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Cirurgia do Sistema Urinário em Cães: Da Obstrução à Uretrostomia
Esquema evidenciando a uretra peniana e a constrição no osso peniano.
Topicos da aula
- Cirurgia Sistema Urinário de Cães
Abordagem da Obstrução Uretral Canina
A obstrução uretral em cães constitui uma emergência cirúrgica crítica, sendo vital a restauração do fluxo urinário para prevenir o óbito do paciente em poucos dias.
O quadro clínico manifesta se através de desconforto urinário associado a sinais sistêmicos graves, decorrentes da azotemia pós renal.
Anatomia e Pontos Críticos de Obstrução
A uretra canina no macho é significativamente mais longa e estreita do que na fêmea, sendo anatomicamente dividida nos segmentos prostático, pélvico (membranosa e perineal) e peniano.
O canal uretral possui pontos de constrição anatômica onde não há capacidade de dilatação, tornando os locais críticos para a obstrução. O principal ponto de obstrução em cães machos localiza se na região cranial ao osso peniano.
O osso peniano exerce uma função limitante, pois impede a expansão da uretra em seu trajeto, o que favorece diretamente a impactação de cálculos nesse local.
Fisiopatologia da Retenção Aguda
- Choque hipovolêmico e toxêmico: A fisiopatologia da obstrução urinária aguda envolve choque hipovolêmico por desidratação e choque toxêmico (ou vasoplégico).
- Riscos da hipercalemia: A hipercalemia, resultante da falha na excreção urinária de potássio, pode levar ao óbito do animal durante a anestesia ou no pós operatório.
- Reabsorção de compostos tóxicos: A reabsorção de toxinas como potássio, creatinina e ureia ocorre após 24 a 48 horas de obstrução uretral aguda.
- Lesão do músculo detrusor: A distensão severa e prolongada da bexiga pode resultar na perda da capacidade contrátil do músculo detrusor.
Riscos de Isquemia e Ruptura Vesical
A obstrução urinária não tratada evolui para isquemia, necrose da parede vesical, ruptura da bexiga e subsequente peritonite química.
As rupturas vesicais decorrentes da obstrução ocorrem frequentemente no polo cranial do órgão.
Sistemicamente, a obstrução total leva à hipercalemia, que aumenta o limiar de despolarização celular e pode resultar em arritmias e bradicardia. Sem o restabelecimento do fluxo urinário, o paciente pode vir a óbito em um período de 5 a 7 dias.
Manifestações Clínicas e Palpação
- Sinais clínicos clássicos: A presença de hematúria, disúria, estrangúria e obstrução total são indicativos de alteração ou interrupção do fluxo urinário.
- Polaciúria: Caracterizada por tentativas frequentes de micção com eliminação apenas de gotas ou um jato fino de urina.
- Diferenciação clínica: É fundamental distinguir clinicamente os quadros de polaciúria da disúria e da estrangúria para uma avaliação precisa.
- Palpação da vesícula urinária: É uma etapa essencial do exame físico voltado ao sistema urinário.
- Posição anatômica: A vesícula urinária está normalmente localizada na região hipogástrica.
Avaliação Física e Diagnóstico Diferencial
O exame físico é fundamental no manejo da obstrução uretral. Em cães, o tamanho normal da bexiga varia conforme o porte: em raças de grande porte, como o Border Collie, assemelha se a uma laranja baiana, enquanto em cães pequenos, assemelha se a uma laranja lima. Em quadros de retenção urinária acentuada, a bexiga tende a se deslocar para a região mesogástrica. Contudo, é importante ressaltar que uma bexiga vazia no exame físico não descarta a possibilidade de obstrução urinária.
A palpação abdominal deve ser realizada buscando por sinais como neoplasias e o espessamento da parede vesical. Além disso, o toque retal é um exame obrigatório em pacientes com alteração do trânsito urinário, auxiliando no diagnóstico diferencial de obstruções causadas por aumento da próstata.
A avaliação sistêmica é igualmente crítica. O Tempo de Preenchimento Capilar (TPC) auxilia na avaliação do estado hemodinâmico do paciente. Deve se atentar que a azotemia pós renal decorrente de uma obstrução total pode evoluir com sinais graves, incluindo vômito, desidratação, apatia, anorexia e hálito urêmico.
