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Trato Genital em Cães e Gatos: Avaliação Ultrassonográfica e Radiográfica
A avaliação do rim felino combina medidas, anatomia normal e padrões de ecogenicidade. Use estas referências para separar estruturas normais de possíveis cálculos e artefatos.
Topicos da aula
- Trato Genital em Cães e Gatos
Overview
Como integrar os achados de imagem
Esta aula apresenta um panorama do raciocínio ultrassonográfico em alterações urinárias e do trato genital, avançando da identificação de estruturas normais e artefatos para o reconhecimento de padrões patológicos. A leitura deve ser organizada por regiões, comparando achados e integrando imagem, história e exame físico. Ao longo dos casos, você acompanhará como diferenciar obstruções, inflamações, cálculos, neoplasias, alterações uterinas, gestacionais e pós cirúrgicas, sempre considerando a evolução temporal e a gravidade clínica. Medidas, Doppler, exames seriados e mudanças de plano ou transdutor refinam a interpretação, mas nenhum parâmetro isolado substitui o contexto clínico nem a síntese diagnóstica cuidadosa.
Raciocínio inicial em pacientes com alterações urinárias
Obstrução e pistas vesicais
Em um felino com hematúria, a micção ativa torna improvável uma obstrução uretral completa, embora possa ter ocorrido obstrução prévia com lesão do trato urinário. Ao ultrassom, a obstrução uretral causa dilatação da uretra e acentuada distensão vesical; quando a uretra está colabada e sem conteúdo anecoico intraluminal, observa se a ecogenicidade hipoecoica de sua própria parede.
Na região vesical, a imagem irregular com linhas hiperecoicas junto à bexiga pode ser produzida pelo gás no cólon, com aspecto espessado adjacente à bexiga. Não confunda: uma estrutura tubular que ultrapassa a extensão da bexiga corresponde ao cólon, não à parede vesical. A manobra de balotamento ajuda a pesquisar sedimentos em suspensão. Neoplasia urinária permanece possível aos cinco anos, embora não seja a hipótese mais comum.
Sangramento e inflamação renal
O sangramento renal associado à injúria renal aguda geralmente está relacionado a intoxicações graves ou leptospirose. O sangue de origem renal pode fluir em direção à bexiga, conectando o achado hemorrágico renal à avaliação vesical.
Na ultrassonografia, esteatite e líquido livre perirrenal ou abdominal sugerem processo inflamatório agudo. Esteatite é a inflamação do tecido adiposo; quando localizada ao redor do rim, é compatível com nefrite. A gordura perirrenal hiperecogênica indica esteatite. Os gatos apresentam maior deposição de gordura perivascular ao redor dos vasos renais que outras espécies.
Referências do rim normal
A avaliação do rim felino combina medidas, anatomia normal e padrões de ecogenicidade. Use estas referências para separar estruturas normais de possíveis cálculos e artefatos.
- Comprimento renal: O comprimento longitudinal normal do rim em felinos varia aproximadamente de 3,5 cm a 5,0 cm.
- Pelve renal: No rim normal, não está dilatada nem contém líquido anecoico visível.
- Ureter: Não é acompanhado ao longo do trajeto, sendo identificada apenas sua emergência na pelve.
- Vasos renais: Apresentam aspecto tubular com paredes hiperecogênicas e lúmen anecoico, sem produzir sombra acústica posterior, o que ajuda a diferenciá los de cálculos.
- Referência cortical: A gordura do mesentério e do omento maior serve de referência para a ecogenicidade cortical.
- Ecogenicidade felina: O maior teor lipídico tubular dos felinos pode aumentar essa ecogenicidade.
- Gordura perivascular: Na transição corticomedular, pode aumentar a ecogenicidade local e simular cálculo.
Infarto renal e contexto clínico
Algumas alterações renais só podem ser interpretadas corretamente quando o achado ultrassonográfico é relacionado ao contexto clínico. Intoxicações com injúria renal aguda podem causar pielectasia como resposta compensatória da taxa de filtração renal. Já áreas focais hiperecogênicas na cortical têm o infarto renal como principal diagnóstico diferencial.
O infarto pode ser encontrado incidentalmente em pacientes assintomáticos, sem deixar de ter relevância clínica. Em felinos jovens, sua identificação justifica ecocardiograma para triagem e acompanhamento de possível cardiomiopatia hipertrófica. Além disso, variações pressóricas acentuadas no pós operatório, como hipertensão grave, estão associadas ao desenvolvimento de infartos renais.
Obstrução ureteral e cistite
Na investigação ultrassonográfica, dilatação discreta da pelve renal e peritonite adjacente constituem sinais indicativos de obstrução ureteral. Quando há cálculo, ele aparece acompanhado de dilatação e formação de sombra acústica; além disso, o segmento afetado do ureter pode apresentar espessamento parietal visível ao exame.
Na bexiga, a cistite pode explicar a hematúria por dois mecanismos relacionados. O processo inflamatório estimula a neoformação e a dilatação vascular na parede vesical, favorecendo episódios hemorrágicos. Também pode provocar sangramento devido à descamação e fragilização da parede da bexiga.
Cólon simulando espessamento vesical
Uma parede vesical aparentemente espessada na região ventral exige análise cuidadosa. Anatomicamente, o cólon situa se dorsalmente à bexiga e, associado a gás, sua passagem pode simular falsamente um espessamento da parede vesical ao exame ultrassonográfico. Nesse caso, a parede vesical verdadeira era fina e estava sendo deslocada pelo cólon.
A margem ventral e a região cranial são locais mais comuns de espessamento real da parede. Em condições normais, o lúmen da bexiga apresenta conteúdo anecoico e homogêneo, sem sedimentos evidentes. Manobras dinâmicas e mudanças no plano de corte podem confirmar a continuidade da parede e evitar o diagnóstico incorreto de cistite.
Uretra sem sinais de obstrução
Como não foram identificados cistite nem cálculo vesical, a avaliação avançou para a uretra. Ela apresentava se como uma estrutura tubular originada na bexiga, sem distensão significativa e sem conteúdo líquido evidente. Em caso de cálculo localizado na uretra distal ou na base do pênis, seria esperada dilatação uretral por acúmulo de líquido.
Esse achado deve ser interpretado junto à capacidade de urinar: um paciente com obstrução significativa provavelmente não estaria urinando e, na obstrução urinária completa, a micção é impedida. No felino, a avaliação da base peniana é diferente daquela realizada em cães, devido ao pequeno tamanho do pênis.
Rim felino dentro do esperado
O rim apresentava comprimento de 3,95 cm, compatível com a variação esperada para felinos. Em gatos maiores, podem ser observados rins com aproximadamente 5,5 a 6 cm. A diferenciação entre córtex e medula era possível, embora a cortical apresentasse ecogenicidade discretamente aumentada em comparação com a gordura adjacente.
Em felinos, a maior quantidade de gordura nos seios renais pode conferir à cortical um aspecto mais ecogênico. Essa observação pode ser descrita no laudo com a ressalva de que o achado pode estar relacionado à espécie. No conjunto, o rim esquerdo tinha aspecto preservado.
Esteatite e vasos simulando cálculo
No rim direito, havia esteatite adjacente, com aumento da ecogenicidade da gordura, perda parcial da definição dos contornos renais e aspecto mais heterogêneo da cortical. A interface corticomedular permanecia relativamente identificável, embora parcialmente borrada pelo aumento da ecogenicidade.
Uma imagem hiperecogênica inicialmente levantou a possibilidade de cálculo, mas não produzia sombra acústica posterior evidente. Nem todo cálculo urinário produz sombra acústica posterior, embora cálculos de maiores dimensões habitualmente a projetem. A análise em outros planos demonstrou que a imagem correspondia a vasos arqueados. Na transição corticomedular renal localizam se esses vasos, cujas paredes espessas e hiperecogênicas podem simular mineralização quando seccionadas de determinada forma.
Padrão ultrassonográfico dos infartos renais
Na ultrassonografia, áreas hiperecogênicas, triangulares ou em formato de cunha, localizadas na cortical renal e com base mais larga na periferia, podem corresponder a infartos renais. Essas alterações estão relacionadas à isquemia. Infartos agudos podem apresentar cortical mais escura, embora esse padrão não seja observado rotineiramente; já os infartos crônicos tendem a ser mais facilmente reconhecidos como áreas delimitadas e hiperecogênicas, triangulares ou em formato de cunha, localizadas na cortical renal e com base mais larga na periferia.
Em felinos, existe correlação descrita entre infartos renais e cardiomiopatia hipertrófica. Por isso, pode ser sugerido acompanhamento cardiológico, especialmente em pacientes jovens, mas essa associação não deve ser interpretada como regra absoluta.
Pielectasia e busca pela obstrução
No exame, a pelve renal direita estava distendida por conteúdo anecoico, configurando pielectasia ou, eventualmente, hidronefrose. A distinção depende de procurar um processo obstrutivo: uma pielectasia pode representar resposta fisiológica ou estar relacionada a enfermidade renal, enquanto a hidronefrose geralmente está associada a obstrução mais importante.
