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Aula 7 Parte 2 Intubação Orotraqueal, Cricotireoidostomia e Traqueostomia
Obstrução da via aérea que impeça sua visualização contraindica a intubação orotraqueal: não force o tubo, pois ele pode não progredir e deslocar a obstrução para uma posição inferior. Nessa circunstância, a via aérea deverá ser estabelecida cirurgicamente. Perda da ana
Topicos da aula
- Cirurgia Cabeça e Pescoço II
Overview
Escolha e manejo das vias aéreas
A escolha da via aérea depende do estado clínico, da capacidade de proteção e do risco de deterioração do paciente. A intubação orotraqueal é a principal via definitiva, indicada em rebaixamento da consciência, falha ventilatória e situações nas quais a insuficiência respiratória pode evoluir. A avaliação prévia de preditores de dificuldade orienta o preparo da equipe e dos dispositivos. A técnica exige posicionamento, pré oxigenação, sedação, passagem cuidadosa, confirmação da ventilação e reavaliação durante o transporte. Quando a intubação não é possível, a cricotireoidostomia oferece acesso emergencial, enquanto a traqueostomia constitui alternativa definitiva ou prolongada. O acompanhamento inclui prevenção de complicações e critérios seguros para decanulação.
Intubação Orotraqueal
Características e indicações
A intubação orotraqueal consiste na inserção de uma via aérea definitiva não cirúrgica e é realizada rapidamente durante o atendimento. É a técnica mais utilizada e apresenta os melhores resultados, por isso deve ser executada adequadamente, com pleno conhecimento da técnica.
Está indicada quando há rebaixamento do nível de consciência com dificuldade para proteger a via aérea. O coma e o traumatismo cranioencefálico também são indicações. Além disso, deve ser considerada diante de falha ventilatória, insuficiência respiratória com fadiga, risco de parada por hipóxia ou incapacidade progressiva da musculatura acessória de suprir as necessidades ventilatórias.
Antecipação da deterioração clínica
A intubação pode ser realizada como antecipação da deterioração clínica. Após um incêndio, um paciente com queimaduras na face, rouquidão, queimadura dos pelos faciais e inalação de grande quantidade de fumaça quente pode apresentar lesão progressiva da via aérea. A inalação de fumaça quente pode causar queimadura da via aérea.
A queimadura da via aérea pode evoluir para edema progressivo e insuficiência respiratória, mesmo que o paciente esteja consciente e conversando. Nessa situação, a intubação precoce impede que a evolução do edema torne impossível a passagem do tubo e que o paciente desenvolva insuficiência ventilatória sem possibilidade posterior de intubação.
Outras situações de indicação
Pacientes com quadro clínico grave, derrame pleural volumoso ou hemotórax podem apresentar ventilação inadequada e uso intenso da musculatura acessória. A intubação deve ser considerada antes da instalação de insuficiência respiratória acentuada.
Quando houver condições clínicas, o procedimento deve ser explicado ao paciente, incluindo a descrição do que será realizado. Essa comunicação constitui parte importante do atendimento.
Contraindicações e via cirúrgica
Obstrução da via aérea que impeça sua visualização contraindica a intubação orotraqueal: não force o tubo, pois ele pode não progredir e deslocar a obstrução para uma posição inferior. Nessa circunstância, a via aérea deverá ser estabelecida cirurgicamente. Perda da anatomia facial, como em traumas graves com fraturas extensas, que impedem a manipulação adequada para alcançar a via aérea, também contraindica o procedimento.
Corpos estranhos e frequência
Na presença de corpo estranho obstruindo a via aérea, não se deve tentar introduzir o tubo sem visualização adequada. Caso o corpo estranho seja empurrado para uma posição inferior, a ventilação pode ser impedida.
A intubação orotraqueal corresponde a 95% a 98% das formas de via aérea definitiva mais comuns no pronto socorro. A cricotireoidostomia e a traqueostomia são utilizadas em situações selecionadas, especialmente quando não é possível realizar a intubação.