Etiologias da Obstrução do Fluxo
| Categoria de Obstrução | Etiologias e Exemplos |
|---|---|
| Intraluminal | Cálculos urinários e uretrais |
| Intramural | Neoplasias do trígono vesical, Cistite |
| Extramural | Prostatomegalia (neoplásica ou hiperplasia benigna), Neoplasias de reto |
| Sistêmica | Diabetes mellitus |
Tabela detalhando as causas de alteração do fluxo urinário em cães baseada na origem anatômica ou funcional.
Perfil e Predisposição aos Urólitos
- Incidência: A ocorrência atual de cálculos de estruvita e oxalato de cálcio em cães é equilibrada, com proporção de aproximadamente 50% para cada tipo.
- Radiopacidade: Cálculos de oxalato de cálcio tendem a ser mais radiopacos em radiografias simples do que os cálculos de estruvita.
- Manejo: A conduta clínica e pós cirúrgica difere entre cálculos de oxalato de cálcio e de estruvita.
- Predisposição racial para uratos: Raças como Dálmata, Schnauzer e Yorkshire Terrier apresentam maior propensão à formação desse tipo de cálculo.
- Sexo e apresentação: Cálculos urinários múltiplos são mais comuns em machos, enquanto cálculos únicos e grandes ocorrem com maior frequência em fêmeas.
Diferenciação Radiográfica de Cálculos
| Tipo de Cálculo | Características Radiográficas | Observações Clínicas |
|---|---|---|
| Estruvita | Bordas lineares e homogêneas | Associado a infecções urinárias (pH alcalino) |
| Oxalato de Cálcio | Bordas espiculadas e aspecto brilhante | Não passível de dissolução clínica |
Nota: A análise do cálculo urinário deve considerar tanto o seu núcleo quanto a periferia, pois as composições podem diferir.
Exames de Imagem na Obstrução
O diagnóstico por imagem, realizado através de raio X ou ultrassom, é fundamental para confirmar a suspeita de cálculos identificada durante a sondagem.
O raio X é considerado superior ao ultrassom para determinar o tamanho, a radiopacidade, a localização e o número de cálculos urinários. Já o ultrassom é mais indicado para avaliar o parênquima da próstata e a parede da vesícula urinária, especificamente quando não há obstrução mecânica detectada por sonda.
Para a visualização de cálculos urinários radiotransparentes, a uretrocistografia retrógrada é o exame indicado. Adicionalmente, a radiografia de duplo contraste, utilizando ar e contraste líquido, auxilia na distensão da bexiga, permitindo descolar cálculos da mucosa.
Exames Laboratoriais e Microbiológicos
- Avaliação Bioquímica: Necessária para avaliar a gravidade do estado sistêmico do paciente, especialmente se houver sinais como vômito e hálito urêmico.
- Urinálise: Realizada para verificar a presença de sangue e cristais, além de identificar o pH da urina.
- Cultura e Antibiograma: Recomendados para investigar a presença de infecção urinária concomitante em cães obstruídos.
- Coleta para Cultura: Deve ser realizada preferencialmente por cistocentese inicial, evitando a coleta da ponta da sonda uretral devido ao risco de contaminação.
Estabilização Metabólica Prioritária
O primeiro passo no tratamento da obstrução uretral é a estabilização hemodinâmica do paciente, que deve preceder a desobstrução mecânica. Para pacientes em choque, a fluidoterapia recomendada é de 60 ml/kg, divididos em três frações de 20 minutos cada. O Ringer com Lactato é preferível ao Cloreto de Sódio (NaCl) para esta estabilização por oferecer mais estabilidade no pH. No manejo da hipercalemia, utiliza se o gluconato de cálcio para o controle imediato da despolarização cardíaca. A administração de insulina com dextrose é utilizada para promover o desvio intracelular do potássio.
Cistocentese de Alívio
A cistocentese de alívio deve preceder a tentativa de sondagem uretral, visando reduzir a pressão retrógrada da urina.
