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MedVet6 PeríodoBovinocultura de LeiteP1

Manejo e Alimentação de Bezerras Leiteiras: Da Fase Pré Parto ao Desmame

O Alicerce da Produção Leiteira

Duracao: 29 min

Topicos da aula

  • Manejo e Alimentação de Bezerras Leiteiras

O Alicerce da Produção Leiteira

O sucesso da atividade leiteira começa no manejo adequado das bezerras, abrangendo o intervalo que vai do nascimento ao desaleitamento. A colostragem e o manejo inicial correto são determinantes para o futuro do rebanho, pois possuem efeitos residuais permanentes na vida produtiva e na saúde do animal.

Cronologicamente, o manejo dessas bezerras é dividido em quatro fases principais, iniciando se ainda no período de pré parto. Na bovinocultura de leite, o período de bezerra recém nascida compreende toda a fase que vai do nascimento até o desmame ou desaleitamento.

Definições e Ciclo de Recria

No ciclo de recria, a terminologia muda conforme o desenvolvimento do animal: após o desmame, ele passa a ser chamado de novilha ou bezerra desmamada. Esse processo ocorre de forma muito distinta entre as cadeias produtivas.

Na bovinocultura de corte, a desmama costuma coincidir com o momento da separação física entre a vaca e o bezerro. No entanto, na bovinocultura de leite, especialmente quando se trata de raças europeias, a separação da mãe e o desmame são eventos distintos. Enquanto a separação física ocorre precocemente, o desmame refere se especificamente à interrupção do fornecimento de leite.

Dessa forma, o desmame precoce é a regra na bovinocultura de leite, exigindo que o produtor esteja atento às necessidades nutricionais e de manejo para compensar a ausência do aleitamento materno direto e da convivência com a matriz.

Metas de Crescimento e Peso

RaçaPeso Médio ao Nascer (kg)Meta de Peso na 8ª Semana (kg)
Holandesa40 4280 84
JerseyAproximadamente 2754

O objetivo fundamental para todas as raças leiteiras é garantir que a bezerra dobre seu peso de nascimento até a oitava semana de vida.

Metas de Desempenho e Sobrevivência

  • Desmame Tardio: Se o processo de desmame ocorrer após a oitava semana, a exigência de ganho de peso deve ser superior a apenas dobrar o peso inicial do animal.
  • Metas de Alto Desempenho: Fazendas com gestão de excelência buscam atingir 2,5 vezes o peso ao nascer no desmame, podendo chegar a triplicar esse peso em casos excepcionais.
  • Taxa de Mortalidade Aceitável: O índice de mortalidade anual para bezerras em propriedades leiteiras deve ser mantido em um patamar inferior a 3%.
  • Definição de Natimortos: São considerados natimortos os bezerros que nascem mortos ou aqueles que morrem dentro das primeiras 24 horas de vida.
  • Critério de Cálculo Sanitário: É importante notar que o cálculo da meta de mortalidade anual de 3% exclui os animais classificados tecnicamente como natimortos.

Planejamento e Data de Parto

  1. Identificação da data da cobertura de sucesso como ponto de partida para o planejamento.
  2. Aplicação do período de gestação clássico de 280 dias para o cálculo da Data Prevista de Parto (DPP).
  3. Ajuste para raças europeias puras, que apresentam variação entre 275 e 280 dias.
  4. Consideração de tempo adicional para vacas mestiças, que geralmente possuem gestação cerca de uma semana mais longa que as europeias.

Fisiologia e Nutrição no Pré Parto

Nas duas semanas anteriores ao parto, o consumo de alimento pela vaca sofre uma queda drástica, chegando a aproximadamente 1,5% do seu peso vivo. Esse fenômeno ocorre devido a alterações hormonais e à redução de espaço físico na cavidade abdominal, uma vez que o útero, somado aos líquidos e membranas fetais, pode pesar entre 100 e 120 kg ao final da gestação.

O crescimento fetal em bovinos é exponencial, apresentando um ganho de tamanho acentuado justamente nessas últimas semanas. Para compensar a menor ingestão de matéria seca, é necessário elevar a concentração de proteína na dieta de pré parto, o que garante o suporte adequado para o crescimento da bezerra e a produção de colostro pela matriz.

Desafios Metabólicos e Distocia

Consequências do Escore Corporal Inadequado É recomendável manter a condição corporal da vaca constante durante todo o período seco, evitando ganhos ou perdas de peso. O desequilíbrio nutricional, especialmente o excesso de energia na dieta pré parto, pode aumentar excessivamente o tamanho do feto e causar distocia, termo utilizado como sinônimo para dificuldade no parto. Além dos riscos obstétricos, vacas que parem com escore de condição corporal alto (obesas) apresentam maior risco de desenvolver cetose, condição que frequentemente ocorre de forma concomitante com a esteatose hepática, conhecida como fígado gordo. Outro desafio metabólico crítico nesse período é a hipocalcemia clínica, tecnicamente denominada febre do leite.

