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Ciclo Básico4 PeríodoPropedêutica IICapítulo 2

Aula 11 Respiratório I

O ponto mais importante na investigação é saber em qual situação solicitar cada exame.

Duracao: 40 min

Topicos da aula

  • Propedêutica Respiratório I

Overview

Do exame clínico às síndromes respiratórias

A avaliação respiratória parte do exame clínico, que integra os dados da anamnese e do exame físico para relacionar os sintomas do paciente aos achados semiológicos. A partir dessa base, os exames complementares ajudam a definir a hipótese diagnóstica, sendo fundamental saber em qual situação solicitar recursos como oximetria de pulso, gasometria arterial, radiografia de tórax, tomografia, espirometria e análises do escarro ou do líquido pleural. Na prática, articular a clínica aos exames indicados permite cumprir a etapa inicial do raciocínio: definir a síndrome antes de investigar a etiologia, agrupando os quadros conforme a localização acometida em síndromes pleuropulmonares, brônquicas, pleurais e vasculares.

Introdução e Objetivos do Estudo

Anamnese e exame físico integrados

O estudo das principais síndromes respiratórias pressupõe o conhecimento prévio dos principais sintomas respiratórios e do exame físico, tanto geral quanto específico do aparelho respiratório. Nessa etapa, o objetivo da propedêutica não é repetir esses conteúdos, mas estabelecer inter relações entre eles. A avaliação clínica respiratória integra dados da anamnese e do exame físico para identificar síndromes respiratórias, formando em conjunto o exame clínico.

Quando solicitar exames complementares

Os exames complementares ajudam a definir a hipótese diagnóstica após a anamnese e o exame físico. Nessa abordagem, o foco não está nos detalhes técnicos de cada exame — alguns apresentados apenas a título de conhecimento —, pois o ponto central é compreender em que situação cada um deve ser solicitado.

Oximetria de Pulso e Gasometria Arterial

Oxigenação, nódulos, obstrução e pneumonia

Suspeita clínicaExame indicado e condução
Hipoxemia ou retenção de gás carbônicoPode se solicitar oximetria de pulso ou gasometria arterial quando há suspeita de hipoxemia ou de retenção de gás carbônico.
Lesão ou nódulo pulmonarInicia se com radiografia de tórax; se houver lesão, a confirmação é feita, por exemplo, com tomografia de tórax. Na suspeita de câncer, o diagnóstico da lesão pulmonar pode ser fechado por biópsia, realizada por broncoscopia ou guiada por tomografia.
Obstrução do fluxo de ar (por exemplo, sibilância )Diante de suspeita de asma ou DPOC, pode se solicitar espirometria com broncodilatador, que é o salbutamol.
Pneumonia com necessidade de identificar o germeNa investigação de pneumonia, solicita se exame do escarro com Gram, cultura, teste rápido molecular para tuberculose e pesquisa de BAAR.

O ponto mais importante na investigação é saber em qual situação solicitar cada exame.

Derrame pleural, fibrose e bronquiectasia

Suspeita ou condição clínicaExame indicado e condução
Derrame pleuralDiante de um derrame pleural, é preciso definir se é transudato ou exsudato para tratar de forma adequada; para isso, realiza se toracocentese com coleta do líquido ou, diretamente, biópsia da pleura.
Suspeita de fibrose pulmonarPode se solicitar tomografia de alta resolução na suspeita de fibrose pulmonar.
BronquiectasiaA bronquiectasia também é avaliada por tomografia.

A definição entre transudato e exsudato orienta o tratamento adequado do derrame pleural.

Investigação do tromboembolismo pulmonar

O tromboembolismo pulmonar é causado por um coágulo (trombo) que obstrui uma artéria pulmonar, e sua suspeita pode ser investigada por exames de imagem, como a angiotomografia de tórax ou a cintilografia pulmonar. A angiotomografia arterial de tórax é usada principalmente para avaliar o tromboembolismo pulmonar, pois consegue identificar os coágulos que obstruem a artéria pulmonar.

Teste de caminhada e grupos de síndromes

A avaliação complementar inclui testes funcionais de esforço e integra o que o paciente sente aos achados do exame físico para classificar as principais síndromes respiratórias conforme o local da alteração.

  • Teste da caminhada de seis minutos: a ausência de queda da oxigenação durante a caminhada (marcha) indica boa condição e boa evolução, enquanto uma maior distância percorrida no teste da caminhada de seis minutos pode indicar melhora da doença.
  • Síndromes brônquicas: compõem, junto às síndromes pleuropulmonares e pleurais, os três grupos das principais síndromes respiratórias, caracterizando se por alteração que envolve a traqueia e os brônquios.
  • Síndromes pleuropulmonares: grupo de síndromes respiratórias em que a alteração se localiza no parênquima pulmonar.
  • Síndromes pleurais: grupo de síndromes respiratórias em que a alteração acomete a pleura.

Oximetria de pulso e suas limitações

A oximetria de pulso é considerada um sinal vital e é obtida por meio do oxímetro colocado na ponta do dedo do paciente. Na avaliação da oxigenação, a oximetria de pulso normal é acima de 95%, valor que indica uma quantidade satisfatória de oxigênio ligada à hemoglobina no sangue.

Algumas situações podem prejudicar e interferir na leitura da oximetria de pulso, tendo como causas mais importantes as mãos frias e as unhas pintadas com esmalte escuro. A medição também pode sofrer interferência na presença de carboxi hemoglobina — por exemplo, após exposição a queimadas com grande inalação de monóxido de carbono, que se liga à hemoglobina e pode falsear a leitura da oximetria de pulso.

Gasometria e hipoxemia: insuficiência tipo 1

Quando a saturação está abaixo de 95%, há suspeita de hipoxemia, cuja confirmação é feita pela gasometria arterial, que avalia pH, PaO2, PaCO2, bicarbonato e saturação. Nesse exame, a hipoxemia é identificada pela PaO2: uma saturação de 92% acompanhada de PaO2 de 58 mmHg, por exemplo, indica valor baixo e, portanto, hipoxemia.

Quando a hipoxemia predomina, caracteriza se a insuficiência respiratória tipo 1, que ocorre, por exemplo, na pneumonia, no tromboembolismo pulmonar (TEP) e no edema pulmonar ou congestão pulmonar.

