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MedVet7 PeríodoOdontologia VeterináriaP1

Doença Periodontal II

Em quadros periodontais avançados, a doença periodontal pode promover a liberação de bactérias e toxinas para a circulação, contribuindo para complicações sistêmicas; por isso, não avalie a gravidade apenas pela capacidade de alimentação. A doença periodontal não

Duracao: 34 min

Topicos da aula

  • Doença Periodontal II

Overview

Doença periodontal em perspectiva

Esta aula apresenta a doença periodontal como um problema que ultrapassa a aparência do cálculo dental. Em quadros avançados, a perda de ligamento periodontal e osso alveolar pode causar mobilidade, retração, exposição de furca, dor, halitose e perda dentária, comprometendo intensamente a qualidade de vida e o bem estar. O impacto funcional varia entre espécies e conforme o uso do animal, mas a doença também pode favorecer repercussões sistêmicas. A avaliação adequada exige exame oral completo sob anestesia, sondagem de todo o perímetro dentário e, quando indicado, radiografia intraoral. O tratamento combina remoção mecânica do cálculo, curetagem, aplainamento e polimento, enquanto a prevenção depende de higiene domiciliar e acompanhamento veterinário. A decisão clínica deve equilibrar benefícios, riscos de extrações e necessidades funcionais do paciente.

Doença periodontal avançada e comprometimento da qualidade de vida

Perda do suporte dentário

No grau 4, a destruição periodontal compromete intensamente a sustentação dentária, com perda de dentes e de osso alveolar. A perda dos ligamentos periodontais e do osso alveolar explica a mobilidade dental.

A reabsorção e a perda óssea também expõem a região de furca dentária, um achado clínico da doença periodontal grave.

Achados visíveis na cavidade oral

Além da perda de suporte, os achados clínicos incluem cálculo dental, recessão ou retração gengival e gengivite com avermelhamento da gengiva. O cálculo dental pode recobrir a coroa dental.

Também pode haver acúmulo de sujidade na junção dos dentes com a mucosa jugal, mantendo resíduos em áreas retentivas da cavidade oral.

Sinais de gravidade no exame

Nos quadros avançados, a doença periodontal pode provocar halitose severa. Além disso, o dente pode permanecer retido na cavidade bucal preso unicamente por tecido gengival residual.

A gengiva inflamada apresenta hipervascularização e sangra facilmente quando recebe um jato de água. Durante o exame odontológico, esse jato de água é usado para remover pelos e materiais aderidos, facilitando a avaliação da cavidade oral.

Impacto periodontal no bem estar animal

Embora a doença periodontal não seja habitualmente letal, ela compromete intensamente a qualidade de vida e o bem estar. A doença periodontal causa dor, desconforto e halitose, sendo esta última o principal sinal clínico que motiva os tutores a buscarem atendimento veterinário.

Esse impacto se torna ainda mais evidente em cães de trabalho: a dor, a contaminação oral e a redução do conforto podem prejudicar atividades como busca de pessoas, condução de pessoas com deficiência visual e outras tarefas funcionais. Em cães de ataque, a perda dos dentes também representa perda do principal instrumento de apreensão. Mesmo quando o animal continua alimentando se, a condição oral permanece incompatível com uma boa qualidade de vida.

Impacto funcional entre categorias animais

O impacto funcional da doença periodontal varia conforme a categoria animal. Carnívoros conseguem conviver com maior comprometimento oral sem apresentar necessariamente grande prejuízo do trato digestório, porque não dependem do mesmo grau de mastigação para o preparo do alimento. Ainda assim, podem apresentar sofrimento, dificuldade para manter o peso e redução do bem estar.

Em primatas, a mastigação participa de modo mais importante da apreensão e do processamento alimentar, e a saliva contém enzimas. Por isso, a doença periodontal tende a produzir maior comprometimento funcional nessa categoria: a doença periodontal penaliza mais o sistema digestório de primatas do que o de carnívoros. Nos primatas, quando grave, o comprometimento da mastigação tende a causar perda de peso. Em animais que dependem estritamente da mastigação para processar o alimento, como os primatas, a perda dental pode causar emagrecimento e grave comprometimento do peso corporal.

Crescimento dentário em roedores e lagomorfos

Em roedores e lagomorfos, como os coelhos, existe crescimento dentário contínuo. O desgaste insuficiente por atrito e abrasão pode provocar alterações de oclusão, dificultando a apreensão e o preparo do alimento.

Assim, o comprometimento causado pela doença periodontal varia entre as espécies. Os carnívoros podem parecer menos afetados funcionalmente, mas isso não significa ausência de dor ou de prejuízo ao bem estar.

Repercussões sistêmicas além da boca

Em quadros periodontais avançados, a doença periodontal pode promover a liberação de bactérias e toxinas para a circulação, contribuindo para complicações sistêmicas; por isso, não avalie a gravidade apenas pela capacidade de alimentação. A doença periodontal não leva o animal a óbito direto pela afecção oral isolada, mas agrava outras condições clínicas. A saúde da cavidade oral integra o conceito de saúde holística e afeta a saúde sistêmica do organismo; assim, a saúde oral deve ser integrada à avaliação clínica e sistêmica geral do paciente veterinário, em uma abordagem holística.

Extrações dentárias e riscos associados

Extração diante da furca exposta

Dentes com exposição de furca e perda óssea alveolar avançada frequentemente precisam ser extraídos. Nessas situações, a extração pode ser tecnicamente simples, pois o dente já perdeu grande parte da sustentação periodontal e se encontra próximo da esfoliação.

A doença periodontal grave pode resultar em numerosas extrações, mas a facilidade de alguns procedimentos não deve ser confundida com ausência de importância clínica.