A investigação deve incluir o ureter, sobretudo quando a dilatação pélvica não é acentuada e o ureter proximal não está evidentemente distendido. Em seguida, o exame deve prosseguir pela avaliação dos grandes vasos, junto aos quais o ureter percorre parte de seu trajeto.
Cálculo ureteral com obstrução parcial
Ao ultrassom, um cálculo ureteral é caracterizado como uma estrutura hiperecogênica no interior do lúmen ureteral, associada à distensão do ducto. O ureter apresentava se inicialmente fino, porém mais evidente, com diâmetro de 0,17 cm, que aumentou para 0,36 cm. Quando distal, localiza se na porção terminal do ureter, próximo à bexiga urinária. A sombra acústica era discreta e dependia do plano de corte.
O cálculo provavelmente havia descido pelo ureter, provocando lesão local, hematúria, vômito e dilatação proximal. A presença de urina passando ao redor da obstrução sugeria obstrução parcial. Como havia risco de progressão, o acompanhamento ultrassonográfico seria necessário para determinar se o cálculo progrediria ou se ocorreria obstrução completa. A instituição de analgesia associada ao uso de tansulosina pode favorecer a progressão e a eliminação do cálculo ureteral.
Grandes vasos como referências ureterais
Na avaliação ultrassonográfica, estruturas tubulares anecoicas adjacentes correspondiam aos grandes vasos. A veia cava caudal e a aorta servem como referências anatômicas para a localização do ureter, aproveitando a proximidade entre seus trajetos.
O Doppler colorido pode auxiliar na diferenciação: uma estrutura que apresenta fluxo e coloração ao Doppler é vascular, enquanto o ureter não apresenta esse padrão. Neste caso, o cálculo estava próximo da bexiga, restando aproximadamente 3 cm de trajeto. A mensuração ultrassonográfica da distância até a bexiga pode auxiliar na avaliação da progressão, embora não permita prever isoladamente o desfecho.
Síntese diagnóstica e acompanhamento
A impressão diagnóstica incluía sinais de injúria renal aguda, associados à presença de cálculo no ureter distal, dilatação leve da pelve renal e alteração inflamatória adjacente. A presença de cálculo em ureter distal pode ocasionar sinais de injúria renal aguda secundária ao processo obstrutivo.
Também foram descritos infartos renais, embora a menção à bilateralidade fosse considerada possivelmente incorreta quando não havia alteração no rim contralateral. Observou se ainda maior quantidade de conteúdo gasoso intestinal. A recomendação principal era o acompanhamento ultrassonográfico, sem indicação imediata de cirurgia baseada exclusivamente nesses achados.
O laudo ultrassonográfico é um documento médico legal que deve conter a descrição técnica precisa das imagens obtidas.
Obstrução uretral em cão
Obstrução uretral e alívio inicial
Zeus, cão de 11 anos, foi encontrado vomitando e incapaz de permanecer em estação, com histórico de cálculos vesicais. O médico veterinário identificou bexiga muito distendida e realizou cistocentese de alívio antes do exame de imagem. A principal suspeita era obstrução uretral. Pequenos orifícios de punção na bexiga cicatrizam espontaneamente após o alívio da pressão intravesical.
Diante de importante distensão vesical por obstrução, a descompressão vesical pode ser realizada pelo médico veterinário por punção de alívio ou por sondagem uretral. O quadro de obstrução urinária pode desencadear processo de cistite secundária na bexiga. O represamento de sedimento hiperecoico a montante do cálculo uretral impactado contribui para a obstrução luminal completa, e o acúmulo de sedimento (areia) proveniente da uretra prostática pode levar à obstrução uretral.
Pacientes com obstrução do trato urinário e líquido livre abdominal podem apresentar peritonite associada. A uretra peniana pode ser avaliada ultrassonograficamente em corte longitudinal posicionado diretamente sobre o pênis com visualização do osso peniano. Assim, a avaliação ultrassonográfica deveria determinar o local da obstrução e verificar a integridade da bexiga e do trato uretral.
Bexiga espessada com líquido livre
A bexiga apresentava parede extremamente espessada, principalmente na região central, e conteúdo heterogêneo. Havia focos hiperecogênicos e sedimento suspenso, suficientemente denso para permanecer aderido à margem ventral, mesmo com a ação da gravidade.
O exame também mostrava líquido livre anecoico ao ultrassom, separando a bexiga urinária do mesentério adjacente. Não era possível determinar apenas pela imagem se o líquido correspondia a urina ou a exsudato inflamatório. A obstrução e a cistocentese poderiam ter contribuído para pequeno extravasamento urinário.
Extravasamento após cistocentese
A bexiga não deve ser comparada a um balão: ela possui parede muscular e múltiplas camadas biológicas. Uma pequena perfuração associada à pressão intravesical pode permitir extravasamento limitado, que pode cessar após a descompressão.
Quando o defeito é pequeno e o paciente permanece estável, pode se repetir o ultrassom no dia seguinte para avaliar se o líquido livre aumentou. Caso haja progressão, podem ser consideradas coleta do líquido, cirurgia ou cistografia contrastada para investigar extravasamento persistente.
Sedimento e cálculo na uretra prostática
A próstata apresentava tamanho preservado, mas havia sedimento hiperecogênico na uretra prostática. Não se observava dilatação uretral expressiva; porém, uma linha hiperecogênica contínua desde a bexiga até a próstata sugeria grande quantidade de sedimento e debris.
A avaliação deveria prosseguir pela uretra peniana. O exame demonstrou cálculo localizado na base do pênis, sobre o osso peniano, com sombra acústica posterior e grande quantidade de sedimento distalmente.
Cálculo peniano e abordagem terapêutica
A abordagem combina a localização do cálculo com a descompressão vesical e a avaliação cuidadosa do estado clínico.
- Etapa: O cálculo estava impactado na base do osso peniano, localização frequente em cães.
- Etapa: A primeira tentativa terapêutica pode consistir em sondagem para deslocar o cálculo de volta à bexiga.
- Etapa: A descompressão vesical antes da sondagem reduz a tensão da parede e pode diminuir o risco de ruptura, especialmente quando a bexiga está muito distendida.
- Etapa: Em situação de plantão, realize alguma intervenção para aliviar a obstrução e o sofrimento do paciente.
- Etapa: Considere o estado clínico e os riscos envolvidos na decisão terapêutica.
Transdutor adequado ao detalhe
A escolha do transdutor deve acompanhar o detalhe que se deseja investigar. O exame inicial utilizou um transdutor de menor frequência e maior profundidade, permitindo visualizar a bexiga, o tecido subcutâneo e o osso peniano. Para detalhar o cálculo e o sedimento, utilizou se transdutor de maior frequência, aproximadamente de 12 a 13 MHz.
Esse ajuste melhora a definição de estruturas superficiais e de pequenos detalhes, como cálculos, mas reduz a profundidade de campo. Por isso, a bexiga deixou de ser completamente visualizada, mas o cálculo tornou se mais evidente. O sedimento tinha aspecto de areia, com deposição intensa e pequena quantidade de urina anecoica adjacente.
Micção e movimento retrógrado
Durante o exame, o paciente tentou urinar, permitindo observar o osso peniano, o cálculo e as contrações da uretra. Esses achados evidenciavam o desconforto causado pela obstrução. A uretra estava muito distendida e continha material que o paciente tentava eliminar, mas não conseguia.
Também foi observada movimentação retrógrada da urina, que retornava da uretra para a bexiga, sem realização de balotamento. O quadro foi resolvido após a desobstrução.
Indicações para avaliação do trato genital
Alterações focais que indicam exame
As alterações focais orientam a decisão de investigar o trato genital por imagem, sempre relacionando o achado ao contexto clínico.
- Alterações focais: A avaliação do trato genital é indicada diante de alterações focais, como secreção vulvar, próstata aumentada ao exame físico, assimetria testicular, aumento de volume, trauma ou lesões na região genital.
- Aumento testicular: O testículo pode aumentar após trauma, mordedura, picada de aranha ou crescimento neoplásico.
- Criptorquidismo: Testículos retidos na cavidade abdominal (criptorquídicos) têm risco de desenvolver neoplasias intra abdominais.
- Tumor ectópico: O desenvolvimento de um tumor em testículo ectópico pode se manifestar clinicamente como aumento de volume abdominal.
- Secreção vulvar: Em fêmeas, a secreção vulvar pode estar associada a alterações uterinas, vaginais ou cervicais.
- Piometra: A piometra em fêmeas causa distensão e aumento de volume abdominal.
- Ovário remanescente: Em fêmeas castradas, a ultrassonografia pós cirúrgica tardia é indicada para investigar a síndrome do ovário remanescente.
- Lesões genitais em machos: Em machos, lesões genitais também podem estar relacionadas a tumor venéreo transmissível, inflamação ou infecção.
