Sion Academy
Exame Clínico e Propedêutica do Aparelho Respiratório
Para graduar a dispneia de forma objetiva, utilizamos uma escala funcional fundamentada nas limitações cotidianas do paciente, o que é essencial para orientar a reavaliação da conduta terapêutica.
Topicos da aula
- Exame Pneumologia
Overview
Guia Completo de Propedêutica e Exame Respiratório
Esta aula aborda a propedêutica respiratória, iniciando pelo reconhecimento do arcabouço torácico e das linhas de referência essenciais para localizar os lobos pulmonares, como o lobo médio direito, acessível apenas pela face anterior e lateral. O exame físico progride da inspeção estática, identificando deformidades como o tórax em tonel e o baqueteamento digital associado à hipóxia crônica, para a inspeção dinâmica, onde se avaliam ritmos patológicos e sinais de esforço, como o sinal de Hoover. A etapa de palpação e percussão permite investigar a densidade do parênquima através do frêmito toracovocal e da sonoridade pulmonar, enquanto a ausculta detalha os sons fisiológicos e os ruídos adventícios. Compreender essa sequência lógica é fundamental para diagnosticar desde processos infecciosos até emergências metabólicas ou neurológicas manifestadas por padrões ventilatórios específicos.
Anatomia de Superfície e Correlações Clínicas do Tórax
Mapeamento dos Lobos Pulmonares e Ausculta Anterior
A avaliação semiológica do tórax exige o conhecimento detalhado do arcabouço externo, formado pelo esterno, pelos arcos costais e pelas clavículas. Essa delimitação é fundamental para a prática clínica, pois quadros infecciosos como a pneumonia costumam se instalar em um lobo pulmonar específico. No mapeamento anatômico, o pulmão direito é composto por três lobos (superior, médio e inferior), enquanto o pulmão esquerdo é dividido em apenas dois lobos (superior e inferior).
Para a ausculta, é importante notar que o lobo médio do pulmão direito é auscultável apenas na região anterior e lateral, sendo inacessível pela região posterior. A região mamilar do lado direito serve como a referência anatômica principal para avaliar esse lobo. Já o lobo inferior apresenta uma projeção anterior reduzida, por isso a ausculta do lobo pulmonar inferior é recomendada nas regiões lateral e posterior.
No hemitórax esquerdo, devido ao tamanho reduzido da projeção anterior do lobo inferior, as auscultas realizadas na parte anterior provavelmente corresponderão ao lobo superior. Compreender essas projeções garante que o examinador correlacione corretamente os sons ouvidos com a anatomia pulmonar subjacente.
Referências Anatômicas Posteriores e Ausculta Lateral
Na região posterior do tórax, a principal referência óssea é a sétima vértebra cervical (C7), que é facilmente identificada por ser a mais proeminente à palpação. Ela serve como ponto de partida para localizar os ápices pulmonares situados logo abaixo. A partir da projeção do segundo arco costal posterior, delimitamos o início das áreas de ausculta dos lobos superiores e inferiores de ambos os lados.
Para avaliar a região lateral, o paciente deve elevar o braço para expor a musculatura intercostal. No hemitórax direito lateral, observa se a projeção do lobo superior, do lobo médio na região perimamilar e do lobo inferior, que se situa em posição mais inferior e posterior. No hemitórax esquerdo, a divisão entre o lobo superior e o inferior ocorre especificamente na região central da face lateral.
É fundamental considerar que o coração projeta se anteriormente aos lobos pulmonares. Devido a essa posição, ele pode interferir ou passar à frente da ausculta pulmonar, especialmente na região do foco mitral, exigindo atenção redobrada do examinador para distinguir os sons.
Linhas de Referência do Gradil Torácico
A descrição padronizada de achados físicos, tais como lesões, cicatrizes e deformidades estruturais, baseia se em linhas imaginárias de referência anatômica. No tórax anterior, as referências principais incluem a linha esternal, a linha médio esternal, as linhas paraesternais e a linha hemiclavicular (às vezes referida como em molecular ), a qual passa por cima do mamilo (ou modelo ), servindo como guia essencial.
Na região posterior, as referências são a linha vertebral (ou médio espinal), as linhas escapulares e a linha paravertebral. Esta última é particularmente útil na palpação de pontos dolorosos do paciente. Já na região lateral, utilizamos como referências as linhas axilares anterior, média e posterior.