Curva de aprendizagem nas extrações

Casos com doença periodontal avançada podem ser úteis no início da capacitação prática, pois permitem o aprendizado de extrações pouco complexas. A remoção de um quarto pré molar gravemente comprometido é diferente da extração de um dente com fratura, pulpite ou alterações que preservem maior quantidade de ligamento periodontal e osso. Esses últimos exigem protocolo mais complexo e maior habilidade técnica.

Riscos anatômicos da perda dos caninos

O canino possui aproximadamente um terço correspondente à coroa clínica e dois terços correspondentes à raiz. Quando parte significativa da raiz se encontra exposta pela retração gengival e pela perda óssea, o ligamento periodontal remanescente também pode estar comprometido, produzindo mobilidade.

A extração pode ser simples, mas envolve riscos específicos conforme a localização do dente, tanto nos caninos superiores quanto nos inferiores.

Fístula oronasal e fragilidade mandibular

Na maxila, a perda ou extração de um dente canino superior pode promover a formação de uma fístula oronasal. A remoção de um canino inferior, especialmente em cães pequenos com dentes proporcionalmente grandes, pode fragilizar a mandíbula e predispor à fratura. Após a extração, o preenchimento do alvéolo ocorre por tecido conjuntivo cicatricial fibroso, e não por reconstituição completa do osso original. Permanece, portanto, uma área de fragilidade estrutural.

Consequências respiratórias da fístula oronasal

A fístula oronasal pode causar passagem de água pelas narinas durante a ingestão e entrada de resíduos alimentares na região óssea. A aspiração desses materiais pode favorecer episódios respiratórios recorrentes e pneumonia.

Em razão desse risco, o esforço de extração deve ser cuidadosamente avaliado, pois pode provocar fratura mandibular durante o procedimento ou complicações oronasais posteriormente.

Avaliação clínica da doença periodontal

Sondagem periodontal em todo o perímetro

A avaliação periodontal exige uma sequência completa de mensuração e inspeção de cada dente.

  1. Etapa: Inicie a avaliação com a mensuração do sulco gengival utilizando uma sonda periodontal milimetrada.
  2. Etapa: Mensure a profundidade do sulco gengival com a sonda durante o exame odontológico. Em cães de médio porte, a profundidade normal do sulco gengival saudável é de aproximadamente 2 milímetros.
  3. Etapa: Compare diferentes regiões do mesmo dente e as faces vestibular e palatal ou lingual, pois a profundidade pode variar entre elas. A visualização externa de um elemento dentário corresponde ao acesso pela face vestibular, enquanto a face interna de um dente corresponde à face lingual.
  4. Etapa: Examine todo o perímetro de cada dente sob anestesia; não é suficiente medir apenas um ponto.
  5. Etapa: Complete o exame odontológico detalhado de cada uma das faces dentárias para evitar que lesões passem despercebidas.

Por que examinar cada superfície

O diagnóstico da doença periodontal tem como primeiro passo o exame clínico oral por inspeção. Porém, a avaliação precisa abranger todos os dentes, porque a sonda pode penetrar profundamente em determinada região enquanto outra permanece preservada. O comprometimento do ligamento periodontal permite que a sonda periodontal se aprofunde no sulco gengival, e uma avaliação parcial pode subestimar a extensão da doença.

A investigação completa permite identificar bolsas periodontais, perda de inserção, retração gengival, mobilidade, exposição de furca e outros sinais que não são necessariamente visíveis durante uma inspeção superficial.

Remoção superficial não trata a doença

A remoção superficial do cálculo realizada sem anestesia não constitui tratamento da doença periodontal: ela retira apenas o material mais acessível e visível, enquanto a doença continua evoluindo na região subgengival. O processo se inicia com a deposição de resíduos no sulco gengival, seguida de mineralização por componentes salivares. O material mineralizado passa a lesar o ligamento periodontal e aumenta a profundidade do sulco.

Anestesia para avaliação periodontal completa

Sem sedação ou anestesia, não há avaliação periodontal completa: a curetagem subgengival provoca dor e sangramento, especialmente quando a gengiva está inflamada, e o animal não permite que todos os dentes sejam examinados adequadamente. A sondagem e a mensuração do sulco gengival em todos os dentes são etapas diagnósticas fundamentais na doença periodontal e exigem contenção sob anestesia geral. Propostas de tratamento sem anestesia não permitem avaliação, raspagem e tratamento apropriados de uma doença dolorosa e invasiva.

Sinais clínicos da doença periodontal

  • Sinais clínicos: Os principais sinais incluem retração gengival, mobilidade dental por perda de ligamento periodontal e osso alveolar, exposição de furca, esfoliação ou perda dos dentes, dor, desconforto e halitose.
  • Colo dentário: A preservação da linha do colo dentário indica a ausência de retração gengival significativa.
  • Ligamentos periodontais: A perda dos ligamentos periodontais constitui um foco de halitose e de progressão da doença periodontal.
  • Esfoliação: A esfoliação pode ocorrer quando dentes permanentes perdem a estabilidade do alvéolo.
  • Dentes decíduos: A retenção de dentes decíduos também favorece a retenção de resíduos e pode induzir o início ou a progressão da doença periodontal.

Halitose e repercussões anatômicas próximas

A halitose é uma das principais razões que levam o animal ao atendimento. No ambulatório de odontologia veterinária, os pacientes chegam principalmente por busca direta do proprietário motivada por halitose ou por encaminhamento do médico veterinário clínico geral. A maior parte dos atendimentos clínicos odontológicos em pequenos animais decorre da queixa de halitose.

