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Aula 6 Antipsicóticos
A esquizofrenia está associada a alto risco de suicídio: cerca de 50% dos pacientes tentam suicídio em algum momento da vida, e cerca de 10% cometem suicídio. A taxa de mortalidade nessa população é aproximadamente oito vezes maior que a da população geral, e
Topicos da aula
- Antipsicóticos
Overview
Panorama clínico dos antipsicóticos
A psicose é uma síndrome marcada por alucinações, delírios e comportamento bizarro, podendo ocorrer em diferentes condições; na esquizofrenia, ela é permanente e necessária ao diagnóstico. A doença também envolve sintomas negativos, cognitivos, afetivos e agressivos, com importante impacto funcional e risco de mortalidade. Sua compreensão farmacológica parte do contraste entre hiperatividade mesolímbica, relacionada aos sintomas positivos, e hipoatividade mesocortical, associada a sintomas negativos, cognitivos e afetivos. Os antipsicóticos de primeira geração bloqueiam D2, controlam principalmente sintomas positivos, mas podem causar efeitos extrapiramidais e hiperprolactinemia. Os de segunda geração ampliam o benefício clínico, embora tragam riscos metabólicos e cardiovasculares relevantes.
Psicose e esquizofrenia
Psicose como síndrome clínica
Os antipsicóticos são utilizados no manejo da psicose. A psicose é um conjunto de sintomas que pode incluir alucinações visuais, auditivas e olfativas, delírios e comportamento bizarro. Portanto, ela deve ser entendida como uma síndrome, e não como uma definição imprecisa de “loucura”.
A psicose pode surgir esporadicamente em alguns transtornos que não são classificados como transtornos psicóticos, como a depressão com manifestação psicótica e doenças neurodegenerativas, incluindo a doença de Alzheimer. Nesses casos, a síndrome não é obrigatória para o diagnóstico do transtorno.
Quando a psicose define o transtorno
Em alguns transtornos, a psicose é permanente e necessária para a realização do diagnóstico. O transtorno esquizoafetivo e a esquizofrenia são exemplos desses quadros. Esses dois transtornos são exemplos de quadros em que a psicose é permanente e necessária para o diagnóstico.
A esquizofrenia é considerada a doença psicótica mais comum, afetando cerca de 1% da população mundial. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 apontou que 0,34% da população adulta brasileira apresentava a doença, mas esse dado seja considerado subestimado, pois a pesquisa não contemplaria adequadamente pacientes internados nem pessoas em situação de rua.
Mortalidade e risco de suicídio
A esquizofrenia está associada a alto risco de suicídio: cerca de 50% dos pacientes tentam suicídio em algum momento da vida, e cerca de 10% cometem suicídio. A taxa de mortalidade nessa população é aproximadamente oito vezes maior que a da população geral, e pessoas com esquizofrenia vivem entre 15 e 30 anos menos do que pessoas sem esquizofrenia. Essa redução também se relaciona ao uso abusivo de substâncias, que é muito comum, ao estilo de vida e às doenças cardiovasculares; muitos fármacos antipsicóticos estão relacionados ao desenvolvimento dessas doenças, capazes de provocar morte prematura.
Manifestações clínicas da esquizofrenia
Domínios dos sintomas esquizofrênicos
As manifestações da esquizofrenia podem ser organizadas em diferentes grupos, abrangendo psicose, sociabilidade, atividade, afetividade e cognição.
- Sintomas positivos: Caracterizam a psicose propriamente dita e incluem delírios, alucinações e comportamentos claramente inadequados ou bizarros.
- Sintomas negativos: Envolvem alterações de sociabilidade e atividade, embora essa formulação não seja completamente detalhada na transcrição.
- Outros domínios: Também podem ocorrer sintomas afetivos, agressivos e cognitivos.
Pensamento e execução comprometidos
O paciente com esquizofrenia pode apresentar prejuízo cognitivo. Na avaliação clínica, a fala pode ser desconexa, incoerente e desprovida de sequência lógica, indicando dificuldade na organização do pensamento.
A capacidade de realizar tarefas pode estar comprometida, tanto quando a atividade depende de iniciativa própria quanto quando é imposta por outra pessoa. Essas alterações podem coexistir com sintomas negativos, afetivos e agressivos, tornando a organização do pensamento e a execução de atividades componentes relevantes da avaliação clínica.
