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Doença Periodontal em Pequenos Animais: Aspectos Clínicos e Terapêuticos
O desbridamento periodontal segue uma sequência clínica que parte da resposta tecidual ao ar e à água e avança da remoção de resíduos superficiais até o controle da carga bacteriana.
Topicos da aula
- Doença Periodontal
Overview
Panorama da Doença Periodontal
A doença periodontal compromete a estabilidade dental ao promover um quadro inflamatório gengival progressivo e assimétrico, no qual se observa material de consistência gelatinosa aderido à superfície dentária que não deve ser confundido com cálculo dental. O manejo exige dominar a instrumentação odontológica e as técnicas de desbridamento, que vão da aplicação de ar e água à raspagem ultrassônica, curetagem e medicação adjuvante. Quando o planejamento cirúrgico é necessário, critérios objetivos como a exposição de mais de um terço do dente indicam extração, e o risco anestésico em pacientes idosos deve ser avaliado de forma individualizada — como ilustra o caso do canino geriátrico cardiopata. Por fim, a doença periodontal tem impacto sistêmico: a bacteremia contínua pode afetar múltiplos órgãos, e a melhora da saúde oral está diretamente ligada à longevidade.
Comprometimento da Estabilidade Dental
Gengiva Hiperêmica e Cálculo Dental
Na avaliação clínica da cavidade oral, o quadro inflamatório se manifesta por gengiva hiperêmica — coloração avermelhada do tecido — associada a cálculo dental de gravidade variável.
Nos estágios iniciais, a inflamação é discreta e a gengiva permanece relativamente aderida, apesar da deterioração progressiva já presente. Nos quadros avançados, o comprometimento é mais severo: há descolamento gengival e acúmulo de pelos, resíduos alimentares e material de consistência gelatinosa aderido à superfície dentária.
Material Aderido Versus Cálculo Dental
Na avaliação ampliada, é essencial não confundir o material aderido com o cálculo dental. O material aderido tem caráter temporário e consiste em um gel contendo grande quantidade de resíduos.
Já a gengiva pode estar inserida em determinados dentes e retraída em outros, evidenciando a assimetria da progressão da doença periodontal.
Instrumentação Odontológica e Técnicas de Desbridamento
Instrumentos do Equipo Odontológico
Entre os instrumentos do equipo odontológico, destacam se as canetas de baixa rotação, as canetas de alta rotação e a seringa tríplice, que combina ar e água.
A seringa tríplice possui botão de acionamento independente para cada componente, o que permite aplicar isoladamente ar ou água ou utilizar a combinação de ambos.
Fluxo do Desbridamento Periodontal
O desbridamento periodontal segue uma sequência clínica que parte da resposta tecidual ao ar e à água e avança da remoção de resíduos superficiais até o controle da carga bacteriana.
- Etapa 1 — Avaliação com jato de ar: Aplicar ar sob pressão e observar a resposta gengival. A aplicação de ar sob pressão em uma cavidade oral saudável provoca o afastamento gengival (rebatimento da gengiva). Em tecido inflamado, a aplicação isolada de ar induz sangramento imediato, sinal de que o desbridamento precisa avançar.
- Etapa 2 — Irrigação com ar e água: Aplicar ar e água de forma simultânea. A aplicação simultânea de ar e água promove a remoção dos resíduos de baixa aderência, ou seja, aqueles que se desprendem com facilidade.
- Etapa 3 — Avaliação dos resíduos remanescentes: Verificar se ainda restam detritos aderidos. Detritos mais aderidos requerem procedimentos adicionais, incluindo raspagem com aparelho de ultrassom, curetagem com curetas e administração de medicamentos destinados à redução da contaminação bacteriana.
- Etapa 4 — Raspagem ultrassônica: Realizar a raspagem com aparelho de ultrassom para eliminar os detritos mais aderidos à superfície dental.
- Etapa 5 — Curetagem: Executar a curetagem com curetas para complementar a limpeza das superfícies radiculares e remover o que permaneceu após a raspagem.
- Etapa 6 — Medicação adjuvante: Concluir com a administração de medicamentos destinados à redução da contaminação bacteriana, fechando o passo a passo do tratamento da doença periodontal.
Planejamento Cirúrgico e Terapêutica Adjuvante
Planejamento de Extrações e Antibiótico
Nem sempre é possível realizar todas as extrações em uma única sessão, pois o paciente pode permanecer por muitas horas na mesa odontológica. Nesses casos, o procedimento é realizado em duas etapas, o que eleva o custo e o risco.
Em pacientes idosos, que se encontram em estado de bacteremia durante o procedimento, recomenda se antibioticoterapia injetável, com destaque para o metronidazol, que apresenta boa ação contra micro organismos gram negativos.