- Prostatite infecciosa secundária: A presença de cistite bacteriana pode ascender pela uretra e desencadear um quadro secundário de prostatite infecciosa.
Comportamento e ovário remanescente
Alterações comportamentais podem ter origem hormonal, inclusive em pacientes previamente castrados. Em fêmeas castradas que voltam a apresentar sinais de cio, deve se considerar a possibilidade de síndrome do ovário remanescente. Assim, fêmeas castradas que apresentam alterações comportamentais e manifestações de sinais de cio devem ser investigadas para síndrome do ovário remanescente.
Em machos castrados com comportamento de cópula, pode existir tecido testicular remanescente ou testículo retido na cavidade abdominal. Também podem ocorrer tumores testiculares em pacientes submetidos a castração incompleta.
Dor e aumento abdominal reprodutivo
Dor abdominal e aumento de volume abdominal podem estar relacionados a alterações do trato reprodutor, embora existam diversos outros diagnósticos diferenciais. Devem ser considerados tumor testicular criptorquídeo, aumento prostático, inflamação, infecção, piometra e massas ovarianas ou uterinas.
A presença ou ausência de castração auxilia no raciocínio clínico, mas não exclui doenças reprodutivas em pacientes castrados.
Hematúria e disúria reprodutivas
Hematúria e disúria podem decorrer de doença reprodutiva. Uma neoplasia prostática pode comprimir ou invadir o trígono vesical e estruturas adjacentes, causando sinais urinários por seu efeito sobre essas estruturas.
Infecções prostáticas geralmente ocorrem por via ascendente, a partir da uretra ou da bexiga, sendo menos comum a disseminação hematógena. Em fêmeas, a uretra curta facilita a comunicação entre o trato urinário e o reprodutor, permitindo que cistite e infecção uterina influenciem uma à outra.
Secreções genitais e seus contextos
Secreções genitais são mais facilmente observadas em fêmeas e podem sugerir alterações uterinas, embora também possam ocorrer em vaginite. A presença de secreção genital em fêmeas é um sinal indicativo de afecções uterinas, como piometra. O exame clínico e a avaliação com espéculo podem demonstrar hiperemia e edema local. Por isso, a aparência e o odor da secreção devem ser correlacionados com o exame físico e os achados de imagem.
Em machos, secreções podem ocorrer em casos de tumor venéreo transmissível, inflamações, infecções glandulares ou alterações penianas. Processos infecciosos ou inflamatórios em glândulas anexas do macho podem causar urina fétida ou drenagem purulenta pelo pênis.
Complicações após cirurgia reprodutiva
A avaliação pós cirúrgica combina o momento clínico com a localização das regiões operadas.
- Etapa: Localize: Na cirurgia de castração, a secção e ligadura do útero são realizadas na altura da cérvix.
- Etapa: Investigue: A ultrassonografia pós operatória pode investigar hemorragia ou complicações após ovariossalpingo histerectomia, especialmente nas regiões ovarianas e dos pedículos uterinos.
- Etapa: Pesquise: Em pacientes que não despertam adequadamente da anestesia, a avaliação imediata deve incluir a pesquisa de líquido livre e alterações nas regiões operadas.
- Etapa: Priorize: Na avaliação ultrassonográfica pós cirúrgica de hemoabdômen, a região adjacente aos ovários é o sítio mais frequente de acúmulo de sangue.
- Etapa: Examine: No pós operatório imediato de ovariossalpingohisterectomia, em caso de atraso na recuperação anestésica, deve se realizar ultrassonografia nas regiões dos ovários e do coto uterino para descartar hemorragias.
- Etapa: Reconheça: Complicações também podem surgir meses ou anos após a cirurgia, incluindo reação tardia ao fio, granuloma, hematoma ou tecido remanescente.
- Etapa: Relacione: No período pós cirúrgico recente, inflamação ou infecção do coto uterino decorre provavelmente de reação ao fio cirúrgico ou contaminação transoperatória; a infecção também pode ter origem em infecção uterina prévia ou no uso de material cirúrgico não estéril.
Castração e risco de neoplasia mamária
Além da investigação das complicações pós cirúrgicas, o histórico de castração também orienta a avaliação clínica das fêmeas: Fêmeas castradas possuem menor risco de desenvolver neoplasia mamária. Essa informação complementa a avaliação antes da investigação de alterações tardias relacionadas ao material cirúrgico.
Ultrassonografia das cadeias mamárias
O exame ultrassonográfico possibilita a identificação de processos inflamatórios e alterações nas cadeias mamárias.
Granuloma por reação ao fio
Fios cirúrgicos podem provocar reação inflamatória, pois representam corpos estranhos. Em uma coelha, o uso de fio de nylon para ligadura resultou em reação exuberante, com formação progressiva de massa de gordura. A massa foi identificada à palpação, acompanhada por ultrassonografia e posteriormente removida para avaliação histopatológica.
O achado correspondia a granuloma associado à reação ao fio. Mesmo sem sinais clínicos importantes, massas progressivas podem causar efeito compressivo e devem ser investigadas.
Traumas genitais e estruturas afetadas
Traumas genitais são menos frequentes como indicação do exame, mas podem comprometer testículos, vagina, útero ou próstata. Em pequenos animais, esses traumatismos são mais frequentes no testículo em machos e na região vulvovaginal externa em fêmeas do que no útero ou na próstata.
Mordeduras em animais de rua, brigas durante o cio, cópula traumática e picadas de artrópodes podem provocar edema, hemorragia, laceração, infecção ou lesões associadas ao tumor venéreo transmissível. A avaliação deve abranger as regiões externas e internas potencialmente afetadas.
Avaliação dos testículos
Escopo E Diferenças Entre Espécies
A ultrassonografia do trato reprodutor masculino foca prioritariamente os testículos e a próstata. Em gatos, afecções testiculares são menos frequentes devido ao alto índice de castração populacional.
A espécie felina também apresenta menor incidência de patologias prostáticas e testiculares em relação aos cães, e a próstata felina é dificilmente caracterizada ao ultrassom de rotina.
Localização E Varredura Testicular
Na rotina ultrassonográfica, localizar os testículos é um dos maiores desafios práticos. Por isso, a avaliação deve analisar a localização anatômica, a forma, as dimensões e a ecotextura do parênquima, priorizando o parênquima do corpo testicular e o epidídimo.
Para completar a análise de forma sistemática, a varredura deve ser realizada nos eixos transversal e longitudinal.
Epidídimo E Estruturas Associadas
A avaliação testicular deve seguir uma abordagem integrada. A avaliação testicular não deve ser realizada de forma isolada: é necessária a identificação e a análise conjunta do epidídimo. A análise conjunta inclui o corpo e a cabeça do epidídimo. As estruturas avaliadas incluem o parênquima, o mediastino testicular, a cabeça e o corpo do epidídimo e, quando necessário, os vasos do plexo pampiniforme.
Na comparação com o parênquima testicular, o epidídimo apresenta ecotextura discretamente mais heterogênea que o parênquima testicular devido aos múltiplos canalículos e vasos. Seu parênquima é fisiologicamente mais escuro, ou hipoecoico. Ainda assim, o epidídimo não é o sítio anatômico com maior frequência de alterações patológicas, um ponto que ajuda a manter a interpretação proporcional aos achados.
Referência normal do testículo
Como referência, o testículo normal apresenta formato ovalado ou arredondado, com parênquima de ecotextura homogênea e tom de cinza moderadamente escuro. O parênquima testicular normal apresenta ecotextura homogênea e tom de cinza moderadamente escuro. No centro, o mediastino testicular aparece como uma linha branca hiperecogênica.
Essa linha central funciona como um marco de reconhecimento da anatomia normal. O testículo normal apresenta formato ovalado ou arredondado, com parênquima de ecotextura homogênea e tom de cinza moderadamente escuro, além de uma linha branca central correspondente ao mediastino testicular. A perda de sua definição e individualização pode ser um sinal precoce de degeneração ou lesão testicular.
Epidídimo, Doppler e alterações vasculares
A avaliação ultrassonográfica da cabeça do epidídimo permite verificar distensão ou dilatação vascular, varicocele e processos inflamatórios adjacentes. Assim, a observação deve incluir tanto a estrutura epididimária quanto os vasos próximos, procurando alterações que possam acompanhar processos inflamatórios.
O Doppler colorido identifica o fluxo sanguíneo e avalia a vascularização dos vasos do epidídimo e do testículo. Quando há distensão do epidídimo, os vasos podem estar congestos e os ductos seminíferos dilatados. A varicocele epididimária também pode ser apenas um achado ultrassonográfico, sem repercussão ou significado clínico.
Assimetria testicular e comparação
Na avaliação ultrassonográfica, compare os testículos do mesmo paciente quanto ao tamanho, à ecotextura e à visualização do mediastino. O padrão normal é um testículo ovalado e homogêneo, com uma linha hiperecogênica central. Mesmo quando a ecotextura permanece homogênea, o mediastino pode parecer menos evidente por causa do plano de corte.