Variações afetivas na esquizofrenia
Os sintomas afetivos ajudam a completar a avaliação clínica da esquizofrenia.
- Sintomas afetivos: Podem ser confundidos com os sintomas negativos.
- Alterações do humor: Incluem alterações do humor em diferentes direções, como humor deprimido, ansioso, hostil ou irritadiço.
- Abrangência clínica: Ampliam o quadro da esquizofrenia para além dos delírios e das alucinações.
- Avaliação conjunta: Deve considerar sintomas positivos, negativos, cognitivos, afetivos e agressivos, pois todos podem contribuir para o comprometimento funcional do paciente.
Agressividade e risco de violência
Os sintomas agressivos podem manifestar se verbalmente, por meio de xingamentos e ameaças, ou de maneira motora, com agressões físicas e, em alguns casos, homicídios. Durante surtos psicóticos, pacientes podem atacar outras pessoas, inclusive seus próprios cuidadores. Assim, a doença pode representar risco físico para o próprio paciente e para terceiros, especialmente quando o quadro está descompensado e o tratamento não é utilizado corretamente; há relatos de agressões fatais em indivíduos com esquizofrenia ou psicose associada ao uso abusivo de substâncias.
Hipóteses neurobiológicas
Glutamato, dopamina e esquizofrenia
As duas hipóteses neurobiológicas apresentadas para explicar a esquizofrenia são a hipótese do glutamato e a hipótese da dopamina. A hipótese glutamatérgica é apresentada como um reforço da hipótese dopaminérgica. Segundo essa hipótese, a esquizofrenia decorre de uma desregulação das vias dopaminérgicas do sistema nervoso central.
Do ponto de vista terapêutico, o tratamento farmacológico concentra se principalmente na hipótese dopaminérgica. A abordagem terapêutica apresentada não trabalha com a hipótese do glutamato; por isso, é necessário revisar as principais vias dopaminérgicas cerebrais.
Via nigroestriatal e controle motor
Na via nigroestriatal, os corpos celulares dos neurônios dopaminérgicos partem da substância negra e projetam seus axônios para o estriado. Em outras palavras, os corpos celulares estão na substância negra, e os axônios se estendem até o estriado.
Essa via participa do ajuste motor fino e do controle dos movimentos. Na doença de Parkinson, ocorre morte dos neurônios dopaminérgicos dessa via. O bloqueio dopaminérgico nessa via pode causar sintomas extrapiramidais.
Via mesolímbica e recompensa
Na via mesolímbica, os corpos celulares dos neurônios dopaminérgicos partem da área tegmental ventral e se projetam até o núcleo accumbens. Essa via está envolvida nos mecanismos de recompensa: situações ou substâncias prazerosas ativam esses neurônios e promovem a liberação de dopamina no núcleo accumbens.
A via mesolímbica é uma das principais estruturas relacionadas à experiência de recompensa e, na hipótese dopaminérgica da esquizofrenia, participa da geração dos sintomas positivos. Segundo essa hipótese, as vias mesolímbica e mesocortical são as vias problemáticas.
Via mesocortical e sintomas não positivos
Na via mesocortical, os neurônios dopaminérgicos têm seus corpos celulares na área tegmental ventral e projetam axônios para diferentes regiões do córtex pré frontal. Essa via participa da atividade, da sociabilidade, das emoções e da cognição.
Quando há disfunção nessa via, ela se relaciona aos sintomas negativos, cognitivos e afetivos da esquizofrenia, manifestações que vão além de delírios e alucinações.
Via túbero infundibular e prolactina
Na via túbero infundibular, os neurônios dopaminérgicos têm seus corpos celulares no hipotálamo e projetam axônios até a hipófise, especialmente a hipófise anterior. Nessa região, a dopamina controla diretamente as células lactotróficas e a produção de prolactina.
A dopamina exerce efeito inibitório sobre as células lactotróficas por meio dos receptores D2. Por isso, o bloqueio desses receptores interfere nessa regulação e pode produzir hiperprolactinemia.
Via talâmica e hipótese funcional
A via talâmica é apresentada como a via dopaminérgica descoberta mais recentemente. Seus corpos celulares partem de regiões localizadas entre a substância negra e a área tegmental ventral e projetam se para o tálamo.