Dispositivos auxiliares
Dispositivos como o Airtraq, o i Trach e lâminas com visor facilitaram a intubação, inclusive em alguns pacientes traumatizados. Em particular, o Airtraq facilita a intubação, inclusive em alguns traumas; a maioria dos serviços dispõe desse tipo de material.
Mesmo com esses recursos, o conhecimento da técnica convencional e a preparação para situações de dificuldade permanecem necessários.
Preditores de intubação difícil
Preditores anatômicos de dificuldade
- Características corporais: Entre os preditores de dificuldade estão a baixa estatura, o excesso de peso e o pescoço largo.
- Classificação de Mallampati: É utilizada para avaliar a dificuldade de visualização da via aérea.
- Classes III e IV: Indicam maior dificuldade e exigem preparação cuidadosa durante a intubação.
- Preparação: Pode requerer dispositivo eletrônico, maior experiência ou utilização de fio guia.
Uso do fio guia
O bougie é um fio guia utilizado para facilitar a intubação. Como o tubo é plástico, pode perder sua conformação anatômica durante a inserção, deixando de manter uma curvatura semelhante a um “C”. O fio guia mantém o tubo mais firme e estabilizado, facilitando sua introdução. Anestesiologistas com maior experiência podem realizar o procedimento sem esse recurso, enquanto profissionais menos experientes podem utilizá lo para conduzir o tubo.
Outros preditores relevantes
- Outros preditores: Também são considerados preditores de dificuldade a grande circunferência cervical, a obesidade importante, o paciente em preparo pré operatório para cirurgia bariátrica e o tamanho dos dentes.
- Avaliação prévia: A avaliação desses fatores deve ser feita antes do procedimento, permitindo a organização dos materiais, da equipe e das estratégias necessárias para a intubação.
Técnica da intubação orotraqueal
Posicionamento do paciente
Organize o paciente antes de iniciar a intubação, mantendo o alinhamento adequado e observando os riscos cervicais.
- Etapa: O primeiro cuidado técnico é o posicionamento.
- Etapa: Para a intubação, a paciente deve estar em decúbito dorsal e com a cabeça estendida.
- Etapa: Evite a hiperextensão acentuada; em vítimas de trauma automobilístico ou com suspeita de lesão cervical, a extensão pode agravar a lesão.
- Etapa: Ajuste a cabeceira e, se necessário, coloque um coxim sob a região occipital para obter discreta flexão do pescoço e melhor alinhamento.
Proteção no trauma cervical
No trauma cervical, proteja a coluna enquanto mantém a via aérea acessível.
- Etapa: Nos casos de trauma cervical, outra pessoa deve estabilizar a cabeça do paciente.
- Etapa: Pode ser necessária a tração da mandíbula para permitir a intubação sem movimentação excessiva da coluna cervical.
- Etapa: Considere cuidadosamente a retirada ou a manipulação do colar cervical, pois ele pode dificultar a visualização e a passagem do tubo.
- Etapa: Coordene a estabilização cervical com a proteção da via aérea.
Monitorização e pré oxigenação
Antes e durante a intubação, acompanhe os parâmetros clínicos e hemodinâmicos e prepare uma margem de segurança.
- Etapa: Durante a intubação, devem ser monitorados parâmetros como oximetria e pressão arterial.
- Etapa: Realize a pré oxigenação antes da tentativa, pois pode haver dificuldade ou falha na primeira intubação.
- Etapa: Mantenha o paciente adequadamente oxigenado para ampliar o tempo de segurança durante novas tentativas.
- Etapa: A ventilação pode ser realizada com dispositivo bolsa válvula máscara enquanto os parâmetros são acompanhados.
Sequência rápida e sedação
Na sequência rápida de intubação, podem ser utilizados fentanil, midazolam, succinilcolina ou rocurônio, seguindo a administração de um analgésico potente, a sedação do paciente e o bloqueio neuromuscular. O bloqueador neuromuscular não deve ser administrado sem sedação adequada: caso contrário, o paciente poderá permanecer consciente, porém incapaz de se movimentar, uma situação grave e extremamente angustiante.