Sinais e Dinâmica do Parto

  • Sinais Clínicos Precursores: Observa se o relaxamento dos ligamentos pélvicos (coxal), o aumento do úbere e a movimentação ou rompimento da bolsa.
  • Padrão Temporal: Existe uma maior concentração natural de nascimentos de bezerros durante o período da noite.
  • Duração Fisiológica: O tempo típico decorrido entre o rompimento da bolsa e a expulsão completa do bezerro varia de 1 a 2 horas.
  • Assistência Técnica: Fazendas de leite eficientes mantêm monitoramento 24 horas para o acompanhamento rigoroso dos partos.
  • Diretriz de Manejo: A orientação geral é assistir ao processo sem intervir, agindo apenas quando for estritamente necessário para o sucesso do parto.
  • Riscos da Intervenção Precoce: Intervir no parto antes do tempo fisiológico adequado é prejudicial para a saúde e recuperação da matriz.

Algoritmo de Intervenção

  1. Monitoramento temporal: o parto normal geralmente dura entre 30 minutos e 2 horas, exigindo intervenção caso passem muitas horas após o rompimento da bolsa sem a expulsão do feto.
  2. Identificação de distocia: a assistência humana torna se necessária se o bezerro for muito grande, em gestações de gêmeos ou quando o feto não está na posição correta para o nascimento.
  3. Atenção a novilhas de primeira cria: devido ao menor tamanho corporal e do trato reprodutivo, estas fêmeas apresentam maior dificuldade de parto e comumente manifestam edema puerperal.
  4. Aplicação de tração manual: o auxílio por veterinários ou colaboradores deve ocorrer apenas quando a vaca está dilatada e realizando contrações, cuidando para não aplicar força excessiva que provoque áreas avermelhadas no bezerro.

Estrutura da Maternidade

A definição da estrutura de maternidade depende do sistema de produção adotado, variando entre o uso de piquetes ou baias cobertas. Em modelos extensivos ou semi intensivos, os piquetes de maternidade são recomendados e devem ser localizados estrategicamente próximos à sede da fazenda ou à residência dos funcionários, o que facilita a vigilância constante do lote.

O ambiente destinado ao parto, independentemente do sistema, exige rigorosa higiene e conforto, sendo proibido o acúmulo de barro ou esterco e obrigatória a proteção contra o sol e calor excessivo. Em confinamentos, as baias de maternidade devem ser cobertas e equipadas com material de cama macio e fofo, como cepilho, maravalha ou palha. No caso de baias individuais, a areia também pode ser utilizada como material de cama.

Além da infraestrutura física, o manejo social desempenha papel crucial no bem estar das matrizes. Recomenda se organizar os animais em subgrupos de 4 ou 5 vacas dentro da maternidade, prática que minimiza o estresse causado pela mistura frequente de novos animais no grupo.

Ambiência e Higiene Neonatal

  • Privacidade e Socialização: A vaca manifesta preferência por privacidade durante o parto, porém, por ser um animal social, o isolamento total sem visão de outras vacas causa desconforto.
  • Materiais de Maternidade: O piquete pode utilizar coberturas vegetais de gramas do gênero Cynodon (estrela africana ou coastcross), ou camas de materiais como palha ou maravalha.
  • Higiene do Ambiente: Áreas sem cobertura vegetal e com acúmulo de urina e fezes são consideradas ambientes supercontaminados para o nascimento dos bezerros.
  • Manejo de Parto: O nascimento em corredores sem assistência é considerado um manejo incorreto, pois expõe o recém nascido a riscos de contaminação e carga microbiana indesejada.

Termorregulação e Secagem Inicial

Prevenção de Complicações Respiratórias e Térmicas

A secagem imediata do bezerro logo após o nascimento é uma prática fundamental para garantir sua saúde, especialmente em épocas de baixas temperaturas. Caso a vaca não lamba e seque a cria naturalmente, o manejo humano deve realizar a secagem para evitar que o animal sofra desafios significativos à sua vitalidade.

Manter o recém nascido úmido por muito tempo é um fator de risco crítico para o desenvolvimento de pneumonia. Por esse motivo, o bezerro não deve ser exposto a correntes de ar diretas, e o uso de ventiladores soprando diretamente sobre os animais nos primeiros dias de vida não é recomendado devido à sua extrema sensibilidade ao frio.

Para um ambiente de maternidade ideal, recomenda se a ausência de ventiladores, assegurando que o bezerro possa realizar sua termorregulação de forma eficiente e sem o estresse causado por resfriamentos artificiais.