O conhecimento dessas linhas é crucial para procedimentos invasivos. A linha axilar média, por exemplo, é utilizada como referência anatômica para a realização de drenagem de tórax. Em situações de urgência, a drenagem geralmente é realizada sem o auxílio de exames de imagem ou ultrassom, o que torna o domínio da anatomia de superfície indispensável para o correto posicionamento do dreno.
Inspeção Estática e Sinais Clínicos Sistêmicos
Na inspeção estática do exame do tórax, avaliam se cicatrizes, lesões, alterações e os tipos de tórax. Adicionalmente, pacientes com sinais de circulação colateral (circunstância colateral) podem se apresentar pálidos, emmanicidos e com esforço respiratório abdominal.
A aspiração de um corpo estranho que gere obstrução superior causa cianose central. Contudo, a cianose central é considerada um pouco mais grave quando a sua causa não é uma obstrução ou problema de via aérea superior. Além disso, o baqueteamento digital associado à cianose crônica de extremidades ocorre em cardiopatias cianóticas devido à hipóxia e a problemas microcirculatórios crônicos.
Avaliação de Sinais Clínicos e Anamnese Respiratória
Escala de Gravidade Funcional da Dispneia
Para graduar a dispneia de forma objetiva, utilizamos uma escala funcional fundamentada nas limitações cotidianas do paciente, o que é essencial para orientar a reavaliação da conduta terapêutica.
- Comprometimento leve: Caracterizado pela presença de dispneia ao subir um lance de escadas.
- Comprometimento grave: Identificado pela falta de ar em atividades de autocuidado, como tomar banho ou escovar os dentes.
Fisiopatologia e Diagnóstico do Baqueteamento Digital
Fisiopatologia do Baqueteamento Digital
O baqueteamento digital, também conhecido como hipocratismo digital, é uma alteração morfológica das unhas resultante de estados de hipóxia crônica. Nesse cenário, o organismo redistribui o fluxo sanguíneo das extremidades periféricas (fâneros e anexos cutâneos) para preservar os órgãos vitais, já que estas dependem de oxigenação adequada para manter sua estrutura. Esse processo leva à proliferação de tecido conjuntivo, podendo decorrer de anemia crônica, hipovolemia ou problemas circulatórios, embora a DPOC seja a principal causa de hipóxia crônica associada ao achado.
Na prática clínica, a origem pneumológica possui maior relevância do que a cardiológica, sendo a cardiopatia cianozante o principal exemplo de causa cardíaca associada. Para o diagnóstico, utiliza se o teste de Schamroth: o paciente opõe as faces dorsais das falanges distais e a ausência de uma fresta luminosa em formato de losango confirma o hipocratismo devido à perda do ângulo normal do leito ungueal.
DPOC e a Formação do Tórax em Tonel
DPOC e o Tórax em Tonel
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é uma enfermidade obstrutiva que envolve a bronquite crônica, caracterizada pela inflamação persistente da parede de brônquios e bronquíolos. Essa condição surge da exposição a agentes inalatórios, como fumaça de cigarro ou exposição ocupacional a fumaças e poeiras, o que gera uma dificuldade progressiva para expirar e consequente retenção crônica de CO2.
O acúmulo de gás carbônico provoca o aumento do volume torácico e hiperinsuflação, resultando no desenvolvimento do tórax em tonel. É vital notar que o CO2 tem alta afinidade pela hemoglobina, sendo capaz de formar a carboxi hemoglobina (substância letal). Esse processo dificulta a ligação do oxigênio à hemoglobina e reduz a saturação periférica cronicamente, justificando a dispneia contínua e alterações tróficas em fâneros.
Malformações Congênitas da Parede Torácica Anterior
Diferente das alterações estruturais adquiridas por patologias como a DPOC, certas deformidades na caixa torácica surgem durante o desenvolvimento do indivíduo. O tórax pectus excavatum e o tórax pectus carinatum são exemplos clássicos de malformações ósseas congênitas.
Tais variações anatômicas são fixas e devem ser obrigatoriamente identificadas durante a inspeção estática do exame físico. Esse reconhecimento deve preceder a avaliação de atitudes funcionais ou posicionamentos que o paciente adota para buscar alívio de sintomas respiratórios.