A proximidade entre boca, olhos e vias lacrimais ajuda a explicar as repercussões locais: Microrganismos presentes na cavidade oral podem ascender pelas vias lacrimais até os olhos, causando quadros de conjuntivite e irritação ocular de repetição. A proximidade anatômica e a possibilidade de contaminação ou inflamação recorrente também predispõem a alterações respiratórias e auditivas de repetição.

Prejuízo funcional conforme o uso do animal

Função do animal e impacto da extração

A necessidade de extração dentária depende também da função exercida pelo animal. Cães domésticos conseguem manter a ingestão nutricional mesmo com doença dental avançada porque a ração é oferecida em tamanho compatível com a deglutição direta, sem necessidade de mastigação. Já animais de vida livre com perda dentária severa perdem a capacidade de capturar presas e cortar alimentos para deglutição, inviabilizando a sobrevivência.

O impacto também varia entre animais de trabalho: em um cão guia próximo da aposentadoria, a perda de dentes pode ter menor impacto funcional. Em cães de faro, a remoção dos dentes comprometidos pode melhorar a condição oral e favorecer o olfato, que pode estar prejudicado pela contaminação. Em cães de ataque, entretanto, a perda dentária compromete diretamente a capacidade de apreensão e reduz o desempenho de sua função.

Momento adequado para avaliação odontológica

A avaliação odontológica acompanha a avaliação clínica geral e ganha importância durante a erupção dos dentes permanentes.

  1. Etapa: Incorporar a saúde oral à avaliação clínica geral.
  2. Etapa: Avaliar a erupção dentária entre seis e oito meses: Entre seis e oito meses ocorre a erupção dos dentes permanentes, e entre sete e oito meses ocorre a erupção dos caninos permanentes.
  3. Etapa: Identificar retenções durante essa fase: Esse período é especialmente importante para identificar retenção de dentes decíduos, sobretudo em cães de pequeno porte.
  4. Etapa: Realizar o atendimento indicado: A retenção de dentes decíduos em cães justifica a realização de um atendimento odontológico, e esses dentes devem ser extraídos cirurgicamente.
  5. Etapa: Prevenir complicações: Quando dentes decíduos permanecem retidos, a extração pode prevenir retenção de resíduos, apinhamento e doença periodontal.

Prevenção conforme predisposição individual

A prevenção periodontal deve ser ajustada à predisposição individual e às características de cada animal.

  • Orientação preventiva: A avaliação odontológica nessa fase permite orientar o manejo alimentar e discutir medidas de higiene domiciliar.
  • Fatores preventivos: A prevenção deve considerar a seleção racial, a conformação individual, a oclusão, o manejo alimentar e a possibilidade de escovação ou higienização regular.
  • Raças pequenas: Em cães de raças pequenas, a raiz do canino e o tamanho dos dentes são proporcionalmente grandes em relação à massa corporal, o que favorece o apinhamento dentário e a giroversão.
  • Anomalias dentárias: Anomalias de posicionamento dentário como apinhamento, giroversão e más oclusões aumentam a propensão do paciente ao desenvolvimento recorrente de doença periodontal, limitando a eficácia exclusiva da escovação.
  • Predisposição individual: A doença periodontal pode instalar se precocemente quando existe predisposição individual associada a apinhamento, má oclusão ou alimentação inadequada.
  • Prevenção da extração: O acompanhamento e exame odontológico preventivo antes da ocorrência de lesões periodontais graves é a principal alternativa para evitar a extração dental.
  • Prevenção efetiva: A prevenção efetiva da doença periodontal envolve seleção racial, manejo alimentar adequado, escovação periódica e acompanhamento veterinário regular.

Avaliação oral sob anestesia

Inspeção visual e achados iniciais

O diagnóstico da doença periodontal começa pelo exame clínico oral com inspeção visual. Inicialmente, erguem se os lábios para observar os dentes, a simetria facial e os linfonodos. A avaliação deve abranger todas as estruturas intraorais, não se limitando apenas à inspeção dos dentes.

Também se avaliam a simetria facial, possíveis aumentos de volume e alterações da oclusão dentária, como retrognatismo ou micrognatismo. A inspeção identifica dentes supranumerários, dentes decíduos retidos e dentes fraturados com exposição de polpa. Esses achados permitem estimar a presença e o grau de instalação da doença periodontal.

Achados além dos dentes

A inspeção deve interpretar também alterações além dos dentes. O comprometimento periodontal pode causar retração gengival, deixando a dentina radicular exposta. Além disso, muitos pacientes veterinários chegam à primeira consulta com alterações avançadas, como retração gengival ou perda dental.

As glândulas salivares podem apresentar inflamação ou retenção de saliva. Nesse contexto, a mucocele corresponde ao acúmulo de líquido no interior de uma cavidade.

Exame definitivo sob anestesia

Siga a sequência do exame e associe cada achado ao uso correto da sonda.

  1. Etapa: Realize o exame odontológico sob anestesia geral para permitir utilizar a sonda periodontal milimetrada e obter radiografias para uma avaliação ampla e completa.
  2. Etapa: Reconheça que esse exame sob anestesia geral é o padrão ouro para o diagnóstico odontológico definitivo. A idade avançada, por si só, não contraindica o procedimento quando o paciente está clinicamente estável e acompanhado por anestesista competente.
  3. Etapa: Na sondagem, interprete cada anel como um milímetro de profundidade; os anéis gravados no cabo reproduzem as divisões das marcações milimetradas.
  4. Etapa: Em lesões de furca avançadas, considere que a sonda pode transfixar a bifurcação e atravessá la de um lado ao outro.

Temperamento e segurança no exame

Cães de grande porte ou de comportamento agressivo podem impedir a inspeção. Alguns animais não permitem contenção, aplicação de injeções, banho, corte de unhas ou abertura da boca.

