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MedVet6 PeríodoCirurgia de Cães e Gatos IP1

Cirurgia do Sistema Urinário em Cães: Da Obstrução à Uretrostomia

Esquema evidenciando a uretra peniana e a constrição no osso peniano.

Duracao: 12 min

Topicos da aula

  • Cirurgia Sistema Urinário de Cães

Abordagem da Obstrução Uretral Canina

A obstrução uretral em cães constitui uma emergência cirúrgica crítica, sendo vital a restauração do fluxo urinário para prevenir o óbito do paciente em poucos dias.

O quadro clínico manifesta se através de desconforto urinário associado a sinais sistêmicos graves, decorrentes da azotemia pós renal.

Anatomia e Pontos Críticos de Obstrução

A uretra canina no macho é significativamente mais longa e estreita do que na fêmea, sendo anatomicamente dividida nos segmentos prostático, pélvico (membranosa e perineal) e peniano.

O canal uretral possui pontos de constrição anatômica onde não há capacidade de dilatação, tornando os locais críticos para a obstrução. O principal ponto de obstrução em cães machos localiza se na região cranial ao osso peniano.

O osso peniano exerce uma função limitante, pois impede a expansão da uretra em seu trajeto, o que favorece diretamente a impactação de cálculos nesse local.

Fisiopatologia da Retenção Aguda

  • Choque hipovolêmico e toxêmico: A fisiopatologia da obstrução urinária aguda envolve choque hipovolêmico por desidratação e choque toxêmico (ou vasoplégico).
  • Riscos da hipercalemia: A hipercalemia, resultante da falha na excreção urinária de potássio, pode levar ao óbito do animal durante a anestesia ou no pós operatório.
  • Reabsorção de compostos tóxicos: A reabsorção de toxinas como potássio, creatinina e ureia ocorre após 24 a 48 horas de obstrução uretral aguda.
  • Lesão do músculo detrusor: A distensão severa e prolongada da bexiga pode resultar na perda da capacidade contrátil do músculo detrusor.

Riscos de Isquemia e Ruptura Vesical

A obstrução urinária não tratada evolui para isquemia, necrose da parede vesical, ruptura da bexiga e subsequente peritonite química.

As rupturas vesicais decorrentes da obstrução ocorrem frequentemente no polo cranial do órgão.

Sistemicamente, a obstrução total leva à hipercalemia, que aumenta o limiar de despolarização celular e pode resultar em arritmias e bradicardia. Sem o restabelecimento do fluxo urinário, o paciente pode vir a óbito em um período de 5 a 7 dias.

Manifestações Clínicas e Palpação

  • Sinais clínicos clássicos: A presença de hematúria, disúria, estrangúria e obstrução total são indicativos de alteração ou interrupção do fluxo urinário.
  • Polaciúria: Caracterizada por tentativas frequentes de micção com eliminação apenas de gotas ou um jato fino de urina.
  • Diferenciação clínica: É fundamental distinguir clinicamente os quadros de polaciúria da disúria e da estrangúria para uma avaliação precisa.
  • Palpação da vesícula urinária: É uma etapa essencial do exame físico voltado ao sistema urinário.
  • Posição anatômica: A vesícula urinária está normalmente localizada na região hipogástrica.

Avaliação Física e Diagnóstico Diferencial

O exame físico é fundamental no manejo da obstrução uretral. Em cães, o tamanho normal da bexiga varia conforme o porte: em raças de grande porte, como o Border Collie, assemelha se a uma laranja baiana, enquanto em cães pequenos, assemelha se a uma laranja lima. Em quadros de retenção urinária acentuada, a bexiga tende a se deslocar para a região mesogástrica. Contudo, é importante ressaltar que uma bexiga vazia no exame físico não descarta a possibilidade de obstrução urinária.

A palpação abdominal deve ser realizada buscando por sinais como neoplasias e o espessamento da parede vesical. Além disso, o toque retal é um exame obrigatório em pacientes com alteração do trânsito urinário, auxiliando no diagnóstico diferencial de obstruções causadas por aumento da próstata.