Atitude de Ortopneia e Recrutamento Alveolar
A ortopneia é uma atitude preferencial observada na inspeção do paciente dispneico que precisa manter se em posição ereta (sentado ou em pé) para respirar adequadamente. Essa postura visa otimizar a oxigenação através do recrutamento de alvéolos. Em condições respiratórias normais, o ser humano utiliza entre 80% e 85% de seus alvéolos pulmonares, mantendo os alvéolos localizados nos ápices pulmonares geralmente em repouso funcional.
Pacientes que sofrem de hipóxia crônica, dispneia crônica ou hemorragia crônica adotam a atitude preferencial ortopneica para recrutar essas regiões apicais. Esse mecanismo é análogo à pronação utilizada em pacientes graves, como na COVID 19, que se fundamenta na fisiologia de recrutar alvéolos em regiões posteriores e apicais para elevar os níveis de oxigênio no sangue.
Fisiopatologia da Circulação Colateral Venosa
A obstrução ao fluxo normal em grandes vasos venosos desencadeia o ingurgitamento e a visualização de veias superficiais, caracterizando a circulação colateral. Esse fenômeno é favorecido pelo fato de as veias não possuírem musculatura lisa com capacidade de contração suficiente para empurrar o sangue em caso de obstrução. Clinicamente, a circulação colateral venosa distingue se da mera visibilidade de vasos em pacientes de fototipo claro pelo real engurgitamento e relevo das veias sob a pele.
O desenvolvimento desse quadro é um processo crônico que não se manifesta de forma aguda de um dia para o outro; nessas obstruções crônicas, o organismo pode realizar neoangiogênese (referida como neoantiogele ) para possibilitar a drenagem (referida como adrenalina ) necessária. O padrão e a localização dessas veias colaterais auxiliam na determinação do sítio de obstrução vascular.
Síndromes Obstrutivas e Padrões Clínicos
Na síndrome da veia cava superior, uma obstrução provoca o refluxo venoso nas regiões anatômicas que drenam para ela, manifestando se clinicamente por turgência jugular e circulação colateral visível na região do tórax superior. Portanto, a presença de circulação colateral concentrada ou aglomerada na região superior do corpo funciona como um indicativo de que a obstrução localiza se na porção superior, como na veia cava superior. Já na obstrução da veia cava inferior, o refluxo projeta se para a parede abdominal inferior.
Na circulação colateral do tipo portal, comumente secundária a cirrose hepática grave ou hepatocarcinoma, o comprometimento da circulação hepática gera o engurgitamento de veias que drenariam para a circulação portal, resultando na visualização de veias periumbilicais em formato de 'cabeça de medusa'. Esse padrão visual assemelha se a várias minhocas saindo de um mesmo ponto central no abdome.
Etiologias de Obstrução Vascular e Tumores Mediastinais
Causas de Obstrução Vascular Torácica
A compressão extrínseca de grandes veias torácicas, como as veias braquiocefálicas ou a veia cava superior, frequentemente decorre de etiologias tumorais, como o linfoma de mediastino e o carcinoma broncogênico. Tais alterações vasculares intratorácicas geram circulação colateral visível no tórax e edema. Pacientes mais jovens, devido a uma maior capacidade de neovascularização para desviar o fluxo obstruído, podem apresentar quadros que mimetizam tromboses recorrentes, exigindo investigação por imagem se os sintomas persistirem por mais de três meses.
O tratamento para obstruções de causa tumoral varia conforme o tipo de tumor, podendo envolver cirurgia, quimioterapia ou radioterapia, enquanto o uso de stent auxilia no manejo de trombos ou aneurismas. Além das neoplasias, a síndrome do desfiladeiro torácico representa uma causa anatômica congênita de compressão; nela, a veia é comprimida entre a clavícula e o primeiro arco costal, resultando em edema no membro superior.
Comprometimento Osteoarticular na Tuberculose Extrapulmonar
Acometimento Vertebral na Tuberculose
Embora a tuberculose seja comumente associada ao pulmão, ela possui capacidade de gerar repercussões extrapulmonares significativas. Por contiguidade, a bactéria pode migrar do parênquima pulmonar diretamente para a coluna vertebral. Esse processo infeccioso e inflamatório é particularmente crítico em crianças, pois a fibrose resultante pode causar o fechamento precoce das epífises de crescimento, levando a deformidades estruturais permanentes.