Manejo Térmico e Lâmpadas

  • Capacidade termorregulatória: Nos primeiros três a quatro dias de vida, as bezerras apresentam baixa capacidade de manter a temperatura corporal, o que pode exigir aquecimento externo.
  • Uso de lâmpadas: Esse recurso funciona de forma semelhante ao escamoteador de suínos e, nas fazendas que o utilizam, costuma ser mantido por aproximadamente três dias.
  • Sinais comportamentais: A posição da bezerra indica a necessidade de calor; se ela estiver deitada no centro sob a lâmpada, está aproveitando o aquecimento, mas se deitar nas extremidades, afastada da luz, a fonte deve ser desligada.
  • Isolamento com palha: Em dias de frio intenso, recomenda se proteger o animal dentro de casinhas utilizando palha para reforçar o isolamento térmico.
  • Sequência de manejo: Para garantir a eficácia dos procedimentos, a bezerra deve estar completamente seca antes da aplicação de iodo no umbigo.

Protocolo de Cura de Umbigo

  1. Desinfecção imediata: Realizar o procedimento com tintura de iodo o mais rápido possível após o nascimento para evitar problemas de saúde no bezerro.
  2. Seleção do produto: Utilizar obrigatoriamente tintura de iodo na concentração de 7% a 10%, que é um produto diferente daqueles usados no pré ou pós dipping.
  3. Técnica de aplicação: Executar a cura do umbigo por meio da imersão total do cordão na solução, não devendo ser realizada por aspersão.
  4. Manutenção do protocolo: Repetir o manejo uma vez por dia até o terceiro dia de vida do bezerro ou até que ocorra a cicatrização total.

Prevenção de Onfalites

A desinfecção do umbigo é uma prática de rotina simples e sem polêmicas, mas sua execução incorreta permite o ingresso de patógenos que levam a quadros de onfalite, onfaloarterite ou onfaloflebite. Clinicamente, a onfaloarterite pode se manifestar com a presença de eritema e acúmulo de pus na região umbilical. Uma diretriz fundamental no manejo neonatal é que nunca se deve amarrar o umbigo do bezerro. Embora problemas de cura de umbigo não sejam causas frequentes de mortalidade imediata, a onfalite é considerada uma causa de doenças concorrentes e prejudica severamente o ganho de peso e o desempenho geral do animal.

Identificação e Genética Mocho

A identificação e a brincagem da bezerra devem ser realizadas o mais cedo possível após o nascimento, prática que pode ser adotada logo nas primeiras horas de vida em grandes fazendas para otimizar o controle do rebanho.

Como as principais raças leiteiras nascem com chifres, a descorna, ou amochação, é uma técnica necessária para garantir a segurança no manejo e evitar ferimentos entre os animais e os funcionários. Para minimizar o sofrimento do animal, esse procedimento deve ocorrer preferencialmente nos primeiros dias de vida.

Uma alternativa crescente ao manejo físico é a introdução do gene mocho (ausência de chifres) na população bovina leiteira. Atualmente, cerca de 30% dos touros pais das novas gerações já portam esse gene, o que permite eliminar a necessidade de descorna por meio da seleção genética.

Descorna e Outros Manejos

  • Descorna precoce: Realizada o quanto antes para garantir que o procedimento seja menos doloroso para a bezerra.
  • Controle da dor: Recomendação do uso de analgésico local durante a execução da descorna.
  • Métodos de descorna: Utilização de ferramentas como ferro quente ou aplicação de pasta cauterizadora.
  • Tetos supranumerários: Devem ser removidos precocemente do animal por meio de corte.

A Ciência do Colostro

A colostragem é o manejo mais crítico na vida de uma bezerra leiteira, funcionando como a fonte essencial de imunoglobulinas para o recém nascido. Fisicamente, o colostro difere do leite comum por ser mais espesso e viscoso, apresentando quase o dobro de sólidos totais e uma coloração amarelada característica devido à alta concentração de beta caroteno (pró vitamina A).

Biologicamente, o colostro possui um elevado teor proteico, com destaque para as imunoglobulinas, que são moléculas de grande tamanho. Logo após o nascimento, as vilosidades intestinais do bezerro apresentam uma alta capacidade de absorver essas proteínas intactas, garantindo a proteção inicial do animal.

Contudo, essa capacidade de absorção intestinal diminui progressivamente com o passar do tempo. Após 12 horas do nascimento, o colostro deixa de ter um papel predominantemente imunológico e passa a ter uma importância essencialmente nutricional para a bezerra.