Para realizar o procedimento com segurança, recomenda se o uso de uma agulha fina ou cateter acoplados a um expansor e uma torneira de três vias.
A agulha deve ser direcionada para o polo caudal da bexiga, na região do trígono, evitando se a parte cranial, que apresenta parede mais delgada e é mais propensa a rompimentos.
Técnicas de Desobstrução Mecânica
- Sondagem uretral: Utilização de sonda estéril e lubrificada para verificação de obstruções por cálculos ou próstata.
- Diagnóstico de uretrólitos: A sensação da sonda raspando em estruturas rugosas durante a introdução sugere a presença de cálculos.
- Preparo para hidropulsão: Mistura de solução fisiológica com lubrificantes, como gel à base de água, lidocaína ou glicerina líquida.
- Manobra de retroidropropulsão: Aplicação da força da solução para dilatar a uretra e empurrar o cálculo de volta à bexiga.
- Auxílio retal: Utilização da palpação retal durante a retroidropropulsão para facilitar a dilatação da uretra e passagem do cálculo.
Manobras de Expulsão e Decisão Terapêutica
A realização da manobra de expulsão manual de cálculos por pressão intra abdominal é uma técnica que exige, obrigatoriamente, que o animal esteja anestesiado. Durante este procedimento, a bexiga deve ser preenchida com um volume máximo de 10 ml por kg para facilitar a expulsão.
A desobstrução uretral deve ser considerada uma alternativa inicial antes da decisão definitiva por uma uretrostomia. É importante ressaltar que a dissolução de cálculos por dieta apresenta o risco de o paciente obstruir novamente antes que a dieta possa exercer seu efeito terapêutico.
Uretrotomia: Técnica e Sutura
A uretrotomia consiste na abertura da uretra para a remoção de um cálculo único, diferenciando se da uretrostomia pelo fechamento (rafia) do canal. Este procedimento é raramente realizado na prática clínica devido ao risco elevado de estenose cicatricial e à possibilidade de novas obstruções por cálculos recorrentes.
Para mitigar o risco de estenose uretral, a técnica cirúrgica recomenda realizar a incisão longitudinal acompanhada de sutura em sentido transversal, o que permite o aumento do lúmen. O material de sutura indicado para o procedimento é o fio monofilamentar absorvível 4 0.
Uretrostomia: Indicações e Eleição Escrotal
- Indicações clínicas: A cirurgia é indicada em casos de obstruções uretrais recorrentes, presença de múltiplos cálculos, neoplasias ou traumas.
- Opções de localização: A uretrostomia pode ser realizada nas regiões pré escrotal, escrotal ou perineal.
- Vantagens da via escrotal: É o local de eleição por ser mais superficial, apresentar menor vascularização com sangramento reduzido e permitir a criação de um estoma de maior diâmetro.
Comparativo entre Técnicas Uretrais
| Técnica | Indicação / Característica | Desvantagens / Observações |
|---|---|---|
| Pré escrotal | Indicada para proprietários que optam por não realizar a castração | Pode ser realizada em casos selecionados |
| Escrotal | Técnica de eleição devido à anatomia vascular e ao maior diâmetro do estoma | Requer a realização de castração concomitante |
| Perineal | Menos comum, pois a maioria dos cálculos para antes do osso peniano | Maior sangramento, maior presença de musculatura e maior intensidade de dermatite de contato |
A uretrostomia no cão é tecnicamente mais simples e rápida que no gato e não exige obrigatoriamente a penectomia. A cistostomia é uma alternativa que preserva a integridade da uretra.
Tempo Operatório da Uretrostomia Escrotal
- Ablação de um segmento da pele do escroto e realização da castração concomitante, obrigatória nesta técnica.
- Identificação da uretra pela sonda uretral ou pela coloração arroxeada do tecido, seguida da incisão do tecido esponjoso sobre a sonda.
- Rebatimento do músculo retrator do pênis, evitando a sua secção para prevenir a exposição permanente do pênis.
- Manutenção de cálculos localizados no osso peniano ou em regiões anteriores, visto que o pênis deixa de ser a via de micção.