A educação desde a fase de filhote, incluindo a manipulação do prato e da boca sem reação agressiva, facilita os cuidados posteriores. Quando o animal domina o ambiente e não aceita contenção, a inspeção pode exigir sedação ou anestesia geral.

Oclusão antes da intubação

Avalie a oclusão no momento adequado e complete o exame das estruturas relacionadas.

  1. Etapa: A oclusão deve ser avaliada antes da colocação do tubo endotraqueal, pois o dispositivo impede a observação adequada da relação entre os dentes e a movimentação mandibular.
  2. Etapa: Devem ser observadas alterações como retrognatismo, prognatismo, braquicefalia e outras formas de oclusão fisiológica ou inadequada.
  3. Etapa: A articulação temporomandibular e as glândulas salivares também fazem parte do exame.

Linfonodos e glândulas salivares

Na avaliação oral, observe os linfonodos e as glândulas salivares com atenção aos achados inflamatórios e aos aumentos de volume.

  • Linfonodos reativos: Podem surgir diante de processos inflamatórios graves, abscessos e microabscessos periodontais.
  • Avaliação dos linfonodos: Inclui tamanho, simetria e resposta dolorosa.
  • Aumento de volume salivar: O aumento relacionado à retenção de saliva não deve ser automaticamente denominado hipertrofia.
  • Acúmulo de saliva: Possui uma denominação específica e deve ser distinguido do acúmulo de líquido em outras cavidades.

Alterações musculares e sequelas neurológicas

A simetria da musculatura mandibular pode revelar sequelas de doenças anteriores. Animais que sobreviveram à cinomose podem apresentar redução da musculatura mandibular, tremores durante o sono, trismo e desgaste dental.

Como o trismo limita a abertura da boca, ele dificulta o tratamento odontológico e deve ser considerado na avaliação inicial e no planejamento anestésico.

Exame oral completo sob anestesia

Sob anestesia geral, realiza se a avaliação detalhada com espelho, sonda exploradora e sonda milimetrada. Examinar apenas uma face do dente pode criar uma falsa impressão de normalidade.

Por isso, cada superfície dentária deve ser examinada individualmente: uma face pode apresentar retração gengival, perda de ligamento periodontal, cálculo e início de mobilidade, enquanto a face oposta parece preservada.

Exame radiográfico

Radiografia intraoral e avaliação radicular

A radiografia intraoral permite colocar o filme dentro da boca e obter imagens isoladas dos dentes, facilitando a interpretação. Podem ser necessárias uma, duas ou três imagens, conforme o tamanho do paciente e do filme.

Esse método permite avaliar melhor a raiz, o alvéolo, a perda óssea e outras alterações dentárias.

Limitações da radiografia de crânio

A radiografia de crânio é complexa para interpretação: em um único plano, há sobreposição dos ramos mandibulares e maxilares direito e esquerdo, além de dentes sobrepostos e apinhados. Sem a representação tridimensional de uma tomografia, torna se difícil localizar cada dente e distinguir os lados. Em coelhos, chinchilas e porquinhos da índia, o filme pode não caber na cavidade oral, tornando necessária a utilização de radiografias cranianas, com maior possibilidade de interpretações equivocadas.

Tratamento periodontal

Remoção do cálculo dentário

A sequência começa pela remoção do cálculo e combina instrumentos conforme a necessidade do procedimento.

  1. Etapa: O tratamento inicia se com a remoção dos cálculos, que pode ser realizada manualmente ou com equipamento ultrassônico.
  2. Etapa: O ultrassom acelera o procedimento e reduz o tempo anestésico, mas exige técnica correta.
  3. Etapa: A remoção manual utiliza curetas e pode ser mais demorada.
  4. Etapa: O cálculo aderido ao dente também pode ser fragmentado inicialmente com fórceps ou boticão, separando blocos de cálculo que unem dentes adjacentes.
  5. Etapa: Uma pasta profilática abrasiva pode ser preparada misturando se pó de pedra pomes com água ou soro fisiológico.

Fórceps e instrumentais por espécie

O boticão, também chamado fórceps, apresenta diferentes tamanhos e formatos. Existem instrumentos universais, maiores, menores e angulados. Na odontologia humana, boticões angulados são empregados na exodontia de terceiros molares (dentes do siso).

Os instrumentos utilizados em odontologia humana nem sempre são adequados para gatos, cujos incisivos e caninos são muito pequenos. No atendimento odontológico felino, é necessário instrumental específico desenvolvido para a espécie, incluindo sondas e fórceps próprios para gatos. A odontologia veterinária também enfrenta limitações de disponibilidade de materiais para procedimentos endodônticos, sendo necessária a importação de diversos equipamentos. No mercado nacional, há escassez de materiais e limas endodônticas para animais de grande porte, o que demanda a importação desses instrumentais.

Acesso e raspagem periodontal

O acesso e a raspagem periodontal seguem uma sequência mecânica: primeiro, o ultrassom alcança o sulco; depois, as curetas refinam a remoção.

  1. Etapa: Acesse o sulco gengival com a ponta do ultrassom e remova o cálculo.
  2. Etapa: Realize o tratamento mecânico periodontal, que inclui raspagem e curetagem.
  3. Etapa: Fixe a cureta na raspagem periodontal para remover o material mineralizado fortemente aderido ao dente.
  4. Etapa: Use curetas manuais para remover placas bacterianas e cálculo da coroa dentária e do interior do sulco gengival, refinando a limpeza após o uso do ultrassom.

Curetas e abordagem subgengival

As curetas complementam a instrumentação subgengival, mas seu uso envolve acesso a uma região de procedimento invasivo.