Laringoscopia e identificação laríngea
A laringoscopia segue uma sequência precisa para expor as cordas vocais com segurança.
- Etapa: Segure o laringoscópio com a mão esquerda.
- Etapa: Introduza a lâmina pela cavidade oral e desloque a língua da direita para a esquerda até identificar a valécula.
- Etapa: Mantenha a lâmina em contato com a valécula para deslocar a epiglote e visualizar as cordas vocais.
- Etapa: Eleve o laringoscópio, sem basculá lo; a báscula pode provocar fratura ou avulsão dos dentes, pois o instrumento é rígido.
Passagem e fixação do tubo
Depois da visualização das cordas vocais, a passagem do tubo exige controle da profundidade e da vedação.
- Etapa: Após a visualização das cordas vocais, introduza o tubo orotraqueal.
- Etapa: Avance o tubo endotraqueal até aproximadamente 22 cm, conforme a marcação do tubo.
- Etapa: Retire o fio guia, quando utilizado.
- Etapa: Após a inserção do tubo endotraqueal, insufle o cuff com volume de ar suficiente para obter vedação adequada, sem excesso ou insuficiência.
- Etapa: Conecte o tubo ao dispositivo bolsa válvula e ventile o paciente.
Confirmação do posicionamento
A confirmação após a ventilação evita que uma passagem aparentemente bem sucedida oculte um posicionamento inadequado.
- Etapa: Após a ventilação, ausculte o paciente e observe a expansão torácica bilateral.
- Etapa: Avalie esses sinais para identificar uma possível intubação seletiva ou esofágica.
- Etapa: Considere que a intubação esofágica pode ocorrer durante uma tentativa aparentemente bem sucedida, especialmente quando a equipe se concentra apenas na passagem e na fixação do tubo.
- Etapa: Reconheça o posicionamento apropriado quando houver boa ausculta bilateral e elevação adequada do tórax; então, realize a fixação do tubo.
Reavaliação após intubação
A confirmação do posicionamento deve ocorrer antes de considerar o procedimento concluído: após inserir o tubo, insufle o balonete, ventile, ausculte, observe a expansão pulmonar e reavalie continuamente a resposta do paciente. Não basta fixar o tubo, pois ele pode estar no esôfago ou em posição inadequada, causando oxigenação insuficiente.
Segurança durante o transporte
Se o paciente for transportado, a posição do tubo deverá ser reavaliada. Movimentos repetidos da maca podem tracionar o tubo, e a tração pode causar extubação acidental, exigindo nova laringoscopia e intubação, com desinsuflação do cuff e possibilidade de novas lesões. Deve haver uma pessoa responsável por estabilizar a cabeça e acompanhar o tubo durante todo o transporte.
Avaliação da visualização laríngea
Graus de visualização laríngea
| Classe | Visualização laríngea |
|---|---|
| 1 | Na primeira classe, as estruturas laríngeas são completamente visíveis. |
| 2 | Na segunda, apenas as aritenoides são visualizadas. |
| 3 | Na terceira, somente a epiglote é identificada. |
| 4 | Na quarta classe, não há visualização das estruturas laríngeas. |
A classificação de Cormack é utilizada para avaliar a visualização durante a laringoscopia. Ela permite reconhecer a possibilidade de dificuldade durante a intubação e preparar os recursos necessários.
Quando preparar via cirúrgica
Em situações de visualização extremamente difícil, prepare dispositivos auxiliares e uma via aérea cirúrgica. Tentativas repetidas e malsucedidas podem exigir cricotireoidostomia ou traqueostomia; por isso, a preparação antecipada é essencial quando a anatomia facial, a posição do paciente ou a visualização laríngea indicam alto risco de falha. A dificuldade de visualização durante a laringoscopia pode predizer a necessidade de uma via aérea cirúrgica.
Complicações da intubação
Risco de aspiração
A aspiração é uma complicação importante da intubação, sobretudo em pacientes inconscientes ou que ingeriram grande quantidade de medicamentos e álcool. A tentativa de intubação pode desencadear reflexo de vômito, levando o conteúdo gástrico para a via aérea. A aspiração pode causar pneumonia química e evolução clínica desfavorável; portanto, a proteção da via aérea e a atenção ao risco de regurgitação são fundamentais.
