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Tabagismo
Tabagismo e Cessação Tabágica
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Tabagismo e Cessação Tabágica
O estudo do tabagismo integra a abordagem das doenças crônicas não transmissíveis e as mudanças de hábitos de vida dentro da Atenção Primária à Saúde (APS).
A sua relevância clínica reside no fato de o tabagismo ser a principal causa evitável de doenças e mortes prematuras no mundo, o que exige do médico uma postura ativa e livre de julgamentos.
Os eixos centrais de atuação envolvem a compreensão da dependência, a abordagem clínica ambulatorial, as estratégias terapêuticas comportamentais e farmacológicas, além do entendimento das novas lesões associadas aos dispositivos eletrônicos para fumar.
Natureza e Impacto da Doença
O tabagismo não é um mero hábito, mas sim uma doença crônica. Ele é classificado como um transtorno crônico decorrente do uso prolongado de nicotina, caracterizando se como uma patologia que se desenvolve e se consolida ao longo do tempo de exposição.
A interrupção do tabagismo atua como prevenção primária e secundária, sendo a principal medida isolada capaz de prevenir o desenvolvimento de inúmeras doenças crônicas.
Além de afetar o usuário ativo, afeta terceiros que inalam a fumaça (tabagismo passivo). Por conta da exposição de crianças à fumaça do cigarro dos pais, o tabagismo também é reconhecido como um grave problema pediátrico.
Eixos da Dependência Tabágica
- Dependência Física (Química): Causada diretamente pela ação da nicotina no sistema nervoso central. A ausência desta substância resulta em síndrome de abstinência, manifestando se como irritabilidade e fissura.
- Dependência Psicológica: O cigarro passa a atuar como uma válvula de escape ou muleta emocional. O paciente associa o ato de fumar ao alívio do estresse, tristeza, ou como um potencializador de momentos de alegria e socialização.
- Dependência Comportamental (Condicionamento): O cérebro cria gatilhos automáticos vinculados a ações repetitivas da rotina (ex: tomar café, dirigir, ir ao banheiro). A repetição mecaniza o ato, levando o indivíduo a acender o cigarro de forma quase inconsciente.
Abordagem Clínica do Paciente Fumante
O público alvo da intervenção abrange todos os fumantes. Eles devem ser abordados em consulta médica independentemente de estarem ou não doentes, ou de se sentirem preparados para parar no momento.
A postura médica exige uma abordagem não punitiva. É contraindicado o uso de ameaças fúteis ou julgamentos morais. Termos pejorativos como vício devem ser substituídos pelo termo dependência, aliviando a carga de culpa. A frase norteadora deve ser de acolhimento: Quando você quiser parar de fumar, eu posso te ajudar.
Para aumentar a adesão, a comunicação deve focar nos benefícios práticos da cessação (melhora do convívio social, economia financeira, recuperação do paladar, ganhos fisiológicos), em vez de apenas reiterar malefícios conhecidos como o câncer e a impotência.
Avaliação do Momento de Vida
Antes de iniciar o tratamento, é crucial avaliar a prontidão do paciente. Situações de estresse agudo iminente (lutos, crises, preparação para provas rigorosas) diminuem drasticamente a chance de sucesso. Nestes casos, a estratégia correta é postergar o início do tratamento para um momento de maior estabilidade, evitando recaídas precoces e frustração.
Terapia Cognitivo Comportamental
- Definição do Dia D: O paciente deve escolher uma data fixa para a interrupção total, com um prazo de planejamento ideal estabelecido em uma janela de 15 a 30 dias.
- Atividade Física Prévia: Introdução de exercícios, como caminhadas regulares, para auxiliar o controle da ansiedade nos dias que antecedem a parada.
- Mapeamento de Gatilhos: Anotação ativa dos momentos, emoções e locais em que o paciente sente necessidade de fumar, tornando consciente a dependência comportamental.
- Redução Progressiva (Fumar menos e trabalhar mais): Atenuar a dependência química consumindo apenas a metade de cada cigarro até chegar o Dia D.
- Ações no Dia D e Pós Cessação: Promover uma quebra de rotina obrigatória (alterar rotas, suspender temporariamente o café) e realizar a prevenção de recaídas, evitando manter maços de cigarro na residência.
Princípio Terapêutico Inviolável
Nenhum medicamento faz o paciente parar de fumar de forma isolada; eles servem exclusivamente para mitigar a síndrome de abstinência física. O pré requisito absoluto para qualquer prescrição farmacológica é o desejo genuíno e real do paciente de cessar o uso do tabaco.
Indicações e Teste de Fagerström
- Indicações Gerais: Consumo superior a 10 cigarros por dia e idade superior a 18 anos. O tratamento medicamentoso é contraindicado e não recomendado para menores de idade.
- Critério Clínico: Ausência de contraindicações específicas para as drogas escolhidas.
- Teste de Fagerström: Questionário que avalia o grau de dependência à nicotina analisando o tempo até o primeiro cigarro do dia e a quantidade fumada. Um escore maior que 5 indica a necessidade formal de suporte farmacológico.
