dotados de gosto, preferência e renda, dispostos a adquirir os produtos ofertados.

Quando o consumidor adquire um bem ou serviço, gera se um sinal de reposição que percorre todas as cadeias produtivas, acionando o uso de água, energia, mão de obra e demais fatores de produção. Esse processo é denominado círculo virtuoso da economia, no qual o consumo é o aspecto mais importante: a renda permite a aquisição de bens e serviços, gerando aceleração econômica, crescimento, geração de emprego e distribuição de renda.

Visão Geral dos Elementos Econômicos

Três setores: base, tecnologia e mercado

O mundo real é multivariado, e a economia trabalha, metodologicamente, com o plano cartesiano, estabelecendo relações entre variáveis independentes e dependentes. A simplificação do mundo real permite classificar a atividade econômica em três variáveis ou setores principais: base econômica, tecnologia e mercado.

A base econômica é constituída pelos recursos econômicos, ou fatores de produção, também denominados insumos ou inputs, que constituem a base para a produção de tudo. O segundo elemento é a tecnologia, ferramenta que busca ampliar a eficiência produtiva. A tecnologia também é uma ferramenta que busca ver o que os consumidores querem. Com a base econômica associada à tecnologia, é possível gerar tudo aquilo que o mercado demanda.

Ciclo de produção e distribuição

O fluxo econômico começa na avaliação do que o consumidor deseja e termina quando o produto retorna a ele, fechando o ciclo.

  1. Etapa 1: a geração de bens e serviços destina se a satisfazer necessidades, gostos e preferências dos consumidores.
  2. Etapa 2: o mercado avalia se existem tecnologia e fatores capazes de produzir.
  3. Etapa 3: se houver condição, ele produz e o resultado retorna ao consumidor.
  4. Etapa 4: esse fluxo configura um ciclo fechado de produção e distribuição.
  5. Etapa 5: dentro dessa estrutura, os recursos econômicos constituem o primeiro setor analisado; recurso econômico é tudo aquilo que está disponível para produzir.
  6. Etapa 6: os fatores de produção possuem características básicas: são escassos, versáteis e devem ser combinados de maneiras diferentes para produzir tudo o que a sociedade deseja.
  7. Etapa 7: a economia ensina a combinar os recursos de forma eficiente para oferecer ao mercado tudo o que é necessário.
  8. Etapa 8: a classificação dos fatores divide se em recursos naturais, recursos humanos e bens de capital.
  9. Etapa 9: a segunda classificação dos recursos econômicos são os bens de capital.

Recursos Naturais: O Fator Terra

Brasil, solo agrícola e potencial mundial

O Brasil como protagonista mundial

O solo agrícola é um fator essencial para a produção e o atendimento dos mercados. No cenário mundial, há países com sérias limitações edafoclimáticas, enquanto o Brasil se destaca como produtor potencial. O país dispõe de grande extensão territorial, embora utilize parcela reduzida dela, além de abundância de água, energia, mão de obra e condições bioclimáticas favoráveis para produzir e vender ao mercado.

Como a população mundial continuará crescendo e o alimento é o fator mais essencial para qualquer economia, poucos países terão capacidade de produção e distribuição. O Brasil figura como o primeiro país do mundo com possibilidade de produzir e distribuir alimentos em larga escala.

O Brasil tem protagonismo no processo e pode produzir e atender às demandas do momento.

Países com alta ocupação do solo

No mundo heterogêneo, alguns países ocupam grande parte do território com agricultura e pecuária. Veja os principais exemplos:

  • Heterogeneidade mundial: O mundo é heterogêneo, e a comparação entre países deve considerar essas diferenças.
  • Europa: A Europa tem território um pouco menor que o Brasil e grandes restrições e problemas para a agricultura e pecuária.
  • Auto ocupação: Alguns países apresentam auto ocupação, ou seja, ocupam grande parte da área do território com agricultura e pecuária, normalmente por possuírem planícies férteis e rios.
  • Bangladesh: Bangladesh utiliza aproximadamente 61% do território com agricultura, sendo um país muito populoso, com dificuldade de produzir para atender ao mercado interno e grande importador de alimentos.
  • Dinamarca: A Dinamarca utiliza quase 60% do território apenas com agricultura.
  • Ucrânia e Índia: A Ucrânia usa 50% ou 100% do seu território só com agricultura, e a Índia, 51,7%, apenas com agricultura.
  • Consequência: Esses países dificilmente poderão, a nível global, produzir alimento, energia renovável e fibra para atender à demanda internacional, tornando se compradores ou importadores líquidos.

Países continentais ocupam menos de 20%

Enquanto isso, os países de ocupação moderada a baixa reservam menos de um quinto do território para a agricultura. Veja:

  • Ocupação moderada a baixa: Países com ocupação de moderada a baixa utilizam menos de 20% da área territorial para produção agrícola.
  • Países continentais: Índia, China e Estados Unidos são considerados países continentais e enfrentam sérios problemas climáticos para a agricultura.
  • China: A China tem muita agricultura, mas não consegue atender o mercado interno.
  • Índia: A Índia também produz muito, porém não atende o mercado interno.
  • Importadores líquidos: Por isso, Índia e China são importadores líquidos de alimentos.

Estados Unidos: deserto, belts e safra única

Metade dos Estados Unidos é deserto; por isso, a produção agrícola concentra se na região nordeste dos belts: fora dessa região não há como produzir, e apenas uma safra por ano é obtida.

Uma parte dos Estados Unidos é desértica: a Itália é desértica e metade dos Estados Unidos é deserto. Esse dado reforça o peso do clima e da localização na definição das áreas agricultáveis.

Percentuais de uso do solo e casos áridos

Os percentuais de uso do solo variam entre os países citados: São Luís dos Abanhos utiliza cerca de 16% do território com potencial agrícola; a China, aproximadamente 5%; e a Rússia, 7,4%. A Austrália, por sua vez, é desértica.

  • São Luís dos Abanhos: utiliza cerca de 16% do território com potencial agrícola.
  • China: aproximadamente 5% do território com potencial para agricultura.
  • Rússia: utiliza 7,4% do território para agricultura.
  • Austrália: é desértica.

Baixa ocupação do solo no Brasil

O Brasil é um dos poucos países de tamanho continental que utiliza baixíssima fração do solo, inferior a 10%, e apenas 7,7% do território é usado com agricultura temporária ( safra de verão e safrinha de inverno ). Há ainda 9% com culturas permanentes, como cana de açúcar, café, borracha e outras. Esses percentuais consideram somente a agricultura; não estão incluídos os dados de pecuária. Caso a pecuária fosse incorporada, haveria falta de espaço.

No contexto internacional, Estados Unidos e Brasil destacam se como as maiores agriculturas e pecuárias do mundo. Os Estados Unidos, primeira economia mundial e primeira em agricultura e pecuária, utilizam muita tecnologia e servem de referência para o Brasil em diversos aspectos.

Produção de grãos: Brasil e Estados Unidos

A tabela contrasta a ocupação agrícola e a produção de grãos dos dois países. Os Estados Unidos podem crescer verticalmente, por incorporação de tecnologia, mas não horizontalmente.