Posicionamento esofágico ou seletivo
A intubação esofágica é uma das complicações mais frequentes relacionadas ao posicionamento incorreto do tubo. Na intubação seletiva, o tubo ultrapassa a profundidade adequada e alcança predominantemente um dos brônquios; além do colapso pulmonar, pode ocorrer pneumotórax. Essa situação pode causar colapso ou atelectasia do pulmão contralateral caso não seja identificada imediatamente. A ausculta bilateral e a observação da expansão torácica auxiliam na detecção.
Pneumotórax e lesões locais
O pneumotórax pode ocorrer quando volumes excessivos na ventilação pulmonar podem causar lesão relacionada à pressão e colapso pulmonar. A intubação também pode provocar laceração das partes moles da via aérea, especialmente após tentativas repetidas ou dificuldade persistente na passagem do tubo. Por isso, a manipulação deve ser cuidadosa para reduzir o risco de traumatismo local.
Lesões da manipulação
Movimentos inadequados da cabeça durante o procedimento podem causar lesão da coluna cervical, especialmente em idosos, pacientes com doença prévia da coluna e vítimas de politrauma; a tração excessiva da mandíbula pode provocar luxação mandibular. Também podem ocorrer fraturas, avulsões ou arrancamento de dentes, sobretudo quando o laringoscópio é utilizado em movimento de báscula. A ruptura ou o vazamento do balonete exige a troca do tubo, pois a via aérea deixa de estar adequadamente protegida.
Cricotireoidostomia
Acesso emergencial e temporário
Siga a sequência: reconheça a indicação, localize a membrana, execute o acesso e organize as complicações.
- Etapa: Reconheça a cricotireoidostomia como uma via aérea emergencial e temporária.
- Etapa: Identifique a cartilagem tireoide e, imediatamente inferior a ela, localize a membrana cricotireóidea.
- Etapa: Palpe essa região para orientar a abertura e a inserção do tubo de ventilação.
- Etapa: Indique o procedimento quando não for possível obter acesso à via aérea pela boca; não deve ser realizado de forma eletiva. Em situações eletivas, indique a traqueostomia.
- Etapa: Classifique as complicações em precoces e tardias; entre elas, o sangramento pode ocorrer especialmente por lesão de vasos.
Indicações da cricotireoidostomia
- Indicações: politrauma, lesões faciais graves, trauma maxilofacial extenso, lacerações importantes da face e obstrução respiratória por corpo estranho que não possa ser removido ou visualizado adequadamente.
- Risco da intubação: Nessas situações, a tentativa de intubação pode agravar a obstrução.
- Locais de realização: Pode ser realizada em ambiente de emergência, ambulância ou até em local não hospitalar, como um restaurante, quando um paciente apresenta engasgo que não pode ser revertido e esse é o recurso mais rápido disponível.
Etapas da técnica cirúrgica
A técnica cirúrgica segue uma sequência anatômica precisa para estabelecer o acesso à via aérea.
- Etapa: Posicionar o paciente e realizar anestesia local quando houver material disponível.
- Etapa: Identificar e fixar manualmente a membrana cricotireóidea para introduzir o bisturi no local correto.
- Etapa: Realizar uma incisão de aproximadamente 2 a 4 centímetros, conforme o tamanho do pescoço do paciente.
- Etapa: Dissecar os planos teciduais até a cartilagem.
- Etapa: Abrir a região e inserir a cânula para ventilação.
Conversão para traqueostomia
Após a estabilização em ambiente controlado, o acesso emergencial deve ser substituído por uma via aérea definitiva.
- Etapa: Quando o paciente estiver em ambiente controlado e ventilando, preparar uma traqueostomia como via aérea definitiva.
- Etapa: Converter a cricotireoidostomia geralmente entre 24 e 72 horas após a chegada a um ambiente mais controlado.
- Etapa: Escolher a técnica cirúrgica ou por punção conforme os recursos, a habilidade disponível e a gravidade da situação.