Impacto Vital da Colostragem

Garantia de Desempenho da Vida Fetal à Segunda Lactação

O manejo da colostragem é o fator mais determinante para a saúde e sobrevivência das bezerras, sendo o pilar central na prevenção de doenças. Aproximadamente um terço das mortes desses animais podem ser evitadas com uma colostragem adequada, que oferece proteção contra a predisposição a diarreias e pneumonias. Além disso, a colostragem bem executada possui um efeito residual tão potente que é capaz de compensar falhas de manejo em outras áreas da vida da bezerra.

Para garantir a eficiência desse processo, o fornecimento deve ocorrer o mais rápido possível após o nascimento. Isso ocorre porque a capacidade das vilosidades intestinais de absorver imunoglobulinas intactas diminui gradualmente com o passar das horas, fechando a janela de oportunidade para a transferência de imunidade passiva. Animais que sofrem com uma colostragem inadequada desmamam mais leves e carregam sequelas de desenvolvimento de forma permanente.

A diferença entre o fornecimento de 2 litros e 4 litros de colostro no primeiro dia reflete diretamente na viabilidade econômica do rebanho. Bezerras que recebem 4 litros ganham aproximadamente 200g a mais de peso e emprenham pela primeira vez cerca de duas semanas antes do que aquelas que receberam volumes menores. Esse impacto positivo se traduz em maior produtividade e melhores taxas de sobrevida até a segunda lactação.

Protocolo dos Três Qs

  • Quickness (Rapidez): Refere se à agilidade no fornecimento do colostro, estabelecendo como meta padrão a administração nas primeiras 2 horas de vida.
  • Quantity (Quantidade): A recomendação geral é de aproximadamente 10% do peso vivo da bezerra, o que equivale a 4 litros para bezerras Holandesas e 3 litros para a raça Jersey.
  • Quality (Qualidade): Envolve o uso obrigatório de colostro de boa qualidade para assegurar a proteção do neonato.
  • Protocolo de Excelência: A meta ideal de manejo consiste em fornecer 4 litros de colostro de boa qualidade logo após o nascimento, preferencialmente dentro das primeiras 2 horas.

Cronograma de Fornecimento

  1. Fornecimento Inicial: Administrar os primeiros 4 litros de colostro imediatamente após o nascimento, pois este volume é o mais determinante para a imunidade do animal.
  2. Segunda Mamada: Realizar o fornecimento de 2 litros de colostro entre 6 e 8 horas após o nascimento.
  3. Terceira Mamada: Fornecer outros 2 litros de colostro no intervalo entre 8 e 24 horas de vida da bezerra.
  4. Meta de Volume Total: Garantir que o animal ingira um total de 8 litros de colostro nas primeiras 24 horas.
  5. Via de Administração: Caso a bezerra não consuma o volume voluntariamente, utilizar a sondagem esofágica, evitando a infusão nas vias aéreas superiores para prevenir a falsa via.

Avaliação de Qualidade

FerramentaParâmetro AvaliadoCritério de Alta Qualidade
Colostrômetro (Densímetro)Concentração de imunoglobulinasAcima de 50 mg/mL
Refratômetro de BrixPorcentagem de BrixIgual ou superior a 25%

A qualidade do colostro deve ser verificada obrigatoriamente antes do fornecimento para assegurar a saúde da bezerra.

Monitoramento do Soro Sanguíneo

Para certificar a eficácia da colostragem, deve se coletar o sangue da bezerra entre um e dois dias após o nascimento para avaliação do soro sanguíneo.

A concentração de proteínas no soro, medida pelo refratômetro de Brix, deve estar acima de 8.4 para indicar que o manejo imunitário foi bem feito. É fundamental diferenciar as métricas de avaliação: o valor de 25% de Brix é a referência para o colostro puro, não para a análise do soro.

O colostro com qualidade inferior a 18% de Brix deve ser descartado ou fornecido apenas como fonte nutricional, sem expectativa de transferência de imunidade. Além dos cuidados nutricionais, é importante lembrar que nunca se deve amarrar o umbigo do bezerro durante os manejos iniciais.

Banco e Conservação de Colostro

  • Função do banco de colostro: Consiste na estocagem estratégica de colostro excedente para atender bezerras órfãs ou aquelas cujas mães produziram colostro de má qualidade.
  • Critérios de qualidade: Colostro com leitura na faixa vermelha do densímetro ou Brix inferior a 25% é considerado inadequado para as bezerras, podendo ser descartado ou destinado a bezerros machos.
  • Fortificação do colostro: Em casos de colostro de qualidade inferior, é possível realizar a fortificação utilizando colostro em pó comercial para garantir o nível de imunoglobulinas necessário.
  • Armazenamento e durabilidade: O colostro congelado mantém suas propriedades por até um ano se não houver oscilação de temperatura, podendo ser estocado em garrafas PET de 2 litros ou sacos plásticos espessos.
  • Protocolo de descongelamento: O processo deve ser realizado lentamente em banho maria para evitar a desnaturação das imunoglobulinas, sendo que o uso de sacos plásticos permite um descongelamento mais uniforme que garrafas PET.