A identificação de um nódulo bem delimitado e heterogêneo, com áreas hiperecogênicas ou anecoicas em seu interior, sugere uma alteração focal e pode corresponder a neoplasia. Portanto, a comparação sistemática entre os dois testículos ajuda a distinguir variações de visualização de achados realmente focais.
Criptorquidia e trajeto de descida
A criptorquidia é a descida incompleta do testículo até a bolsa escrotal. O testículo se forma na cavidade abdominal, percorre o anel inguinal e desce até o escroto. Esse processo ocorre durante o desenvolvimento, por volta dos seis meses de idade ou um pouco antes. Quando esse trajeto é interrompido, o testículo pode permanecer na cavidade abdominal, no canal inguinal ou em posição pré escrotal.
A criptorquidia pode ser unilateral ou bilateral. O termo testículo ectópico é mais abrangente, mas, na prática, o testículo que permanece ao longo do trajeto esperado é descrito como criptorquídeo. Já um testículo localizado em posição anômala fora do trajeto habitual de descida, como próximo ao fígado, é classificado como testículo ectópico.
Morfologia do testículo retido
O testículo criptorquídeo habitualmente sofre atrofia, apresentando dimensões reduzidas e ecotextura hipoecoica devido à temperatura inadequada e ao desenvolvimento incompleto. Essa redução de tamanho e ecogenicidade também pode ocorrer nas localizações subcutânea ou inguinal.
Quando intra abdominal, pode apresentar contorno irregular, volume reduzido e parênquima marcadamente hipoecoico, mesmo adjacente a alças intestinais. Ainda assim, o mediastino testicular frequentemente permanece íntegro, inclusive nessas condições.
Localização e camadas anatômicas
O testículo retido pode estar localizado na cavidade abdominal, no canal inguinal ou na região pré escrotal. No canal inguinal, a presença de musculatura circundando o testículo indica essa localização. Essa musculatura apresenta padrão ultrassonográfico estriado, entremeado por tecido adiposo.
Na localização superficial, a identificação de derme fina, tecido subcutâneo e musculatura adjacente ao redor da gônada caracteriza a posição subcutânea ou pré escrotal. As camadas do escroto, que constituem seu revestimento, são formadas por uma projeção do peritônio; por isso, a análise dessas camadas auxilia na diferenciação topográfica.
Busca anatômica pelo testículo retido
Na pesquisa por testículo ectópico ou retido (criptorquidia), as localizações mais prováveis são o canal inguinal e a cavidade abdominal na altura da bexiga urinária. Na cavidade abdominal, o testículo criptorquídeo pode ser procurado próximo aos grandes vasos, caudalmente ao rim e em direção à bexiga. A localização intra abdominal do testículo criptorquídico é confirmada ao ultrassom pela presença adjacente de alças intestinais contendo gás e gordura mesentérica. No canal inguinal, observa se musculatura ao redor; já no subcutâneo, alças intestinais não circundam diretamente o testículo.
A ultrassonografia permite a diferenciação anatômica nítida entre pele, subcutâneo e as camadas musculares da parede abdominal antes do acesso à cavidade peritoneal. A avaliação da pele, do subcutâneo, da musculatura e da cavidade abdominal também é útil em casos de hérnia inguinal e trauma. O testículo retido pode manter aspecto preservado quando a degeneração ainda não se instalou.
Fatores que degradam a imagem
A qualidade da imagem depende da frequência do transdutor, do foco, da presença de gás e do movimento do paciente. Transdutores de maior frequência proporcionam maior definição e detalhamento anatômico, enquanto os de menor frequência oferecem maior profundidade de penetração tecidual. Em transdutores de alta frequência, o foco pode ser ajustado para o testículo, enquanto as regiões fora do foco ficam mais borradas.
Gás intestinal provoca artefato de reverberação. O movimento respiratório ou a agitação do paciente também reduz a nitidez, especialmente quando se congela uma imagem durante o movimento. Esses fatores devem ser diferenciados de alterações reais do parênquima.
Mobilidade testicular e risco de torção
Alguns testículos apresentam mobilidade aumentada, alternando entre posições mais superficiais e cavitárias, o que eleva o risco de torção. Testículos com maior mobilidade apresentam maior probabilidade de sofrer torção testicular. A torção também pode ocorrer após trauma, embora seja menos comum, ou espontaneamente enquanto o indivíduo está dormindo. Na torção testicular, a vascularização do testículo acometido apresenta se reduzida ou ausente ao Doppler em comparação ao testículo contralateral. A comparação entre exames e a avaliação da posição testicular em diferentes momentos podem demonstrar o deslocamento; portanto, considere a mobilidade quando um testículo previamente identificado não for encontrado na mesma localização.
Alterações testiculares
Frequência e padrões ultrassonográficos
Entre as alterações testiculares de forma, tamanho e arquitetura, as neoplasias são as mais comuns. Na rotina clínica, são relativamente frequentes, enquanto orquites e torções ocorrem menos.
Na ultrassonografia, podem surgir como lesão focal única, com padrão cístico ou cavitário contendo líquido. O padrão infiltrativo forma grandes áreas nodulares e aumenta o volume testicular.
A lesão multifocal associa se a aumento significativo do testículo e dor.
Tipos tumorais e potencial maligno
A maioria das neoplasias testiculares apresenta comportamento benigno. Entre os tumores testiculares, destacam se os tumores de células de Leydig, também chamadas intersticiais, e os tumores de células de Sertoli.
Embora geralmente benignos, esses tumores podem evoluir para malignidade. Entre as neoplasias testiculares malignas primárias, o seminoma é a principal, além da ocorrência de metástases.
Tumores escrotais podem ser altamente malignos e invasivos. Esses tumores podem originar metástases invasivas e infiltrativas para o testículo, enquanto as metástases no parênquima testicular provêm predominantemente de tumores de linhagem muscular ou cutânea.
Sinais inflamatórios e manejo
A esteatite é o processo inflamatório da gordura adjacente. Na ultrassonografia, a presença de esteatite e o acúmulo de líquido na bolsa testicular indicam processo inflamatório testicular, ou orquite.
Quando há torção testicular com dor intensa, pode ser indicada intervenção cirúrgica com remoção rápida do testículo acometido. Para a maioria dos tumores testiculares, a excisão cirúrgica é resolutiva, sem necessidade de quimioterapia adjuvante.
Arquitetura alterada pelas neoplasias
A neoplasia representa desorganização do tecido e, na ultrassonografia, pode produzir múltiplos tons de cinza, áreas de necrose, coleções líquidas, fibrose, aumento celular e metaplasia. O testículo pode apresentar nódulo único, lesão multifocal ou crescimento difuso, com perda da arquitetura normal e do mediastino testicular.
Em alguns casos, o órgão adquire aspecto muito heterogêneo e semelhante ao de outras estruturas parenquimatosas. O tratamento geralmente envolve castração e avaliação histopatológica.
Orquite, epididimite e sinais inflamatórios
As orquites caracterizam se como processos inflamatórios que acometem o testículo. A epididimite é definida como o processo inflamatório do epidídimo. Em processos inflamatórios e torções testiculares, observam se aumento testicular, alteração da ecotextura, maior ecogenicidade e aspecto estriado, com o mediastino ainda identificável em alguns casos.
Pode haver esteatite adjacente e líquido na bolsa testicular. A cabeça do epidídimo pode apresentar vasos dilatados, caracterizando varicocele ou ectasia, cuja relevância depende do contexto clínico.
Torção testicular ao Doppler
Na torção testicular, a combinação de dor intensa, aumento testicular e vascularização reduzida ou ausente em comparação com o testículo contralateral ao Doppler é um alerta importante. Um testículo volumoso com vascularização preservada não confirma torção, pois pode ocorrer em edema, hematomas ou lesão traumática. Como o comprometimento vascular pode progredir, a intervenção deve ser rápida.
Avaliação da próstata
Localização e aspecto prostático normal
A próstata envolve a uretra prostática e apresenta dois lobos, com aspecto semelhante ao de uma borboleta nos cortes transversais. No plano longitudinal, a uretra aparece acompanhando o eixo maior da próstata. No plano transversal, a próstata apresenta configuração bilobada, com a uretra no centro.
No cão inteiro, costuma ser uma estrutura ovalada, alongada, homogênea e hiperecogênica em comparação com os demais órgãos parenquimatosos. No corte ultrassonográfico longitudinal, a próstata e o cólon adjacente são observados em sua extensão longitudinal, alongados. Em um cão jovem de grande porte e inteiro, a próstata normal pode apresentar dimensões robustas, mantendo contornos regulares, ecotextura homogênea e a uretra visível centralmente ao exame ultrassonográfico.
Atrofia prostática após castração
Em cães castrados, a próstata sofre atrofia fisiológica e torna se menor e hipoecogênica. Essa aparência deve ser considerada normal para o estado reprodutivo do paciente.