Dispneia com saturação normal: hipercapnia

Em algumas doenças pulmonares, é frequente na prática o paciente apresentar dispneia apesar de a saturação de oxigênio medida no oxímetro estar normal, situação em que o problema pode não ser a hipoxemia, e sim uma insuficiência respiratória tipo 2. Esse tipo de insuficiência decorre de falha na ventilação pulmonar: quando há comprometimento ou fraqueza da musculatura respiratória, o paciente não consegue exalar adequadamente o gás carbônico e passa a retê lo, com aumento da PaCO2. Entre as condições que provocam essa alteração estão as doenças neuromusculares, como a esclerose lateral amiotrófica (ELA) e a miastenia gravis, que causam fraqueza muscular generalizada e podem atingir também a musculatura respiratória.

Radiografia de Tórax

Da gasometria à radiografia de tórax

Na presença de fraqueza muscular, o paciente ventila lentamente e acumula gás carbônico, cabendo à gasometria arterial definir se há hipoxemia e se há hipercapnia, já que algumas doenças predominam em uma ou em outra alteração. Na investigação complementar do paciente, a radiografia de tórax é um exame básico usado na avaliação pneumológica e o mais importante da pneumologia, sendo fundamental ter noção desse exame antes do ciclo clínico por ajudar a confirmar ou afastar diversas doenças respiratórias.

Incidências PA e perfil

As incidências radiográficas de tórax descritas são posteroanterior (PA) e perfil, realizadas após solicitar ao paciente uma inspiração profunda. Na incidência PA, o paciente fica com os braços posicionados e o tórax encostado no anteparo, de forma que os raios X incidem pela face posterior e formam a imagem na face anterior, enquanto na incidência em perfil os raios incidem lateralmente.

A leitura de uma radiografia de tórax exige sempre verificar se a técnica está adequada e se a identificação do paciente está correta. Durante a interpretação, deve se também comparar o exame com exames anteriores para saber se uma alteração encontrada é nova ou já existia.

Broncograma aéreo e padrões radiológicos

Na avaliação das alterações de imagem, o achado radiológico mais importante é a opacidade com broncograma aéreo, que caracteriza a consolidação pulmonar quando o alvéolo está preenchido por secreção, como células inflamatórias, mas o brônquio permanece pérvio. Na radiografia, surge uma área branca no meio da qual é possível ver brônquios finos e escuros que formam o broncograma aéreo. A presença de broncograma aéreo em uma opacidade pulmonar é compatível com consolidação e pode indicar consolidação pulmonar: como a pneumonia é um exemplo de consolidação pulmonar que pode aparecer como uma opacidade com broncogramas aéreos, a consolidação com broncograma aéreo favorece o diagnóstico de pneumonia.

Ao lado da consolidação típica da pneumonia, a síntese dos principais padrões radiológicos abrange a hiperinsuflação pulmonar na DPOC, o pneumotórax pela presença de ar entre as pleuras e o derrame pleural pelo acúmulo de líquido entre as pleuras. Nesta etapa, a radiografia é o exame que precisa ser compreendido desde já, enquanto dos demais exames basta conhecer as indicações, reservando o aprofundamento para o ciclo clínico.

Anatomia normal e sequência de leitura

O reconhecimento de alterações exige dominar a anatomia radiológica e aplicar uma ordem fixa de avaliação. Na incidência PA, identificam se a coluna, as clavículas, as costelas, o coração, o diafragma, as escápulas e os dois pulmões, que aparecem como áreas mais escuras, enquanto no perfil observam se a coluna e o coração. A leitura sistemática da radiografia de tórax pode começar pela periferia e seguir em direção ao centro: examinam se primeiro pele, diafragma, coração e ossos — à procura de fratura de costela, além de clavícula e escápula — e, por último, avaliam se os pulmões.

Nos campos pulmonares, as linhas ramificadas visíveis nas áreas pulmonares mais escuras correspondem à vasculatura pulmonar e são um achado normal. Quando surge uma área muito branca no pulmão com finas linhas escuras no seu interior, o padrão corresponde ao broncograma aéreo, e o corte tomográfico correspondente pode mostrar uma área de pneumonia. Já uma área branca de líquido acumulada na base do pulmão, exibindo o sinal da parábola, indica derrame pleural.

Ar entre as pleuras na radiografia

O pneumotórax é a presença de ar entre as pleuras, condição que modifica a leitura dos campos pulmonares. Na radiografia, perde se a trama da vasculatura pulmonar e a área fica mais escura. No pneumotórax, pode ser possível distinguir a pleura parietal da pleura visceral, com o espaço entre elas preenchido por ar.

Colapso pulmonar por obstrução brônquica

Uma opacidade associada à redução do volume pulmonar pode corresponder à atelectasia. Esse mecanismo ocorre, por exemplo, quando o paciente aspira um corpo estranho que obstrui o brônquio — tendo como caso típico uma criança que aspira um grão de feijão — e o pulmão distal à obstrução colaba. Diante disso, surgem alterações no exame físico e a radiografia mostra o pulmão colabado; além disso, na atelectasia importante, a traqueia pode desviar se para o mesmo lado da atelectasia.

Diafragma retificado na DPOC grave

A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) grave pode causar hiperinsuflação pulmonar visível na radiografia, alteração que está associada a DPOC muito grave. Na DPOC grave, a obstrução ao fluxo aéreo torna se fixa e persistente ao longo do tempo, de modo que o paciente não consegue exalar todo o ar, o que dificulta a expiração completa, gera aumento do volume residual pulmonar e pode dilatar a caixa torácica.

Ao exame físico, a DPOC grave com hiperinsuflação pode causar tórax em tonel, também chamado de tórax em barril. Enquanto o diafragma direito e o esquerdo normalmente têm forma de arco, na hiperinsuflação pulmonar da DPOC o diafragma pode ficar retificado, sendo essa retificação do diafragma um sinal radiográfico de hiperinsuflação pulmonar.