IndicadorBrasilEstados Unidos
Área usada com agriculturaCerca de 65 milhões de hectares na média da décadaÁrea muito maior, já no limite da fronteira agrícola
Produção anual de grãosMais de 250 milhões de toneladasMais de 500 milhões de toneladas de produto agrícola ao ano, principalmente milho
Principais grãosSoja, milho, cevada, trigo e centeioPrincipalmente milho

Para produzir proteína, é necessário ter ração, obtida a partir de soja e milho. A produção de milho e soja permite gerar ração e, por consequência, produtos pecuários como bovinos de corte, leite, frangos de corte e aves de postura. Sem grãos, não é possível ter pecuária forte.

Tecnologia compensa a menor área

Os Estados Unidos ocupam área 2,5 vezes maior que a do Brasil, mas essa diferença não é determinante: é possível ter área menor e, com tecnologia, aumentar a produtividade e ser mais eficiente. Afinal, produtividade é a produção pela área.

Nos últimos 50 anos, o aumento da produção brasileira deveu se à eficiência e à produtividade, além de alguma expansão física. A diferença de produtividade entre os anos 60 e o ano passado deveu se às tecnologias embarcadas, que aumentaram a eficiência da área — ou seja, tecnologia compensa a menor área.

Cinquenta anos de ganhos de produtividade

O comparativo entre os anos 60 e o ano passado é o retrato de 50 anos de ganhos de eficiência: a produção de grãos saltou de 17,2 milhões de toneladas para 360 milhões de toneladas; a área plantada saltou de 22 para 78 milhões de hectares; e a produtividade passou de 780 kg/ha para 4.587 kg/ha.

IndicadorAnos 60Ano passado
Área plantada22 milhões de hectares78 milhões de hectares
Produtividade780 kg/ha4.587 kg/ha
Produção de grãos17,2 milhões de toneladas360 milhões de toneladas

Se mantivesse a produtividade dos anos 60, o Brasil precisaria de 381,4 milhões de hectares para alcançar a produção atual, em vez dos 78,5 milhões de hectares efetivamente usados.

O gargalo do milho frente aos EUA

No comparativo direto com os Estados Unidos, o Brasil produz atualmente metade do que os norte americanos produzem, em média, na década, e tende a ultrapassar esse patamar. Na soja, o país já superou os Estados Unidos; no milho, porém, o cenário ainda é diferente.

No milho, há um gargalo tecnológico de produtividade: a média brasileira é de cerca de 7 toneladas por hectare, enquanto a média norte americana é de 12 toneladas por hectare. Os Estados Unidos têm mais tecnologia e produzem muito mais milho que o Brasil, sendo esse o principal gargalo. Quando o Brasil equalizar a tecnologia, a produção de milho alcançará novos patamares.

Excedente agrícola e reserva cambial

O excedente de produtos agropecuários — soja, milho e carne — pode ser exportado, internalizando dólares, aumentando a reserva cambial e permitindo investimentos em áreas problemáticas, como os Estados Unidos fazem. O Brasil usa a agricultura e a pecuária como base para gerar recursos financeiros a serem aplicados em outras áreas, possibilidade que poucos países do mundo têm.

Brasil e Estados Unidos têm tendência à expansão horizontal e vertical da área agrícola porque têm potencial. Os Estados Unidos, porém, estão em plena estabilização, pois são um país altamente desenvolvido que já consome tudo o que precisa; sua perspectiva é de estabilização ou até declínio da utilização da área agrícola no longo prazo.

Demanda mundial por alimentos

Os países desenvolvidos não puxarão a produção agrícola e pecuária mundial, pois já consomem tudo o que precisam e não há espaço para maior consumo de alimentos. Nesses países, o excedente de renda é direcionado a viagens, luxo e outros produtos, e a alimentação representa pequena parcela dos gastos. Quem puxará a produção mundial de alimentos são os países em desenvolvimento, que têm necessidade de consumo de energia, proteína e ovos.

O Brasil é altamente eficiente, conseguindo tirar duas ou até três safras por ano, o que gera competitividade: a infraestrutura da propriedade rural — cada hectare sistematizado, parque de máquinas, tratores, colheitadeiras, implementos, galpões, silos, moegas e balanças —, quando usada várias vezes ao ano, dilui o custo pela produção. A América do Norte e a Europa, ao contrário, só conseguem tirar uma safra por ano, dividindo a estrutura uma única vez; o Brasil divide por duas ou três safras, resultando em custo sempre menor.

Barreiras comerciais contra o agro brasileiro

As grandes guerras comerciais e tarifárias decorrem do fato de ninguém conseguir bater o custo de produção brasileiro, cujo produto é barato, relativamente. Para evitar que essa mercadoria chegue e cause impacto negativo ao produtor local, países como Estados Unidos e Europa criam barreiras tarifárias, sanitárias e fiscais, a fim de evitar a competição.

São utilizados argumentos como febre aftosa, doença de Newcastle ou outros problemas sanitários, muitas vezes não correspondentes à realidade, pois são controláveis. O objetivo real é impedir que o produto chegue muito barato e quebre o mercado interno.

Plantio direto e preservação do solo

O Brasil possui grande tecnologia agrícola, com destaque para o sistema de plantio direto. Nesse sistema, a cobertura vegetal não é totalmente retirada; o resíduo da cultura anterior é incorporado ao solo, formando uma cobertura morta que protege a umidade e melhora a parte orgânica. Isso permite fixar carbono, evitar erosão e gerar uma série de impactos positivos.

O plantio direto foi criado no Paraná na década de 30. O agricultor deixa o resíduo da cultura e, no ano seguinte, incorpora e planta em cima. O agricultor norte americano retira toda a cobertura, deixando o solo nu para realizar todo o processo. Assim, o plantio brasileiro é mais preservador da energia do solo e da umidade, além de evitar erosão.

Por que exportar matéria prima limita ganhos

O Brasil é exportador líquido de produto agrícola, o que é positivo porque internaliza dólares no país. No entanto, exportar matéria prima é ruim: outros países ficam com o valor, o emprego e a renda gerados pelo beneficiamento.

Por isso, no médio e longo prazo, o Brasil deve vender produtos com alto grau de agregação de valor, pois produtos processados valem mais e geram riqueza no próprio país.

Soja e carne: exemplos de agregação

A China compra cerca de 40% da soja do Brasil, leva o grão e o esmaga — ou seja, 40% da exportação de soja brasileira vai para a China. Do esmagamento obtêm se torta, farelo e óleo, cujo conjunto vale mais do que o grão sozinho. Esse processamento ocorre na China, gerando emprego e renda no país importador, o que não é interessante para o Brasil.

A Argentina serve de contraste: não exporta grão, mas sim torta, farelo e óleo. No caso da carne bovina, a mesma lógica se aplica: o objetivo não é vender a meia carcaça, mas a carne já processada, embalada e pré pronta, que vale mais e gera riqueza internamente.

Exportação concentrada em soja e milho

A exportação brasileira é focada em commodities, como grãos, soja e arroz. Na parte agrícola, 93% de tudo que o Brasil produz é soja e milho; arroz, feijão e o restante correspondem a apenas 7%. A soja é a cultura mais importante para o Brasil.