Inspeção Estática e Deformidades Torácicas
Deformidades Torácicas e Inspeção Estática
As alterações identificadas logo na inspeção do exame físico são fundamentais para direcionar a suspeita de doenças pulmonares. Entre as deformidades morfológicas, o pectus carinatum (ou tórax em quilha ) destaca se pela protrusão anterior do esterno e do processo xifoide, que pode inclusive apresentar lateralização.
Apesar da estética impactante, o pectus carinatum geralmente não acarreta problemas crônicos à saúde. Contudo, existe um alerta importante: devido à projeção anterior da região, esses pacientes apresentam um risco aumentado de fratura do esterno em casos de traumas diretos, como no impacto de um airbag durante acidentes automobilísticos.
Propedêutica Vascular e Varizes
Na propedêutica circulatória, a queixa bilateral de dor e queimação nas pernas sugere o diagnóstico de varizes, diferenciando se de alterações vasculares unilaterais. Essas varizes podem surgir pela falta de tônus venoso ou questões posicionais, nem sempre ocorrendo por uma obstrução mecânica.
A clínica é guiada por fatores de risco como histórico familiar, sedentarismo, obesidade ( alveso ), hipertensão arterial ( repertenço ) e trabalho prolongado em pé. Diante disso, a ultrassonografia Doppler ( doble ) é indicada para investigar o quadro e afastar trombose venosa profunda crônica ( skate tromboso ).
Cardiopatias e Riscos de Morte Súbita
O histórico clínico ajuda a identificar alterações cardíacas latentes. Em usuários de esteroides anabolizantes, o aumento do débito, da frequência e a hipertrofia miocárdica geram uma dilatação vascular para suprir a demanda de fluxo. Isso explica por que paradas cardíacas em fisiculturistas famosos costumam estar ligadas ao uso dessas substâncias.
Em contraste, a morte súbita em atletas jovens no campo geralmente associa se a miocardiopatias genéticas. Já as cardiopatias congênitas acianóticas quase não causam sintomas, permitindo que o paciente viva normalmente e a condição passe despercebida.
Inspeção Visual de Sinais Sistêmicos Graves
Inspeção de Sinais Clínicos Graves
A inspeção clínica deve atentar para sinais de patologias sistêmicas graves. O diagnóstico de câncer de pulmão é sugerido por alterações como consumo de massa muscular, palidez, circulação colateral e sinais de esforço respiratório. Esses achados são cruciais para identificar condições consumitivas crônicas que se manifestam fisicamente.
Manifestações Estruturais do Mal de Pott
Tuberculose Vertebral e Mal de Pott
O Mal de Pott é uma infecção tuberculosa ativa na coluna vertebral, originada por disseminação hematogênica ou contiguidade de um foco pulmonar. Em pacientes pediátricos, esse processo inflamatório crônico destrói os corpos vertebrais e induz a uma fibrose crônica das epífises, o que acarreta o fechamento precoce das cartilagens de crescimento.
Como consequência, enquanto o crescimento dos membros inferiores e superiores ocorre normalmente, a coluna não acompanha esse desenvolvimento devido à fibrose crônica das epífises. Esse padrão de deformidade é conhecido como Mal de Pott (ou sinal de round pot), resultando em uma gibosidade que gera baixa estatura e tronco curto.
Inspeção Dinâmica e Padrões Ventilatórios
Reconhecimento de Sinais de Esforço Ventilatório
Na inspeção dinâmica, avaliamos o recrutamento de músculos acessórios para vencer resistências respiratórias. O sopro frenolabial, por exemplo, ocorre quando o paciente expira contra os lábios semicerrados para manter as vias aéreas abertas. Esse padrão é frequente em pacientes com DPOC, os quais realizam esforço com a musculatura acessória orofacial para expirar.
Quando o paciente utiliza a musculatura acessória intercostal para respirar, ele apresenta o padrão de tiragem intercostal, caracterizado pela entrada da musculatura nos espaços intercostais durante a inspiração. Esse sinal, decorrente de pressões intratorácicas negativas extremas, é um forte indicador de gravidade clínica. Além disso, pacientes com quadros de insuficiências respiratórias agudas ou crises asmáticas graves podem apresentar cianose.