Diâmetro anteroposterior, cavidades e nódulos

A análise das proporções da caixa torácica complementa a investigação da hiperinsuflação: enquanto no tórax normal o diâmetro laterolateral é maior que o diâmetro anteroposterior, o tórax em tonel caracteriza se pelo aumento do diâmetro anteroposterior do tórax, que está aumentado em relação ao diâmetro lateral e supera o diâmetro laterolateral. Esse aumento também aparece na radiografia em perfil, na qual normalmente não se vê uma área escura entre a face anterior do tórax e o coração; quando ela aparece, indica aumento do diâmetro anteroposterior. Desse modo, a retificação do diafragma e o aumento do diâmetro anteroposterior do tórax são sugestivos de hiperinsuflação pulmonar, compatível com DPOC grave.

A radiografia de tórax também pode mostrar cavidades, nódulos ou massas pulmonares, que podem estar associados a câncer, tuberculose ou abscesso pulmonar. Na radiografia de tórax, um abscesso pulmonar pode ser identificado como uma cavidade com nível líquido, podendo apresentar nível hidroaéreo.

Tomografia de Tórax, Ultrassonografia, Cintilografia e PET CT

Indicações da tomografia convencional de tórax

A tomografia de tórax inclui a modalidade convencional, que permite avaliar lesões no tecido pulmonar ( parênquima ), como nódulos e massas, e também pode avaliar a pleura, o câncer de pulmão e complicações de pneumonia. A tomografia pode confirmar o diagnóstico de uma cavidade pulmonar observada na radiografia.

Achados tomográficos: abscesso, vasos e brônquios

A análise da tomografia de tórax distingue estruturas vasculares normais de alterações cavitárias, brônquicas e intersticiais.

  • Abscesso pulmonar: na tomografia, pode aparecer e ser mostrado como uma lesão bem delimitada com nível — ou níveis — de ar e líquido.
  • Tomografia pulmonar normal: as linhas brancas visíveis no exame correspondem às artérias e veias pulmonares.
  • Bronquiectasias: na tomografia, os brônquios dilatados podem aparecer como estruturas arredondadas.
  • Doenças pulmonares intersticiais: a radiografia ou a tomografia podem ser usadas na avaliação dessas condições, e a tomografia computadorizada de alta resolução é usada no diagnóstico da fibrose pulmonar.

Investigação do tromboembolismo pulmonar

A cintilografia pulmonar e a ultrassonografia dos membros inferiores também podem ser usadas na investigação do tromboembolismo pulmonar. Na cintilografia pulmonar descrita, a ventilação está normal, mas há uma área com perfusão inadequada. Já na angiotomografia pulmonar descrita, há uma obstrução ao fluxo do contraste.

Cortes finos para doença intersticial

A tomografia é composta por vários cortes que abrangem o pulmão inteiro, mas na tomografia de alta resolução os cortes são muito finos, de 0,5 a 1 mm, o que permite ver detalhes do parênquima. Por essa característica, a tomografia de alta resolução é usada principalmente para avaliar doenças intersticiais pulmonares, como a fibrose pulmonar. Esse exame também pode ser usado para avaliar enfisema e bronquiectasias, que são dilatações dos brônquios.

Angiotomografia na suspeita de TEP

A angiotomografia arterial de tórax usa contraste para opacificar a artéria pulmonar. Esse é o exame indicado principalmente para avaliar o tromboembolismo pulmonar (TEP), verificando se há coágulo obstruindo a artéria pulmonar e causando sintomas como dispneia.

Vidro fosco, faveolamento e outros padrões

A tomografia de tórax pode mostrar padrões como vidro fosco, consolidação, faveolamento, bronquiectasia, enfisema e árvore em brotamento; não é necessário memorizá los, apenas reconhecer que existem e conhecer as indicações de cada tipo de exame.

  • Bronquiectasia: dilatação dos brônquios que não aparece na radiografia, motivo pelo qual a tomografia é indicada para avaliá la quando há essa suspeita.
  • Faveolamento: padrão tomográfico que pode decorrer da fibrose pulmonar.
  • Vidro fosco e consolidação: padrões na tomografia que podem indicar infecção, como pneumonia ou infecção viral.
  • Árvore em brotamento: padrão que ocorre, por exemplo, na tuberculose e também sugere infecção.

Ultrassonografia como alternativa à radiografia

Na ultrassonografia de tórax, o objetivo não é interpretar o exame, mas saber quando ele é usado. Em certas situações, esse método pode substituir a radiografia, já que todas as alterações vistas na radiografia podem ser avaliadas também pela ultrassonografia, como pneumotórax, derrame pleural e consolidação. No pronto socorro, um médico treinado e com aparelho disponível pode fechar o diagnóstico de pneumonia pela ultrassonografia, considerando o quadro clínico.

Como funciona a cintilografia V/Q

A cintilografia pulmonar de ventilação e perfusão combina duas vias de administração: o paciente inala um radiofármaco e recebe outro por via intravenosa. Com esse preparo, o exame avalia as fases de ventilação e de perfusão, mostrando se o sangue chega adequadamente às diferentes regiões dos pulmões e se todas elas são ventiladas de forma adequada.

Uso da cintilografia no TEP

Essa leitura conjunta de ventilação e perfusão explica por que a cintilografia pulmonar pode ser usada na avaliação do tromboembolismo pulmonar (TEP). Embora a angiotomografia seja o principal exame para esse diagnóstico, a cintilografia é indicada principalmente como alternativa quando o paciente tem contraindicação à angiotomografia. No TEP, um coágulo na artéria pulmonar faz com que a região afetada continue ventilada, mas com perfusão reduzida.

Contraindicações ao contraste da angiotomografia

O contraste da angiotomografia não deve ser usado em casos de alergia ao contraste, gestação e insuficiência renal, situações nas quais a cintilografia passa a ser a alternativa.

PET CT no câncer de pulmão

O PET CT é uma tomografia realizada após a aplicação venosa de um radiofármaco, que é captado em áreas de alta proliferação celular. Por essa característica, o exame é usado principalmente na avaliação do câncer de pulmão: em nódulos pulmonares suspeitos ou, em pacientes já diagnosticados, para pesquisar outras localizações da doença.

Espirometria

CVF e VEF1 na espirometria

A espirometria é um exame muito usado nas doenças respiratórias, no qual o paciente sopra de forma forte e contínua através de um bocal para que o aparelho meça os volumes pulmonares.