Terapia de Reposição de Nicotina (TRN)
A TRN fornece ao paciente uma carga controlada de nicotina que alivia os sintomas físicos de abstinência, sem expô lo às substâncias tóxicas da combustão (alcatrão e monóxido de carbono).
Apresenta se no Brasil através de adesivos transdérmicos e gomas de mascar. Em outros países, encontram se inaladores e sprays.
Os adesivos possuem dosagens de 21 mg, 14 mg e 7 mg. A dose inicial é calculada tendo como base os miligramas de nicotina referentes ao número de cigarros consumidos imediatamente antes do Dia D. O desmame deve ser feito de modo gradual, mantendo o tratamento por um período médio de três meses.
Armadilha Prescritiva (TRN)
Atenção Máxima: É terminantemente proibido o uso de adesivos de nicotina enquanto o paciente ainda continua fumando. Essa associação gera um risco gravíssimo de intoxicação aguda por excesso de nicotina. A colocação do primeiro adesivo deve ser feita estritamente a partir do Dia D.
Cloridrato de Bupropiona
- Mecanismo de Ação: É um antidepressivo e ansiolítico atípico aprovado para este fim. Age no sistema nervoso central para reduzir a fissura e sintomas de abstinência, independente do paciente possuir diagnóstico de depressão.
- Janela Terapêutica: Demora cerca de 15 dias para atingir seu efeito clínico máximo. Assim, seu uso deve ser iniciado antes da chegada do Dia D.
- Efeitos Colaterais Comuns: A reação adversa mais reportada é a sensação de boca seca.
- Contraindicações Absolutas: Reduz o limiar convulsivo, sendo absolutamente vedado para pacientes com história de epilepsia/convulsões ou Traumatismo Cranioencefálico (TCE) prévio.
Tartarato de Vareniclina (Champix)
A Vareniclina atua ligando se parcialmente aos receptores de nicotina (ocupação de 50% a 60%). Essa ação bloqueia os centros de prazer e recompensa, fazendo com que, caso o paciente venha a fumar, o ato se torne sem graça e não forneça alívio.
O grande alerta no seu uso recai sobre o seu efeito adverso crítico: por inibir a liberação fisiológica de serotonina e dopamina gerada pelo cigarro, o medicamento pode induzir forte rebaixamento de humor e episódios severos de depressão. Logo, é evitado em indivíduos com histórico psiquiátrico.
Apesar de possuir relevância teórica importante e frequentemente aparecer em avaliações, a medicação encontra se atualmente fora do mercado, descontinuada pela indústria.
Políticas Públicas e Estratégias
O Brasil vive um cenário paradoxal: atua como o maior produtor de fumo e segundo maior exportador mundial, porém é o principal líder global nas campanhas e leis de combate ao tabagismo.
Medidas robustas incluem a proibição absoluta de publicidade e patrocínio esportivo (ex: Fórmula 1) e a implementação da Lei Antifumo, que eliminou o consumo em ambientes fechados, reduzindo o tabagismo passivo e aumentando a segurança da população.
Como muitos pequenos agricultores acumulam dívidas com a indústria tabagista, o governo brasileiro subsidia e incentiva a substituição de cultura, promovendo a transição do plantio de tabaco para lavouras de subsistência como o feijão.
As datas oficiais de conscientização são o Dia Mundial Sem Tabaco (31 de maio) e o Dia Nacional de Combate ao Fumo (29 de agosto).
Dispositivos Eletrônicos para Fumar (Pods/Vapes)
Frequentemente vendidos como alternativa de redução de danos, os dispositivos eletrônicos (DEF) são engodos que, na realidade, agravam e aceleram a dependência. Eles contêm sais de nicotina com aromatizantes artificiais, em oposição à nicotina comum dos cigarros.
A principal diferença fisiopatológica ocorre porque o sal de nicotina não gera queimação ou irritação na orofaringe. Sem esse fator limitante, o indivíduo realiza inalações excessivamente profundas e demoradas, permitindo que a fumaça atinja as porções terminais dos alvéolos e cause uma absorção pulmonar maciça e veloz.
Consequentemente, o potencial de causar dependência química é duas vezes maior em comparação ao cigarro tradicional. Apenas um único refil de Pod pode conter o equivalente em nicotina de 70 a 150 cigarros convencionais.
Longe de ser uma ponte para a cessação, o uso dos eletrônicos é uma porta de entrada real, aumentando em três vezes a probabilidade do usuário migrar e consolidar o uso do cigarro de papel no futuro.
Complicação Aguda: Lesão EVALI
A inalação profunda do vapor dos cigarros eletrônicos gera toxicidade alveolar direta (condição clínica conhecida como EVALI). Acontece uma alteração intensa da estrutura capilar dos alvéolos, que resulta no extravasamento massivo de líquidos para o seu interior, caracterizando um quadro de edema pulmonar agudo não cardiogênico. O paciente pode evoluir para insuficiência respiratória severa, com o quadro se comportando clinicamente como se o indivíduo estivesse sofrendo um afogamento pelas próprias secreções.