Limites da técnica por punção
A cricotireoidostomia por punção é reservada para situações extremas nas quais não há possibilidade de realização da técnica cirúrgica, seja pela ausência de material, seja pela falta de habilidade para executá la. A oxigenação é limitada e só pode ser obtida por, no máximo, 30 a 40 minutos; como ocorre retenção importante de dióxido de carbono, a ventilação deve ser realizada de forma intermitente, conectando e retirando o fluxo de oxigênio.
Complicações precoces do acesso
As complicações precoces da cricotireoidostomia incluem sangramento, desconforto importante, obstrução por sangue ou secreções e infecção. O deslocamento do tubo com formação de falso trajeto é uma complicação do procedimento: o tubo pode penetrar na parede da traqueia ou transfixá la, impedindo a ventilação adequada. Verifique sempre se o tubo está dentro da traqueia e se o paciente está ventilando.
Enfisema subcutâneo
O enfisema subcutâneo ocorre quando o tubo está mal inserido e, durante a ventilação, desvia o ar para os tecidos subcutâneos. Esse vazamento pode causar acúmulo de ar sob a pele, percebido como múltiplas bolhas de ar à palpação.
Situação semelhante pode ocorrer em drenos torácicos quando a última fenestra não está corretamente posicionada. Um tubo inadequado também pode comprometer a ventilação e favorecer um falso trajeto ou enfisema.
Complicações tardias do acesso
A estenose subglótica é uma complicação tardia. O tecido de cicatrização não possui as mesmas características do tecido original e pode reduzir o calibre da via aérea, provocando dificuldades respiratórias ao longo da vida.
Também podem ocorrer distúrbios da deglutição relacionados à alteração da musculatura e da anatomia local, além de granulomas decorrentes de lesão e cicatrização.
Traqueostomia
Indicações gerais da traqueostomia
A traqueostomia é uma via aérea definitiva, geralmente indicada para obstrução da via aérea superior. Por isso, sua indicação deve ser precisa e cuidadosamente avaliada. É realizada em ambiente mais controlado, como centro cirúrgico ou unidade de terapia intensiva.
Entre as indicações estão alterações congênitas da anatomia, malformações traqueais, estenose traqueal, trauma cervical e neoplasias de cabeça e pescoço com obstrução da via aérea superior. A estenose traqueal após intubação prolongada na infância também pode indicar traqueostomia.
Paralisia das cordas vocais
A paralisia das cordas vocais pode ocorrer após lesão do nervo laríngeo recorrente. Durante a cirurgia da tireoide, essa lesão pode causar paralisia das cordas vocais.
O paciente pode apresentar rouquidão e dificuldade de abertura da região glótica. Quando a alteração compromete a respiração, pode ser necessária uma via aérea alternativa; assim, a paralisia das cordas vocais pode indicar traqueostomia.
Intubação prolongada e queimaduras
A intubação orotraqueal prolongada pode indicar traqueostomia, especialmente quando é necessário facilitar o manejo do paciente, a aspiração de secreções e a desospitalização. Edema decorrente de queimaduras e da inalação de grande quantidade de fumaça quente também pode indicar traqueostomia.
Após cirurgias muito extensas, como laringectomias parciais, o procedimento pode ser realizado preventivamente diante do risco de complicações respiratórias. Em pacientes submetidos à intubação prolongada, a traqueostomia pode facilitar o manejo e a desospitalização.
Outras indicações clínicas
A síndrome da apneia obstrutiva do sono também pode constituir indicação de traqueostomia, embora seja uma situação pouco observada.
Quando o paciente permanece intubado por longo tempo, não deve permanecer indefinidamente com o tubo orotraqueal. Após período prolongado de terapia intensiva, a traqueostomia pode facilitar os cuidados, melhorar o manejo das secreções e favorecer a continuidade do tratamento.