Entre essas medidas, a capacidade vital forçada ( CVF ) corresponde a praticamente todo o volume pulmonar do paciente e é usada para avaliar o volume de ar mobilizado na expiração forçada. Já o volume expiratório forçado no primeiro segundo ( VEF1 ) é a quantidade de ar exalada no primeiro segundo da expiração forte e contínua.

Tiffeneau e prova broncodilatadora

A partir dos volumes medidos, a espirometria é indicada principalmente para avaliar asma e DPOC, condições que configuram distúrbio obstrutivo.

  1. Avaliação do índice de Tiffeneau: a relação entre VEF1 e CVF ( VEF1/CVF ), que já vem calculada no exame, é chamada de índice de Tiffeneau.
  2. Identificação de obstrução pulmonar: a redução da relação VEF1/CVF indica obstrução pulmonar (obstrução dos brônquios), o que favorece asma ou DPOC, ambas doenças obstrutivas.
  3. Administração do broncodilatador: na prova broncodilatadora da espirometria, após o primeiro exame, administra se salbutamol ( Aerolin ), em spray, com quatro jatos, e o exame é repetido.
  4. Ação brônquica do medicamento: o salbutamol promove broncodilatação e, na asma, doença inflamatória que fecha os brônquios, o medicamento tende a abri los.
  5. Resposta sugestiva de asma: se após o broncodilatador o VEF1 ou a CVF aumentarem em 12% e 200 mL, o resultado sugere asma, com melhora da obstrução.
  6. Confirmação de DPOC: se a obstrução persistir após o broncodilatador, com VEF1/CVF baixo, e houver suspeita clínica, fecha se o diagnóstico de DPOC.

Causas de distúrbio restritivo

A redução da CVF, medida que representa o volume pulmonar total, pode sugerir um distúrbio ventilatório restritivo, que diminui o volume do pulmão.

  • Fibrose pulmonar: uma das principais causas de distúrbio restritivo, condição que diminui o volume do pulmão e pode estar associada à redução da CVF.
  • Doenças neuromusculares: condições como a esclerose lateral amiotrófica (ELA), que podem reduzir o volume pulmonar quando causam fraqueza da musculatura respiratória.
  • Obesidade: condição em que o volume do tecido subcutâneo comprime o pulmão e que pode estar associada à redução do volume pulmonar e da CVF.
  • Deformidades da caixa torácica: condição incluída entre as principais causas de distúrbio ventilatório restritivo, que diminui o volume do pulmão.

Pectus, cifose e escoliose

As deformidades da parede torácica incluem o pectus excavatum, o pectus carinatum, o cifótico e o escoliótico, alterações que a inspeção do tórax serve principalmente para identificar. Um pectus excavatum muito grave pode reduzir o volume pulmonar e a CVF, o que pode explicar a dispneia do paciente, e o mesmo vale para cifose ou escoliose importantes.

Uma escoliose importante pode estar associada à hipoplasia pulmonar, como no exemplo de uma paciente com paralisia cerebral na infância e escoliose muito acentuada.

Exame do Escarro, Toracocentese, Broncoscopia e Outros Exames

Hipoplasia pulmonar e escarro: Gram e cultura

Na paciente do exemplo citado, a escoliose acentuada levou à hipoplasia pulmonar esquerda aos 14 anos, pois o pulmão esquerdo não se desenvolveu, apenas o direito, o que mostra a importância de avaliar as deformidades da parede torácica.

Na investigação complementar das vias respiratórias, o exame do escarro consiste em coletar em um recipiente a secreção eliminada pela tosse. Na suspeita de infecção, a análise permite identificar o germe envolvido por meio da coloração de Gram (Gram positivo ou Gram negativo) e da cultura do escarro, que é realizada colocando a amostra em meio de cultura para observar o crescimento de bactérias e identificar qual bactéria cresce no meio, sendo usada principalmente em pacientes internados para fechar o diagnóstico.

Escarro na tuberculose e citologia oncótica

O escarro pode ser analisado por teste rápido molecular para investigar tuberculose por micobactérias, o que pode contribuir para o diagnóstico da tuberculose, doença infecciosa que se manifesta com tosse por mais de 3 semanas, sudorese noturna e febre vespertina. Tanto o teste molecular quanto a baciloscopia do escarro, que também pode ser usada para investigar tuberculose, pesquisam o Mycobacterium tuberculosis, bactéria causadora da doença que é um bacilo álcool ácido resistente (BAAR).

A citologia oncótica pode ser realizada em amostra de escarro para pesquisar células anormais que podem levantar suspeita de câncer. Em síntese, o exame do escarro serve para definir o germe nas infecções, investigar tuberculose e auxiliar no diagnóstico de câncer.

Toracocentese na investigação do derrame

O acúmulo de líquido entre as pleuras é chamado de derrame pleural, e a toracocentese é realizada para investigar o líquido do derrame pleural por meio das seguintes etapas:

  1. Punção intercostal: na toracocentese, uma agulha é inserida no espaço intercostal.
  2. Coleta da amostra: na toracocentese, retira se uma amostra do líquido pleural acumulado entre as pleuras.
  3. Análise laboratorial: a análise do líquido pleural permite classificá lo como exsudato ou transudato.

Exsudato versus transudato: origem e causas

Classificação do líquidoOrigem e padrãoCausas possíveis
ExsudatoO exsudato pleural sugere doença que afeta a própria pleura.Tuberculose, câncer de pulmão, tromboembolismo pulmonar e colagenoses podem causar exsudato pleural; lúpus e artrite reumatoide podem afetar a pleura.
TransudatoO transudato pleural está associado a doença sistêmica, e não da pleura; o derrame por doença sistêmica ou transudato pode ser bilateral.Insuficiência cardíaca, cirrose hepática e síndrome nefrótica são causas sistêmicas que podem causar derrame pleural bilateral por transudato.

A distinção entre exsudato e transudato orienta a investigação entre acometimento da própria pleura e doenças sistêmicas.