Alguns estudos sugerem relação entre sua função e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, mas essa relação permanece uma suposição, sem conclusão definitiva.
Hipótese dopaminérgica da esquizofrenia
Excesso mesolímbico gera sintomas positivos
Na esquizofrenia, a via mesolímbica estaria hiperativada, com excesso de dopamina sendo liberado no núcleo accumbens e ativação excessiva dos receptores D2. Essa hiperestimulação seria responsável pelos delírios e pelas alucinações, constituindo a base dos sintomas positivos.
O uso abusivo de cocaína, crack e anfetaminas também pode produzir psicose por modificar a neurotransmissão dopaminérgica nessa região. Por isso, o bloqueio de receptores D2 na via mesolímbica controla delírios e alucinações.
Déficit mesocortical e sintomas negativos
Em sentido oposto à via mesolímbica, a via mesocortical apresenta hipoatividade na esquizofrenia. A via estaria hipoativada, com pouca dopamina sendo liberada no córtex pré frontal e menor estimulação dos receptores D2.
Essa baixa estimulação contribuiria para a produção dos sintomas negativos, cognitivos e afetivos. As vias talâmica, nigroestriatal e túbero infundibular permaneceriam preservadas na esquizofrenia, sem alteração primária do grau de neurotransmissão dopaminérgica.
Antipsicóticos de primeira geração
Perfil clínico da primeira geração
Os antipsicóticos são os fármacos preconizados para o tratamento da psicose da esquizofrenia. Existem duas gerações de antipsicóticos, e a primeira geração também é chamada de antipsicóticos típicos. Em literaturas mais antigas, os antipsicóticos de primeira geração também podem ser chamados de neurolépticos.
Entre os representantes mais comuns no território brasileiro estão haloperidol, clorpromazina e levomepromazina. A primeira geração é utilizada principalmente para controlar os sintomas positivos; em relação aos sintomas negativos, sua ação é insuficiente e pode ocorrer piora clínica.
Bloqueio D2 controla sintomas positivos
Farmacodinamicamente, os antipsicóticos de primeira geração são antagonistas dos receptores D2 e bloqueiam predominantemente esses receptores. Além disso, os antipsicóticos são antagonistas competitivos reversíveis dos receptores dopaminérgicos.
Os sintomas positivos estão associados à hiperestimulação dos receptores D2 na via mesolímbica. Ao bloquear os receptores D2 nessa via, o antipsicótico reduz a hiperestimulação dopaminérgica e controla delírios e alucinações. O fármaco ocupa os receptores D2 no núcleo accumbens, e o controle dos sintomas positivos ocorre por meio do bloqueio dopaminérgico mesolímbico.
Ocupação D2 e falta de seletividade
| Aspecto | Informação |
|---|---|
| Seletividade | Os antipsicóticos de primeira geração não são direcionados exclusivamente aos receptores D2 da via mesolímbica. |
| Distribuição do fármaco | Como é necessária uma quantidade significativa de fármaco, parte dele se distribui pelas demais vias dopaminérgicas. |
| Receptores dopaminérgicos | As cinco vias dopaminérgicas possuem receptores D2. |
| Meta terapêutica | Para controlar os sintomas positivos, o antipsicótico de primeira geração precisa ocupar pelo menos 80% dos receptores D2 da via mesolímbica. |
| Efeitos adversos | Essa ausência de seletividade explica efeitos adversos decorrentes do bloqueio D2 na via nigroestriatal e na via túbero infundibular. |
A ausência de seletividade distribui o bloqueio D2 entre diferentes vias dopaminérgicas.
Bloqueio mesocortical piora sintomas
Na via mesocortical, a esquizofrenia já apresenta baixa liberação de dopamina e baixo estímulo dos receptores D2. Quando o antipsicótico de primeira geração bloqueia esses receptores, a atividade dopaminérgica reduz se ainda mais.
Como consequência, os sintomas negativos, cognitivos e afetivos podem ser agravados. Assim, a primeira geração controla os sintomas positivos, mas não melhora os sintomas negativos e pode intensificá los.