Por isso, o laudo não precisa classificar a próstata como atrofiada quando ela apresenta o aspecto esperado para um animal castrado. A comunicação adequada evita que uma característica fisiológica seja interpretada como doença.
Avaliação ultrassonográfica da próstata
A avaliação ultrassonográfica da próstata deve considerar contornos, forma, dimensões e padrão ecotextural do parênquima. Determinar o aumento prostático apenas por medidas brutas isoladas é difícil, porque as dimensões descritas na literatura variam amplamente, com comprimentos entre 1,7 cm e 6,9 cm.
Por isso, a avaliação subjetiva do tamanho, da forma e da ecotextura é fundamental para interpretar o aspecto prostático no exame.
Achados e limites da radiografia
A próstata pode ser visualizada no exame radiográfico. A radiografia identifica o aumento prostático, mas não diferencia com segurança hiperplasia, inflamação e neoplasia. Assim, o aumento prostático pode sugerir hiperplasia, porém a radiografia não permite distinguir neoplasia de inflamação.
Quando o paciente é castrado, frequentemente não é possível visualizar a próstata no exame radiográfico. Se estiver aumentada, ela pode causar afunilamento do lúmen do cólon preenchido por gás e apresentar aumento de radiopacidade.
Deslocamento prostático por hérnia
Durante o exame da próstata, a localização é o primeiro parâmetro a ser avaliado. Ela geralmente permanece em sua posição anatômica, mas, em casos de hérnia perineal decorrente de fraqueza na musculatura do diafragma pélvico, a bexiga e a próstata podem ser deslocadas caudalmente. Essa fraqueza também pode permitir o deslocamento caudal do cólon descendente. As hérnias são a principal alteração capaz de provocar o deslocamento da próstata de sua localização anatômica habitual.
A próstata pode estar parcialmente intrapélvica e ser obscurecida pelos ossos da pelve, especialmente quando a bexiga está vazia. O uso de transdutor adequado e de menor frequência pode auxiliar sua localização. Na suspeita de hérnia perineal, a próstata deslocada pode ser identificada ao posicionar o transdutor ultrassonográfico sobre o aumento de volume na região perineal.
Frequência e limites clínicos
A hiperplasia prostática benigna é a afecção prostática mais frequente na rotina clínica de pequenos animais e a afecção mais comum da próstata. O aumento decorre do crescimento do número de células prostáticas, sem comportamento neoplásico nem metaplasia.
Em cães, a partir dos 5 anos de idade, o aumento da próstata por hiperplasia prostática benigna é muito comum e está associado ao envelhecimento e ao desenvolvimento do paciente. Ainda assim, a idade avançada não determina obrigatoriamente a presença de hiperplasia prostática, e ser inteiro não determina obrigatoriamente o aumento da próstata.
Morfologia e efeitos compressivos
Os principais achados patológicos da próstata são a hiperplasia prostática benigna, as inflamações e as neoplasias. Na hiperplasia, a próstata perde o aspecto bilobar característico em forma de borboleta e adquire contorno mais arredondado. Ao ultrassom, ela normalmente permanece hiperecogênica e homogênea.
O aumento prostático pode desviar, comprimir ou interferir no cólon descendente. Em termos gerais, o aumento do volume prostático pode causar compressão ou interferência no cólon. Ainda assim, cães idosos e inteiros também podem apresentar próstata de tamanho normal, contornos regulares e parênquima homogêneo.
Sinais clínicos do aumento prostático
O sinal clínico mais associado ao aumento prostático compressivo é a dificuldade de defecar, com fezes estreitas ou em fita. O aumento prostático compressivo está associado à dificuldade de defecar; o paciente pode permanecer em esforço por tempo prolongado e apresentar dor. Entretanto, muitos cães apresentam próstata aumentada sem sinais clínicos.
O toque retal auxilia na determinação da consistência, do tamanho e da dor. Além disso, permite investigar outras causas, como alterações de coluna, tumores ou lesões do cólon.
Cistos prostáticos e interpretação
Na progressão da hiperplasia prostática, podem surgir estrias hiperecogênicas e pequenas áreas anecogênicas devido à dilatação dos canalículos prostáticos e formação de cistos. Pequenos cistos prostáticos multifocais constituem achados incidentais que indicam uma fase cística ou de degeneração mais avançada da hiperplasia prostática benigna.
A presença de cistos não significa, por si só, prostatite ou abscesso. A presença de cistos prostáticos na fase degenerativa da hiperplasia prostática não necessariamente intensifica ou altera os sinais clínicos do paciente. A interpretação deve considerar o tamanho, a ecogenicidade do conteúdo, a presença de parede irregular e os sinais clínicos. A visualização de pontos ecogênicos em cavidades líquidas da próstata ao ultrassom indica a presença de celularidade no fluido.
Prostatite, cavidades e abscesso
As infecções prostáticas geralmente são ascendentes, originadas na uretra ou na bexiga. A infecção prostática por via hematógena ou sistêmica é muito rara. A hiperplasia prostática benigna pode predispor ou facilitar o desenvolvimento de prostatite. No exame de imagem da infecção prostática, a próstata pode apresentar aumento expressivo e formação de cavidades com conteúdo líquido e cistos. Em afecções prostáticas inflamatórias ou infecciosas, pode se observar cistite adjacente e acúmulo de líquido livre.
O ponto decisivo é qualificar o conteúdo da cavidade. Uma dilatação cística com líquido homogêneo não permite concluir que exista prostatite ou abscesso. Já a presença de líquido não homogêneo em cavidade prostática sugere debris necróticos, celularidade ou pus. A identificação de uma cavidade prostática com conteúdo líquido celular é altamente indicativa de abscesso prostático. Os abscessos prostáticos são a principal causa de dor no paciente acometido por infecção prostática, e a dor intensa é o sinal clínico mais frequente em pacientes com prostatite ou abscesso prostático.
Drenagem prostática e cultura
A drenagem ajuda a controlar o abscesso e fornece material para definir o tratamento antimicrobiano.
- Etapa: Abscessos prostáticos podem exigir drenagem como parte da terapêutica. A presença de uma cavidade purulenta dificulta a ação adequada da antibioticoterapia isolada.
- Etapa: Encaminhar o material drenado para cultura, permitindo a seleção do tratamento antimicrobiano mais apropriado.
- Etapa: Reduzir a dor e o efeito expansivo da lesão por meio da drenagem.
- Etapa: Realizar sondagem uretral sob acompanhamento ultrassonográfico, observar a ponta da sonda e estimular a região prostática para obter secreção destinada à citologia e à avaliação microbiológica.
- Etapa: Observar a característica do material, pois o líquido drenado de um abscesso prostático pode apresentar coloração achocolatada.
Neoplasia prostática em cães castrados
Em cães machos castrados que apresentam alteração prostática, a principal suspeita clínica é de neoplasia; em cães inteiros, a hiperplasia prostática benigna é mais comum. A neoplasia pode produzir próstata aumentada, heterogênea e com áreas hiperecogênicas. As áreas hiperecoicas na próstata correspondem a estruturas de alta impedância acústica, como mineralizações; estruturas minerais são as mais comuns nesse grupo. A mineralização prostática é um achado frequente em neoplasias, mas não é patognomônica.
Mineralização distrófica na cronicidade
Prostatites e infecções crônicas da próstata podem induzir mineralizações, principalmente do tipo distrófica. Essas mineralizações relacionadas à cronicidade ocorrem sem elevação do cálcio sérico: o cálcio se deposita por alterações no próprio tecido prostático, sem alteração dos níveis séricos.
Hipercalcemia associada à neoplasia
Nas neoplasias prostáticas, os pacientes frequentemente apresentam níveis séricos de cálcio aumentados. A hipercalcemia maligna é uma das principais síndromes paraneoplásicas associadas aos processos neoplásicos, e o aumento do cálcio sérico favorece a formação de mineralizações teciduais.
Carcinoma: diagnóstico e prognóstico
A citologia prostática por punção pode ser utilizada na investigação, mas frequentemente apresenta resultado inconclusivo. Neoplasias prostáticas podem originar linfonodos metastáticos ao redor da próstata, principalmente na região lombar; quando esses linfonodos aumentam de volume, podem comprimir estruturas e impedir o animal de defecar. O carcinoma prostático tem prognóstico considerado péssimo e pode não responder bem à quimioterapia.
Avaliação do trato genital feminino
Canal vaginal, cérvix e TVT
O canal vaginal pode ser parcialmente avaliado em sua porção cranial. Na ultrassonografia, é possível visibilizar a porção caudal próxima à cérvix, que também pode ser identificada; porém, a porção intrapélvica não pode ser adequadamente avaliada e é de difícil caracterização. Tumores podem envolver essa região, especialmente em pacientes com sangramento ou secreção.