  • Curetas odontológicas: As curetas odontológicas existem em formatos variados, com instrumentos com corte duplo nas bordas e modelos em formato de enxada.
  • Adaptações: Há adaptações específicas para diferentes superfícies dentárias.
  • Curetas manuais: As curetas manuais refinam a instrumentação e removem fragmentos na região subgengival.
  • Invasividade: Como a raspagem e a curetagem do sulco gengival alcançam a região subgengival, o procedimento é invasivo.

Aplainamento e polimento finais

A sequência final mantém uma ordem simples: remover o cálculo, nivelar a dentina exposta e, depois, realizar o polimento.

  1. Etapa: Após a remoção dos cálculos por curetagem, realiza se o aplainamento.
  2. Etapa: O aplainamento dental nivela a dentina exposta em contato com a margem de esmalte. O aplainamento radicular nivela a dentina exposta com o esmalte após a remoção de todo o cálculo dental por curetagem.
  3. Etapa: O procedimento de polimento dentário é realizado depois da curetagem e da remoção do cálculo.

Instrumentos e Pasta Abrasiva

O polimento dentário profilático é realizado com taça de borracha, escova rotatória ou a associação dos dois instrumentos, utilizando pasta abrasiva.

A pasta abrasiva é um material do procedimento odontológico, formulado à base de pedra pomes, e deve ser colocada no interior da taça antes do contato com a superfície dental.

Acesso ao Sulco Gengival

Durante a rotação em baixa velocidade, a taça de borracha deforma sua margem quando pressionada contra o dente, permitindo que a borda alcance e faça a abrasão com pasta na área interna do sulco gengival.

As escovas também acessam essa região: sua ponta fina ou extremidade afilada permite a penetração e higienização no sulco, enquanto suas cerdas podem se deformar sob pressão quando embebidas em pasta abrasiva.

Pasta, Desgaste e Descarte

A taça de borracha possui ranhuras ou trabéculas internas que retêm e liberam gradualmente a pasta durante a rotação. A rotação da taça ou da escova dispersa a pasta, por isso é necessária reposição constante no instrumento.

Como taças e escovas profiláticas são consumíveis descartáveis e se desgastam durante o uso clínico, devem ser descartadas e substituídas ao longo do procedimento; as taças são dispositivos descartáveis.

Jato de bicarbonato antes do polimento

  1. Etapa: O jato de bicarbonato é opcional e pode remover microcálculos que não foram retirados pela cureta ou pelo ultrassom.
  2. Etapa: O jato de bicarbonato não desgasta o esmalte dentário, mas confere à superfície dental uma textura levemente áspera.
  3. Etapa: Por esse motivo, quando utilizado, deve ser seguido pelo polimento.
  4. Etapa: A sequência inversa é inadequada, pois o polimento deve ser o passo final.
  5. Etapa: As pastas abrasivas apresentam diferentes granulações, comparáveis às diferenças entre areia fina e areia grossa.

Quando a gengivite ainda é reversível

Quando a gengiva está inflamada, mas ainda não ocorreu perda de ligamento periodontal, o quadro pode ser reversível. Após a remoção da placa, a saúde gengival pode ser restabelecida.

A gengiva pode permanecer avermelhada temporariamente em razão da curetagem, da taça de borracha ou da escova. Quando já houve perda de ligamento periodontal ou retração gengival, entretanto, a estrutura perdida não se recupera espontaneamente. Ainda assim, dentes com retração gengival e exposição da linha do colo, sem perda óssea alveolar a ponto de expor a furca, podem ser mantidos com tratamento periodontal conservador.

Antissépticos como complemento terapêutico

Os antissépticos complementam o tratamento periodontal ao auxiliar no controle microbiano, mantendo a remoção mecânica como etapa essencial.

  • Clorexidina: A clorexidina é utilizada na preparação do campo cirúrgico e na higiene oral, em concentração menor quando aplicada à mucosa.
  • Concentração oral: Devido à alta sensibilidade da mucosa oral, a clorexidina é empregada na concentração de 0,12%.
  • Líquido de Dakin: O líquido de Dakin, constituído por solução de hipoclorito de sódio, também pode ser empregado.
  • Limite dos antissépticos: Antissépticos auxiliam no controle microbiano, mas não substituem a remoção mecânica do cálculo aderido.

Regeneração periodontal e limitações em animais

Possibilidade de regeneração óssea periodontal

Em odontologia humana, determinados defeitos ósseos podem receber materiais destinados a favorecer a recuperação do osso, incluindo produtos em pó à base de hidroxiapatita e membranas estruturadas. Em um dente íntegro e saudável, a região da furca radicular deve estar preenchida por osso alveolar. A perda dessa estrutura ocorre por reabsorção óssea estimulada por um processo inflamatório.

Na odontologia humana, procedimentos cirúrgicos de enxerto ósseo podem preencher a área de furca exposta e preservar o dente. Pode se utilizar pó de hidroxiapatita recoberto por uma membrana absorvível para promover a regeneração do osso alveolar perdido. A hidroxiapatita é um componente mineral da matriz óssea utilizado em biomateriais em pó para estimular a neoformação de osso alveolar. Técnicas de reabilitação periodontal avançada podem empregar enxerto precursor ósseo e membrana suturada contra a gengiva.

O procedimento exige colaboração do paciente durante a reabilitação, com restrição de hábitos que possam deslocar a membrana, higiene cuidadosa, escova macia e acompanhamento radiográfico. O acompanhamento radiográfico periódico é necessário para avaliar a integração do enxerto e a formação de osso alveolar. O pós operatório de enxertos e terapias regenerativas periodontais exige escovação suave com escova macia e uso de soluções desinfetantes bucais.

Limites da cooperação pós operatória

Em cães, gatos e espécies silvestres, a aplicação desse tipo de técnica é mais limitada pela dificuldade de cooperação.