A via nigroestriatal em equilíbrio
A conexão entre a substância negra e o estriado integra o sistema extrapiramidal. No estriado, o receptor D2 é expresso em neurônios colinérgicos. Em condições normais, a dopamina exerce regulação negativa sobre esses neurônios por meio dos receptores D2.
Ao se ligar a eles, inibe os neurônios, reduz a liberação de acetilcolina nos gânglios da base e exerce um freio inibitório sobre essa liberação. Quando um antipsicótico de primeira geração bloqueia os receptores D2 nos neurônios colinérgicos, remove essa inibição dopaminérgica.
Do bloqueio D2 ao parkinsonismo
Com o bloqueio dos receptores D2 pelos antipsicóticos de primeira geração, aumenta a atividade dos neurônios colinérgicos e a liberação de acetilcolina, porque o freio inibitório sobre essa liberação é removido. Nos gânglios da base, a acetilcolina estimula os receptores muscarínicos M1.
O excesso de acetilcolina estimulando os receptores M1 contribui para os sintomas extrapiramidais, que podem se manifestar como parkinsonismo induzido por fármacos. Assim, os antipsicóticos de primeira geração podem causar sintomas extrapiramidais como efeito adverso.
Biperideno reduz hiperatividade colinérgica
Uma estratégia para reduzir os sintomas extrapiramidais é associar biperideno ao antipsicótico de primeira geração. O biperideno é um fármaco anticolinérgico que bloqueia receptores muscarínicos. Sua administração busca reduzir a hiperestimulação colinérgica nos gânglios da base e, consequentemente, diminuir as manifestações extrapiramidais.
O biperideno pode ser prescrito junto com um antipsicótico de primeira geração. Essa associação pode potencializar a inibição ou a ativação em determinada via farmacológica. A associação também pode potencializar efeitos relacionados a essa via farmacológica. Entretanto, a resposta clínica pode ser insuficiente, e nem todos os pacientes apresentam redução adequada dos sintomas.
Suprarregulação causa discinesia tardia
O bloqueio contínuo dos receptores D2 no estriado pode produzir suprarregulação desses receptores. Esse bloqueio excessivo e contínuo pode promover sua suprarregulação por up regulation. A ação dos antipsicóticos sobre a via nigroestriatal pode gerar discinesia tardia, e a suprarregulação dos receptores D2 no estriado pode causar esse efeito adverso.
A discinesia tardia é caracterizada por movimentos orofaciais involuntários. Trata se de um efeito adverso provocado pelo antipsicótico, e não de uma manifestação própria da esquizofrenia. Mesmo após a suspensão do fármaco, aproximadamente 25% dos pacientes podem não apresentar remissão; em pelo menos 25% dos pacientes, os movimentos podem persistir porque os receptores permanecem suprarregulados e não se sensibilizam adequadamente. Essa persistência pode produzir importante impacto social.
Síndrome neuroléptica maligna
A síndrome neuroléptica maligna é uma complicação grave, potencialmente fatal, associada aos antipsicóticos de primeira geração. Durante surtos psicóticos, pode se aplicar um antipsicótico de primeira geração por via parenteral; em quantidade elevada, a maior biodisponibilidade pode comprometer a via nigroestriatal e associar se a rigidez motora, aumento da atividade autonômica e alterações cardiovasculares, com possibilidade de evolução letal. Não costuma ocorrer durante o uso ambulatorial contínuo em doses habituais.
Mecanismo da hiperprolactinemia
Os antipsicóticos de primeira geração bloqueiam os receptores D2 da via tuberoinfundibular. A célula lactotrópica participa da produção de prolactina; por isso, esse bloqueio remove a inibição dopaminérgica que normalmente reduz sua liberação. O resultado pode ser hiperprolactinemia, e o bloqueio dos receptores D2 também pode gerar galactorreia.
Efeitos clínicos e lactação
- Galactorreia: produção de leite causada pela hiperprolactinemia.
- Alterações hormonais e menstruais: nas mulheres, a hiperprolactinemia pode alterar os hormônios sexuais e o ciclo menstrual.
- Disfunção sexual: a hiperprolactinemia pode causar esse efeito.
- Metoclopramida, domperidona e bromoprida: antieméticos.
- Indução da lactação: metoclopramida, domperidona e bromoprida também são utilizadas para esse fim.