Pasteurização e Riscos Sanitários

A pasteurização é uma ferramenta fundamental para a redução da carga microbiana no colostro em fazendas equipadas para esse fim. No entanto, o manejo rigoroso é essencial: se a propriedade não possuir um pasteurizador, o colostro de vacas identificado com alta carga microbiana não deve ser utilizado na alimentação das bezerras e nem integrar o banco de colostro. Outro ponto de atenção é o colostro de vacas com alta contagem de células somáticas (CCS), que deve ser sumariamente descartado ou fornecido apenas a animais machos ou bezerras mais velhas, que já não possuem demanda por absorção colostral. Em situações de déficit de volume na fazenda, o colostro que apresenta valor de Brix acima de 18 ou 20 pode ser fortificado com colostro em pó para garantir o suprimento necessário.

Fatores que Afetam o Colostro

  • Idade e paridade: vacas adultas geralmente produzem colostro com maior concentração de imunoglobulinas, enquanto vacas nulíparas produzem um material naturalmente mais fraco.
  • Histórico sanitário: vacas com histórico de mastite tendem a produzir um colostro de pior qualidade.
  • Manejo da ordenha: a ordenha preparática deve ser evitada, pois remove o material colostrágico e interrompe o acúmulo de imunoglobulinas antes do parto.
  • Duração do período seco: a formação de colostro de qualidade exige entre 30 e 40 dias; reduzir o período seco (ex: de 60 para 30 dias) prejudica o acúmulo de anticorpos.
  • Risco de resíduos: partos excessivamente antecipados aumentam o risco de presença de resíduos de antibióticos no colostro caso o período de carência da medicação não seja respeitado.
  • Condição nutricional: o melhor colostro provém de vacas sadias e bem alimentadas, sendo que a má nutrição compromete diretamente a qualidade do produto.

Estratégias de Aleitamento

Supervisão do Colostro e Particularidades Genéticas

A separação do bezerro recém nascido de sua mãe ocorre poucas horas após o parto, tendo como principal objetivo a supervisão rigorosa do consumo de colostro. Não se deve confiar na ingestão voluntária por parte da cria, especialmente porque as bezerras tendem a mamar com mais facilidade no bico da mamadeira do que em tetos maternos que estejam grossos ou edemaciados.

O manejo de separação precoce também evita a dependência do teto da vaca e riscos sanitários. A permanência do animal com a mãe pode resultar em mamadas excessivas em apenas um quarto mamário, deixando outros sem ordenha, além de permitir que microrganismos da boca da bezerra contaminem o úbere.

Enquanto as raças Holandesa, Jersey e Pardo Suíço seguem protocolos de separação total, raças cruzadas e zebuínas, como Gir Leiteiro e Girolando, dependem da presença do bezerro para a liberação de ocitocina. Nesses casos, os animais são apartados apenas uma ou duas vezes ao dia para possibilitar o acúmulo de leite no úbere para a ordenha.

Manejo em Rebanhos Cruzados

Habilidade Materna e o Estímulo da Ocitocina

Diferente das vacas da raça Holandesa, que geralmente apresentam menor habilidade materna por não terem sido selecionadas geneticamente para essa característica, as vacas cruzadas e de corte possuem esse instinto muito acentuado. Na ordenha de matrizes cruzadas, torna se necessário reunir a mãe e o bezerro para estimular a produção de ocitocina e o relaxamento da vaca, garantindo a ejeção do leite. Nesses sistemas de 'bezerro ao pé', é comum deixar leite residual propositalmente para a alimentação da cria.

Apesar da forte ligação materna, o manejo não deve confiar no consumo voluntário de colostro diretamente na vaca para garantir a imunização. Bezerros podem enfrentar dificuldades para mamar sozinhos caso o úbere seja muito volumoso ou os tetos sejam grossos demais. Por isso, recomenda se esgotar a vaca e fornecer o colostro ao bezerro via mamadeira ou sonda esofágica, métodos que permitem um controle rigoroso da quantidade de imunoglobulinas ingerida em comparação à amamentação natural.

Embora manter a vaca junto com a bezerra traga dificuldades operacionais na produção leiteira, a separação nesses rebanhos de alta habilidade materna costuma ocorrer tardiamente, por volta dos 7 a 8 meses de idade do bezerro.