Retração de Fúrcula e o Sinal de Hoover
A retração de fúrcula caracteriza se pelo recrutamento da musculatura acessória cervical — especificamente os esternocleidomastóideos e escalenos — sendo um marcador de grave sofrimento respiratório. Paralelamente, o sinal de Hoover indica disfunção diafragmática em pacientes hiperinsuflados, manifestando se pela retração medial das costelas inferiores durante a inspiração, em vez da expansão lateral fisiológica.
Mecânica Ventilatória nas Deformidades da Parede
As deformidades estruturais impactam a mecânica respiratória. No tórax pectus excavatum, ocorre um afundamento do esterno e do processo xifoide. Em pacientes asmáticos que tiveram crises de asma na infância, o esforço respiratório torácico pode fazer com que a cartilagem do processo xifoide se torne mais afundada. Por outro lado, no pectus carinatum, apenas a parte óssea é projetada para a frente, mantendo os órgãos internos inalterados.
A avaliação clínica de um paciente com suspeita de escoliose envolve a análise da simetria da cintura, da escápula e do ombro. É fundamental observar que pequenos desvios da área pulmonar e cardíaca não costumam gerar problemas orgânicos devido à capacidade de adaptação do organismo.
Ritmos Respiratórios Patológicos
Fases Clínicas do Ritmo de Kussmaul
O ritmo de Kussmaul é um padrão respiratório patológico caracterizado por quatro fases sucessivas de respiração suspirosa com pausas entre os movimentos. Ele atua como uma resposta compensatória fisiológica à acidose metabólica para elevar o pH sistêmico, sendo clássico na cetoacidose diabética.
- Etapa 1: Inspirações profundas e ruidosas.
- Etapa 2: Pausa inspiratória de caráter apnéico.
- Etapa 3: Expirações curtas e também ruidosas.
- Etapa 4: Pausa expiratória apnéica finalizando o ciclo.
Fisiopatologia Metabólica da Cetoacidose Diabética
No diabetes mellitus tipo 1, ocorre a ausência absoluta de produção de insulina pelo pâncreas. Sem esse hormônio para mediar a entrada de glicose, o cérebro — que necessita de glicose como sua fonte exclusiva de energia para sobreviver em condições normais — sinaliza uma privação energética crítica. Como resposta, o organismo ativa a degradação de gordura e tecido muscular para produzir corpos cetônicos (acetoacetato e beta hidroxibutirato) como substrato energético alternativo.
O acúmulo excessivo dessas substâncias gera a cetoacidose diabética, pois os corpos cetônicos são produtos extremamente ácidos provenientes da degradação de gordura e tecido muscular. Esse estado manifesta se por hiperglicemias severas, alterações no pH e na urina, e um hálito característico com odor de éter. Para compensar essa acidose metabólica severa, ocorre a ativação do centro respiratório por meio do ritmo de Kussmaul.
Padrão Periódico do Ritmo de Cheyne Stokes
O ritmo de Cheyne Stokes, ou respiração periódica, é caracterizado por ciclos em que a amplitude respiratória começa pequena, atinge um valor máximo, diminui e entra em apneia. Esse padrão decorre de um desequilíbrio na sensibilidade do centro respiratório no bulbo, que reage de forma exagerada às variações de CO2 e O2 no sangue.
Clinicamente, esse ritmo é observado em condições graves como insuficiência cardíaca congestiva de baixo débito, sepse e lesões neurológicas centrais. Além disso, a acidose metabólica decorrente de quadros infecciosos ou perda sanguínea também pode desencadear esse padrão ventilatório cíclico.
Irregularidade Completa no Ritmo de Biot
Diferente dos padrões cíclicos, o ritmo de Biot é definido por uma arritmia respiratória completa. Nele, as incursões ventilatórias apresentam frequências e amplitudes totalmente irregulares, sem ritmo definido, sendo interrompidas subitamente por períodos de apneia imprevisíveis.
Esse quadro indica um comprometimento orgânico direto e grave do centro respiratório localizado no bulbo cerebral. Geralmente provocado por danos estruturais como acidentes vasculares, hematomas ou neoplasias na fossa posterior, o ritmo de Biot é um sinal de mau funcionamento cerebral com prognóstico reservado.