Outros receptores e efeitos adversos
Além dos receptores dopaminérgicos, os antipsicóticos de primeira geração podem bloquear receptores muscarínicos, histaminérgicos e adrenérgicos. Essas interações produzem outros efeitos adversos e, em determinadas situações, podem contribuir para efeitos clinicamente úteis, embora também possam limitar o tratamento.
Os sintomas extrapiramidais, a discinesia tardia, a síndrome neuroléptica maligna e a hiperprolactinemia decorrem principalmente da interação com receptores D2 nas demais vias dopaminérgicas.
Usos clínicos dos antipsicóticos típicos
Na esquizofrenia, os antipsicóticos típicos são utilizados principalmente para o manejo dos sintomas positivos. No transtorno afetivo bipolar, também podem ser empregados durante episódios de mania quando não houve resposta adequada ao lítio e a um anticonvulsivante.
Nessa situação, o antipsicótico pode ser utilizado para retirar o paciente do episódio maníaco e posteriormente suspenso. A clorpromazina é muito utilizada em crises de agitação, e algumas aplicações ocorrem na prática clínica sem necessariamente corresponder a indicações regulamentadas.
Antipsicóticos de segunda geração
Ação e representantes principais
| Aspecto | Antipsicóticos de segunda geração | Comparação ou exemplos |
|---|---|---|
| Ação antipsicótica | ||
| As duas gerações são utilizadas para controlar os sintomas positivos. | ||
| Sintomas e efeitos adversos | ||
| Controlam sintomas positivos e negativos e, de modo geral, geram menos sintomas extrapiramidais e hiperprolactinemia. | ||
| — | ||
| Representantes | ||
| — | ||
| risperidona, quetiapina, olanzapina, clozapina e aripiprazol |
Efeitos adversos e vias envolvidas
Os antipsicóticos atípicos apresentam menor frequência de sintomas extrapiramidais e de hiperprolactinemia, mas isso não significa ausência desses efeitos. Essa diferença está relacionada ao menor comprometimento das vias nigroestriatal e túbero infundibular em comparação com os antipsicóticos de primeira geração.
Na regulação da prolactina, a ocitocina estimula receptores envolvidos na produção desse hormônio pela célula lactotrópica. Além disso, um neurônio relacionado à ocitocina expressa receptores 5 HT2A.
Bloqueio combinado D2 e 5 HT2A
Alguns antipsicóticos de segunda geração realizam bloqueio duplo: mantêm o antagonismo dos receptores D2, responsável pelo efeito antipsicótico, e acrescentam o antagonismo serotoninérgico, especialmente dos receptores 5 HT2A. O bloqueio desses receptores é uma característica do grupo, embora cada fármaco possua perfil próprio de interação com receptores.
Entre os representantes citados estão quetiapina, olanzapina, risperidona, paliperidona e lurasidona. Alguns também bloqueiam os receptores D2 e 5 HT2A, enquanto o grupo, de modo geral, apresenta antagonismo 5 HT2A.
Agonismo parcial reduz ativação dopaminérgica
Outro grupo de antipsicóticos de segunda geração atua nos receptores dopaminérgicos por meio de agonismo parcial, associado ao antagonismo 5 HT2A. O efeito ocorre por agonismo parcial nos receptores dopaminérgicos, e não por bloqueio; aripiprazol e brexpiprazol são exemplos.
A dopamina produz ativação máxima ao ocupar o receptor, enquanto o agonista parcial produz ativação menor. Na prática clínica, o agonista parcial atua de modo semelhante a um antagonista quando há excesso de dopamina. Ao ocupar parte dos receptores, reduz o grau global de ativação e contribui para o controle dos sintomas positivos.
Como a segunda geração melhora sintomas negativos
Os antipsicóticos de segunda geração são úteis no controle dos sintomas negativos, cognitivos e afetivos. Para os sintomas negativos, a primeira geração não é eficaz, enquanto a segunda geração é utilizada. Essa diferença está relacionada, entre outros fatores, à modulação dos receptores 5 HT2A.
Na via mesocortical, a serotonina estimula o receptor 5 HT2A e inibe a liberação de dopamina no córtex pré frontal. O antagonismo 5 HT2A bloqueia essa regulação negativa, aumentando a dopamina nessa região. Didaticamente, essa modulação contribui para a melhora dos sintomas negativos, cognitivos e afetivos, embora o mecanismo real envolva um interneurônio GABAérgico.