Cuidados na traqueostomia
Indicação e consentimento
A indicação precisa deve reservar a traqueostomia aos pacientes que realmente necessitam do procedimento. O consentimento informado é obrigatório, exceto em situações de emergência; em cirurgias de cabeça e pescoço, especialmente da tireoide, informe previamente a possibilidade de traqueostomia durante ou após a cirurgia. Mesmo em procedimentos eletivos, deve se infiltrar anestésico local no sítio da traqueostomia para reduzir o desconforto do paciente.
Ambiente e preparação
Organize o ambiente e os materiais antes de abrir a traqueia, pois a ventilação depende da inserção rápida do tubo.
- Etapa: Escolha o ambiente: a traqueostomia pode ser realizada à beira do leito, na unidade de terapia intensiva ou no centro cirúrgico.
- Etapa: Antecipe o procedimento em determinadas cirurgias de cabeça e pescoço para garantir a proteção da via aérea durante o período pós operatório.
- Etapa: Confira todos os materiais e equipamentos antes do procedimento.
- Etapa: Insira rapidamente o tubo depois que a traqueia é aberta para permitir a ventilação.
Proteção no paciente intubado
Durante a traqueostomia, o paciente previamente intubado não deve ser extubado antes da abertura da traqueia nem antes da inserção da cânula. O tubo permanece protegendo a via aérea; após a abertura e a visualização do cuff, o anestesista deve tracioná lo suavemente para permitir a inserção da cânula de traqueostomia. A retirada antecipada aumenta o risco de perda da via aérea se a cânula não puder ser inserida imediatamente.
Tempo disponível para intervenção
O tempo disponível orienta a organização da traqueostomia e varia conforme o contexto clínico.
- Etapa: Avalie a situação clínica: o tempo disponível para realizar a traqueostomia depende da situação clínica e da deterioração clínica do paciente.
- Etapa: Em uma condição eletiva, aproveite o paciente oxigenado para planejar o procedimento com tranquilidade; se houver dificuldade, o anestesista mantém o tubo livre, podendo reposicioná lo e continuar a ventilação.
- Etapa: Em uma situação emergencial, o tempo depende da ventilação: se o paciente já estiver em insuficiência respiratória, a intervenção poderá ser necessária em questão de minutos; se estiver ventilando adequadamente, haverá maior margem de tempo.
Escolha e troca das cânulas
Inicialmente, o paciente geralmente permanece com uma cânula plástica. Após a alta, pode receber uma cânula metálica, considerada de manejo mais simples, mais fácil de retirar e de higienizar, inclusive para a família responsável pelos cuidados. A escolha e a troca da cânula devem acompanhar a evolução clínica e as condições de manejo do paciente.
Técnica da traqueostomia
Anestesia e incisão cervical
A técnica pode ser realizada em situação emergencial ou eletiva; organize a abordagem pelos marcos anatômicos e pelos principais riscos.
- Etapa: Infiltre anestésico local, inclusive nos procedimentos eletivos, para reduzir o desconforto.
- Etapa: Posicione a incisão geralmente entre os músculos esternocleidomastóideos, 1 a 2 cm acima do manúbrio.
- Etapa: Realize a incisão da traqueostomia geralmente entre os ventres do músculo esternocleidomastóideo, embora a descrição exata do posicionamento permaneça parcialmente ambígua.
- Etapa: Após uma incisão de 3 a 5 cm, abra o tecido subcutâneo e o platisma, seguindo a rafe e realizando a divulsão da musculatura.
- Etapa: Monitore o sangramento, uma possível complicação intraoperatória da traqueostomia.
- Etapa: Considere o hematoma cervical como a principal complicação das cirurgias de cabeça e pescoço.
- Etapa: Na cirurgia da tireoide, o hematoma cervical é a maior complicação.
- Etapa: Após a cirurgia da tireoide, um sangramento pode causar insuficiência respiratória entre três e cinco horas depois do procedimento.
Abertura dos anéis traqueais
A abertura da traqueia oferece diferentes possibilidades técnicas; a sequência começa pelo reconhecimento dos anéis traqueais.
- Etapa: Após a dissecção, identifique o segundo e o terceiro anéis traqueais.
- Etapa: Escolha o formato da incisão conforme a experiência e a formação do cirurgião, considerando que essa escolha varia entre escolas e equipes.