O país representa 23% da produção mundial de soja, é o principal produtor mundial e o principal exportador, respondendo por 52% das exportações mundiais de soja. Os outros 15% da exportação de soja brasileira vão para o mundo.

Expansão em áreas degradadas versus agregação de valor

Há expansão sobre áreas degradadas, por exemplo, onde havia pecuária sem rentabilidade, com entrada da agricultura, obtendo mais renda por hectare. Os Estados Unidos, por sua vez, têm alta agregação de valor, com foco em alimento processado, arrecadando muito mais dólares por unidade exportada do que o Brasil. No longo prazo, o Brasil deverá mudar esse perfil, inclusive na pecuária.

Cooperativismo paranaense e agregação de valor

O Estado do Paraná fez, nos anos 70 e 80, um movimento para que o Brasil passasse a ter produtos de alto valor. O estado sempre teve agricultura focada em cooperativismo. Nos anos 70 e 80, as cooperativas eram associações de produtores que proporcionavam vantagens como armazenagem e venda de grãos.

Elas reuniam os associados e vendiam grandes volumes de soja e milho, realizando todo o processamento, secagem e limpeza, algo que o produtor sozinho não conseguia. A partir dos anos 80, o contexto mudou, e a cooperativa atual não serve apenas para comercializar: ela industrializa a matéria prima, transformando soja em óleo, produtos, iogurtes e margarina, agregando valor e obtendo margem no mercado. É esse o caminho da agregação de valor no campo.

Produtos processados e proteínas para o mercado

Na soja e no milho, a perspectiva é vender produtos processados. No caso das proteínas, é necessário criar mercado para levar ao consumidor o produto desejado, com características específicas de cortes de carne bovina, frango e pescado, vendendo o produto pré pronto. Também para frango e pescado, vende se o produto pré pronto. Para isso, o Brasil precisa aprender a ser vendedor, perguntando ao mercado o que ele deseja para produzir de acordo com a demanda. A trajetória da riqueza é interessante no momento, mas deve ser mudada.

Vantagem do fator terra no Brasil

A vantagem do Brasil é usar pouca fração do território para agricultura, com bastante preservação e muita área disponível — cerca de 90 milhões de hectares que não precisam ser incorporados, talvez nem utilizados para agricultura, pois os ganhos de produtividade permitem tirar mais produção por área, sem lógica no aumento físico da área. Esse é o diferencial do país.

Recursos Naturais: O Fator Água

Água: abundância aparente, escassez real

A água é o segundo fator de produção importante. Não se produz nada em termos de produção de origem rígida sem água. O planeta tem 71% de sua superfície coberta por água e apenas 30% de terra; apesar da abundância aparente, a água é fator escasso para a produção em muitos países, que não conseguem produzir por falta de água ou por custo elevado de captação.

A Arábia Saudita realiza dessalinização, mas o custo do litro é altíssimo. O Chile está começando a fazer o mesmo, bombeando água do Pacífico e dessalinizando para uso no interior, em áreas agrícolas.

Israel adota irrigação por gotejamento, com mangueiras dotadas de gotejadores e processadores que medem a capacidade de campo e a umidade do solo; quando a capacidade baixa, o sistema liga e goteja até atingir a capacidade de campo (saturação), quando cessa o gotejamento, e a água é aplicada com fertilizantes, configurando gestão eficiente.

Irrigação brasileira e gestão da água

No Brasil, a irrigação por pivô central existe, mas o método comum é a inundação por escoamento superficial, com grande desperdício. Dos 100% da água disponível no Brasil, mais de 70% é destinada à agricultura, restando 30% para a industrialização e o consumo humano.

O desperdício ocorre porque o país tem muita água. O Brasil é o primeiro país do mundo em reserva de água potável, detendo 13% de toda a água potável do planeta. Apesar do excesso, é indispensável a gestão da água, como também a gestão do solo.

Onde está a água doce do planeta

  • Água doce acessível: de toda a água potável do mundo, a humanidade só tem acesso a 0,5%, que é a água doce disponível.
  • Água subterrânea: Aproximadamente 98% está em aquíferos no subsolo, passível de captação.
  • Aquífero Guarani: O aquífero Guarani, que abrange Brasil e grande parte da América do Sul, tem estoque de água para 200 a 300 anos.
  • Captação de subsolo: São Paulo faz captação de subsolo em várias regiões, e há estados que também captam de aquíferos para abastecimento.
  • Distribuição da água doce: da água doce disponível, 1% é chuva, 0,9% está em lagos, 0,05% em reservatórios e 0,02% em rios.
  • Escassez de água: embora haja muita água, o acesso limitado a 0,5% faz da água um fator escasso na produção agrícola e pecuária.
  • Gestão da água: em mercados internacionais, a água é escassa; no Brasil, a necessidade é de gestão e uso eficiente, para que o fator seja utilizado por longo tempo na agricultura e na pecuária.

Países com maiores reservas de água potável

  • Maior reserva do mundo: O Brasil possui a maior reserva de água potável do mundo, com 13,2% do total.
  • Ranking dos cinco países: Em segundo lugar está a Rússia, que tem água, embora não em grande área; Canadá tem água relativamente abundante; Estados Unidos e China também figuram entre os principais.
  • Concentração mundial: Esses cinco países detêm 40% de toda a água potável do mundo.
  • Diferencial estratégico: Esse é um diferencial não apenas para a agricultura e a pecuária, mas também para o processo de industrialização.
  • Vantagem produtiva do Brasil: O Brasil, com solo, aproximadamente 5 mil horas de luz e muita água, pode, em princípio, desenvolver agricultura e pecuária com facilidade.

Demandas de energia, água e alimento até 2030

  • Demanda por energia: Estudos da ONU projetam que, até 2030, o mundo precisará de 50% mais energia.
  • Origem do aumento: O aumento da demanda energética decorre do crescimento do consumo: uma casa nos anos 70 tinha duas tomadas, e hoje necessita de cerca de 30.
  • Limite da geração no Brasil: O Brasil está próximo do limite da capacidade produtiva de geração de energia, o que pode se tornar um gargalo para o crescimento econômico.
  • Ampliação da matriz energética: É necessário ampliar a matriz energética com visão estratégica, por meio de hidrelétricas, energia solar, eólica ou de maré, com investimento em pesquisa.
  • Demanda por água: A projeção também indica a necessidade de 40% mais água para atender à população mundial, proveniente de dessalinização, rios ou aquíferos.
  • Demanda por alimento: O mundo precisará de 35% mais alimento, e a questão é quem poderá gerá lo: América do Norte, Europa, Ásia, Oceania ou África.
  • Protagonismo brasileiro: Todas essas demandas convergem para o protagonismo do Brasil, que pode produzir e atender ao momento.

Acesso desigual à água e ao saneamento

Os dados globais revelam como recursos essenciais são distribuídos de forma desigual.

  • Água potável: Cerca de 770 milhões de pessoas no mundo não têm acesso à água.
  • Saneamento adequado: Aproximadamente 2,5 milhões de pessoas não têm condição sanitária adequada.
  • Acesso à energia: Cerca de 1,3 bilhão de pessoas no mundo têm acesso à energia.
  • Desigualdade global: Esses dados demonstram desigualdade global, e os profissionais da área devem compreender o privilégio do acesso a esses recursos.