Menor ocupação D2, menos efeitos
Os antipsicóticos de segunda geração controlam os sintomas positivos com menor ocupação dos receptores D2. Enquanto a primeira geração necessita ocupar pelo menos 80% desses receptores na via mesolímbica, alguns fármacos de segunda geração obtêm efeito com aproximadamente 60%, e alguns com cerca de 40%.
Essa menor necessidade de ocupação reduz a quantidade de fármaco distribuída pelas demais vias dopaminérgicas. Com isso, há menor interferência sobre as vias nigroestriatal e túbero infundibular, resultando em menos sintomas extrapiramidais e menor hiperprolactinemia.
Afinidade receptorial não é eficácia
| Aspecto | Primeira geração | Segunda geração |
|---|---|---|
| Quantidade necessária | A quantidade de fármaco necessária depende da afinidade molecular pelos receptores. | A quantidade de fármaco necessária depende da afinidade molecular pelos receptores. |
| Controle dos sintomas positivos | Melhora os sintomas positivos. | A segunda geração não controla os sintomas positivos de maneira mais eficaz que a primeira geração. |
| Amplitude clínica | Melhora os sintomas positivos e pode piorar os negativos. | Sua vantagem clínica está no controle mais amplo da esquizofrenia, pois melhora os sintomas positivos e também pode atuar sobre sintomas negativos, cognitivos e afetivos. |
| Aplicação clínica | A aplicação clínica de cada antipsicótico depende do grau de ligação do fármaco aos diferentes receptores. | A aplicação clínica de cada antipsicótico depende do grau de ligação do fármaco aos diferentes receptores. |
A menor quantidade necessária não implica maior eficácia; a afinidade receptorial orienta a aplicação clínica.
Associação para ampliar o efeito
Um fármaco que atua sobre determinado alvo molecular não ocupa 100% dos receptores disponíveis. Por isso, associações entre antipsicóticos podem potencializar o efeito ou ampliar a ação sobre determinada via, reforçando o controle dos sintomas positivos e favorecendo a melhora dos sintomas negativos.
Essa estratégia pode ser utilizada em situações de surto e também no tratamento permanente. Não existe uma separação absoluta segundo a qual a primeira geração seria exclusiva do uso agudo e a segunda, do uso contínuo: os antipsicóticos de primeira geração também podem ser usados no tratamento permanente, embora continuem inadequados para controlar os sintomas negativos e possam agravá los.
Exemplos de tratamento combinado
Entre os exemplos de tratamento contínuo está o haloperidol decanoato, administrado por via intramuscular como formulação de depósito. A indicação inicial era de aplicação a cada 21 dias.
Alguns pacientes utilizam haloperidol associado a clorpromazina oral e quetiapina oral para conter manifestações persistentes. Essas associações podem ser observadas em pacientes psicóticos, inclusive quando a psicose está relacionada ao uso abusivo de substâncias e exige acompanhamento próximo em serviços residenciais ou assistenciais.
Antagonismo 5 HT2A limita prolactina
A menor hiperprolactinemia associada à segunda geração também é relacionada ao antagonismo 5 HT2A. Didaticamente, a serotonina estimula um regulador positivo da liberação de prolactina, enquanto a dopamina exerce regulação negativa por meio dos receptores D2.
O antipsicótico de segunda geração bloqueia principalmente o regulador positivo serotoninérgico e afeta em menor grau o regulador dopaminérgico negativo. Por isso, o risco de hiperprolactinemia é menor, mas não é eliminado. A risperidona, um antipsicótico de segunda geração, pode causar hiperprolactinemia como efeito colateral e ainda causar galactorreia.
Dopamina desloca antagonista reversível
O antagonismo dos antipsicóticos de segunda geração é competitivo e reversível. Quando o bloqueio 5 HT2A aumenta a liberação de dopamina em determinadas vias, o agonista dopamina compete com o antipsicótico pelo receptor D2 e pode deslocá lo, reduzindo o efeito antagonista onde a dopamina aumenta.