Sinais Clínicos de Fadiga e Envelhecimento
Sinais de Esforço e Alterações Torácicas
A identificação de sinais físicos de dificuldade respiratória é crucial para o exame clínico. Nesse contexto, a cianose é definida como a redução da circulação arterial de oxigenação nas extremidades. Entre os sinais de esforço respiratório, destacam se a retração de fúrcula (fúcula) e a tiragem intercostal, sendo que a presença de tiragem intercostal geralmente indica gravidade no quadro clínico do paciente, principalmente em bebês. Outro achado relevante é o sinal de Hoover (transcrito como sinal de húmper ou cúmper), um esforço respiratório caracterizado por um movimento abdominal paradoxal durante a inspiração, comum em pacientes com padrão de respiração abdominal.
Aspectos anatômicos também devem ser observados, pois pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica podem apresentar o diâmetro anteroposterior do tórax aumentado devido à retenção de gás carbônico. No envelhecimento, o desgaste da cartilagem vertebral em idosos frequentemente gera o surgimento de cifose senil. Além disso, intervenções ortopédicas podem ter efeitos agudos na percepção respiratória: pacientes submetidos a cirurgias de correção de escoliose podem apresentar uma sensação de dispneia temporária em função da mudança do eixo corporal.
Palpação e Percussão do Tórax
Avaliação Prática da Expansibilidade Pulmonar
Palpação de Pontos Dolorosos e Expansibilidade Torácica
A palpação sistemática do tórax tem como finalidades a pesquisa de pontos dolorosos, a avaliação da expansibilidade torácica e a pesquisa do frêmito toracovocal. A expansibilidade é um dos parâmetros essenciais nesta etapa; para avaliá la, o examinador posiciona as mãos nas bases pulmonares com os polegares se tocando na linha média, observando o afastamento simétrico durante a inspiração profunda. Vale destacar que a avaliação da expansibilidade torácica pode ser realizada tanto na parte posterior quanto na parte anterior do tórax.
Durante a palpação, a percepção de pequenas bolinhas nos arcos costais pode representar calos ósseos formados após a consolidação de fraturas prévias. Além disso, a identificação de pontos dolorosos localizados nas linhas paraesternais ou paravertebrais auxilia no diagnóstico diferencial de dores torácicas, apontando frequentemente para afecções de origem musculoesquelética (como osteocondrites ou mialgias), visto que o parênquima pulmonar é desprovido de nociceptores e não gera dor à palpação direta.
Dinâmica Mecânica do Tórax Instável Agudo
O reconhecimento do tórax instável é crítico: a fratura de gradil costal (tórax instável) envolve o acometimento de pelo menos três arcos costais com no mínimo dois pontos de fratura em cada um. Quando ocorre uma ruptura do gradil costal decorrente de uma fratura, a região afetada fica isolada das variações de pressão positiva e negativa do tórax. Como consequência, o paciente com fratura ou ruptura do gradil costal apresenta um movimento respiratório paradoxal; especificamente, no movimento respiratório paradoxal por fratura torácica, a região fraturada entra no tórax no momento em que o paciente realiza a inspiração. A presença de fragmentos ósseos soltos ao redor da pleura decorrentes de fratura torácica gera risco de perfuração e torna o paciente extremamente grave, exigindo intervenção imediata.
Técnica de Pesquisa do Frêmito Toracovocal
O frêmito toracovocal (FTV) é a vibração sentida na palpação do tórax resultante da transmissão das vibrações das cordas vocais pelo parênquima. Para pesquisá lo, o examinador utiliza a face palmar da mão enquanto solicita que o paciente diga a expressão " trinta e três ". Um detalhe técnico essencial para uma comparação precisa da sensibilidade é que o médico utilize a mesma mão ao alternar entre os campos pulmonares.
A facilidade com que o som se propaga depende da consistência do meio, o que se aplica tanto ao frêmito quanto à ressonância vocal. Pela física acústica, meios mais densos transmitem o som com maior facilidade; logo, o FTV encontra se aumentado em quadros de consolidação ou condensação, como na pneumonia lobar. Em contrapartida, a interposição de ar no pneumotórax ou líquido no derrame pleural cria barreiras de menor densidade, o que reduz ou extingue a vibração percebida na parede torácica.
Sons Obtidos pela Percussão Torácica Comparativa
A percussão torácica deve ser realizada de forma simétrica e comparativa entre os hemitórax, utilizando a técnica digito digital. A avaliação da região posterior do tórax é considerada a mais relevante para a obtenção de diagnósticos clínicos.