Critérios de Light e causas gerais

Os critérios de Light são usados para classificar o líquido pleural como transudato ou exsudato e diferenciar os dois padrões, avaliando as concentrações de proteína e desidrogenase lática no líquido pleural. Entre as condições que podem causar derrame pleural estão insuficiência cardíaca, pneumonia, tuberculose, câncer, tromboembolismo pulmonar, cirrose hepática e doenças renais.

ADA, linfócitos e drenagem do empiema

O derrame pleural na tuberculose é um exsudato no qual o líquido pode apresentar aumento de linfócitos e da enzima adenosina deaminase (ADA). Já o empiema pleural, uma complicação da pneumonia, contém pus e requer drenagem torácica, realizada com a passagem de um dreno de tórax, que é um tubo mais calibroso.

Broncoscopia e vias de biópsia

A broncoscopia é uma endoscopia das vias aéreas que permite avaliar os brônquios e realizar procedimentos, como a biópsia de um tumor endobrônquico, a localização do ponto de sangramento em paciente com hemoptise (tosse com sangue) e a retirada de corpo estranho, como uma moeda ou um grão de feijão aspirado por uma criança.

Além da via broncoscópica, a biópsia pulmonar pode ser guiada por tomografia, com uma agulha introduzida durante o exame para colher fragmento de um nódulo, ou realizada de forma cirúrgica, existindo ainda a biópsia exclusiva da pleura.

Polissonografia na apneia do sono e hemograma

A polissonografia é o exame em que o paciente dorme a noite inteira no hospital, com monitorização de todo o sono. Ela pode ser usada para investigar a apneia obstrutiva do sono, distúrbio em que o paciente para de respirar durante a noite. Ronco, sonolência diurna excessiva e cefaleia matinal são sintomas que podem ser relatados por pacientes com apneia obstrutiva do sono.

Os exames laboratoriais também auxiliam o raciocínio clínico: diante de suspeita de infecção pulmonar, solicita se o hemograma, que permite avaliar os leucócitos.

Ecocardiograma e caminhada de seis minutos

O ecocardiograma, que corresponde à ultrassonografia do coração, complementa a avaliação cardiorrespiratória e pode ser usado para rastrear a hipertensão pulmonar. Esse exame estima a pressão pulmonar, cujo aumento pode sobrecarregar o coração.

Existem também testes de esforço semelhantes ao teste ergométrico da cardiologia, sendo o principal deles o teste de caminhada de 6 minutos, no qual o paciente caminha por 6 minutos numa pista de 30 metros. Durante o exame, avaliam se a distância percorrida e se a oxigenação cai durante a marcha; como uma maior distância alcançada indica melhor evolução da doença, a caminhada de seis minutos é usada para avaliar pacientes com doenças pulmonares.

Síndromes Pleuropulmonares

Brônquicas, pleuropulmonares e pleurais

Diante de um paciente com doença respiratória, o primeiro passo é definir a síndrome para só depois investigar a sua causa, ou seja, a etiologia, agrupando os quadros conforme a estrutura acometida.

  • Síndromes brônquicas: englobam a obstrução brônquica (como na asma), a dilatação brônquica (como nas bronquiectasias) e a infecção dos brônquios, representada pela bronquite infecciosa, que é distinta de outros tipos de bronquite.
  • Síndromes pleuropulmonares: acometem basicamente o parênquima pulmonar e incluem consolidação, atelectasia, hiperaeração, congestão e escavação.
  • Síndromes pleurais: acometem a pleura e compreendem pleurite, derrame pleural e pneumotórax.

Alvéolo preenchido e expansibilidade reduzida

A consolidação inaugura o estudo das síndromes pleuropulmonares e caracteriza se pelo alvéolo preenchido por secreção. Esse mecanismo ocorre na pneumonia, em que o alvéolo contém células inflamatórias e bactérias digeridas, ou seja, líquido dentro do alvéolo. Na inspeção dinâmica, avalia se a expansibilidade observando qual lado do tórax expande menos, e do lado da consolidação a expansibilidade pode estar diminuída.

Frêmito aumentado e macicez na consolidação

Na etapa de palpação, o frêmito toracovocal pode ser avaliado por palpação comparativa enquanto o paciente pronuncia "33". Como o som se propaga melhor através do líquido, na consolidação pulmonar o frêmito toracovocal fica aumentado no lado afetado, e essa é a única situação em que isso ocorre.

À percussão pulmonar, o som normal do pulmão é o som claro pulmonar. Na consolidação pulmonar, o preenchimento dos alvéolos por líquido pode produzir som maciço ou submaciço à percussão.

Ausculta: estertores, sopro tubário e broncofonia

Na ausculta da consolidação pulmonar, podem aparecer estertores finos, sopro tubário e broncofonia. Os estertores finos são percebidos como estalos finos, lembrando pequenas bolhas estourando no fim da inspiração, e podem ser causados por secreção nos alvéolos. Já o sopro tubário (ou sopro brônquico ) corresponde a um som brônquico normal que passa a ser ouvido em uma região onde se esperaria ouvir murmúrio vesicular.

A voz do paciente falando "33" também pode ser avaliada pela ausculta, na qual normalmente não é ouvida com nitidez. Quando essa percepção da voz está aumentada em um lado do tórax em relação ao outro, caracteriza se a broncofonia, que corresponde ao aumento da transmissão da voz naquele lado. No restante do exame da consolidação pulmonar, em geral não há alteração da posição da traqueia.

Murmúrio abolido e traqueia ipsilateral

Diferentemente da consolidação, na atelectasia uma obstrução brônquica — causada, por exemplo, por um corpo estranho dentro do brônquio — impede que o ar chegue à região afetada e faz o pulmão colabar. Em consequência dessa obstrução na atelectasia, a expansibilidade torácica fica reduzida e o frêmito toracovocal fica diminuído na região afetada.

À percussão na atelectasia, o tecido colabado pode produzir som maciço. À ausculta, o murmúrio vesicular pode estar abolido ou reduzido na região afetada, comparando um lado com o outro. Quando a atelectasia é importante, a traqueia pode estar desviada de forma leve para o mesmo lado da lesão ( ipsilateral ).