Manejo em Rebanhos Cruzados (cont. 2)

Cronograma de Separação em Raças Europeias

Em contraste com a dinâmica observada em rebanhos cruzados, o manejo de raças leiteiras europeias permite uma abordagem de separação mais imediata entre a matriz e a cria.

Nesses sistemas, a separação da mãe ocorre geralmente entre as primeiras 24 e 48 horas de vida da bezerra, marcando o início do manejo nutricional controlado fora do pé da vaca.

Programas e Volumes

PeríodoVolume RecomendadoObjetivo do Manejo
1ª Semana10% do peso vivoRegra básica para o fornecimento inicial de leite.
2ª Semana até 2 semanas pré desmame6 a 8 litros por diaSuprir a demanda de crescimento, já que o volume fixo de 4L torna se insuficiente.
Últimas 2 semanas antes do desmameRedução para 4 litros por diaManejo de desaleitamento para estimular o consumo de ração sólida.

O desaleitamento planejado utiliza a redução da oferta líquida para forçar a transição nutricional para a dieta sólida.

Desenvolvimento Biológico

  • Aleitamento natural: Em condições de pé da vaca, o bezerro amamenta de 5 a 10 vezes por dia, em sessões com duração de 5 a 10 minutos cada.
  • Capacidade de ingestão: Quando amamentado diretamente pela matriz, o bezerro pode consumir um total de até 10 kg de leite diariamente.
  • Crescimento acelerado: O modelo de desenvolvimento biologicamente adequado foca no oferecimento de volumes maiores de leite e em múltiplas sessões de amamentação ao dia.
  • Impacto na lactação futura: Bezerras submetidas a volumes maiores de leite na fase inicial produzem cerca de 800 kg de leite a mais em sua primeira lactação.
  • Meta de aleitamento controlado: Atualmente, o objetivo para o manejo de bezerras leiteiras é o fornecimento de seis a oito quilos de leite por dia.
  • Manejo térmico: Para o fornecimento adequado, o leite deve estar aquecido a uma temperatura entre 35 e 40 ºC.
  • Estímulo ao consumo de sólidos: A oferta de leite é reduzida propositalmente ao final do período de aleitamento para que a fome estimule a bezerra a consumir ração.

Tecnologia e Aleitadores Automáticos

A adoção de tecnologias no aleitamento, como o uso de bicos amamentadores, oferece vantagens fisiológicas ao proporcionar uma mamada mais lenta e satisfatória para o bezerro em comparação ao uso de baldes. Os sistemas automáticos modernos elevam esse controle ao utilizar chips para identificar cada animal, permitindo o gerenciamento individualizado da curva de leite ao longo de todo o período de aleitamento.

Além da nutrição, esses equipamentos atuam no monitoramento da saúde, registrando a temperatura da bezerra e o volume exato consumido. Para garantir o aproveitamento ideal, o leite deve ser fornecido morno, mantido por volta de 40 graus Celsius. Um ponto crítico de observação é a ingestão: a redução voluntária do consumo de leite pela bezerra é um indicador precoce de doença, permitindo uma intervenção veterinária rápida.

Em termos de manejo de grupo, cada amamentador automático tem capacidade para atender, em média, 30 bezerras. Entretanto, o agrupamento deve ser criterioso, pois a mistura de animais de diferentes tamanhos gera competição e prejudica o desenvolvimento das bezerras menores. Por isso, recomenda se o uso de amamentadores separados para lotes de bezerras pequenas e grandes.

Higiene de Baldes e Amamentadores

  • Superioridade do sistema: O uso de baldes amamentadores com bico proporciona resultados superiores no desenvolvimento das bezerras quando comparado ao uso de baldes simples.
  • Ergonomia de mamada: O balde amamentador deve ser posicionado em uma altura que obrigue a bezerra a mamar com a cabeça elevada.
  • Protocolo de higiene: Os bicos dos baldes amamentadores devem ser higienizados individualmente logo após cada alimentação.

Opções de Alimento Líquido

No manejo nutricional das bezerras, o leite integral é o alimento preferencial para o berçário, sendo a escolha padrão em propriedades de pequeno porte (até 30 vacas) por sua facilidade operacional. Outra opção essencial é o leite de transição, que compreende as secreções produzidas entre o segundo e o quarto dia após o parto (da segunda à quarta ordenha). Embora não funcione mais como fonte primária de imunoglobulinas, o leite de transição é considerado uma excelente fonte nutricional para os primeiros dias de vida.

Como alternativa, o colostro pode ser fornecido diluído em água na proporção de um para um. Já os substitutos lácteos, também chamados de leite em pó ou sucedâneos, são aceitáveis após os 10 a 15 dias de vida da bezerra. A adoção desses produtos pelos produtores tende a ser maior em períodos de valorização do preço do leite integral no mercado.