A avaliação sistêmica é igualmente crítica. O Tempo de Preenchimento Capilar (TPC) auxilia na avaliação do estado hemodinâmico do paciente. Deve se atentar que a azotemia pós renal decorrente de uma obstrução total pode evoluir com sinais graves, incluindo vômito, desidratação, apatia, anorexia e hálito urêmico.

Etiologias da Obstrução do Fluxo

Categoria de ObstruçãoEtiologias e Exemplos
IntraluminalCálculos urinários e uretrais
IntramuralNeoplasias do trígono vesical, Cistite
ExtramuralProstatomegalia (neoplásica ou hiperplasia benigna), Neoplasias de reto
SistêmicaDiabetes mellitus

Tabela detalhando as causas de alteração do fluxo urinário em cães baseada na origem anatômica ou funcional.

Perfil e Predisposição aos Urólitos

  • Incidência: A ocorrência atual de cálculos de estruvita e oxalato de cálcio em cães é equilibrada, com proporção de aproximadamente 50% para cada tipo.
  • Radiopacidade: Cálculos de oxalato de cálcio tendem a ser mais radiopacos em radiografias simples do que os cálculos de estruvita.
  • Manejo: A conduta clínica e pós cirúrgica difere entre cálculos de oxalato de cálcio e de estruvita.
  • Predisposição racial para uratos: Raças como Dálmata, Schnauzer e Yorkshire Terrier apresentam maior propensão à formação desse tipo de cálculo.
  • Sexo e apresentação: Cálculos urinários múltiplos são mais comuns em machos, enquanto cálculos únicos e grandes ocorrem com maior frequência em fêmeas.

Diferenciação Radiográfica de Cálculos

Tipo de CálculoCaracterísticas RadiográficasObservações Clínicas
EstruvitaBordas lineares e homogêneasAssociado a infecções urinárias (pH alcalino)
Oxalato de CálcioBordas espiculadas e aspecto brilhanteNão passível de dissolução clínica

Nota: A análise do cálculo urinário deve considerar tanto o seu núcleo quanto a periferia, pois as composições podem diferir.

Exames de Imagem na Obstrução

O diagnóstico por imagem, realizado através de raio X ou ultrassom, é fundamental para confirmar a suspeita de cálculos identificada durante a sondagem.

O raio X é considerado superior ao ultrassom para determinar o tamanho, a radiopacidade, a localização e o número de cálculos urinários. Já o ultrassom é mais indicado para avaliar o parênquima da próstata e a parede da vesícula urinária, especificamente quando não há obstrução mecânica detectada por sonda.

Para a visualização de cálculos urinários radiotransparentes, a uretrocistografia retrógrada é o exame indicado. Adicionalmente, a radiografia de duplo contraste, utilizando ar e contraste líquido, auxilia na distensão da bexiga, permitindo descolar cálculos da mucosa.

Exames Laboratoriais e Microbiológicos

  • Avaliação Bioquímica: Necessária para avaliar a gravidade do estado sistêmico do paciente, especialmente se houver sinais como vômito e hálito urêmico.
  • Urinálise: Realizada para verificar a presença de sangue e cristais, além de identificar o pH da urina.
  • Cultura e Antibiograma: Recomendados para investigar a presença de infecção urinária concomitante em cães obstruídos.
  • Coleta para Cultura: Deve ser realizada preferencialmente por cistocentese inicial, evitando a coleta da ponta da sonda uretral devido ao risco de contaminação.

Estabilização Metabólica Prioritária

O primeiro passo no tratamento da obstrução uretral é a estabilização hemodinâmica do paciente, que deve preceder a desobstrução mecânica. Para pacientes em choque, a fluidoterapia recomendada é de 60 ml/kg, divididos em três frações de 20 minutos cada. O Ringer com Lactato é preferível ao Cloreto de Sódio (NaCl) para esta estabilização por oferecer mais estabilidade no pH. No manejo da hipercalemia, utiliza se o gluconato de cálcio para o controle imediato da despolarização cardíaca. A administração de insulina com dextrose é utilizada para promover o desvio intracelular do potássio.

Cistocentese de Alívio

A cistocentese de alívio deve preceder a tentativa de sondagem uretral, visando reduzir a pressão retrógrada da urina.