- Som claro pulmonar: É o som do pulmão normal, gerado pelo ar alveolar entremeado por septos teciduais.
- Hipersonoridade: Comum no enfisema pulmonar devido ao aprisionamento aéreo crônico.
- Som timpânico: Observado no pneumotórax em decorrência do grande volume de ar livre no espaço pleural.
- Som maciço ou submaciço: Indica derrame pleural ou consolidação, situações que causam a redução da sonoridade pulmonar.
Delimitação de Limites de Órgãos Sólidos
A percussão na região anterior do tórax é especificamente utilizada para delimitar as áreas cardíaca e hepática. À direita, a percussão na região do fígado apresenta uma transição do som pulmonar para a macicez hepática (som maciço) a partir do quinto espaço intercostal. Já no lado esquerdo, a técnica permite identificar a macicez cardíaca e a submacicez esplênica na linha axilar posterior.
O espaço de Traube, localizado no hemitórax esquerdo, apresenta normalmente som timpânico devido ao fundo gástrico. Dessa forma, os achados normais esperados na percussão torácica e abdominal superior são som claro pulmonar, macicez hepática e cardíaca, submacicez esplênica e timpanismo no espaço de Traube. A presença de macicez no espaço de Traube constitui achado patológico relevante, sugerindo esplenomegalia volumosa, derrame pleural esquerdo volumoso ou massas neoplásicas locais.
Ausculta Pulmonar
Propedêutica e Sons Fisiológicos Normais
Na prática clínica diária, a descrição da normalidade da ausculta baseia se na presença de murmúrio vesicular universalmente audível, sem ruídos adventícios. Os sons fisiológicos normais classificam se de acordo com o calibre da via aérea correspondente e a intensidade acústica. O som traqueal é áspero e caracterizado por ser bem alto durante a inspiração devido ao calibre da traqueia; o som brônquico projeta se sobre os brônquios principais; o som broncovesicular é a transição; e o murmúrio vesicular, suave e grave, corresponde ao fluxo nos alvéolos.
Para a realização de uma melhor ausculta pulmonar, deve se orientar o paciente a inspirar pelo nariz e expirar pela boca lentamente. É importante notar que variações anatômicas exigem cautela: além disso, em pacientes com escoliose, a área anatômica da ausculta deve ser adaptada devido ao desvio da coluna.
Correlação de Fluxo e Geração de Estertores
Fundamentalmente, a localização do problema na via aérea determina a fase do ciclo em que o som é mais proeminente: quanto mais alto na via estiver o problema, mais inspiratório será o som; inversamente, quanto mais baixo, maior será o componente expiratório. Contudo, processos patológicos podem gerar estertores, ruídos adventícios semelhantes aos crepitantes e que soam como borbulhar devido ao acúmulo de líquido.
Se houver pouco acúmulo, o líquido se concentra nas bases por gravidade e a tosse não provoca mudanças significativas no padrão do ruído. Por outro lado, se a quantidade for grande, o acúmulo ocorre em toda a extensão pulmonar, tornando o som mais alto e grave, permitindo que a tosse mobilize o líquido. Estertores finos são mais comuns nas bases, enquanto o atrito pleural tem na pleurite sua causa principal.
Ruídos Adventícios e Alterações de Ressonância
Diferentemente dos quadros com pouco líquido, quando há uma grande quantidade de líquido pulmonar, o acúmulo ocorre em toda a extensão do pulmão, tornando o som nitidamente mais audível, alto e grave. Nessa situação, o volume de fluido é suficiente para que a tosse do paciente consiga mobilizar o líquido ativamente, alterando o padrão do ruído auscultado.
Na prática clínica, os estertores finos costumam ser identificados com maior frequência nas bases pulmonares. Já o atrito pleural, som característico da inflamação das membranas, tem como principal causa a pleurite. Além desses ruídos, a avaliação da ressonância vocal pode revelar a egofonia, fenômeno descrito como um eco percebido na parte superior de um derrame pleural ou de áreas de condensação.
Diferenciação dos Estertores Finos e Grossos
Ruídos Adventícios Descontínuos: Estertores
Os estertores crepitantes (finos) são ruídos agudos que surgem principalmente no final da inspiração. Eles resultam da abertura súbita de alvéolos colapsados por líquido ou exsudato, sendo achados típicos na fase inicial da pneumonia e no edema agudo de pulmão. Diferente desses, os estertores subcrepitantes (grossos) ocorrem tanto na inspiração quanto na expiração, originando se de secreções em vias de maior calibre, e tendem a se modificar ou desaparecer após a tosse.