Redução global e hipersonoridade

Enquanto a consolidação e a atelectasia produzem alterações localizadas, a hiperaeração corresponde à DPOC muito grave, caracterizada por tórax em tonel e obstrução fixa e grave estabelecida ao longo do tempo. Ao exame físico, na hiperinsuflação associada à DPOC grave, a expansibilidade torácica pode estar globalmente reduzida, e não localmente, como na consolidação.

Na hiperinsuflação associada à DPOC grave, o frêmito toracovocal também pode estar globalmente diminuído, pois a maior dilatação da caixa torácica dificulta a propagação da vibração do "33". Na hiperinsuflação pulmonar, a percussão pode variar entre som claro pulmonar e timpânico, com hipersonoridade decorrente do acúmulo de ar residual, em vez do som claro pulmonar.

Murmúrio reduzido e expiração prolongada

Na ausculta da hiperinsuflação associada à DPOC grave, o murmúrio vesicular pode estar globalmente reduzido e é difícil de auscultar. Embora a inspiração normalmente seja mais longa que a expiração, nesses pacientes a exalação demora mais, de modo que na DPOC grave a expiração pode estar prolongada. Nessa síndrome, não há alteração da traqueia.

Líquido intra alveolar generalizado

A congestão pulmonar ocorre no paciente com insuficiência cardíaca, em que o aumento da permeabilidade vascular pulmonar faz o líquido extravasar para dentro do alvéolo. A diferença em relação à consolidação é que nesta há células inflamatórias e o processo é localizado, enquanto a congestão é generalizada.

Clinicamente, o paciente pode apresentar taquipneia, e o frêmito toracovocal pode estar normal ou aumentado, por se tratar de líquido intra alveolar. Como o líquido depende da gravidade, pode haver submacicez à percussão nas bases e também podem ocorrer estertores finos bilaterais nas bases pulmonares.

Frêmito diminuído, macicez e egofonia

Diferentemente do acúmulo intra alveolar, no derrame pleural há líquido entre as pleuras. A expansibilidade está diminuída do lado acometido, já que o derrame costuma ser unilateral, e um derrame pleural volumoso pode causar abaulamento da parede torácica.

O frêmito toracovocal está diminuído, pois o líquido forma uma barreira que impede a vibração de chegar à mão do examinador, e a percussão apresenta som maciço. À ausculta, há murmúrio vesicular abolido e pode haver egofonia, alteração que surge logo acima do derrame: ao pedir que o paciente fale "A", ouve se "E", ou o inverso.

Traqueia empurrada ou puxada

Em derrames muito volumosos, a traqueia pode ser empurrada para o lado oposto, com leve desvio contralateral, enquanto na atelectasia ocorre o contrário: a traqueia é puxada para o mesmo lado.

Achados semiológicos do pneumotórax

No pneumotórax, a presença de ar entre as pleuras altera o exame físico: a expansibilidade torácica e o frêmito podem estar diminuídos, sendo que o frêmito toracovocal pode estar diminuído ou abolido, e o murmúrio vesicular pode estar abolido na região afetada. À percussão, pode haver som timpânico, achado que o distingue do derrame pleural: a percussão timpânica no pneumotórax (pelo ar) e maciça no derrame pleural (pelo líquido) ajudam a diferenciar essas condições.

Pneumotórax hipertensivo: emergência hemodinâmica

Um pneumotórax de grande volume é denominado pneumotórax hipertensivo. Ele pode desviar a traqueia, deslocando a traqueia e o coração para o lado oposto, e pode causar hipotensão e colapso circulatório, sendo uma emergência.

Causas e sintomas da consolidação

Na consolidação pulmonar, o alvéolo está cheio de células inflamatórias e o brônquio permanece normal. Ela ocorre principalmente na pneumonia, mas também na tuberculose, no infarto pulmonar secundário à embolia pulmonar e no câncer de pulmão.

O paciente com pneumonia apresenta febre, calafrios, tosse produtiva, dor pleurítica (dor dependente da ventilação) e dispneia, além das alterações de exame físico já descritas. O dado que diferencia a consolidação das demais síndromes é o frêmito toracovocal aumentado.

Tumor, corpo estranho e rolha de secreção

Na atelectasia, o pulmão distal colapsa porque o brônquio pode ser obstruído por um câncer de pulmão, um corpo estranho ou uma rolha de secreção, ou ainda comprimido extrinsecamente por um tumor.

O paciente apresenta dispneia e tosse, e o contexto clínico orienta a investigação da causa. Em tabagista com emagrecimento e hemoptise, esses achados podem levantar suspeita de tumor pulmonar, enquanto em uma criança que engasgou a obstrução brônquica por corpo estranho é uma possibilidade. Já no paciente internado — como em quadros de pneumonia com muita secreção ou no pós operatório —, pensa se em rolha de secreção.

No exame físico da atelectasia, a expansibilidade e o frêmito toracovocal podem estar diminuídos, a percussão pode ser maciça ou submaciça e o murmúrio vesicular pode estar abolido, com a traqueia geralmente desviada para o lado da alteração.

Enfisema, DPOC e alfa 1 antitripsina

A hiperinsuflação pulmonar pode ocorrer no enfisema e na DPOC grave. Uma crise de asma muito grave também pode causar hiperinsuflação pulmonar, mas na asma essa hiperinsuflação pode ser transitória e ocorrer durante a crise.

A deficiência de alfa 1 antitripsina é uma das causas de DPOC, e a exposição ao tabagismo ou à fumaça de fogão a lenha é um fator que pode sugerir a doença. Clinicamente, a DPOC pode cursar com dispneia progressiva aos esforços e tosse com expectoração, além de apresentar exacerbações que podem aumentar a quantidade de escarro, a tosse e a dispneia (falta de ar).

Sinais de uso de musculatura acessória

Nos pacientes com hiperinsuflação e dispneia, o exame físico avalia tanto os sinais de esforço ventilatório quanto as alterações estruturais e auscultatórias do tórax.

