Sion Academy
Aula 1 Fundamentos da Farmacologia
Farmacologia Clínica: Da Teoria à Prática
Topicos da aula
- Aula 1
Farmacologia Clínica: Da Teoria à Prática
Este tópico estabelece as bases da farmacologia clínica, integrando a fisiopatologia ao raciocínio terapêutico essencial para a prática médica. A relevância clínica centra se na compreensão das fases de desenvolvimento de novos medicamentos e na aplicação prática da farmacoterapia em pacientes com comorbidades múltiplas (ex: insuficiência cardíaca e renal).
Os blocos de conteúdo a seguir abrangem desde a análise de caso clínico complexo e profilaxias em ambiente hospitalar, até o ajuste de dose em função renal, conceitos fundamentais (PK/PD) e as etapas regulatórias de aprovação de fármacos.
Estudo de Caso: Fisiopatologia da IC
A hipertensão arterial não controlada atua como um fator primário que obriga o coração a exercer força excessiva contra a resistência vascular. Como resposta, ocorre hipertrofia das fibras musculares cardíacas, resultando em aumento do tamanho do órgão com perda progressiva da função de bomba.
Na Insuficiência Cardíaca (IC) Descompensada, há incapacidade do coração em manter a circulação adequada, levando à retenção de fluidos. As manifestações clínicas clássicas incluem edema (pulmonar e de membros inferiores) e risco elevado de insuficiência renal secundária à hipoperfusão (redução da pressão na artéria renal).
Classificação da Pneumonia
- Definição: A distinção da origem determina o protocolo antimicrobiano empírico.
- Pneumonia Hospitalar: Associada a patógenos resistentes (Pseudomonas aeruginosa, Klebsiella pneumoniae, Staphylococcus aureus). Comum em ventilação mecânica ou internação longa.
- Pneumonia Comunitária: Causada por agentes típicos extra hospitalares (Streptococcus pneumoniae, Mycoplasma, Chlamydia).
- Nota: O perfil de sensibilidade varia conforme a epidemiologia local da UTI.
Profilaxias Hospitalares Essenciais
1. Profilaxia de Úlcera de Estresse: Pacientes em UTI ou sob estresse fisiológico apresentam descargas elevadas de ácido clorídrico, com risco de úlceras e hemorragia. A indicação terapêutica é o uso de Inibidores de Bomba de Prótons (IBP) como Esomeprazol ou Omeprazol para proteção gástrica, principalmente se houver uso de anti inflamatórios ou corticoides.
2. Profilaxia de Tromboembolismo Venoso (TEV): A imobilização favorece a estase sanguínea (componente da Tríade de Virchow), elevando o risco de trombose venosa profunda (TVP). Utiliza se Enoxaparin, uma heparina de baixo peso molecular, em dose profilática para prevenir trombos e embolia pulmonar.
Farmacoterapia Cardiovascular Crítica
- Furosemida: Diurético de alça (EV). Força a diurese para reduzir hipervolemia, edema pulmonar e periférico na IC descompensada.
- Digoxina: Fármaco cardiotônico. Aumenta a força de contração (inotropismo positivo) em casos selecionados.
- Ácido Acetilsalicílico (AAS): Utilizado na hipertensão como antiagregante plaquetário.
Mecanismo do AAS na Hipertensão
A hipertensão causa microlesões no endotélio vascular, desencadeando agregação plaquetária e formação de trombos. O AAS previne eventos isquêmicos (AVC, Infarto) decorrentes desses trombos, atuando como antiagregante.
Estratégia Antimicrobiana
Terapia Empírica: Início imediato do antibiótico baseado na epidemiologia provável e gravidade, antes das culturas. Espera se estabilização em 24h.
Terapia Guiada: Ajuste do antibiótico após o resultado do antibiograma (descalonamento ou troca) visando o patógeno específico.
Critérios de Sucesso (24h): Redução de leucócitos (ex: 17.000 para 15.000/mm³) e defervescência da febre (queda de 39°C para <37,8°C em 12 15h). A persistência destes sinais após 24h indica falha.
Ajuste de Dose na Insuficiência Renal
A função renal é crítica para fármacos hidrofílicos excretados via urinária. O Clearance de Creatinina é o parâmetro padrão ouro para ajuste posológico.
A redução da dose ou o aumento do intervalo entre doses previne a toxicidade por acúmulo sérico, mantendo a eficácia terapêutica.
Exemplo: Ajuste de Piperacilina + Tazobactam
| Clearance de Creatinina | Posologia Recomendada |
|---|---|
| 40 mL/min | Dose cheia (4,5g a cada 6 horas) |
| 20 40 mL/min | 4,5g a cada 8 horas |
| < 20 mL/min | 4,5g a cada 12 horas |
Ajuste necessário para evitar acúmulo sérico e toxicidade.
Conceitos Fundamentais: PK vs PD
Farmacocinética (PK): Estuda o movimento do fármaco no organismo ("o que o corpo faz com o fármaco"). Envolve absorção, distribuição, metabolismo e excreção.
Farmacodinâmica (PD): Estuda a ação do fármaco e seus efeitos ("o que o fármaco faz com o corpo"). Envolve mecanismo de ação, efeitos terapêuticos e tóxicos.
Taxonomia Farmacológica
- Droga: Qualquer substância que interage com o organismo (inclui inseticidas e fármacos).
- Fármaco: Substância química definida, com propriedades ativas e estrutura molecular conhecida.
- Medicamento: Produto farmacêutico acabado (Fármaco + Excipientes como veículos e estabilizantes).
- Remédio: Recurso terapêutico amplo (massagem, acupuntura, fé, procedimentos).
- Placebo: Substância inerte usada para mimetizar um medicamento (efeito psicológico).
Critérios de Aprovação de Fármacos
Segurança: Avaliação rigorosa de efeitos adversos. A tragédia da Talidomida foi um marco histórico que impôs rigor nos testes de teratogenicidade.
Eficácia: Capacidade de produzir efeito terapêutico em condições controladas.
Limitação In Vitro: Resultados positivos em laboratório (ex: Cloroquina para vírus) não garantem eficácia in vivo devido à farmacocinética, como concentração intracelular insuficiente.
Fases dos Estudos Clínicos
- Fase Pré Clínica: Testes in vitro e em animais (viabilidade e segurança inicial).
- Fase 1: Voluntários SAUDÁVEIS (n=15 20). Foco em Farmacocinética e segurança (tolerabilidade).
- Fase 2: Pacientes com a DOENÇA (pequeno grupo). Foco em Eficácia inicial e dose.
- Fase 3: Grande número de pacientes (multicêntrico). Comparação com padrão ou placebo. Confirmação robusta.
- Fase 4 (Farmacovigilância): Pós comercialização. População real. Detecção de reações raras (ex: retirada da Gatifloxacina e Cerivastatina).
Classificação Regulatória de Medicamentos
Medicamento de Referência: Inovador, protegido por patente (10 20 anos). Possui marca (ex: Novalgina®).
Medicamento Genérico: Produzido após expiração da patente. Identificado pelo princípio ativo (ex: Dipirona). É intercambiável com o referência mediante Teste de Bioequivalência.
Medicamento Similar: Possui marca (ex: Lisador®). Contém o mesmo fármaco/concentração. Só é substituível se for Similar Intercambiável (com testes de equivalência apresentados à ANVISA).
O Teste de Bioequivalência
Para ser genérico, o medicamento deve provar que atinge a mesma concentração sérica no mesmo tempo que o referência. A variação máxima permitida é de ±5% no gráfico de concentração x tempo.