Litros de água por quilo de alimento

O veterinário deve conhecer a quantidade de água necessária para cada quilo de produto gerado: para cada quilo, é preciso ter, em contrapartida, a quantidade de água correspondente para poder gerar. A demanda hídrica é fortíssima — sem infraestrutura ou condições naturais adequadas não há produção.

ProdutoPegada hídrica
1 kg de carne bovina17.100 litros de água
1 kg de manteiga18.000 litros de água
1 kg de arroz2.500 litros de água
1 litro de leite712 litros de água
1 litro de cerveja5,5 litros de água
1 kg de carne de frango5.580 litros de água

Os últimos 20 anos registraram crescimento de 80% no consumo de água, e até 2030 esse consumo crescerá mais 24%.

Produção potencial de água e irrigação

A produção potencial de água no Brasil é de 1.158 m³/s. Desse total, 70% destina se à irrigação, uma área associada à produção que demanda muita água, com frequente uso inadequado e desperdício. Embora haja limitações, o Brasil apresenta uma série de vantagens para o processo produtivo, com terra, solo agrícola e água.

Bens de Capital

Bem de capital: fator criado pelo homem

Bem de capital é todo fator de produção criado pelo homem, utilizado na produção agropecuária, como máquinas, equipamentos, veículos, benfeitorias e instalações. Na medicina veterinária, são exemplos: mesa cirúrgica, ultrassom e raio x, indispensáveis para a realização de cirurgias, atendimentos, imagens e exames.

Para qualquer área médica ou de produção, é necessária uma infraestrutura implementada para gerar bens e serviços. A acumulação de bens de capital gera riqueza: quanto mais bens de capital acumulados, maior a riqueza gerada. Em outras palavras, máquinas, equipamentos e instalações são exemplos de fatores criados pelo homem.

Infraestrutura como bem de capital

Em um país, a infraestrutura inclui estradas, pontes, aeroportos, portos, geração de energia, água e saneamento básico. Esses investimentos são bens de capital: imobilizam recursos financeiros no presente, mas a estrutura passa a gerar trabalho, serviço e movimentação. A vantagem do bem de capital é gerar eficiência no serviço e na mão de obra; com mais eficiência, é possível produzir mais.

Infraestrutura, crescimento e restrições

Uma economia com muita infraestrutura é potencialmente capaz de aumentar rapidamente a produção agropecuária e de serviços. Por outro lado, restrições de infraestrutura brecam o avanço da agricultura, da pecuária e dos serviços; sem infraestrutura não se consegue crescer.

Se não houver investimento em infraestrutura, o país terá dificuldade de ampliar atendimento e serviços, criando restrições. É com a infraestrutura que o país gera sua riqueza e desenvolve toda a parte de produção e de serviços. Em outras palavras, infraestrutura é condição para crescer e gerar riqueza.

Visão estratégica para a infraestrutura

Para o governo, melhorar a infraestrutura é o mais importante hoje, e essa melhoria exige visão estratégica, considerando as necessidades futuras. Daqui a 30 anos, o país precisará de mais ferrovias, rodovias e investimento.

Para consolidar a infraestrutura, é fundamental investir de 15% a 20% do PIB durante 30 a 40 anos. Ou seja, planejamento de longo prazo é parte essencial da estratégia.

Bens de capital na fazenda e na clínica

Guarde estes exemplos: eles mostram que infraestrutura, construções e equipamentos são parte do mesmo conceito de bem de capital.

  • Bens de capital acumuláveis: em uma economia, são considerados bens de capital acumuláveis: infraestrutura (rodovias, ferrovias, aeroportos, portos, multimodalidade, armazenagem), construções e benfeitorias (cercas, bretes, balanças, casas, galpões, silos) e máquinas e equipamentos.
  • Infraestrutura: rodovias, ferrovias, aeroportos, portos, multimodalidade e armazenagem.
  • Construções e benfeitorias na fazenda: cercas, bretes, balanças, casas, galpões e silos.
  • Necessidade na propriedade rural: Em uma propriedade rural, todas essas estruturas são necessárias ao processo produtivo, além de máquinas e equipamentos.
  • Infraestrutura mínima na clínica veterinária: Em uma clínica ou hospital veterinário, a infraestrutura mínima inclui consultório, sala de recepção, canil, gatil, recepção e TV; tudo isso é infraestrutura e bem de capital.
  • Custo do empreendimento: tudo isso é bem de capital, custa dinheiro e é o item mais caro do empreendimento.

Como recuperar o capital investido

O valor investido em equipamentos caros — como uma máquina de ultrassom de última geração ( R$ 180 mil ) ou um hospital ( R$ 1 milhão ) — precisa ser recuperado por meio dos serviços oferecidos. Veja o fluxo completo:

  1. Etapa 1: Identifique o bem de capital. O valor aplicado em equipamentos caros, como uma máquina de ultrassom de última geração (por exemplo, R$ 180 mil), ou na construção de um hospital (por exemplo, R$ 1 milhão), precisa ser recuperado por meio dos serviços oferecidos.
  2. Etapa 2: Avalie a tecnologia do equipamento. Entre as máquinas de ultrassom, as versões 2D e 3D são as mais normais, e a versão 4D já existe.
  3. Etapa 3: Trate o equipamento como investimento. Um equipamento de 180 mil reais é um investimento, e a parcela dele deve ser cobrada no atendimento.
  4. Etapa 4: Evite copiar valores de mercado. Consultas com valores médios de R$ 100 a R$ 350 podem não corresponder à realidade de cada clínica, pois não existem duas clínicas iguais.
  5. Etapa 5: Evite tabelar a consulta. O valor cobrado por consulta não deve ser tabelado; ele deve refletir a infraestrutura disponível.
  6. Etapa 6: Ajuste o preço à infraestrutura. Quanto mais completa e moderna a infraestrutura, mais caro será o valor da consulta, do atendimento, do exame e da imagem, devido à imobilização de recursos financeiros.
  7. Etapa 7: A gestão correta envolve incorporar o bem de capital, determinar o custo de operação, fazer o fracionamento do custo pelos atendimentos e calcular quanto é necessário cobrar para viabilizar a clínica, pagar os custos e sobrar recurso para reinvestimento e melhoria da infraestrutura.

Metodologia de custo para produtos e serviços

A mesma metodologia de custo serve para qualquer produto ou serviço — do atendimento veterinário à arroba de carne bovina. Veja o passo a passo:

  1. Etapa 1: Conheça todos os custos técnicos. A gestão e a visão estratégica exigem conhecer todos os custos técnicos, valorá los e usar metodologia de custo para chegar ao valor de atendimento, consulta, cirurgia, imagem, exame laboratorial, arroba de carne bovina, quilo de frango ou litro de leite.
  2. Etapa 2: Valore cada custo. Depois de conhecer todos os custos técnicos, valorá los é o passo seguinte para aplicar a metodologia.
  3. Etapa 3: Aplique a mesma metodologia. A metodologia é a mesma para qualquer produto ou serviço — atendimento, consulta, cirurgia, imagem, exame laboratorial, arroba de carne bovina, quilo de frango ou litro de leite.
  4. Etapa 4: Identifique o fator de produção mais pesado. Na produção de bovinos de corte, leite, suínos de corte e frango de corte, o fator de produção que mais pesa no custo é a alimentação, representando mais de 70% do custo total de um produto veterinário.
  5. Etapa 5: Inclua o capital circulante. O capital circulante, composto por insumos e estoques, também é bem de capital.
  6. Etapa 6: Considere o efeito sobre a economia. Quanto maior a quantidade e a qualidade dos bens de capital, maior a riqueza da economia e seu potencial produtivo.