Composição: Colostro vs Leite Regular

ComponenteColostro (1ª Ordenha)Leite RegularDiferença Relativa
Sólidos TotaisAproximadamente 25%12% a 13%O dobro no colostro
Proteínas14,0%3,2%3 a 4 vezes superior no colostro
Gordura6,7%3,5%O dobro no colostro
Lactose2,7%4,8%Metade no colostro
MineraisElevadoPadrão25% a 30% superior no colostro
ImunoglobulinasAproximadamente 6,0%ReduzidaFração proteica majoritária na 1ª secreção

A densidade do colostro é significativamente superior à do leite regular, mas diminui progressivamente após a primeira ordenha até se aproximar dos valores do leite comum.

Fraudes e Riscos Químicos

O fornecimento de leite mastítico representa um risco biológico elevado, pois pode colonizar a bezerra com patógenos como Staphylococcus aureus, Micoplasma e os agentes da paratuberculose. Adicionalmente, o uso de leite com resíduo de antibiótico, coletado durante o período de carência, constitui um risco químico relevante na alimentação desses animais. A integridade do leite integral é monitorada por sua densidade, que deve situar se entre 1,030 e 1,032. Fraudes que envolvem a adição de água provocam a queda desse índice, aproximando a densidade de 1,0. Esse volume hídrico é regulado pela lactose, que exerce um papel osmótico atraindo água para a secreção láctea; por essa razão, uma menor concentração de lactose permite uma maior proporção de outros sólidos totais no leite.

Introdução à Dieta Sólida

  • Frequência de aleitamento: bezerras em fase inicial podem receber o leite de duas a quatro vezes por dia.
  • Disponibilidade hídrica: fornecimento de água fresca e limpa a partir do quarto dia de vida para os animais no berçário.
  • Introdução de ração inicial: oferta de alimento sólido a partir do quarto dia de vida, visto que o consumo nos primeiros três dias é raramente observado.
  • Estímulo ao consumo voluntário: prática de colocar um punhado de ração no balde de leite para incentivar a bezerra a lamber o fundo do recipiente.
  • Palatabilidade e atrativos: uso de farelo de bolacha pelo odor e gosto atrativos, além da preferência dos bovinos por palatabilizantes cítricos em detrimento de sabores doces ou melaço.

Tipos de Ração e Fibra

As opções de dieta sólida para bezerras nas primeiras semanas de vida incluem rações peletizadas, multipartículas e fareladas. A ração multipartícula é considerada a melhor escolha técnica para o desenvolvimento inicial, apesar de possuir um custo mais elevado, podendo ser composta por ingredientes como grãos de milho laminados e grãos de aveia achatados.

O fornecimento de ração farelada ou moída deve ser evitado nas primeiras semanas, pois os animais apresentam dificuldade na apreensão desse tipo de alimento, além de a alta pulverulência dificultar a ingestão. Em relação à fibra, o feno deve ser introduzido na dieta apenas em momentos próximos ao desaleitamento ou após o desmame definitivo das bezerras.

Desenvolvimento do Rúmen

  1. Condição de Pré ruminante: A bezerra nasce nesta condição, apresentando um rúmen de superfície lisa e sem papilas ruminais desenvolvidas.
  2. Estímulo Químico: A transição para o estado de ruminante efetivo é um processo determinado quimicamente, e não puramente físico.
  3. Ação dos Ácidos Graxos Voláteis (AGV): Os AGVs de cadeia curta são os responsáveis por acelerar a formação das papilas no epitélio ruminal.
  4. Protagonismo do Ácido Butirato: Com quatro carbonos em sua estrutura, o ácido butirato é o principal agente acelerador do desenvolvimento das papilas ruminais.
  5. Papel do Concentrado: O fornecimento de ração é o manejo que maximiza a síntese de butirato no rúmen em formação, superando o efeito de volumosos.
  6. Função do Feno: O feno não é o responsável pelo desenvolvimento papilar; sua inclusão entre 3% a 10% da dieta visa benefícios comportamentais e de saciedade.

Critérios Técnicos de Desmame

Critério de AvaliaçãoReferência TécnicaFinalidade e Contexto
Gatilho Técnico de ConsumoMínimo de 1 kg de ração por 2 dias consecutivosAssegura que a bezerra tenha capacidade digestiva para dieta sólida.
Idade Típica no Leite60 a 90 dias (2 a 3 meses)Prática da maioria das fazendas para aumentar o leite comercializável.
Padrão na Região Sul75 a 90 dias de vidaReferência de idade de desmame observada em boas fazendas da região.
Estratégia de Desempenho2,5 a 3 meses (mais tardio)Visa obter bezerras mais pesadas e com melhor desempenho pós desmame.
Comparativo com Gado de CorteAproximadamente 7 mesesDiferença de manejo em relação à bovinocultura leiteira.