Critério de Extração por Mobilidade
Na avaliação clínica, atenção redobrada para dentes com tecido retido, acúmulo de pelos e deposição de cálculo na linha cervical; além disso, o dente decíduo pode permanecer retido na cavidade oral. No canino, a anatomia normal apresenta um terço da estrutura exposta e dois terços correspondentes à raiz. O ponto crítico: quando mais de um terço do dente encontra se livre, com mobilidade acentuada, o elemento dental deve ser extraído.
Caso Clínico: Paciente Canino Geriátrico Cardiopata
Caso Clínico: Paciente Cardiopata Idoso
Um canino de 19 anos de idade, portador de cardiopatia e com severo comprometimento da cavidade oral, chegou com uma contraindicação prévia: o médico veterinário responsável havia vetado qualquer procedimento odontológico em função do risco anestésico. A recomendação para essa situação consiste na avaliação do paciente por um anestesiologista veterinário.
Se o animal apresentar se estável, com a cardiopatia controlada por medicação, eventualmente o especialista poderá autorizar o procedimento cirúrgico. A contraindicação, portanto, não é absoluta: ela deve ser reinterpretada por quem entende do manejo anestésico do paciente cardiopata.
Decisão Cirúrgica no Paciente Idoso
Dentro da análise de risco benefício em pacientes idosos, um caso humano ilustra bem o dilema: a família de um paciente de 92 anos questionou se ele seria capaz de resistir ao procedimento cirúrgico. A conduta anestésica foi individualizada, ajustada à idade e às comorbidades, e o procedimento transcorreu sem intercorrências. O paciente sobreviveu por mais quatro anos, vindo a óbito por neoplasia pulmonar, condição não relacionada ao procedimento realizado. O desenvolvimento de câncer de pulmão pode estar associado ao uso contínuo e prolongado de tabaco.
Intercorrências poderiam ter ocorrido, como em qualquer procedimento. Em um paciente de 18 anos, o índice de sucesso estatístico prévio seria superior, e a indicação cirúrgica traria maior tranquilidade, considerando a maior expectativa de vida e a maior probabilidade de o aneurisma causar óbito em um paciente jovem. Nesse caso específico, a família decidiu pelo procedimento, com resultado bem sucedido — uma situação análoga à do canino geriátrico.
Anestesia em Pacientes Geriátricos
Historicamente, evitava se anestesiar cães com idade superior a 10 anos. Atualmente, procedimentos cirúrgicos em cães com mais de 10 anos são realizados rotineiramente, e casos de cães ainda mais velhos, embora raros, já foram atendidos.
Durante a cirurgia, o anestesiologista monitora o paciente; em caso de intercorrência, a anestesia é interrompida para resolução da complicação e abreviação do tempo anestésico. A recomendação é buscar avaliação especializada em anestesiologia para determinar se o paciente está estável e com a doença cardíaca controlada, assim como quaisquer outras comorbidades. Se as condições forem favoráveis, o procedimento deve ser realizado.
Quando há doença cardíaca ou outra comorbidade sob controle e o paciente está estável, recomenda se realizar o tratamento odontológico completo, pois a melhora da qualidade de vida pode, inclusive, expandir a longevidade.
Impacto Sistêmico da Doença Periodontal
Disseminação Sistêmica da Bacteremia
Durante a mastigação, uma cavidade oral comprometida promove bacteremia e toxemia contínuas. Cada lesão presente na boca aumenta a permeabilidade vascular, favorecendo a absorção de toxinas produzidas localmente.
As bactérias atravessam a parede dos vasos sanguíneos e são distribuídas por todo o organismo. A doença periodontal pode, portanto, resultar em abscessos, infecções renais, infecções hepáticas ou comprometimento de qualquer estrutura, em decorrência da disseminação bacteriana constante.
Saúde Oral e Expectativa de Vida
A melhora da saúde oral está diretamente relacionada a uma maior expectativa de vida. O conceito de que pacientes idosos não devem ser submetidos a procedimentos, sob o argumento de que se encontram próximos do fim da vida, encontra se superado na prática clínica contemporânea.
Reflexão Sion
Quando o problema não fica onde começou
Na doença periodontal, uma simples lesão na gengiva permite que bactérias entrem na corrente sanguínea e atinjam órgãos distantes — um problema local que contamina o corpo inteiro. Feridas não tratadas na alma, como mágoas e culpas, também se espalham silenciosamente e corroem a vida por dentro. Jesus faz uma limpeza profunda no coração, criando em nós um espírito renovado e estável, mesmo quando tudo parece perdido.
Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável.Salmos 51:10
Descubra como uma avaliação individualizada transformou o prognóstico de um paciente de 19 anos — e o que isso revela sobre o cuidado de Deus.