Revolução Verde e modernização agrícola

No final dos anos 50 e início dos anos 60, começou a Revolução Verde, caracterizada pela incorporação de fatores de produção modernos na agricultura: mecanização agrícola, agroquímica e biotecnologia. Inicialmente, houve expansão física de área em todo o mundo; posteriormente, ocorreram ganhos de eficiência e verticalização da produção, com maior produção na mesma área.

Área de lavoura e pessoal ocupado

A tabela compara a evolução da área de lavoura e do pessoal ocupado na agricultura brasileira, com destaque para o papel da tecnologia.

TemaDadosLeitura econômica / social
Área de lavouraNos anos 60, a área de lavoura com agricultura era de 28,7 milhões de hectares; atualmente, é de 81,6 milhões de hectares.O aumento ocorreu, mas seria muito maior sem a incorporação de tecnologia.
Hipótese sem tecnologiaSe o Brasil não tivesse a mesma tecnologia de 1960, precisaria de 381,4 milhões de hectares para chegar à mesma produção, em vez de 78,5 milhões de hectares.
Pessoal ocupadoO pessoal ocupado na agricultura era de 15,6 milhões de pessoas nos anos 60, atingiu o pico de 23,7 milhões nos anos 80 e, desde então, diminuiu.A mecanização e as tecnologias aumentam a eficiência e reduzem a utilização de mão de obra.
Migração campo cidadeO avanço da agricultura e da pecuária expulsa mão de obra do campo, que migra para a cidadeMuitas vezes sem treinamento ou conhecimento. Esse contingente precisa ser retreinado e recolocado.

A expulsão de mão de obra continuará ocorrendo; o contingente precisa ser retreinado e recolocado.

Colheita manual à mecanização da cana

Trinta anos atrás, São Paulo era o grande produtor de cana de açúcar, com colheita manual. A folha da cana parece uma navalha. A queimada era utilizada para secar as folhas, que são afiadas como navalhas e causam cortes; o canavial queimado permitia o corte manual.

Há cerca de 15 anos, a colheita manual e a queimada foram proibidas. A indústria desenvolveu colhedoras mecanizadas: hoje, toda a colheita é mecanizada. Na operação, a máquina colhe a cana, retira a folha, pica e a devolve para incorporação ao solo; eventualmente, cobras e aranhas podem ser colhidas junto, o que faz parte do processo.

Mecanização, escala e diluição de custos

O Brasil ainda tem problema de mecanização agrícola, pois os equipamentos são muito caros e as propriedades relativamente pequenas. Manter um equipamento de alto custo só compensa com escala. Uma colhedora de cana ou de café custa de 6 a 7 milhões de reais, e um trator pode custar mais de 1 milhão de reais.

Em áreas pequenas, o custo não é diluído e o investimento não vale a pena. Os impostos sobre esses equipamentos no Brasil também são muito caros, o que reforça a dificuldade de viabilizar a mecanização sem escala.

Nutrientes, genética e custo de implantação

O consumo de nutrientes passou de 243 mil toneladas para 17,2 milhões de toneladas de NPK (nitrogênio, fósforo e potássio). O aumento decorre do melhoramento genético, que tornou as plantas excepcionais na conversão de nutrientes em filetes. Sem suporte nutricional forte, a planta não responde.

A pastagem deve ser tratada como cultura: calagem, fertilização e variedades melhoradas são necessárias para alta produtividade no pastejo e resposta animal, o que representa investimento altíssimo.

Como curiosidade, o custo para implantar um hectare de soja, incluindo sementes, fertilizantes e defensivos, é de aproximadamente R$ 5.700,00. Os custos de estrutura para frango de corte, suínos e leite com mecanização e robótica também são elevados; o aumento de escala exige tecnologia e encarece a produção.

De grãos a ração e proteína animal

A rota produtiva começa no campo, com soja e milho, e termina na proteína animal consumida no mundo.

  1. Escala da ração: A produção de ração passou de 1 milhão para quase 90 milhões de toneladas.
  2. Destinação das lavouras: Praticamente mais da metade da soja brasileira, ou quase 30% dela, e 50% do milho são transformados em ração no país.
  3. Uso exclusivo: Não há outro uso para a soja e o milho destinados à ração no Brasil além da transformação em proteína.
  4. Produção pecuária: O Brasil é grande produtor de carne bovina, carne suína e frango; a produção de leite é menos expressiva, ocupando posição entre quinta e oitava no mundo, mas com potencial.
  5. Escala mundial: O rebanho bovino brasileiro é o segundo maior do mundo.
  6. Maior produtor de proteína: O Brasil é o maior produtor de proteína animal do mundo.
  7. Fechamento do ciclo: O aumento da produção de proteína no país responde pela expansão do consumo de ração; sem soja e milho, não há ração e, portanto, não há capacidade de produção de proteína.

Dinheiro não é bem de capital

Dinheiro não é bem de capital, pois, sozinho, não produz nada: plantar uma cédula não gera uma planta. O dinheiro é o padrão monetário criado por cada economia, que dá nome à moeda e permite valorar bens e serviços e realizar trocas. Sem ele, seria necessário o escambo, trocando um item por outro. O dinheiro permite comprar os fatores e, portanto, produzir. Com dinheiro, o produtor rural ou o veterinário tem condição de comprar fatores e gerar produtos e serviços. Ou seja, use o dinheiro como meio de troca, nunca como fator de produção em si.

Insumo versus bem de capital

Compare as duas categorias de fator de produção: insumo é consumido e transformado; bem de capital tem vida útil prolongada.

CritérioInsumoBem de capital
Papel no processoUsado no processo produtivo, transforma se em produto e não é recuperávelTem vida útil prolongada, durando décadas
ExemplosRação, água, medicamentos, vacinas e probióticos; também fertilizantes e combustívelMesa cirúrgica, máquina de raio x, ultrassom, edifícios, armazéns, silos, tratores, colheitadeiras, microscópios e muflas
TransformaçãoRação se transforma em carne; fertilizantes em grãos; combustível em trabalhoPermanece com vida útil prolongada, durando décadas
Nova compraPrecisa ser comprado toda vez que o ciclo produtivo é reiniciadoOs demais bens de capital não precisam ser comprados todo ano para gerar serviço ou produção
Definição do tempo de usoÉ necessário definir um tempo de uso, ou vida útil, podendo se utilizar tabelas pré programadas ou definir o período desejado para troca do fator
Recuperação do custoÉ essencial estabelecer um horizonte de durabilidade para recuperar o custo

Na agropecuária e na clínica veterinária, vacinas e ração são insumos; ultrassom e mesa cirúrgica são bens de capital.