  • Uso da musculatura acessória: recrutamento de músculos que o paciente normalmente não usa, o que indica esforço respiratório associado à falta de ar.
  • Manobras e retrações de esforço: lábios semicerrados, batimento das asas do nariz, tiragem intercostal e retração de fúrcula são sinais de uso da musculatura acessória da respiração.
  • Músculos cervicais acessórios: a contração dos músculos esternocleidomastóideo e escalenos é sinal de uso da musculatura acessória da respiração.
  • Tórax em tonel: deformidade que a DPOC grave pode causar, caracterizada pelo diâmetro anteroposterior aumentado em relação ao laterolateral.
  • Expansibilidade e frêmito na DPOC grave: na DPOC grave, a expansibilidade torácica e o frêmito toracovocal podem estar globalmente diminuídos.
  • Percussão e ausculta na DPOC grave: cursam com hipersonoridade à percussão, murmúrio vesicular diminuído e, possivelmente, sibilos e expiração prolongada.

Perfil enfisematoso: magro e hipoxêmico

A fisiopatologia da doença combina enfisema e bronquite, de modo que na DPOC podem predominar os perfis enfisematoso ou bronquítico crônico. No enfisema, ocorre destruição dos septos alveolares com fusão dos alvéolos; como esses septos realizam as trocas gasosas, sua perda reduz a área disponível para as trocas gasosas e pode causar hipoxemia.

No perfil enfisematoso da DPOC, são comuns baixa saturação de oxigênio e falta de ar, de modo que a dispneia pode predominar e a tosse pode ser pouco intensa. O perfil enfisematoso pode estar associado a emagrecimento acentuado, decorrente da perda de massa muscular causada pelo grande esforço respiratório. Para facilitar a respiração, pacientes com predomínio de enfisema podem assumir posição ortopneica de apoio, permanecendo sentados e abrindo a caixa torácica.

Perfil bronquítico: tosse e secreção

No perfil bronquítico crônico da DPOC, em contraste com o predomínio enfisematoso, a inflamação fecha os brônquios e produz muita secreção, o que pode causar tosse produtiva intensa, sobretudo pela manhã. O paciente tende a ser um pouco mais obeso, com sibilos e muita expectoração à ausculta, e pode ainda ter insuficiência cardíaca associada à DPOC.

Insuficiência cardíaca e asma cardíaca

Na congestão pulmonar da insuficiência cardíaca, há líquido nos alvéolos dos dois pulmões e, como o líquido depende da gravidade, ele se acumula nas bases. Na insuficiência cardíaca, o paciente pode apresentar dispneia aos esforços, ortopneia e dispneia paroxística noturna, além de poderem ocorrer tosse noturna e edema de membros inferiores, com história de cardiopatia ou hipertensão. Ao exame geral, podem estar presentes turgência jugular e edema de membros inferiores.

Na parte respiratória, o frêmito pode estar normal ou aumentado, se houver muita secreção, acompanhado de submacicez nas bases e estertores finos bibasais. A congestão pulmonar também pode causar sibilos, achado denominado asma cardíaca, pois a congestão causa edema da mucosa brônquica e obstrução, além de poder haver derrame pleural bilateral associado.

Cavitação, vômica e anaeróbios

Diferentemente do acúmulo alveolar de líquido, a escavação ou cavitação é uma cavidade cheia de ar, bem delimitada, dentro do pulmão. A cavitação pulmonar pode ocorrer na tuberculose, no abscesso pulmonar, em câncer de pulmão cavitado e em infecções fúngicas pulmonares. Tosse produtiva com hemoptise, febre, sudorese noturna e emagrecimento sugerem tuberculose.

A vômica, eliminação pela tosse de secreção muito espessa e às vezes fétida, é característica do abscesso pulmonar. O abscesso decorre de microaspirações crônicas — sendo frequente em pacientes alcoolistas, que apresentam muitas microaspirações —, condição em que bactérias anaeróbias predominam como agentes bacterianos e são responsáveis pelo odor fétido.

Timpanismo cavitário e pectorilóquia

Na escavação pulmonar, o exame físico só se altera quando a cavidade é grande e próxima da periferia do pulmão. Nesse caso, por se tratar de uma cavidade com ar, o som é timpânico, e pode haver estertores finos ao redor da área de consolidação.

A pectorilóquia é outra forma de ausculta da voz com o "33": enquanto na broncofonia o som está apenas aumentado de um lado em relação ao outro, sem nitidez, na pectorilóquia o "33" é ouvido com nitidez na região. Ela indica uma consolidação mais intensa que a da broncofonia, com mais líquido e secreção no alvéolo.

Interstício e dispneia progressiva

As doenças pulmonares intersticiais, como a fibrose pulmonar, acometem o interstício, tecido de sustentação do pulmão localizado entre os alvéolos e os capilares pulmonares. Entre as várias causas desse grupo, um exemplo é a fibrose pulmonar idiopática.

No quadro clínico dessas doenças, o sintoma mais importante é a dispneia progressiva aos esforços, que surge inicialmente ao subir escadas ou ladeiras e evolui até ocorrer em caminhada lenta no plano, no banho ou ao lavar o cabelo. O paciente apresenta também tosse que piora com o esforço físico, como na caminhada.

Estertores em velcro e confirmação por TCAR

Ao exame físico das doenças pulmonares intersticiais, podem ser encontrados baqueteamento digital e estertores finos do tipo velcro, que representam o achado mais comum e ocorrem geralmente de forma bilateral, além de hipoxemia com saturação baixa. Ao longo da evolução clínica, também podem ocorrer exacerbações marcadas por piora aguda dos sintomas.

A investigação diagnóstica utiliza radiografia ou tomografia associada a provas de função pulmonar, como espirometria e teste de caminhada. Entre os métodos de imagem, a tomografia de alta resolução é o exame que confirma a fibrose pulmonar.

Síndromes Brônquicas

Cavitação ou alteração de atenuação

Na tomografia de um pulmão com fibrose, uma pequena área escura pode não corresponder a uma cavitação, e sim a uma alteração de atenuação própria da doença. A cavitação aparece totalmente escura, sem linhas no interior, ao passo que a presença de finas linhas dentro da área escura indica alteração de atenuação.

Asma: crises e desencadeantes

As síndromes brônquicas envolvem apenas os brônquios, e não o parênquima, dividindo se em obstrução e dilatação brônquica. A obstrução sugere principalmente asma, na qual a doença é exclusivamente brônquica, cursando com inflamação e obstrução dessas vias. A DPOC também causa obstrução brônquica, mas compromete brônquios e alvéolos.