O animal pode deslocar a estrutura com a língua, mastigar objetos ou não permitir os cuidados necessários. Essas limitações tornam especialmente difícil manter os cuidados pós operatórios exigidos pela técnica.

Foram consideradas possibilidades de pesquisa com hidroxiapatita em pó e membranas, mas esse desenvolvimento não foi concluído.

Uso inadequado do ultrassom

Parâmetros corretos do ultrassom

Use o ultrassom odontológico combinando posicionamento lateral, irrigação plena, vibração moderada e tempo limitado de aplicação.

  1. Etapa: Identifique o funcionamento: O aparelho ultrassônico possui um cristal piezoelétrico que produz vibração na ponta metálica.
  2. Etapa: Regule a frequência: O aparelho também possui um controle ou dial para regular a frequência da vibração.
  3. Etapa: Remova o cálculo: A vibração rompe mecanicamente o cálculo.
  4. Etapa: Monitore o calor: A vibração gerada pelo aparelho de ultrassom promove atrito e superaquecimento. O equipamento também utiliza água, que auxilia no controle do calor produzido.
  5. Etapa: Ative a refrigeração: Uma perfuração no aparelho emite um jato de água simultaneamente à vibração para refrigeração.
  6. Etapa: Ajuste os parâmetros: O ultrassom odontológico deve ser utilizado com irrigação de água plena e vibração em nível médio, e não no máximo.
  7. Etapa: Posicione a ponta: A ponta deve ser aplicada lateralmente, com água em fluxo adequado e vibração moderada, permanecendo por tempo limitado em cada superfície.
  8. Etapa: Controle o tempo: A ponta do ultrassom odontológico não deve permanecer por mais de 5 segundos em cada superfície dental.
  9. Etapa: Planeje o procedimento: A remoção de cálculo dentário no ultrassom, com parâmetros adequados de refrigeração e potência média, exige mais tempo de procedimento.

Danos térmicos e mecânicos do ultrassom

Não use a ponta sem água nem com vibração máxima: isso pode transferir energia excessiva para o dente. O superaquecimento e a vibração inadequada do ultrassom rompem vasos sanguíneos e cauterizam as estruturas vitais pulpares. A dentina contém túbulos dentinários; no interior desses túbulos passam artérias, veias e nervos. Esse dano térmico e mecânico ao dente causado pelo ultrassom pode provocar pulpite, caracterizada pela inflamação da polpa dental, além de dano vascular, alterações de coloração, escurecimento dental, queda do dente e inflamação da polpa. O extravasamento sanguíneo e a metabolização dos pigmentos das hemácias causam alterações cromáticas na coroa dental (azul, roxo, verde) sob o esmalte decorrentes do mau uso do ultrassom. O dano térmico e mecânico provocado pelo uso incorreto do ultrassom pode resultar em dente azulado, escurecimento dental ou perda do dente: o ultrassom mal utilizado pode causar mais dano do que benefício.

Craquelê e microtrincas do esmalte

Outro possível dano do ultrassom é o craquelê do esmalte, caracterizado por pequenas trincas no esmalte decorrentes de efeitos térmicos e mecânicos. Essas alterações podem ser microscópicas e não ser identificadas macroscopicamente.

A cureta manual, quando corretamente empregada, não produz o mesmo superaquecimento nem a mesma transferência de energia, razão pela qual permanece necessária mesmo quando se utiliza ultrassom. Quando corretamente empregada, a cureta periodontal manual não causa trauma tecidual nem superaquecimento na estrutura dental.

Ergonomia durante procedimentos prolongados

A vibração prolongada dos equipamentos pode afetar a pessoa que os utiliza. Algumas canetas de ultrassom possuem revestimento de borracha para amortecer a vibração transmitida à haste e ao punho do profissional durante o uso prolongado.

Durante procedimentos longos, a postura, a altura adequada da cadeira e o conforto são fundamentais. A permanência em posição forçada por muitas horas pode favorecer lesões por esforço repetitivo; por isso, o planejamento ergonômico integra a segurança do atendimento odontológico.

Prevenção e higiene domiciliar

Escovação e predisposição individual

A prevenção combina escovação bem executada, escolha adequada dos produtos e reconhecimento da predisposição individual.

  1. Etapa: Reconheça que a escovação dentária pode auxiliar na manutenção da saúde oral, mas não elimina a predisposição individual.
  2. Etapa: Avalie a predisposição anatômica: animais com apinhamento, má oclusão ou outras características anatômicas podem desenvolver doença periodontal repetidamente.
  3. Etapa: Considere o manejo alimentar: quando a predisposição está associada ao manejo alimentar inadequado, a doença tende a instalar se mais precocemente e alcançar graus mais avançados.
  4. Etapa: Selecione a pasta: na higiene domiciliar, as pastas profiláticas abrasivas dispensam aromatização porque os pacientes estão sob anestesia geral; o uso de pastas de polimento profilático de uso humano em procedimentos odontológicos veterinários não acarreta prejuízos ao paciente.
  5. Etapa: Escolha a pasta enzimática veterinária, indicada para a higiene dental e o controle do tártaro, contendo substâncias como sorbitol, glicose e flavorizantes.
  6. Etapa: Utilize os recursos disponíveis: existem kits veterinários com pasta de dente palatável sabor frango e escovas apropriadas para o controle de tártaro em cães e gatos.
  7. Etapa: Prepare o animal: deposite uma pequena quantidade de pasta sobre a dedeira ou escova e molhe o instrumento com água morna para incentivar o animal a experimentá la.
  8. Etapa: Execute a escovação com a boca do animal fechada e posicione o instrumento na junção gengivodental em um ângulo de 45 graus.
  9. Etapa: Evite escovas inadequadas: cerdas duras ou médias podem causar danos e ruptura do ligamento/periodonto. Recomenda se usar escovas com cerdas o mais finas possíveis, capazes de penetrar e higienizar o sulco gengival.