- Etapa: Uma possibilidade é realizar uma incisão em “U” invertido, formando um retalho.
- Etapa: Tracione o retalho inferiormente para permitir a inserção da cânula sem perda do trajeto anatômico.
- Etapa: Também pode ser realizada uma incisão horizontal ou uma incisão invertida para cima.
Cânula, ventilação e hemostasia
A sequência final depende do contexto, mas termina com a confirmação do cuff, a ventilação e o controle do sangramento.
- Etapa: Em uma emergência, insira a cânula imediatamente após a abertura da traqueia para ventilar o paciente.
- Etapa: Após visualizar o cuff durante a abertura da traqueia, passe a cânula, insufle o cuff e revise a hemostasia.
- Etapa: Na traqueostomia eletiva, solicite ao anestesista que tracione o tubo orotraqueal; após visualizar o cuff, passe a cânula, insufle o cuff e revise a hemostasia.
- Etapa: Ao final da traqueostomia, a revisão da hemostasia é importante porque o hematoma cervical pode comprometer a via aérea.
Hematoma cervical pós operatório
O hematoma cervical é uma das principais complicações das cirurgias de cabeça e pescoço e pode surgir três, quatro ou cinco horas após a cirurgia da tireoide por causa de sangramento. A cânula de traqueostomia mantém a via aérea protegida e reduz parte do risco respiratório, mas a revisão cuidadosa da hemostasia é necessária, pois o sangramento pode causar compressão local e outras complicações.
Complicações da traqueostomia
Sangramento e falso trajeto
Durante a traqueostomia, podem ocorrer sangramento e lesões vasculares, pois há musculatura e vasos importantes na região; por isso, a dissecção exige cuidado para evitar lesão da carótida ou da jugular. Também são possíveis o mal posicionamento da cânula ou formação de falso trajeto. Nessa situação, o paciente não ventila, embora a cânula pareça inserida, porque pode ter transfixado ou penetrado na parede da traqueia.
Fístula e lesão nervosa
Laceração e fístula traqueoesofágica são complicações intraoperatórias possíveis. A fístula traqueoesofágica corresponde à comunicação entre a traqueia e o esôfago após lesão dessas estruturas.
Também pode ocorrer lesão do nervo laríngeo recorrente. Esse dano pode provocar dificuldade de abertura das cordas vocais e comprometer a decanulação, fazendo com que o paciente necessite retornar à traqueostomia.
Lesões e hipóxia intraoperatória
Além das lesões de estruturas adjacentes, podem ocorrer pneumotórax e pneumomediastino. A parada cardiorrespiratória por hipóxia pode surgir se a ventilação for inadequada durante a abertura da via aérea ou se a cânula for inserida incorretamente; por isso, verifique imediatamente a ventilação e o posicionamento da cânula.
Complicações precoces pós operatórias
Entre as complicações precoces do pós operatório estão o sangramento, a obstrução por sangue ou secreções, o deslocamento da cânula e o enfisema subcutâneo. O deslocamento pode causar ventilação inadequada e falso trajeto; já o enfisema ocorre quando o ar escapa para os tecidos ao redor da traqueia, geralmente por posicionamento inadequado ou vedação insuficiente.
Complicações tardias da cânula
As complicações tardias incluem estenose traqueal ou subglótica, fístula traqueoinominada, fístula traqueocutânea e dificuldade de extubação ou decanulação. Esses problemas estão relacionados, entre outros fatores, ao tempo de permanência da cânula na traqueia. Durante a cicatrização, o calibre da via aérea pode ser reduzido, fazendo com que o paciente não tolere a retirada da cânula por não conseguir ventilar adequadamente.
Prevenção e reconhecimento precoce
A prevenção reduz riscos, mas não elimina a possibilidade de complicações.
- Prevenção: A prevenção depende da utilização de técnica correta, planejamento adequado, revisão da hemostasia, escolha apropriada da cânula e confirmação do posicionamento.
- Reconhecimento precoce: A equipe deve identificar alterações na ventilação, sangramento, deslocamento da cânula, enfisema ou sinais de obstrução.