Recursos humanos: do campo aos serviços

Recurso humano é a mão de obra utilizada nas diversas atividades. Na agricultura, houve redução da demanda por esse fator, como demonstra a evolução histórica; no setor de serviços, a demanda está aumentando. A criação de hospitais e clínicas veterinários e outras áreas de atuação demanda mão de obra qualificada para realizar essas atividades.

Tecnologia

Tecnologia como eficiência produtiva

A tecnologia é o segundo elemento chave em toda atividade produtiva e de serviços. Na produção, é preciso combinar fatores de maneira mais eficiente para gerar tudo aquilo que a sociedade deseja.

Ela permite combinar de maneira mais eficiente os fatores para gerar tudo aquilo que a sociedade deseja, atuando na transformação de recursos econômicos em bens e serviços. Em outras palavras, a tecnologia transforma fator em produto com mais eficiência.

Conhecimento e gestão como tecnologia

A tecnologia tem vários conceitos e várias visões, e não se resume a um único sentido. Em uma dessas visões, a tecnologia é entendida como conhecimento: quanto mais se evolui no estudo, maior a base de conhecimento e maior a eficiência na área de atuação.

No aspecto administrativo e de gestão, a melhoria da gestão e a visão sistêmica da atividade também representam avanço tecnológico, pois permitem detectar problemas e entrar com ações pontuais para melhorar a eficiência, reduzir custos e aumentar a produção.

Tecnologia na agropecuária brasileira

A tecnologia é um fator importantíssimo na agricultura, na pecuária e também na área de serviços. Na prática, ela foi a mola propulsora da agricultura, da pecuária e de todas as áreas afins.

O Brasil só atingiu grande produção agrícola e pecuária porque incorporou tecnologias modernas ao longo do tempo, obtendo ganhos de eficiência.

O conceito de ondas tecnológicas

A tecnologia não é um processo linear; ela se manifesta em ondas tecnológicas. Na história da agricultura e da pecuária, desde os anos 50, houve três momentos de incorporação tecnológica, com ganho cumulativo no tempo.

A primeira grande onda tecnológica foi a mecanização agrícola.

Mecanização no mundo: da guerra aos campos

Nos Estados Unidos e na Europa, a mecanização agrícola ocorreu entre os anos 20 e os anos 50, aproveitando a indústria bélica do final da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, redirecionada para tração e outras áreas da agricultura e pecuária. O mundo já utilizava a mecanização agrícola nos anos 30 e 40.

Antes da mecanização, a atividade agrícola era tocada com tração animal: um homem com um animal conseguia produzir cerca de 1 hectare por dia.

Mecanização tardia no Brasil e produtividade

A mecanização agrícola tornou se mais visível no Brasil a partir dos anos 50, ou seja, em períodos posteriores aos da Europa e dos Estados Unidos. Esse atraso caracteriza um déficit de incorporação tecnológica do país em relação a outros. A mecanização multiplicou por n vezes a possibilidade de produção de uma pessoa, gerando eficiência da mão de obra e ampliando a produtividade do trabalho.

Segunda onda química e seus produtos

A segunda onda tecnológica foi a chamada química agrícola, composta por fertilizantes, defensivos, herbicidas, fungicidas, antibióticos e outros produtos. Esses produtos reduziram a competição entre insetos e plantas: foram criados exatamente para isso, permitindo que a cultura exprima seu potencial genético no ambiente. Com a redução da competição externa, o foco de produção se desenvolve de maneira adequada. A expressão potencial genético resume essa ideia.

C3, C4, veterinária e cronologia

As culturas normalmente são plantas C3, menos eficientes na transformação de energia luminosa e água em produto. Já as plantas que competem com as culturas no ambiente são C4 e mais eficientes; algumas gramíneas e outras plantas competidoras, por serem muito mais eficientes, podem desbancar a agricultura.

Na veterinária, a química agrícola também envolve medicamentos para reduzir bactérias, fungos e parasitas que competem com a produção. No Brasil, a química agrícola ocorreu entre os anos 50 e 90, enquanto na Europa e nos Estados Unidos surgiu no pós Primeira Guerra Mundial. Ao reduzir a competição entre insetos e plantas, a química agrícola aumenta a capacidade da cultura de se expressar e produzir mais.

Definição e aplicações da biotecnologia

A terceira onda tecnológica é a biotecnologia, que inclui tecnologia focada em genética, melhoramento e transgenia. Esse campo abrange desde o cultivo celular até aplicações reprodutivas como fertilização in vitro e transferência de embriões.

Na nutrição animal, a biotecnologia estuda a microbiota dos animais para detectar competição entre bactérias, neutralizar as prejudiciais e incorporar as que facilitam a digestão.

Também há aplicações avançadas: a impressão 3D de órgãos utiliza o DNA do tecido da pessoa para criar um órgão e, no Japão, uma tecnologia usa células tronco para fazer o dente crescer novamente.

Transgenia nos cultivos e melhoramento vegetal

A transgenia está presente em mais de 90% da soja brasileira; quase sempre o milho é transgênico, e batata, frutas e verduras também têm versões transgênicas. O tomate é uma fruta climatérica, que amadurece após a colheita. O problema era amadurecer rápido demais e não chegar ao mercado.

Para contornar isso, o tomate longa vida foi produzido por transgenia, com introdução de DNA de outro organismo para reduzir a maturação. Já a fruta não climatérica, depois de colhida, permanece verde.

A transgenia também está por trás da cenoura com mais vitamina A e de plantas que suportam estresse hídrico; plantas transgênicas podem ser desenvolvidas para suportar estresse hídrico.

Biotecnologia, vacinas e eficiência genética

Na produção de vacinas por engenharia genética, o antígeno é utilizado para que a vaca produza o anticorpo no leite; após o processo industrial, a vacina é extraída. Esse método lembra a produção histórica com cavalos: pegava se o antígeno, o cavalo desenvolvia resistência e, do sangue filtrado, obtinha se a vacina para uso humano.

A biotecnologia é considerada eficiência genética e está associada à eficiência genética. Ela avançou notadamente a partir dos anos 80 e está presente na agricultura e na pecuária notadamente dos anos 80 para cá.

Avaliação da tecnologia e função de produção

Nem toda tecnologia é boa; é preciso avaliar sua eficiência. A avaliação exige experimento e medição da tecnologia atual, comparando vantagens e desvantagens antes de decidir. Na economia, essa relação entre fatores e resultado é representada no plano cartesiano, com uma variável independente e uma dependente.

No ganho de peso de bovinos de corte, leite, suínos de corte e frangos de corte, o fator que mais pesa no custo é a alimentação, que representa mais de 70% do custo total de produção. A conversão alimentar não é linear: o animal se alimenta e ganha peso, mas essa relação de troca tem fases de crescimento, engorda e incremento. Por isso, a função de produção linear não existe no mundo real; nenhuma resposta é linear.

Na verdade, a função de produção é uma parábola, ou função de segundo grau, mostrando que o ganho não cresce de forma constante.

Conversão alimentar e eficiência por fase

Animais mais novos convertem mais alimento em peso; com o envelhecimento, a eficiência diminui até atingir um máximo, podendo tornar se negativa. A conversão alimentar negativa ocorre quando o animal está com peso corpóreo total, recebe alimento e perde peso.