Para realizar o procedimento com segurança, recomenda se o uso de uma agulha fina ou cateter acoplados a um expansor e uma torneira de três vias.

A agulha deve ser direcionada para o polo caudal da bexiga, na região do trígono, evitando se a parte cranial, que apresenta parede mais delgada e é mais propensa a rompimentos.

Técnicas de Desobstrução Mecânica

  1. Sondagem uretral: Utilização de sonda estéril e lubrificada para verificação de obstruções por cálculos ou próstata.
  2. Diagnóstico de uretrólitos: A sensação da sonda raspando em estruturas rugosas durante a introdução sugere a presença de cálculos.
  3. Preparo para hidropulsão: Mistura de solução fisiológica com lubrificantes, como gel à base de água, lidocaína ou glicerina líquida.
  4. Manobra de retroidropropulsão: Aplicação da força da solução para dilatar a uretra e empurrar o cálculo de volta à bexiga.
  5. Auxílio retal: Utilização da palpação retal durante a retroidropropulsão para facilitar a dilatação da uretra e passagem do cálculo.

Manobras de Expulsão e Decisão Terapêutica

A realização da manobra de expulsão manual de cálculos por pressão intra abdominal é uma técnica que exige, obrigatoriamente, que o animal esteja anestesiado. Durante este procedimento, a bexiga deve ser preenchida com um volume máximo de 10 ml por kg para facilitar a expulsão.

A desobstrução uretral deve ser considerada uma alternativa inicial antes da decisão definitiva por uma uretrostomia. É importante ressaltar que a dissolução de cálculos por dieta apresenta o risco de o paciente obstruir novamente antes que a dieta possa exercer seu efeito terapêutico.

Uretrotomia: Técnica e Sutura

A uretrotomia consiste na abertura da uretra para a remoção de um cálculo único, diferenciando se da uretrostomia pelo fechamento (rafia) do canal. Este procedimento é raramente realizado na prática clínica devido ao risco elevado de estenose cicatricial e à possibilidade de novas obstruções por cálculos recorrentes.

Para mitigar o risco de estenose uretral, a técnica cirúrgica recomenda realizar a incisão longitudinal acompanhada de sutura em sentido transversal, o que permite o aumento do lúmen. O material de sutura indicado para o procedimento é o fio monofilamentar absorvível 4 0.

Uretrostomia: Indicações e Eleição Escrotal

  • Indicações clínicas: A cirurgia é indicada em casos de obstruções uretrais recorrentes, presença de múltiplos cálculos, neoplasias ou traumas.
  • Opções de localização: A uretrostomia pode ser realizada nas regiões pré escrotal, escrotal ou perineal.
  • Vantagens da via escrotal: É o local de eleição por ser mais superficial, apresentar menor vascularização com sangramento reduzido e permitir a criação de um estoma de maior diâmetro.

Comparativo entre Técnicas Uretrais

TécnicaIndicação / CaracterísticaDesvantagens / Observações
Pré escrotalIndicada para proprietários que optam por não realizar a castraçãoPode ser realizada em casos selecionados
EscrotalTécnica de eleição devido à anatomia vascular e ao maior diâmetro do estomaRequer a realização de castração concomitante
PerinealMenos comum, pois a maioria dos cálculos para antes do osso penianoMaior sangramento, maior presença de musculatura e maior intensidade de dermatite de contato

A uretrostomia no cão é tecnicamente mais simples e rápida que no gato e não exige obrigatoriamente a penectomia. A cistostomia é uma alternativa que preserva a integridade da uretra.

Tempo Operatório da Uretrostomia Escrotal

  1. Ablação de um segmento da pele do escroto e realização da castração concomitante, obrigatória nesta técnica.
  2. Identificação da uretra pela sonda uretral ou pela coloração arroxeada do tecido, seguida da incisão do tecido esponjoso sobre a sonda.
  3. Rebatimento do músculo retrator do pênis, evitando a sua secção para prevenir a exposição permanente do pênis.
  4. Manutenção de cálculos localizados no osso peniano ou em regiões anteriores, visto que o pênis deixa de ser a via de micção.
  5. Sutura da mucosa uretral na pele utilizando pontos simples separados e fio inabsorvível de calibre 3 0 ou 4 0.