Na asma, os sintomas ocorrem em crises sempre que algum fator inflama e fecha os brônquios, como frio, exercício físico e contato com alérgenos, a exemplo da poeira. Nessas crises, os sintomas principais são dispneia, sensação de aperto no peito, chiado no peito e crises de tosse.

Sibilos difusos e espirometria na asma

O exame físico durante a crise de asma pode demonstrar tiragem intercostal e outros sinais de esforço respiratório, além de expiração prolongada pela obstrução. Na ausculta durante uma crise de asma, o achado mais importante pode ser a presença de sibilos difusos, um som semelhante a um miado de gato produzido pela obstrução brônquica.

A percussão na asma geralmente é normal e só apresenta hipersonoridade em crise grave. Fora da crise, o exame físico é normal, sem sibilos ou outras alterações, e a confirmação diagnóstica é feita pela espirometria.

Bronquiectasias e perda do clearance mucociliar

A síndrome de dilatação brônquica corresponde às bronquiectasias, que têm várias causas, incluindo a fibrose cística, doença que se manifesta na infância, e sequelas de doenças respiratórias como pneumonia, coqueluche, sarampo na infância e tuberculose. Nessa condição, perde se o clearance mucociliar, pois a dilatação brônquica pode prejudicar os cílios dos brônquios — estruturas que eliminam continuamente a secreção produzida —, tornando os defeituosos e favorecendo o acúmulo de secreção nos brônquios.

O paciente relata grande quantidade de secreção todos os dias, sobretudo pela manhã, pelo acúmulo durante a noite, chegando a quantificar dois ou três copinhos de café de secreção amarelada ou esverdeada. Além disso, há maior risco de infecções de repetição.

Estertor grosso e confirmação tomográfica

No exame físico, o principal achado à ausculta é o estertor grosso, que ocorre quando há secreção nos alvéolos e nos brônquios e é comum nas bronquiectasias. Pacientes com bronquiectasias podem apresentar baqueteamento digital ( hipocratismo digital ), uma alteração das unhas.

O diagnóstico de bronquiectasias é confirmado principalmente por tomografia, enquanto na asma é usada a espirometria. Nos cortes tomográficos, as imagens arredondadas correspondem a brônquios dilatados.

Síndromes Pleurais

Causas e sintomas do derrame pleural

As síndromes pleurais acometem a pleura, e entre elas está o derrame pleural, que corresponde à presença de líquido entre as pleuras e tem várias causas, como insuficiência cardíaca, pneumonia, tuberculose, câncer, TEP, cirrose hepática e doenças renais.

Clinicamente, o derrame pleural cursa com dor dependente da ventilação, dispneia aos esforços e tosse seca. A associação com febre e emagrecimento sugere tuberculose.

Sinal de Signorelli e egofonia

Ao exame físico do derrame pleural, observam se expansibilidade diminuída, frêmito diminuído ou abolido e macicez à percussão. No sinal de Signorelli, a percussão da coluna passa de um som claro a um som maciço, achado associado ao derrame pleural.

À ausculta, o murmúrio pode estar abolido e pode haver egofonia. Em derrames muito extensos, a traqueia pode estar desviada para o lado oposto.

Pneumotórax espontâneo e secundário

Outra síndrome pleural é o pneumotórax, que se manifesta com dor torácica súbita e dispneia súbita. O pneumotórax espontâneo ocorre tipicamente em homens jovens, que constituem fator de risco.

Já o pneumotórax secundário pode ocorrer de duas formas: na DPOC com enfisema, em que a fusão dos alvéolos forma bolhas que podem romper, ou no trauma, por exemplo em um acidente de moto com fratura de costela que perfura a pleura.

Pleurite: dor pleurítica e atrito

A pleurite é a inflamação das pleuras visceral e parietal, que normalmente deslizam uma sobre a outra, e pode decorrer de infecções virais, tuberculose, pneumonia e colagenoses, que são doenças reumatológicas como lúpus e artrite reumatoide.

Nesse quadro, o paciente relata a dor pleurítica, descrita como uma dor em pontada que piora à inspiração profunda. No exame físico da pleurite, a inspeção pode mostrar apenas redução local da expansibilidade, enquanto na ausculta há o atrito pleural, produzido pelo deslizamento de uma pleura inflamada sobre a outra, semelhante ao som de couro atritando contra couro e audível tanto na inspiração quanto na expiração.

Síndromes Vasculares

TEP: dispneia súbita e origem na TVP

As síndromes vasculares acometem a vasculatura pulmonar e têm como principal exemplo o tromboembolismo pulmonar (TEP), em que uma embolia pulmonar acomete a artéria e interrompe abruptamente o fluxo de sangue. No tromboembolismo pulmonar, o paciente apresenta dispneia súbita, dor torácica pleurítica, palpitações e hemoptise.

O paciente com tromboembolismo pulmonar pode apresentar sintomas de trombose venosa profunda (TVP) em membro inferior, já que a TVP é a principal causa de TEP: o coágulo se desprende da perna e migra para o pulmão.

Taquicardia, taquipneia e exames para TEP

No exame físico do tromboembolismo pulmonar, os principais achados são taquipneia e taquicardia, sendo que muitas vezes o exame respiratório não mostra alterações, apesar das frequências respiratória e cardíaca muito elevadas. O diagnóstico é feito por angiotomografia de tórax, e também podem ser usadas a cintilografia pulmonar e a ultrassonografia de membros inferiores.

Dicas Para Provas

Dicas Para Provas

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No derrame pleural, pode haver egofonia logo acima da região do derrame.

Reflexão Sion

Um Convite de Graça

Na propedêutica respiratória, sinais e exames ajudam a nomear uma síndrome antes de investigar sua causa. Jesus também fala com clareza sobre a condição humana: não nos apresenta como autossuficientes, mas chama pecadores para perto de Deus. Ele se aproxima de quem reconhece sua necessidade e oferece perdão. O Evangelho não é prêmio para quem já está bem; é convite de graça para quem precisa de resgate.

Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. [...] Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores.Marcos 2:17

Leia Marcos 2:17 e considere a quem Jesus veio chamar.

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