O processo tem fases: na fase inicial, cada dose de alimento gera ganho de peso proporcionalmente maior, com concavidade para cima e eficiência crescente; na fase intermediária, do novilho até o peso máximo, a eficiência diminui, com concavidade para baixo e crescimento a taxas decrescentes; o ponto máximo é o peso corpóreo máximo que equilibra o sistema. Se o animal for mantido além desse ponto, a eficiência torna se negativa.

A eficiência mede quanto o fator fornecido é transformado em peso corpóreo; a conversão alimentar é o inverso. Esse comportamento se aplica a qualquer processo biológico: pé de soja, pé de milho, boi, frango, suíno e ciclo completo, com formatos que podem ser mais longos, curtos ou altos.

Da curva de ganho ao experimento

A curva de crescimento explica o peso ótimo. Na fase AB, o crescimento ocorre a taxas crescentes, pois para cada dose de alimento o ganho é mais que proporcional. Do ponto B ao ponto C, o ganho é proporcionalmente menor a cada dose, até se atingir o máximo peso corpóreo que aquela genética, naquele sistema, consegue alcançar (ponto C). Se a aplicação do fator continuar além do máximo, o peso cai, caracterizando eficiência negativa.

Na prática, empresas como Brasil Foods e JBS definem novas linhagens por experimento a campo: colocam frangos de corte em gaiolas, pesam diariamente, medem a ração, verificam se sobrou e pesam novamente. Esse procedimento mapeia todos os pontos da função de produção daquele frango naquele ambiente.

O mapeamento da conversão alimentar do frango de corte ocorre em cerca de 39 a 42 dias.

Escolha da linhagem e pesagem por espécie

Mapeados os pontos da função, determina se a melhor linhagem para aquele ambiente. A linhagem nova é oferecida às empresas para substituir a usada antes, com base em critérios como ganho de 10 gramas no ciclo completo ou comer menos e alcançar o mesmo peso. Com suínos, esse acompanhamento é possível, mas o ciclo demora cerca de 150 dias.

Com bovinos de corte, a pesagem diária não é feita porque estressa o animal; realiza se a pesagem a cada 15 ou 20 dias, verificando o acumulado da alimentação. As repetições dos animais são submetidas a programas de análise estatística, que definem, em termos médios, o comportamento da eficiência diária: para cada dia, indicam quanto o animal comeu, quanto converteu, quanto bebeu de água e quanto ganhou de peso.

Curva de resposta e teste comparativo

A tecnologia é expressa pela curva de resposta do peso ao alimento, que mostra o comportamento da função de produção: dado o fator de produção ( alimento ), qual é a resposta do peso. Essa curva reflete a tecnologia, o melhoramento e outros aspectos incorporados ao animal; é a partir dela que o animal expressa o ganho total e o peso máximo.

Para testar o novo animal, ele é colocado na mesma condição, na mesma estrutura e recebe a mesma alimentação, para se ver a resposta. O animal avaliado encontra se no sistema convencional extensivo; no caso do novo animal, foi utilizado um nelore e feito um cruzamento industrial com raça britânica, resultando em uma raça mesclada.

Sobreposição, deslocamento e efeito tecnológico

No teste comparativo, o animal avaliado obtém uma quantidade de quilos de peso e consome uma quantidade de quilos de fatores de produção; esses dados alimentam a comparação das curvas. Se as duas funções de produção forem iguais, uma sobreposta à outra, as tecnologias são iguais. Se a função sofrer deslocamento para cima, a tecnologia é melhor do que a anterior; se deslocar para baixo, é pior.

No deslocamento para cima, o ponto máximo fica maior, com Q1 Q0, gerando mais produção com a mesma quantidade de fator. Assim, o efeito da tecnologia pode ser verificado de duas formas: gerar mais produção com a mesma quantidade de fator ou obter o mesmo nível de produção poupando insumo.

Mesmo abate com menos alimento

O segundo caminho para ver o efeito da tecnologia parte do mercado: o mercado quer animais com 16,5 arrobas, mais ou menos o peso em que abate hoje, e não quer animais mais pesados. Para chegar ao mesmo peso de abate com a nova tecnologia, reduz se o fator alimentar de x0 para x1.

Como está sendo dado menos alimento, o custo diminui; essa via envolve menos investimento e possivelmente mais remuneração e mais lucro.

Além disso, com a tecnologia também é possível obter uma arroba a mais por hectare ou uma arroba a mais de peso corporal por animal.

Custos, receitas e ponto ótimo de produção

No ciclo completo, a análise matemática envolve custo fixo, custo variável, custo total, custo médio, custo marginal, receita e lucro. Os indicadores permitem achar o ponto ótimo e a eficiência em cada etapa, por meio do produto médio e do produto marginal, mapeando todo o ciclo do animal: quanto come, quanto converte, em termos marginais e médios.

Com esses critérios, é possível determinar o peso ótimo do animal naquele sistema, o custo fixo e o custo variável, obtendo visão completa da gestão da produção. Na clínica veterinária, a mesma ferramenta otimiza atividades, atendimentos e serviços.

Graficamente, a tecnologia convencional é representada em vermelho e a tecnologia mais moderna em azul. Se a curva da tecnologia moderna está deslocada para cima, a azul é melhor do que a vermelha: há mais produção e mais eficiência, ou a mesma produção com menos fator.

Da agricultura manual à mecanizada

A evolução da tecnologia na agricultura brasileira pode ser ilustrada pela passagem da agricultura manual para a mecanizada. Na agricultura manual dos anos 50, uma pessoa cuidava de 1 hectare e produzia 2 toneladas de alimento.

Com a mecanização (nível 1), a mesma pessoa consegue produzir 20 hectares, enquanto na agricultura manual conseguia 1 hectare, e aproximadamente 25 toneladas de alimento por hectare. A tecnologia, portanto, permitiu que uma pessoa utilizasse mais área e produzisse muito mais alimento, proporcionando ganho de eficiência e aumento de produção.

Agricultura brasileira de 1960 a 2025

Dados comparativos de 1960 a 2025: a população brasileira passou de 70 milhões para 213,4 milhões de pessoas. A produção de grãos saltou de 17,2 milhões para 360 milhões de toneladas; a área cultivada, de 22 milhões para 78,5 milhões de hectares; e a produtividade, de 780 kg/ha para 4.587 kg/ha.

IndicadorAnos 602025
População brasileira70 milhões213,4 milhões
Produção de grãos17,2 milhões de t360 milhões de t
Área cultivada22 milhões de ha78,5 milhões de ha
Produtividade ( produção por área )780 kg/ha4.587 kg/ha

Sem o ganho de produtividade, o Brasil precisaria de 381,4 milhões de hectares para atingir a produção atual, em vez de 78,5 milhões de hectares – a tecnologia poupa área.

Evolução da pecuária de corte brasileira

Pecuária de corte: o rebanho bovino brasileiro passou de 58 milhões para cerca de 238 milhões de cabeças; há divergência entre estimativas do IBGE e da FAO, e estima se algo em torno de 220 a 230 milhões de cabeças, o segundo maior rebanho do mundo. A área de pastagem passou de 122 milhões de hectares (100 milhões de pastagens naturais e 22 milhões de artificiais) para 153,8 milhões de hectares. A produtividade da pastagem passou de 0,47 cabeça por hectare para 1,55 cabeça por hectare.