Patência Uretral e Procedimentos Finais

Antes da sutura definitiva da uretra na pele, o trajeto uretral deve ser lavado com solução fisiológica.

É fundamental que a sutura da mucosa uretral seja realizada diretamente na pele, e nunca no tecido subcutâneo, para garantir a integridade do estoma.

Para confirmar a patência urinária, deve se realizar a sondagem retrógrada até a bexiga. Caso tenha havido manipulação da bexiga para retirada de cálculos, torna se imprescindível a realização da sondagem normógrada e retrógrada.

Os cálculos devem estar localizados distalmente à incisão cirúrgica, evitando interferências no fluxo normógrado da urina.

Orquiectomia e Abordagem Prostática

  • Indicação prostática: a castração é uma opção terapêutica para casos de próstata aumentada ou hiperplasia.
  • Vantagem econômica: a castração pode ser preferível ao tratamento medicamentoso para redução prostática devido ao menor custo a longo prazo.
  • Acesso cirúrgico: na castração realizada durante a uretrostomia, a incisão é feita na túnica vaginal.
  • Opções de ligadura: para a ligadura do cordão espermático, pode se utilizar tanto o nó próprio quanto o fio cirúrgico.
  • Abordagem para iniciantes: a técnica de três pinças é recomendada para a realização da orquiectomia.
  • Manejo da bexiga: em casos de ruptura de bexiga associada à obstrução, a cistorrafia e a uretrostomia devem ser realizadas simultaneamente.

Manejo do Sangramento Pós Operatório

O sangramento pós operatório na uretrostomia é frequente, decorrente da rica vascularização local, manifestando se como sangue vermelho vivo que pode ser exacerbado por excitação, latidos ou micção. O uso do colar elisabetano é indispensável para prevenir que o animal lamba a região, o que evita complicações como infecções, fibrose e estenose do estoma. O uso de fraldas auxilia na proteção mecânica do local cirúrgico. Caso o paciente apresente depressão, anorexia ou letargia, a reavaliação clínica é necessária.

Monitorização e Cuidados com a Bexiga

  • Sangramento pós operatório: Ocorre com frequência, porém raramente necessita de transfusão, cessando entre 8 e 10 dias.
  • Restrição à sondagem: É contraindicado deixar o animal sondado após a uretrostomia para evitar inflamação e estenose.
  • Verificação da micção: A compressão manual da bexiga deve resultar na saída de urina pela nova abertura uretral.
  • Manejo da atonia vesical: Caso haja atonia do músculo detrusor, a bexiga deve ser mantida vazia por 2 a 3 dias via sondagem ou compressão manual.

Prognóstico e Qualidade de Vida

Em geral, animais submetidos a uretrostomia mantêm boa qualidade de vida e não apresentam cistites recorrentes.

A uretrostomia perineal apresenta maior risco de dermatite de contato e incidência de cistite por Escherichia coli em comparação à uretrostomia escrotal.

Dicas Para Provas

Dicas Para Provas
Cuidado ao interpretar radiografias: a fabela pode ser confundida com cálculos uretrais dependendo do posicionamento.
O uso de gluconato de cálcio e insulina/dextrose é vital para manejar a hipercalemia crítica antes da indução anestésica.
A uretrostomia escrotal é preferível em cães por permitir um estoma maior e apresentar menor taxa de complicações hemorrágicas comparada à perineal.

O Fluxo da Vida

Na clínica cirúrgica, a obstrução uretral impede a eliminação de compostos tóxicos e envenena o paciente, exigindo intervenção imediata para restaurar o fluxo e salvar a vida. De forma semelhante, guardar culpas, orgulho e ressentimentos cria uma barreira na nossa alma que nos intoxica e adoece silenciosamente. Quando nos entregamos a Cristo, Ele remove esses bloqueios perigosos, purificando nosso coração e fazendo a verdadeira vida fluir livremente.

Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.João 7:38

Leia João 7 e permita que Jesus remova as obstruções invisíveis do seu coração.

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