O tumor venéreo transmissível pode descamar células e ser identificado por citologia. A descamação de células obtidas por swab profundo no canal vaginal permite estabelecer o diagnóstico citológico de Tumor Venéreo Transmissível (TVT). Quando a lesão está profundamente localizada na pelve, outros métodos de imagem podem ser necessários; nesse cenário, a tomografia computadorizada é indicada para avaliar o interior da porção pélvica do canal vaginal.
Localização e avaliação dos ovários
Os ovários localizam se caudalmente aos rins, com o ovário direito geralmente mais cranial. A pesquisa deve ser realizada na região correspondente ao pedículo ovariano, aproximadamente 2 a 3 cm caudal ao rim. Essa localização pode ser facilitada pela simulação do acesso cirúrgico, posicionando o transdutor na região onde seria realizada a abordagem.
Na ultrassonografia, os ovários devem ser avaliados quanto à forma, tamanho, ecogenicidade e ecotextura. A interpretação das dimensões deve considerar o ciclo estral, pois o ovário pode apresentar aumento de volume durante a fase de estro.
Acompanhamento seriado dos ovários
Use a evolução temporal das estruturas ovarianas para transformar um achado isolado em uma interpretação clínica.
- Etapa: Inicie o acompanhamento seriado, pois ele é fundamental para diferenciar estruturas ovarianas.
- Etapa: Observe a evolução temporal: folículos podem desaparecer em aproximadamente 30 dias, enquanto corpos lúteos persistem por mais tempo, cerca de 60 dias.
- Etapa: Interprete a persistência: se a estrutura persistir além do tempo esperado, considera se cisto ovariano.
- Etapa: Correlacione o achado clínico: muitos cistos não produzem sinais clínicos, mas podem comprometer a fertilidade ou causar efeito de massa.
- Etapa: Avalie o impacto dos cistos excessivamente grandes: podem causar desconforto abdominal e exigir procedimento de drenagem em fêmeas não castradas. Os sinais clínicos decorrem principalmente do efeito de massa, da ocupação de espaço e da compressão dolorosa.
- Etapa: Considere o contexto do paciente: animais silvestres também podem desenvolver cistos ovarianos de grandes proporções, e alterações ovarianas podem ter maior importância clínica em pacientes destinados à reprodução.
Neoplasias ovarianas e origem da massa
As neoplasias ovarianas tendem a formar massas arredondadas, volumosas e heterogêneas, localizadas caudalmente aos rins. Podem ser sólidas ou conter grande quantidade de líquido, e uma massa muito grande, com aspecto semelhante a uma bola, deve levantar suspeita de tumor ovariano.
A distinção entre tumor ovariano e alterações uterinas pode ser difícil apenas pela radiografia. Nesse contexto, a ultrassonografia ajuda a definir a origem da massa; a confirmação pode ser realizada durante a cirurgia e por exame histopatológico.
Síndrome do ovário remanescente
A síndrome do ovário remanescente caracteriza se pela permanência de tecido germinativo ovariano após a cirurgia de castração. Esse tecido pode estar junto ao ligamento, inclusive quando não está completamente formado, ou resultar de remanescente deixado durante o procedimento. Se a ligadura cirúrgica for realizada muito próxima ao ovário na presença de tecido ovariano no ligamento, o tecido remanescente pode se desenvolver e formar um novo ovário.
A paciente pode continuar apresentando sinais de cio. O remanescente ovariano também pode predispor a alterações do coto uterino, incluindo acúmulo de líquido e piometra de coto. Em pacientes que manifestam sinais reprodutivos um ou mais anos após a cirurgia, a pesquisa de tecido ovariano remanescente é prioritária.
Alterações ovarianas pós operatórias
Após a castração, pode haver região hipoecogênica, inflamação da gordura, líquido e granuloma no local do pedículo ovariano. Esse aspecto pode ser normal aproximadamente uma semana após o procedimento, representando uma alteração do pós operatório recente.
O intervalo desde a operação é essencial para interpretar a imagem. Se a mesma imagem for encontrada cinco meses ou anos depois, devem ser consideradas reação tardia ao fio, hematoma, trauma ou outra alteração.
Alterações uterinas
Reconhecimento do útero normal
Na avaliação ultrassonográfica, examine os cornos uterinos e o corpo uterino, observando se a parede está fina ou espessada. No útero normal, o lúmen é colabado, pouco evidente ou ausente, sem conteúdo intraluminal, e pode assumir aspecto de estrutura triangular.
As camadas parietais não são nitidamente diferenciadas devido à baixa variação de ecogenicidade entre elas. A serosa é hipoecoica, mas a separação entre miométrio e endométrio é difícil, um aspecto que deve ser reconhecido antes de interpretar alterações uterinas.
Distensão e conteúdo intraluminal
Quando o útero se distende, as camadas da parede se separam e o conteúdo líquido intraluminal passa a ser identificado. A presença de conteúdo no lúmen uterino indica alguma alteração clínica, patológica ou gestacional; portanto, esse achado deve ser interpretado no contexto do exame.
Mesmo com a distensão, a delimitação das camadas uterinas é menos evidente do que no intestino. A parede intestinal apresenta estratificação nítida em serosa, muscular, submucosa e mucosa, uma diferença importante para não transferir automaticamente esse padrão ao útero.
Espessamento e relevância clínica
O espessamento da parede uterina pode estar associado a processos inflamatórios, infecciosos ou neoplásicos. Entre essas causas, o processo infeccioso é a ocorrência mais comum, mas a imagem deve ser integrada ao contexto clínico.
Em cadelas, o diâmetro uterino normal mede até 0,8 cm e é ligeiramente menor em gatas. Apesar dessas referências dimensionais, a conformação e as características ecotexturais do útero são clinicamente mais relevantes do que sua dimensão isolada.
Hiperplasia endometrial cística
A hiperplasia endometrial cística resulta de uma desregulação hormonal que causa degeneração e proliferação das células endometriais, com formação de múltiplos cistos. Essas alterações podem ser intramurais, na região do miométrio, ou projetar se para o endométrio, deixando o útero irregular e heterogêneo. O útero apresenta contorno irregular, com múltiplas estruturas císticas intramurais no miométrio e projeções para o endométrio.
A hiperplasia pode predispor à piometra. A hiperplasia endometrial cística pode predispor a fêmea ao desenvolvimento de piometra ou mucometra. Embora nem sempre produza sinais clínicos imediatos, a castração é a conduta recomendada quando há alteração uterina significativa, pois evita progressão para infecção.
Piometra e outros conteúdos uterinos
Os conteúdos uterinos podem ser diferenciados pelo material acumulado: piometra corresponde ao acúmulo de pus, mucometra ao acúmulo de muco, hidrometra ao acúmulo de líquido semelhante à água e hematometra ao acúmulo de sangue. A diferenciação ultrassonográfica entre essas condições pode ser limitada, portanto a imagem do líquido intraluminal deve ser interpretada com cautela.
Mucometra e hidrometra tendem a apresentar conteúdo mais anecoico e homogêneo. Já piometra e hematometra podem conter maior quantidade de células, coágulos, fibrina e debris, tornando o conteúdo mais ecogênico. Na piometra, o conteúdo intraluminal é composto por pus, debris necróticos, descamação da parede uterina e fibrina.
Quando o conteúdo não diferencia
Uma piometra também pode apresentar conteúdo anecoico e homogêneo, especialmente quando a quantidade de células é pequena; por isso, a ecogenicidade isolada não permite excluir ou confirmar a infecção. Febre, dor, secreção vulvar, alterações hematológicas e o estado geral devem ser correlacionados com a imagem. Se o útero estiver pouco distendido e contiver líquido anecoico, descreva a possibilidade de piometra ou mucometra, sem afirmar uma diferenciação que o exame não consegue estabelecer.
Útero muito distendido no exame
Em casos de piometra volumosa, o útero pode ocupar grande parte da cavidade abdominal e dificultar a avaliação dos demais órgãos. Na rotina ultrassonográfica veterinária, mesmo diante da suspeita clínica de piometra, realiza se a avaliação de ultrassom abdominal total. A dor pode limitar a compressão e a movimentação do paciente, mas todo o abdômen deve ser examinado, com diferentes posicionamentos quando necessário. Se o útero impedir a visualização renal, o paciente pode ser reposicionado para permitir o exame pela região dorsal.
O útero distendido localiza se ventralmente e pode dificultar a visualização dos rins ou deslocá los no abdômen; essa limitação deve ser informada no laudo. Diferente da bexiga, que tem limites anatômicos definidos de início, meio e fim, o útero distendido apresenta se ao ultrassom como uma estrutura tubular contínua que pode apresentar empilhamento de alças. Deve se ter cautela no exame ultrassonográfico para não confundir um útero acentuadamente distendido por piometra com a bexiga urinária repleta.