IndicadorAnos 60Atual
Rebanho bovino58 milhões de cabeçascerca de 238 milhões de cabeças
Área de pastagem122 milhões de ha (100 mi naturais + 22 mi artificiais)153,8 milhões de ha
Produtividade da pastagem0,47 cabeça/ha1,55 cabeça/ha
Produção de carne por hectarecerca de 4 a 5 arrobas/ha

Sem o ganho de produtividade, o Brasil precisaria de mais de 353 milhões de hectares de pastagem para atingir a produção atual. O Brasil é o maior produtor de proteína animal do mundo.

Café, açúcar e suco de laranja

Ranking de 2025: no café, o Brasil é o primeiro produtor e o primeiro exportador mundial, com 40% da produção mundial e 33% das exportações. No açúcar, também é o primeiro produtor e o primeiro exportador mundial, com 67% da produção mundial e 77% das exportações. No suco de laranja, mantém a liderança como primeiro produtor e primeiro exportador, com 40% da produção mundial e 63% das exportações.

CadeiaPosição do BrasilProdução mundialExportações mundiais
Café1º produtor e 1º exportador40%33%
Açúcar1º produtor e 1º exportador67%77%
Suco de laranja1º produtor e 1º exportador40%63%

Ranking de 2025.

Suínos, leite e carne bovina

Na pecuária, o Brasil também ocupa posições de destaque. Veja o resumo:

SetorRanking mundialParticipação
Carne suína4º maior produtor e 4º maior exportador4% da produção e 12% das exportações
Leite3º maior produtor e 8º maior exportador
Carne bovina2º maior produtor e 1º maior exportador17% da produção e 18% das exportações

A participação de mercado do leite não foi informada na fonte.

Oportunidades para o veterinário no agro

Nenhum país do mundo tem a capacidade produtiva do Brasil, e há muito espaço para a criação de novas atividades, tanto na produção quanto na agregação de valor e serviços. Esse cenário amplia o mercado de atuação do veterinário para além da produção primária.

Entre as oportunidades destacam se a consultoria para sanidade, a certificação de produtos orgânicos e outros serviços associados. Cabe um alerta: produtos orgânicos exigem certificação para atender ao mercado mundial.

Mercado e Necessidade dos Consumidores

Consumidor orienta; arroz e feijão não crescem

O mercado é o terceiro elemento chave da economia e é o aspecto mais importante, pois representa o ponto inicial e final de todo o processo. O consumidor orienta o mercado: expressa seus desejos e, com renda e preferências, adquire bens e serviços; primeiro o consumidor orienta o mercado e depois adquire o bem ou o serviço.

Essa lógica aparece no caso de arroz e feijão: o consumo per capita desses produtos teve queda fortíssima, superior a 15 quilos por ano, dos anos 60 até hoje. Por isso, não se espera crescimento da produção de arroz e feijão, pois a tecnologia atual atende ao mercado interno e o Brasil não exporta esses produtos.

Raízes em queda, cadeias em expansão

Além de arroz e feijão, o consumo per capita de mandioca e amendoim também está em queda. Para esses produtos com consumo per capita em redução, não há necessidade de aumentar a área ou a produção, pois a oferta atual já atende.

Por outro lado, soja e milho são culturas carro chefe que precisarão crescer em produção e produtividade, e o mesmo vale para açúcar, café e proteínas, porque o mercado mundial e nacional demanda essa matéria prima para tudo. Essas cadeias produtivas têm perspectiva de expansão para atender o mercado interno e externo.

Mercado mutável e planejamento da produção

Na economia, o terceiro elemento chave é o principal: a economia só existe porque há consumidores com renda, gosto e preferência dispostos a entrar no mercado para adquirir algo. O processo é mutável, pois gosto e preferência são dinâmicos, exigindo que a estrutura produtiva se adeque. Na prática, o mercado é dinâmico, está sempre mudando, e quem fica parado não sobrevive.

Acompanhar o mercado permite detectar mudanças, o que é importante para a planificação da produção e do serviço. Por isso, o produtor precisa estar sempre acompanhando o mercado e se ajustando para atender melhor, e o trabalho com marketing, diferenciação e outros aspectos é essencial para se ajustar continuamente ao mercado.

Alimentação como necessidade estratégica

Entre as principais necessidades dos consumidores estão alimentação, vestuário, habitação, saúde, transporte, educação, lazer e outros. Nesse conjunto, a alimentação é o fator mais estratégico do mundo: sem alimento, não se aproveita petróleo, diamante ou ouro. Garantida a alimentação, as demais necessidades podem ser expressas; a segurança agroalimentar é, portanto, o aspecto mais estratégico.

As demais necessidades dependem diretamente do nível de renda. Países mais desenvolvidos, com renda per capita alta, demandam muito mais outros fatores que o Brasil. A renda per capita brasileira é de cerca de 10 mil dólares, e há pessoas que gastam 70% a 80% da renda apenas com alimento, sem acesso a lazer, transporte, saúde e educação.

Renda concentrada e desigualdade crônica

A renda é o principal fator que permite acesso ao mercado e é o grande limitador do Brasil. No Brasil, há muita renda concentrada na mão de pouca parte da população, com desigualdade enorme que ninguém conseguiu corrigir. Esse problema é crônico e deverá ser solucionado.

A melhor forma de solução é uma economia organizada, com infraestrutura, que possibilite a entrada e a ocupação das pessoas no mercado. Esse processo levará cerca de 30 anos ou mais; não há milagre. Nem os alunos nem o professor verão a solução, por isso é necessário começar a fazer a lição de casa hoje.

Consumidores únicos e segmentação de mercado

Qualquer economia organizada centra se no gosto e na preferência dos consumidores. Não existem duas pessoas no universo com perfil de necessidade igual; cada um é único. A população é heterogênea, e cada pessoa tem suas preferências. Por isso, um produto ou serviço não atende a todos.

Uma fração de 2% a 3% da população já é um bom público alvo. Lançar um produto ou serviço para o mercado interno e externo é um processo complicado, que exige projeto econômico e financeiro, análise de mercado e estudo das condições. O dinheiro é caro, e o processo é complexo.

Economia como ferramenta de gestão

Dado que os recursos são escassos, a economia ensina a combinar os fatores de maneira eficiente para oferecer ao mercado tudo o que é necessário. Nesse sentido, a economia é uma ferramenta de gestão que permite que a produção seja gerada e atinja o mercado. Esse é o papel central do estudo da disciplina.

Reflexão Sion

A dependência que nos liberta

Na produção animal, a alimentação representa mais de 70% dos custos e a conversão alimentar tem um limite biológico, um ponto ótimo além do qual o ganho de peso diminui. Essa escassez e essas limitações mostram que, apesar de toda a tecnologia e planejamento, não temos o controle final sobre a safra ou o rebanho. Podemos confiar que o mesmo Deus que sustenta a criação é o provedor de cada necessidade nossa em Cristo Jesus.

Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem.Salmos 24:1

Leia o capítulo e descubra como a escassez de recursos aponta para a provisão de Deus.

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