Graus da doença e condutas possíveis

A gravidade da doença periodontal orienta os achados esperados e as condutas possíveis.

AspectoInformação
ClassificaçãoA doença periodontal é classificada em graus de 1 a 4.
Graus mais avançadosNos graus mais avançados, já podem existir retração gengival, perda de ligamento periodontal, perda óssea, mobilidade, esfoliação e necessidade de extração.
Condutas possíveisO tratamento pode incluir antisséptico, radiografia intraoral, limpeza odontológica, tratamento periodontal, anti inflamatório ou antibiótico, conforme cada caso.
AntibióticosAntibióticos não são indicados rotineiramente.

Antibióticos em contaminação importante

Em situações de contaminação importante, organize o tratamento em uma sequência que prepare a cavidade oral antes da reconstrução.

  1. Etapa: Diante de fístula oronasal ou outra contaminação importante, realize tratamento periodontal, institua cobertura antibiótica e posteriormente corrija a fístula.
  2. Etapa: Evite a realização simultânea de extrações, tratamento periodontal e cirurgia reconstrutiva, pois isso pode aumentar o risco de deiscência.
  3. Etapa: Adote uma abordagem por etapas para reduzir a contaminação oral antes da correção cirúrgica.

Gaze e clorexidina na manutenção

A manutenção domiciliar combina uma rotina simples de higiene com atenção ao intervalo em que o filme bacteriano começa a se mineralizar.

  • Gaze e clorexidina: Para a higiene domiciliar, recomenda se gaze umedecida com clorexidina a 0,12%, especialmente após o procedimento.
  • Abrasão: A gaze oferece abrasão suficiente para auxiliar na remoção do filme bacteriano.
  • Segurança: A gaze é mais segura que escovas ou dedeiras, que podem ser destruídas e engolidas.
  • Frequência: A higienização duas a três vezes por semana pode ser útil.
  • Mineralização: A mineralização do filme bacteriano começa a ser observada após aproximadamente 72 horas.

Riscos das escovas e dedeiras

Escovas e dedeiras podem escapar, ser mastigadas ou deglutidas. A dedeira apresenta risco particular quando o dedo está molhado, pois pode desprender se e permanecer na cavidade oral ou ser engolida. A gaze, quando ingerida, tende a atravessar o trato digestório sem comportar se como um corpo estranho rígido. O uso de fio dental e bochechos desinfetantes depende de um grau de cooperação que os pacientes veterinários frequentemente não oferecem.

Produtos adicionados à água de bebida

A halitose relatada pelo tutor é o motivo mais frequente de busca por atendimento odontológico veterinário. Existem produtos enzimáticos e antissépticos destinados à adição na água de bebida. Na cavidade oral de cães e gatos, esses produtos têm eficácia limitada, pois os animais não retêm o líquido na boca, impedindo tempo suficiente de contato. Produtos de higiene oral com ação enzimática podem apresentar maior eficiência que desinfetantes simples, mas não tratam a doença periodontal instalada.

A solução deve ser preparada conforme a proporção indicada, como 5 mililitros ou uma colher de chá para 500 mililitros de água, e trocada a cada 24 horas, mesmo que não tenha sido totalmente consumida. Esses produtos podem produzir sabor ou odor agradável e auxiliar no controle do mau hálito, mas não removem cálculo mineralizado e não tratam a doença periodontal.

O produto Aquadent foi desenvolvido para facilitar a higiene oral diária dos animais e deve integrar um programa completo de saúde odontológica. Seu uso regular auxilia na manutenção da saúde oral dos animais. Ainda assim, o uso de aditivo na água de bebida não impede isoladamente que o animal desenvolva doença periodontal.

Limitações das promessas comerciais

Produtos apresentados como capazes de eliminar a doença periodontal por meio da água, de alimentos ou de substâncias isoladas não substituem a remoção mecânica do cálculo. A matéria mineralizada encontra se intimamente aderida ao dente e só pode ser removida mecanicamente, com auxílio de produtos desinfetantes quando indicado. Não foi estabelecido que esses produtos reduzam, por si só, a incidência da doença periodontal; podem melhorar o odor, mas não devem ser apresentados como tratamento definitivo.

Nutrição e estudos experimentais

Animais experimentais e manejo padronizado

Em estudos nutricionais, os animais podem permanecer como voluntários por determinado período e posteriormente ser adotados. Na população geral, mais de 80% dos cães com mais de 4 anos apresentam algum grau de doença periodontal. Para padronizar a avaliação, os cães são mantidos em condições semelhantes, com animais castrados e alimentação formulada.

Em estudo experimental com 16 cães sob manejo alimentar padronizado e escovação dental diária, todos os 16 apresentaram doença periodontal de grau 2 ou superior. Alguns também recebem brinquedos destinados teoricamente a auxiliar a limpeza dental, o que permite observar que medidas preventivas isoladas podem não impedir a ocorrência da doença.

Resultados observados sob prevenção intensiva

Mesmo sob prevenção intensiva, com alimentação formulada, escovação diária, ausência de guloseimas e uso de brinquedos destinados à limpeza dental, todos os animais avaliados apresentavam doença periodontal. Os casos eram de grau 2 ou superior; havia casos de grau 3, alguns de grau 3, sem necessidade de extração por ausência de grau 4.

Assim, nenhum animal necessitou de extração dental. Essa observação reforça a elevada frequência da doença, especialmente porque mais de 80% dos cães comunitários com idade superior a quatro anos apresentam algum grau de doença periodontal.