Parede espessada e compartimentalização
O útero alterado pode apresentar parede espessada, irregular e com múltiplas estruturas císticas de tamanhos diferentes. A presença de septações visíveis ao ultrassom na parede uterina é mais sugestiva de estruturas císticas endometriais do que de líquido livre intraluminal. Septações internas também podem sugerir cistos ou compartimentalização, enquanto um conteúdo contínuo associado a uma parede irregular favorece um processo uterino difuso.
Quando há hiperplasia endometrial cística associada a grande quantidade de líquido e parede muito espessada, a suspeita de piometra aumenta. Esse padrão, com espessamento acentuado e irregular da parede uterina e líquido intraluminal, indica piometra com hiperplasia endometrial cística, diferindo da mucometra, na qual a parede não é tão espessada. A castração é indicada para evitar a progressão da infecção e o risco de ruptura.
Piometra fechada e risco de ruptura
A piometra pode ser aberta ou fechada. Na forma aberta, o conteúdo é eliminado pela cérvix e pela vulva, permitindo que o responsável perceba a secreção e reduzindo a distensão uterina. Na forma fechada, o conteúdo permanece retido, a parede pode ficar progressivamente mais fina e aumenta o risco de ruptura espontânea ou durante a manipulação cirúrgica. O empilhamento de alças uterinas distendidas por acúmulo crônico de líquido eleva o risco de ruptura uterina espontânea. A forma fechada tende a ser mais grave porque pode permanecer sem identificação até que o útero esteja intensamente distendido.
Coágulo ou tumor no útero
Uma estrutura ecogênica projetada no interior do útero pode corresponder a coágulo ou tumor. O Doppler auxilia a diferenciação: a presença de vascularização sugere tecido neoplásico ou neovascularização, enquanto a ausência de fluxo mantém a possibilidade de coágulo.
Se a paciente apresenta secreção sanguinolenta, uma imagem ecogênica intraluminal pode representar coágulo organizado. A interpretação deve integrar a aparência da parede, o conteúdo uterino e os sinais clínicos.
Tumores uterinos e origem da massa
Na imagem, tumores uterinos podem formar massas arredondadas, heterogêneas e preenchidas por líquido, com deslocamento dorsal do intestino. O padrão ajuda a orientar a origem: tumores com efeito de massa circunscrito são facilmente delimitados e visualizados, enquanto os infiltrativos desestruturam difusamente a arquitetura uterina e não formam limites nítidos.
Quando a massa é muito grande, sua origem pode ser difícil de determinar na radiografia, podendo corresponder ao útero, ao ovário ou a outra estrutura; a ultrassonografia auxilia na identificação da origem. A ultrassonografia também permite avaliar líquido livre e pesquisar invasão de vasos ou órgãos adjacentes. Como tumores uterinos frequentemente aparecem associados a infecção, a castração pode ser necessária.
Torção uterina associada a massa
A torção uterina é rara e pode estar associada a uma massa neoplásica. O tumor aumenta o peso e pode deslocar o útero, favorecendo a torção. Assim, a presença de uma massa deve ser integrada à possibilidade de alteração da posição uterina.
Na ultrassonografia, pode haver mesentério envolvendo a estrutura e alteração da anatomia habitual. A identificação é difícil, mas o exame pode contribuir para o diagnóstico ao avaliar a presença de massa, alterações vasculares, líquido e sinais de comprometimento da parede uterina.
Gestação
Confirmar e datar a gestação
A ultrassonografia confirma a presença ou ausência de gestação, inclusive quando o responsável desconhece a ocorrência de cópula. Essa confirmação deve ser relacionada ao tempo transcorrido desde a possível cobertura, porque um exame muito precoce pode ser negativo apesar de existir gestação. Em gatas, a estimativa do tempo gestacional considera com frequência o momento da cópula devido à ocorrência de ovulação induzida.
Por volta de 20 a 24 dias, podem ser identificadas vesículas gestacionais e estruturas embrionárias iniciais. Em gestações com menos de 30 dias de evolução, a avaliação gestacional é realizada pela mensuração da câmara gestacional; a mensuração da vesícula gestacional anecoica em fase inicial permite calcular a idade gestacional aproximada por meio de fórmulas matemáticas. A ausência de imagem aos 14 dias não exclui gestação: recomenda se repetir o exame posteriormente.
Organogênese e viabilidade fetal
A avaliação gestacional integra organogênese, idade gestacional e viabilidade fetal. A avaliação da organogênese fetal permite determinar a idade gestacional a partir da formação dos órgãos. Deve se verificar se os fetos estão se desenvolvendo adequadamente, se há sinais de morte, desenvolvimento irregular ou sofrimento fetal.
Na ultrassonografia gestacional em pequenos animais, é possível avaliar a viabilidade fetal por meio da visualização dos batimentos cardíacos. Na rotina diagnóstica, a frequência cardíaca fetal é a principal variável utilizada para avaliar a viabilidade fetal. A interpretação deve considerar a idade gestacional, a formação dos órgãos, o estado materno e os achados dos demais fetos.
Pulmão fetal e estruturas torácicas
Entre aproximadamente 38 e 48 dias, o pulmão fetal torna se hiperecogênico em relação ao fígado. Isso ocorre porque o pulmão ainda não está sendo utilizado para a respiração e permanece como tecido sólido e consolidado. À medida que a gestação avança, a ecogenicidade do fígado fetal também sofre alterações.
Com o desenvolvimento fetal, a coluna e as costelas tornam se mais evidentes e produzem sombra acústica. O timo é um órgão linfoide do mediastino cranial e pode ser identificado no feto; não deve ser confundido com alteração patológica.
Desenvolvimento renal fetal
Por volta de 39 a 40 dias, o rim fetal apresenta pelve mais dilatada. Esse período coincide aproximadamente com o desenvolvimento dos olhos, e, no início da formação renal fetal, essa dilatação ou distensão transitória da pelve renal é denominada pielectasia.
Com a progressão da gestação, após aproximadamente 50 dias, ocorre definição gradual das regiões cortical e medular e redução progressiva do diâmetro pélvico. A pelve renal fetal começa a se fechar gradualmente, mas o fechamento total ocorre aproximadamente entre cinco e sete dias antes do parto. Portanto, uma pelve renal ainda dilatada não indica necessariamente proximidade imediata do parto. O comprimento renal pode ser utilizado em algumas referências e em estudos científicos para estimar a idade gestacional, mas não é a medida mais empregada.
Diâmetro biparietal e datação
A partir de 30 a 35 dias de gestação, o diâmetro biparietal é uma das principais medidas para estimar a idade gestacional e a proximidade do parto. É o parâmetro ultrassonográfico mais utilizado para essa estimativa, obtido no corte transversal do crânio fetal, entre as extremidades dos ossos parietais.
O valor é inserido em fórmula específica e fornece estimativa com variação aproximada de dois a três dias. A variação decorre da dificuldade de determinar exatamente o pico de LH e o momento da ovulação, além do intervalo de dois a três dias entre a cópula, a ovulação e a fecundação. Por isso, a predição da data do parto pelo ultrassom não é um parâmetro isolado absoluto e depende da avaliação conjunta de outros fatores clínicos. Em virtude da fisiologia ovulatória e do intervalo pós cópula para fecundação, uma fêmea canina pode gestar filhotes de pais diferentes em uma mesma ninhada.
Bradicardia fetal e sofrimento
A frequência cardíaca fetal é mensurada através do Doppler pulsátil, calculando se o intervalo entre os picos da onda cardíaca. A frequência cardíaca fetal normal costuma estar acima da frequência cardíaca materna, frequentemente entre 220 e 260 batimentos por minuto, e deve ser superior à frequência materna, mantendo se habitualmente na faixa de 200 a 260 batimentos por minuto. Valores abaixo de 200 bpm exigem acompanhamento: uma frequência cardíaca fetal abaixo de 200 bpm indica uma variação que pode sinalizar a aproximação do parto ou uma anormalidade caso ocorra longe do terço final da gestação. Uma redução transitória, com retorno rápido aos valores habituais, pode representar variação fisiológica. A persistência da frequência cardíaca fetal abaixo de 200 bpm por mais de 3 minutos consecutivos caracteriza sofrimento fetal. Esse achado pode contribuir para a indicação de cesárea, mas a detecção de sofrimento fetal serve como indicador para a realização de cesariana e deve ser contextualizada com o estado materno e a condição de todos os fetos.
Critérios conjuntos para cesárea
A decisão sobre cesárea depende da integração dos achados maternos, fetais e temporais.
- Etapa: Reúna a frequência cardíaca, o tempo gestacional, o trabalho de parto, a saída do tampão mucoso, a temperatura materna, a formação fetal e a condição dos demais fetos para avaliar a indicação de cesárea.
- Etapa: Avalie, na predição do parto, sinais clínicos como a eliminação do tampão mucoso, a queda da temperatura corporal e o comportamento de aninhar da fêmea em conjunto.
- Etapa: Integre todos os dados, lembrando que um feto pode apresentar sofrimento enquanto os outros permanecem viáveis e ainda em desenvolvimento. A decisão deve resultar da análise do conjunto de dados, pois um único parâmetro não determina obrigatoriamente a necessidade de cirurgia.