- Sutura da mucosa uretral na pele utilizando pontos simples separados e fio inabsorvível de calibre 3 0 ou 4 0.
Patência Uretral e Procedimentos Finais
Antes da sutura definitiva da uretra na pele, o trajeto uretral deve ser lavado com solução fisiológica.
É fundamental que a sutura da mucosa uretral seja realizada diretamente na pele, e nunca no tecido subcutâneo, para garantir a integridade do estoma.
Para confirmar a patência urinária, deve se realizar a sondagem retrógrada até a bexiga. Caso tenha havido manipulação da bexiga para retirada de cálculos, torna se imprescindível a realização da sondagem normógrada e retrógrada.
Os cálculos devem estar localizados distalmente à incisão cirúrgica, evitando interferências no fluxo normógrado da urina.
Orquiectomia e Abordagem Prostática
- Indicação prostática: a castração é uma opção terapêutica para casos de próstata aumentada ou hiperplasia.
- Vantagem econômica: a castração pode ser preferível ao tratamento medicamentoso para redução prostática devido ao menor custo a longo prazo.
- Acesso cirúrgico: na castração realizada durante a uretrostomia, a incisão é feita na túnica vaginal.
- Opções de ligadura: para a ligadura do cordão espermático, pode se utilizar tanto o nó próprio quanto o fio cirúrgico.
- Abordagem para iniciantes: a técnica de três pinças é recomendada para a realização da orquiectomia.
- Manejo da bexiga: em casos de ruptura de bexiga associada à obstrução, a cistorrafia e a uretrostomia devem ser realizadas simultaneamente.
Manejo do Sangramento Pós Operatório
O sangramento pós operatório na uretrostomia é frequente, decorrente da rica vascularização local, manifestando se como sangue vermelho vivo que pode ser exacerbado por excitação, latidos ou micção. O uso do colar elisabetano é indispensável para prevenir que o animal lamba a região, o que evita complicações como infecções, fibrose e estenose do estoma. O uso de fraldas auxilia na proteção mecânica do local cirúrgico. Caso o paciente apresente depressão, anorexia ou letargia, a reavaliação clínica é necessária.
Monitorização e Cuidados com a Bexiga
- Sangramento pós operatório: Ocorre com frequência, porém raramente necessita de transfusão, cessando entre 8 e 10 dias.
- Restrição à sondagem: É contraindicado deixar o animal sondado após a uretrostomia para evitar inflamação e estenose.
- Verificação da micção: A compressão manual da bexiga deve resultar na saída de urina pela nova abertura uretral.
- Manejo da atonia vesical: Caso haja atonia do músculo detrusor, a bexiga deve ser mantida vazia por 2 a 3 dias via sondagem ou compressão manual.
Prognóstico e Qualidade de Vida
Em geral, animais submetidos a uretrostomia mantêm boa qualidade de vida e não apresentam cistites recorrentes.
A uretrostomia perineal apresenta maior risco de dermatite de contato e incidência de cistite por Escherichia coli em comparação à uretrostomia escrotal.
Dicas Para Provas
| Dicas Para Provas |
|---|
| Cuidado ao interpretar radiografias: a fabela pode ser confundida com cálculos uretrais dependendo do posicionamento. |
| O uso de gluconato de cálcio e insulina/dextrose é vital para manejar a hipercalemia crítica antes da indução anestésica. |
| A uretrostomia escrotal é preferível em cães por permitir um estoma maior e apresentar menor taxa de complicações hemorrágicas comparada à perineal. |
O Fluxo da Vida
Na clínica cirúrgica, a obstrução uretral impede a eliminação de compostos tóxicos e envenena o paciente, exigindo intervenção imediata para restaurar o fluxo e salvar a vida. De forma semelhante, guardar culpas, orgulho e ressentimentos cria uma barreira na nossa alma que nos intoxica e adoece silenciosamente. Quando nos entregamos a Cristo, Ele remove esses bloqueios perigosos, purificando nosso coração e fazendo a verdadeira vida fluir livremente.
Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.João 7:38
Leia João 7 e permita que Jesus remova as obstruções invisíveis do seu coração.