Consequências clínicas e sistêmicas

Fraturas e neoplasias entre complicações

Sem intervenção, a retração gengival e a doença periodontal progridem para perda óssea, exposição de furca e indicação de extração dental; a dor pode levar a problemas alimentares, seleção alimentar, recusa alimentar e redução da ingestão de água — em gatos, esta última é uma complicação crítica —, além de fraturas patológicas por fragilidade de maxila e mandíbula e comprometimento respiratório. Em inflamação persistente, a doença periodontal induz multiplicação celular contínua, ativação da resposta imunológica e liberação de mediadores do processo inflamatório, podendo induzir neoplasias orais; o carcinoma espinocelular é a neoplasia maligna de maior ocorrência na cavidade oral.

Dor periodontal e sinais clínicos

A dor periodontal pode ser crônica e reduzir o bem estar, mesmo quando o animal continua comendo. Em seres humanos, a intensidade da dor pode ser graduada pelo próprio paciente em uma escala de 1 a 10. Já em animais, a dor não é relatada verbalmente; ela deve ser interpretada a partir dos sinais observados.

Essa diferença orienta a linguagem e a avaliação veterinária: é mais adequado referir se a sinais clínicos em animais, e não a sintomas relatados pelo paciente. O sinal clínico é identificado e interpretado pelo examinador mediante exame físico, enquanto o sintoma consiste na sensação subjetiva descrita pelo paciente. Assim, não se deve empregar a expressão “sintomatologia da doença” para animais, pois eles não possuem sintomas no sentido estrito.

Impacto nas relações e no desempenho

A dor, a halitose, a perda dental e a redução do desempenho podem comprometer tanto relações de afeição quanto relações de trabalho. Por isso, a avaliação da boca deve fazer parte da consulta clínica geral. O profissional deve reconhecer que doenças tratáveis podem permanecer negligenciadas quando a cavidade oral não é examinada de maneira sistemática.

Instrumentação e treinamento

Exploração tátil e curetas periodontais

A sonda exploradora funciona como uma extensão do tato: sua ponta permite detectar sulcos, depressões e cálculo retido no esmalte dental que não são percebidos apenas pela inspeção visual. Como a ponta em agulha pode perfurar a gengiva em caso de toque direto, seu uso exige cuidado. Na empunhadura, a sonda não milimetrada apresenta ranhuras de abrasão no cabo para proporcionar aderência.

Para a raspagem periodontal, a cureta manual é adaptada à inserção e à raspagem no sulco gengival. As curetas podem ter extremidades ativas bilaterais anguladas para a direita e para a esquerda; há também modelos com uma única ponta ativa e modelos com duas pontas, uma de cada lado.

Acesso bucal e instrumentação rotatória

Em cães e gatos, a conformação bucal permite ampla abertura e acesso direto dos instrumentos aos últimos molares. Durante o procedimento, o sugador remove a saliva do paciente, mantendo o campo disponível para a instrumentação.

A caneta odontológica de baixa rotação possui mecanismo de engate mecânico com ranhura para fixar brocas, instrumentos rotatórios e escovas profiláticas. Instrumentos com engate dentado na extremidade inferior, como lentulos, brocas específicas, escovas e taças de borracha, são projetados para encaixe na baixa rotação; os dispositivos de polimento são acoplados ao contra ângulo instalado nessa caneta. Não confunda: as brocas e os instrumentos da alta rotação não possuem o engate dentado característico da baixa rotação.

Curetas manuais conforme a superfície

As curetas manuais apresentam formatos diversos, incluindo modelos com extremidades semelhantes a unha de águia, lâminas direitas ou esquerdas, lados planos, lados diagonais e pontas duplas. Cada instrumento pode ter uma denominação própria, mas não é necessário memorizar todos os nomes para compreender sua função.

A escolha deve acompanhar a região e a superfície a ser trabalhada. Assim, o mais importante no treinamento é reconhecer o formato e relacioná lo à área de uso, desenvolvendo a seleção adequada do instrumento.

Riscos do abre boca prolongado

Não mantenha o abre boca continuamente em procedimentos demorados. A manutenção da boca aberta por período extenso pode causar lesão relacionada ao nervo trigêmeo, por contração muscular e redução da irrigação. Embora a mandíbula permaneça móvel e torne o trabalho mais complexo, o uso contínuo do instrumento pode produzir danos.

Organização do campo odontológico

A organização do campo odontológico começa com uma mesa que reúne instrumentos para raspagem, extração, curetagem e polimento. Também devem estar disponíveis recipientes com desinfetante, pasta abrasiva e um local para depositar os dentes extraídos. O acesso adequado à cavidade oral facilita o trabalho em cães e gatos.

Cavalos, coelhos, chinchilas e porquinhos da índia apresentam limitações diferentes de abertura e acesso, justificando instrumentos e abordagens específicas para cada espécie. Em espécies com acesso oral restrito, o tratamento odontológico pode requerer a abertura cirúrgica de uma janela na bochecha para acessar os dentes posteriores. Profissionais que atuam na odontologia de cães e gatos geralmente não atendem equinos, e vice versa.

Reflexão Sion

Olhar além da aparência

A doença periodontal pode causar dor crônica e comprometer a saúde sistêmica mesmo quando o animal continua comendo, por isso o diagnóstico exige examinar cada superfície dentária com cuidado. Esse cuidado nos lembra que o que parece funcionar por fora pode esconder uma ferida que só um olhar atento alcança. Jesus convida os cansados e sobrecarregados a se aproximarem dele, oferecendo descanso para a dor que ninguém mais vê.

Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.Mateus 11:28

Leia e aprenda a reconhecer dores silenciosas.

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