Índice de resistividade fetal
O índice de resistividade da artéria umbilical pode ser obtido com Doppler, preferencialmente próximo à placenta. Esse índice avalia a resistência ao fluxo sanguíneo na artéria umbilical fetal, e o valor teórico normal citado é aproximadamente 0,7.
Na proximidade do parto, a redução do índice pode ser esperada e não significa necessariamente sofrimento. Porém, se o índice diminui, o parto não ocorre e posteriormente o valor aumenta, pode haver indicação de comprometimento fetal. Quando houver dúvida, o índice deve ser acompanhado em intervalos de 12 a 24 horas. Assim, é adequado para acompanhamento seriado, porém tem limitações quando interpretado isoladamente.
Limitações do índice umbilical
A obtenção do índice de resistividade é difícil porque a artéria umbilical deve ser identificada em um ponto comparável ao utilizado nos estudos de referência, próximo à placenta. A mensuração em região abdominal pode não ser equivalente. Além disso, o movimento fetal também pode dificultar o exame.
Por isso, o índice representa ferramenta complementar e não deve ser utilizado isoladamente para determinar a realização de cesárea. Sua interpretação precisa respeitar o local da amostragem e as limitações técnicas do exame.
Como interpretar a literatura obstétrica
Estudos brasileiros avaliaram a aplicabilidade da frequência cardíaca fetal, do índice de resistividade e da temperatura materna na previsão do parto e do sofrimento fetal. Alguns trabalhos encontraram utilidade para a frequência cardíaca e para o índice de resistividade, enquanto outros demonstraram baixa especificidade e sensibilidade para esses parâmetros.
A temperatura materna apresentou desempenho relativamente melhor em determinado estudo, mas também não foi suficiente como fator isolado. Portanto, diferenças metodológicas, estatísticas e populacionais devem ser consideradas. Além disso, a frequência cardíaca fetal, a temperatura corporal materna e a resistividade sofrem alterações decorrentes da proximidade do parto, o que reforça a necessidade de interpretar os parâmetros em conjunto.
Trabalho de parto prolongado
Durante o trabalho de parto, o intervalo normal entre o primeiro e o segundo feto é de aproximadamente duas horas, devendo ser menor entre os fetos subsequentes. Em uma cadela Dogue Alemão, após o nascimento de dois fetos, transcorreram três horas sem novo nascimento; posteriormente, houve o nascimento de outro feto.
A ultrassonografia demonstrou área compatível com feto macerado e líquido marrom, diferente da secreção esverdeada esperada. Embora os demais fetos não apresentassem sofrimento, esse conjunto de achados indicava risco e exigia acompanhamento cuidadoso.
Quando o contexto indica cirurgia
Após aproximadamente 12 horas de trabalho de parto, nasceram fetos viáveis e parte de um feto morto e macerado. O parto de um concepto morto é mais dificultoso devido à ausência de movimentação e auxílio ativo do próprio feto. A presença de feto morto dificultou o parto e contribuiu para exaustão e redução das contrações. No trabalho de parto prolongado, o esgotamento de ocitocina cessa as contrações uterinas. Mesmo com fetos vivos e sem sofrimento fetal evidente, a duração do trabalho de parto e o contexto clínico levaram à decisão pela cirurgia; cada caso deve ser analisado individualmente, sem indicação ou contraindicação absoluta baseada em um único dado.
Contagem fetal por ultrassonografia
A contagem fetal por ultrassonografia é mais precisa quando realizada no início da gestação, enquanto os fetos ainda são pequenos e não se sobrepõem. Após 40 ou 50 dias, especialmente em raças grandes, os fetos tornam se volumosos e podem ocupar campos sobrepostos. Um feto pode ser contado duas vezes ou não ser identificado, evidenciando a perda de sensibilidade à medida que a gestação avança.
A contagem do número de fetos pode ser realizada tanto por exame ultrassonográfico quanto por radiografia. A ultrassonografia possui boa precisão para ninhadas com até quatro ou cinco fetos; quando há mais de quatro a cinco conceptos, sua precisão diminui, tornando indicada a contagem por radiografia.
Distocia e morte fetal
Frequência e risco racial
A distócia pode ocorrer em cães. Em vacas, a distócia é comum e, em cadelas, ocorre com menor frequência. Em cães, raças braquicefálicas, especialmente Bulldogs, apresentam maior risco devido à desproporção cefalopélvica: há um grande diâmetro cefálico dos fetos em relação ao diâmetro reduzido da pelve materna, o que favorece a retenção durante o parto.
Em gatos, a distócia é considerada quase impossível em gatos ou extremamente rara em gatos. Portanto, ao avaliar o risco, a atenção deve se concentrar sobretudo na desproporção cefalopélvica de cadelas braquicefálicas, especialmente Bulldogs.
Principais causas mecânicas
Reconheça os fatores mecânicos que podem dificultar o parto e orientar a avaliação da fêmea gestante.
- Causas principais: Outras causas incluem posicionamento fetal inadequado, desproporção entre a cabeça e a pelve materna e traumas.
- Desproporção cefalopélvica: Pode estar associada à conformação racial.
- Traumas maternos: Traumas físicos em fêmeas gestantes também podem desencadear o problema.
Retenção e consequências fetais
Na distocia, quando há retenção no canal do parto, o feto pode ficar preso por incapacidade de passagem e morrer por impossibilidade de exteriorização. Na morte fetal com retenção intrauterina, as estruturas tubulares uterinas podem sofrer distensão acentuada pelo acúmulo excessivo de líquido em relação ao volume fetal, deslocando as alças intestinais.
Mumificação e gestação inviável
O feto mumificado pode ser gradualmente absorvido ou expelido pela fêmea no momento do parto, junto aos demais conceptos. A mumificação fetal pode decorrer de doenças virais, abortos ou deficiências nutricionais maternas. Em outra situação grave, o deslocamento traumático do útero gravídico para a cavidade torácica, por hérnia diafragmática, inviabiliza a manutenção da gestação.
Hérnias associadas à gestação
Traumas podem deslocar o útero gestante para locais anormais. Uma gata gestante atropelada apresentou hérnia diafragmática, com deslocamento uterino para o tórax. Também pode ocorrer hérnia inguinal contendo o útero, no interior da qual os fetos continuam se desenvolvendo. À medida que o útero aumenta, pode ficar preso e não retornar à cavidade abdominal. Essas situações elevam o risco de distocia e exigem avaliação cuidadosa.
Morte fetal e seus destinos
A principal evidência ultrassonográfica de morte fetal é a ausência de batimento cardíaco. Antes de aproximadamente 30 dias, quando ainda se trata de embrião, pode ocorrer reabsorção. Em fetos maiores, podem ocorrer mumificação ou maceração.
A mumificação é um processo asséptico, no qual o líquido fetal e placentário são reabsorvidos, deixando o feto seco. A maceração é um processo séptico, com destruição tecidual, maior quantidade de líquido, debris, fragmentos ósseos e possível formação de gás.
Posicionamento fetal inadequado
Na distocia, a coluna fetal pode estar intensamente curvada, enquanto o corpo permanece parcialmente no canal do parto. Esse posicionamento inadequado pode impedir a passagem do feto e causar lesão grave. Além disso, a posição anormal observada radiograficamente está associada à morte fetal prévia em muitas situações.
A ultrassonografia contribui para avaliar a presença ou ausência de batimentos e a viabilidade dos demais fetos. Assim, o exame radiográfico ajuda a reconhecer a curvatura ou a posição anômala, enquanto a ultrassonografia complementa a avaliação da viabilidade fetal e da possível morte fetal.
Útero pós parto
Evolução da involução uterina
Após quatro dias do parto, o útero ainda apresenta camadas e espessamento evidentes. Ao longo das semanas, torna se mais regular, com redução da heterogeneidade e desaparecimento do líquido intraluminal.
Por volta de seis semanas, o útero apresenta aspecto mais organizado. Em aproximadamente oito semanas, pode estar fino, sem conteúdo e com involução avançada. Um útero irregular deve sempre ser interpretado à luz do tempo transcorrido desde a gestação e o parto.
Dicas Para Provas
Dicas Para Provas
| Dicas Para Provas |
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| Na avaliação radiográfica, deve se examinar toda a periferia do estudo para não deixar passar alterações associadas, como luxações. |
Reflexão Sion
Olhar além do aparente
Na ultrassonografia, estruturas normais e artefatos podem simular doenças, exigindo análise cuidadosa, diferentes planos e correlação clínica. Isso nos lembra que aparências parciais também podem distorcer nossa visão de nós mesmos, mas Deus examina com verdade e cuidado o que está oculto. Em Jesus, podemos encarar nossa realidade sem máscaras e encontrar esperança para sermos transformados.
Sonda me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova me, e conhece as minhas inquietações.Salmos 139:23
Leia e reflita sobre o que o olhar atento revela.