Essa propriedade contribui para menor interferência na via nigroestriatal e na via túbero infundibular, permitindo o restabelecimento parcial da atividade dopaminérgica fisiológica. Na via mesocortical, o aumento do agonista pode deslocar o antipsicótico antagonista competitivo reversível dos receptores, permitindo a manutenção do efeito dopaminérgico no córtex pré frontal.
Antagonismo 5 HT2A protege movimento
Na via nigroestriatal, a serotonina inibe a liberação de dopamina. Com menos dopamina, os neurônios colinérgicos dos gânglios da base aumentam sua atividade, comprometendo o controle motor.
O antagonismo 5 HT2A dos antipsicóticos de segunda geração interrompe essa inibição serotoninérgica, restabelece os níveis dopaminérgicos no estriado e recupera parte do controle negativo sobre os neurônios colinérgicos. Assim, ocorre menor liberação de acetilcolina e menor probabilidade de sintomas extrapiramidais.
Segunda geração reduz discinesia tardia
Os antipsicóticos de segunda geração apresentam menor risco de discinesia tardia porque o antagonismo 5 HT2A favorece a liberação de dopamina no estriado. A dopamina liberada compete com o antipsicótico pelo receptor D2 e reduz o bloqueio efetivo.
Como o agonista endógeno desloca o antagonista competitivo, não se estabelece o mesmo antagonismo pleno necessário para a discinesia tardia. A redução do risco não elimina a possibilidade de ocorrência desse efeito adverso.
Baixa densidade mesolímbica evita piora
Na via mesolímbica, a densidade desses receptores é muito baixa. Por isso, o antagonismo 5 HT2A não produz aumento relevante dos sintomas positivos nem ocorre bloqueio significativo desse mecanismo nessa via.
O aumento dopaminérgico decorrente do bloqueio 5 HT2A ocorre principalmente nas vias mesocortical, nigroestriatal e túbero infundibular. Na via mesolímbica, a baixa densidade de receptores 5 HT2A impede que esse efeito provoque aumento significativo da dopamina capaz de gerar sintomas positivos.
Efeitos metabólicos e cardiovasculares
Ganho de peso e alterações metabólicas
Apesar de afetarem menos as demais vias dopaminérgicas, os antipsicóticos de segunda geração podem produzir efeitos adversos importantes por interações com receptores não dopaminérgicos. Essas interações podem causar efeitos adversos que limitam seu uso no paciente.
A desregulação do apetite pode resultar em ganho de peso expressivo, não limitado a cinco quilogramas, mas podendo alcançar 20 ou 30 quilogramas. Associadas ao ganho de peso, podem ocorrer obesidade, resistência à insulina e diabetes mellitus tipo 2. Também podem surgir alterações do metabolismo lipídico, incluindo hipercolesterolemia e hipertrigliceridemia.
Risco cardiovascular exige acompanhamento
As alterações metabólicas provocadas pelos antipsicóticos de segunda geração contribuem para a mortalidade cardiovascular prematura dos pacientes esquizofrênicos. Além disso, esses fármacos podem causar arritmias cardíacas por prolongamento do intervalo QT, relacionado ao bloqueio de canais de potássio envolvidos na atividade cardíaca. Portanto, menor interferência nas vias dopaminérgicas não significa menor toxicidade global: em termos metabólicos, a segunda geração pode ser mais prejudicial que a primeira, exigindo acompanhamento clínico mais próximo, com consultas e avaliações em intervalos menores.
Clozapina e resistência ao tratamento
Clozapina após falhas terapêuticas
Após tentativas com fármacos como risperidona, aripiprazol e quetiapina sem resposta adequada, o paciente pode ser classificado como farmacorresistente. Nessa situação, a clozapina costuma produzir resposta clínica favorável, mas não é utilizada inicialmente em todos os pacientes porque apresenta perfil de efeitos adversos considerado mais grave; por isso, fica reservada para casos de resistência ao tratamento.
Ausência de seletividade plena
Os antipsicóticos de segunda geração não formam um grupo farmacologicamente homogêneo, pois apresentam ações distintas sobre diferentes receptores. Por isso, a menor interferência em algumas vias dopaminérgicas não significa ausência de danos: os fármacos interagem com vários receptores além daqueles diretamente envolvidos na psicose e podem produzir problemas relevantes.