Decanulação
Critérios para decanulação
A decisão depende da recuperação clínica e da proteção independente da via aérea.
- Momento adequado: A decanulação deve ser planejada quando o paciente apresenta melhora clínica e já passou da fase de convalescência.
- Proteção da via aérea: No adulto, é necessário que exista capacidade de proteção da própria via aérea.
- Sinais de proteção: O paciente deve conseguir tossir, defender se diante de secreções e manter a respiração sem depender da cânula.
- Critério de segurança: Não se deve decanular um paciente que ainda não tenha capacidade de proteger a via aérea de forma independente.
- Tolerância à oclusão: O paciente deve tolerar a oclusão por 24 horas antes da retirada da cânula.
Decanulação segura no adulto
A decanulação no adulto depende da tolerância à oclusão e segue uma sequência de observação, retirada e cicatrização.
- Etapa: Ocluir a cânula e observar o adulto por 24 horas.
- Etapa: Se o adulto tolerar a oclusão sem apresentar problemas durante as 24 horas de observação, a cânula pode ser retirada e coloca se um curativo compressivo.
- Etapa: Após a retirada da cânula, o fechamento ocorre por segunda intenção, sem necessidade de sutura cirúrgica.
Decanulação gradual na criança
Na criança, a decanulação pode exigir redução gradual do calibre da cânula antes da retirada.
- Etapa: Evitar a oclusão imediata quando ela puder provocar dificuldade respiratória, pois a cânula ocupa grande parte do calibre traqueal.
- Etapa: Reduzir progressivamente o tamanho da cânula, substituindo uma cânula maior por outra menor, e observar a tolerância durante 24 horas.
- Etapa: Após esse período, seguir os mesmos princípios empregados no adulto, desde que a criança esteja apta a proteger a própria via aérea.
Diferenças entre cricotireoidostomia e traqueostomia
Indicação e ambiente de escolha
| Via aérea | Rapidez e ambiente | Disponibilidade e planejamento |
|---|---|---|
| Cricotireoidostomia | ||
| Realizada com maior rapidez, em geral em ambiente emergencial | ||
| Poucos materiais disponíveis; pode ser utilizada no atendimento pré hospitalar e hospitalar, especialmente no contexto pré hospitalar | ||
| Traqueostomia | ||
| Habitualmente realizada em ambiente mais controlado, como unidade de terapia intensiva ou centro cirúrgico | ||
| Maior possibilidade de planejamento e disponibilidade de equipamentos |
Comparação entre os ambientes de realização das vias aéreas.
Características técnicas e duração
| Via aérea | Extensão e abrangência | Duração | Complicações |
|---|---|---|---|
| Cricotireoidostomia | |||
| Constitui uma via temporária | |||
| Apresenta maior risco de complicações por ser realizada em ambiente menos controlado e em situações de emergência | |||
| Traqueostomia | |||
| Ela pode ser temporária ou definitiva, conforme a condição clínica | |||
| Tende a apresentar menor número de complicações quando executada em condições planejadas |
Comparação da extensão cervical, duração e risco de complicações.
Dicas Para Provas
Dicas Para Provas
| Dicas Para Provas |
|---|
| A dificuldade de visualização durante a laringoscopia pode predizer a necessidade de uma via aérea cirúrgica. |
| A aspiração é uma complicação da intubação. |
| A síndrome da apneia obstrutiva do sono pode ser uma indicação de traqueostomia. |
| A lesão do nervo laríngeo recorrente pode causar dificuldade de abertura das cordas vocais e dificultar a decanulação. |
Reflexão Sion
Quando respirar exige cuidado
Na intubação e na traqueostomia, proteger a via aérea exige antecipar a deterioração, confirmar o posicionamento e reavaliar continuamente. Essa vigilância lembra que também podemos perder o rumo sem perceber e precisamos reconhecer quem sustenta nossa vida. Jesus chama cada pessoa a confiar nele como o caminho seguro para Deus.
Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.João 14:6
Reflita: quem sustenta sua vida quando suas forças falham?