O desmame precoce na pecuária de leite é fundamentado no consumo sólido para liberar mais produto para comercialização sem comprometer o desenvolvimento do animal.

Manejo do Desmame e Transição

  1. Escolha do método: optar preferencialmente pelo desmame gradual em vez do brusco para reduzir o estresse, a vocalização e o desespero do animal.
  2. Redução progressiva: diminuir a oferta de leite gradualmente e fornecer líquidos extras (água morna) se necessário para acalmar bezerras que vocalizam excessivamente.
  3. Estabilidade social e ambiental: realizar o desmame em pares e manter a bezerra no bezerreiro após o corte do leite para evitar o acúmulo de fatores estressantes.
  4. Continuidade nutricional: manter o fornecimento da mesma ração por uma semana após o desmame para evitar o estresse de uma mudança súbita na dieta.

Tipos de Alojamento: O Bezerreiro

As instalações denominadas berçário são destinadas às bezerras na primeira ou segunda semana de vida, sendo permitido o compartilhamento de espaço entre recém nascidos em períodos de muitos nascimentos. O manejo correto dessas áreas é essencial para a saúde inicial do rebanho.

A escolha do modelo de alojamento impacta diretamente a rotina da fazenda. O abrigo coletivo favorece a socialização e diminui a necessidade de mão de obra. Já no sistema de casinhas individuais, a ventilação deve ser garantida por estruturas abertas, e a higiene deve ser mantida através do deslocamento da casinha sempre que houver acúmulo de barro por fezes e urina.

Fatores ambientais também ditam o tipo de construção ideal. Enquanto casinhas abertas são comuns para garantir a circulação de ar, bezerreiros fechados são a opção preferencial em regiões de clima mais frio para assegurar a proteção térmica dos animais.

Higiene e Bem Estar nas Instalações

  • Piso ripado suspenso e palha: auxiliam na manutenção da limpeza das bezerras, mantendo os animais afastados de urina e fezes.
  • Espaço físico e socialização: o uso de áreas limitadas, como 1 metro por 2 metros (2m²), é criticado por dificultar a interação social entre os animais.
  • Higienização entre lotes: o manejo sanitário entre a saída de um lote e a entrada de outro deve incluir o uso de vassoura de fogo e o período de vazio sanitário.
  • Solários: permitem que as bezerras tomem sol e socializem em períodos específicos do dia antes de retornarem ao alojamento individual.
  • Alojamento em climas frios: as bezerras podem ser mantidas em bezerreiros fechados nas primeiras duas semanas de vida antes da transferência para o ambiente externo.

Socialização: Criação aos Pares

Benefícios e Riscos da Convivência Social

A criação de bezerras aos pares durante o aleitamento, período que geralmente dura entre 60 a 90 dias, favorece a socialização e ajuda a prevenir a neofobia alimentar. Essa prática facilita a aceitação de novos alimentos através da interação entre os animais.

Contudo, o manejo deve ser atento ao risco de mamada cruzada, comportamento que pode resultar na contaminação dos tetos. Além disso, é fundamental garantir uma ambiência adequada, visto que as bezerras são mais sensíveis ao frio durante os primeiros dias ou na primeira semana de vida.

Algumas fazendas utilizam pasteurizadores

Complementando o manejo de criação, a segurança sanitária da dieta líquida é fundamental. Por isso, algumas fazendas utilizam pasteurizadores como uma ferramenta estratégica para reduzir a carga microbiana presente no colostro ou no leite fornecido às bezerras.

Dicas Para Provas

Dicas Para Provas
A meta de mortalidade aceitável em fazendas de leite é inferior a 3%, excluindo natimortos.
Doenças respiratórias e diarreias nos primeiros meses impactam negativamente o desempenho produtivo futuro da vaca.
O ácido butirato (4 carbonos) é o principal estimulante para o desenvolvimento das papilas ruminais.
O monitoramento da colostragem é feito via soro sanguíneo, onde valores de Brix acima de 8.4 indicam sucesso.

O Primeiro Alento e o Sustento Real

O colostro garante à bezerra a proteção imediata contra um ambiente hostil, transferindo a força necessária para quem acaba de nascer. Da mesma forma, reconhecer que não temos todas as defesas internas nos leva a buscar o amparo que vem de fora. Jesus é esse sustento essencial, que nos acolhe em nossa fragilidade e nos capacita a viver com segurança e propósito real.

Como crianças recém nascidas, desejem o leite espiritual puro, para que por meio dele cresçam para a salvação.1 Pedro 2:2

Leia 1 Pedro 2 e veja como nutrir sua fé com o que é puro.

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