Identificação de Roncos, Sibilos e Estridor
Os ruídos contínuos indicam obstrução ou estreitamento do fluxo aéreo em diferentes níveis da árvore respiratória:
- Roncos: Sons graves e ruidosos decorrentes da vibração de muco em brônquios de grande calibre, frequentemente modificáveis com a tosse.
- Sibilos: Sons agudos e musicais por estreitamento das vias aéreas inferiores ( broncospasmo ou edema), predominantes na fase expiratória.
- Estridor: Ruído de tom muito alto e exclusivamente inspiratório, causado por obstrução aguda de vias aéreas superiores, como laringe ou traqueia.
Características Clínicas do Atrito Pleural
O atrito pleural é um ruído adventício de caráter rascante ou rangente, frequentemente comparado ao som de couro atritado. Esse fenômeno é gerado pela fricção entre os folhetos pleurais visceral e parietal que perderam sua lubrificação fisiológica normal, ocorrendo em processos inflamatórios como a pleurite secundária a pneumonias, tuberculose pleural ou infiltrações neoplásicas.
Clinicamente, esse ruído é audível em ambas as fases do ciclo respiratório ( inspiração e expiração ) e possui a característica marcante de não se modificar com a manobra de tosse. Além disso, o achado costuma estar associado à dor torácica pleurítica, que se acentua nitidamente durante a inspiração profunda.
Alterações Patológicas na Ressonância Vocal
Por meio da ausculta com o estetoscópio, é possível ouvir a ressonância ou o eco da voz do paciente enquanto ele pronuncia palavras faladas ou sussurradas. Em condições normais, o som é percebido de forma abafada. Entretanto, a ressonância vocal apresenta se diminuída ou abolida quando há maior quantidade de ar no meio do caminho (como em pneumotórax ou derrame pleural) ou meios menos densos que dificultam a transmissão sonora.
Em contrapartida, áreas de consolidação pulmonar com brônquios patentes (como na pneumonia lobar ou infarto pulmonar por tromboembolismo) exibem ressonância vocal aumentada. Esse aumento pode se manifestar clinicamente como egofonia (voz anasalada), pectorilóquia fônica (transmissão nítida da voz falada) ou pectorilóquia áfona (transmissão nítida da voz sussurrada).
Diferenciação Prática dos Padrões de Esforço
É importante notar que os diferentes tipos de sinais de esforço respiratório e insuficiência geralmente não ocorrem de forma simultânea no paciente. Na prática, pacientes que apresentam uma insuficiência com padrão mais torácico costumam realizar mais tiragem (termo às vezes transcrito como tiraque ). Outro sinal relevante é o sinal de Hoover, que se caracteriza por um movimento abdominal paradoxal durante a inspiração, típico de padrões de respiração abdominal.
Dentre as alterações de ritmo, o ritmo respiratório de Biot se apresenta como uma arritmia respiratória sem um padrão respiratório definido. Essa irregularidade clínica é um sinal de alerta, pois o ritmo respiratório de Biot pode estar associado a quadros de hematoma subdural ou neoplasia, diferenciando se de padrões mais previsíveis de esforço.
Sinais Clínicos de Hipóxia Crônica Periférica
Além da avaliação dos ritmos e do esforço respiratório, o exame físico das extremidades revela sinais cruciais de cronicidade. Quando observamos o baqueteamento digital em conjunto com a cianose de extremidades de forma persistente, o quadro clínico sugere que o paciente apresenta hipóxia e um comprometimento microcirculatório crônico associados.
Reflexão Sion
O Fôlego da Existência
O exame pulmonar revela que, diante da falta de oxigênio, o organismo recruta cada alvéolo e músculo em uma busca incansável pela vida. Essa dependência vital do ar reflete nossa profunda necessidade espiritual do sopro do Criador, que nos sustenta e renova constantemente. Aquele que desenhou cada via respiratória se oferece como o fôlego essencial que traz verdadeiro alívio e esperança ao nosso coração.
O Espírito de Deus me fez; o sopro do Todo poderoso me dá vida.Jó 33:4
Abra as Escrituras em Jó 33 e medite sobre a origem do seu fôlego de vida.