Um fármaco ideal atuaria exclusivamente sobre o receptor D2 relacionado à psicose, sem interferir nas demais funções. Essa seletividade completa, porém, não está disponível. Ainda assim, os antipsicóticos de segunda geração podem ser úteis como adjuvantes em diversas situações clínicas.
Outras aplicações clínicas
Aplicações adjuvantes além da psicose
O uso adjuvante dos antipsicóticos de segunda geração varia conforme o perfil de ligação aos receptores.
- Aplicações clínicas: Os antipsicóticos de segunda geração podem ser utilizados como adjuvantes em depressão, ansiedade, insônia e transtorno afetivo bipolar.
- Receptores envolvidos: As aplicações decorrem da ação sobre receptores dopaminérgicos, serotoninérgicos, histaminérgicos e adrenérgicos, que não são o alvo principal do tratamento da psicose.
- Escolha do fármaco: A indicação depende do grau de ligação e da afinidade por diferentes receptores; por isso, cada antipsicótico tem aplicações próprias e não é equivalente aos demais em todos os contextos.
Dose de quetiapina muda o efeito
- Etapa: Reconheça que as ações dos antipsicóticos sobre os receptores são dependentes da dose ou da concentração.
- Etapa: Identifique a quetiapina como um antipsicótico de segunda geração utilizado em insônia, depressão, transtorno afetivo bipolar e psicose.
- Etapa: Administre doses baixas, como 50 mg, quando a interação predominante com receptores histaminérgicos H1 produzir efeito sedativo útil no tratamento da insônia.
- Etapa: Observe que, em concentrações intermediárias, como aproximadamente 300 mg, a quetiapina atua mais sobre receptores serotoninérgicos e sobre a recaptação de noradrenalina.
- Etapa: Relacione o aumento da ação sobre receptores serotoninérgicos e sobre o transportador de noradrenalina, em concentração intermediária, à produção de propriedades antidepressivas.
Doses altas ativam efeito antipsicótico
Em doses mais altas, a partir de aproximadamente 200 mg, a quetiapina apresenta maior ação sobre os receptores D2 e 5 HT2A, relacionados ao efeito antipsicótico. Assim, quantidades menores favorecem a interação com H1 e o efeito sedativo, enquanto quantidades maiores aumentam a ação sobre D2 e 5 HT2A; a dose altera o grau de afinidade funcional pelos diferentes receptores e, consequentemente, o efeito clínico.
Síntese: vias, receptores e aplicações
Os antipsicóticos de primeira geração controlam principalmente os sintomas positivos por meio do antagonismo D2, mas podem agravar sintomas negativos e causar efeitos extrapiramidais, discinesia tardia, síndrome neuroléptica maligna e hiperprolactinemia. Os de segunda geração também controlam os sintomas positivos e podem melhorar sintomas negativos, cognitivos e afetivos, com menor comprometimento de algumas vias dopaminérgicas; em contrapartida, podem causar alterações metabólicas e cardiovasculares importantes. Portanto, a farmacodinâmica individual, a afinidade receptorial, a dose e a concentração determinam as diferentes aplicações clínicas.
Dicas Para Provas
Dicas Para Provas
| Dicas Para Provas |
|---|
| A ativação dos neurônios da via mesolímbica libera dopamina no núcleo accumbens, conforme a explicação apresentada. |
| A síndrome neuroléptica maligna pode cursar com rigidez musculomotora e aumento da atividade autonômica. |
| A clorpromazina é muito utilizada para crises de soluços. |
| A ocitocina estimula receptores envolvidos na produção de prolactina pela célula lactotrópica. |
| Os antipsicóticos de segunda geração não constituem um grupo farmacologicamente homogêneo, pois apresentam ações distintas sobre diferentes receptores. |
Reflexão Sion
Cuidado além dos sintomas
Os antipsicóticos de segunda geração podem controlar mais grupos de sintomas, mas ainda exigem acompanhamento para riscos metabólicos e cardiovasculares. Isso nos lembra que cuidar não é apenas reduzir sinais visíveis, mas acompanhar a pessoa inteira em sua fragilidade. Jesus oferece descanso aos cansados e nos convida a olhar para cada vida com esperança e compaixão.
Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês.Mateus 11:28
Leia pensando no cuidado completo da pessoa.