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MedVet6 PeríodoMedicina de Cães e GatosP2

Doenças Renais e do Trato Urinário Inferior em Cães e Gatos

Compreendendo as Causas Adquiridas da IRA

Duracao: 22 min

Topicos da aula

  • Insuficiência Renal Aguda, Doença Renal Crônica e Trato Urinário Inferior

Abordagem Integrativa das Patologias Renais e Urinárias

Nesta aula, exploraremos a complexidade do sistema renal e urinário, fundamental para a homeostase e regulação metabólica. Iniciaremos pela compreensão da fisiologia renal, destacando que sinais clínicos evidentes surgem apenas após o comprometimento de aproximadamente 75% dos néfrons. Diferenciaremos a Insuficiência Renal Aguda, marcada por uma instalação súbita e potencial reversibilidade, da Doença Renal Crônica, um processo insidioso e progressivo que exige manejo paliativo e estadiamento criterioso pelo sistema IRIS. Além disso, abordaremos as afecções do trato urinário inferior, desde anomalias congênitas e a complexa Cistite Idiopática Felina até o manejo estratégico das urolitíases. Através da análise de biomarcadores como ureia, creatinina e densidade urinária, consolidaremos uma abordagem clínica integrada, focada no diagnóstico preciso e na manutenção da qualidade de vida dos pacientes caninos e felinos.

Homeostase Renal e a Importância da TFG

Os rins são fundamentais para a manutenção do equilíbrio hídrico e mineral (eletrólitos) e para a regulação da pressão arterial por meio da produção de renina e do sistema renina angiotensina aldosterona. Por isso, o comprometimento renal frequentemente resulta em hipertensão arterial sistêmica. Além da função excretora, os rins secretam eritropoetina para a produção de hemácias e ativam a vitamina D em calcitriol. É importante notar que a anemia associada é tipicamente do tipo arregenerativa e, clinicamente, a palidez de mucosas em filhotes com doença renal crônica indica anemia arregenerativa.

O marcador central dessa funcionalidade é a taxa de filtração glomerular (TFG), que representa o volume de plasma filtrado por unidade de tempo. Tanto na Insuficiência Renal Aguda quanto na Doença Renal Crônica, a TFG encontra se reduzida, o que causa a retenção de substâncias tóxicas no organismo. Esse processo acaba sobrecarregando os néfrons remanescentes, que precisam compensar a perda de função dos demais.

A doença renal crônica é considerada silenciosa, manifestando sinais clínicos apenas quando já está em estágio avançado, especificamente quando aproximadamente 75% dos néfrons estão funcionalmente comprometidos. Essa reserva funcional é notável: um animal doador de rim permanece saudável por manter 50% da função renal, e os níveis de ureia e creatinina podem permanecer normais se apenas um dos rins for funcional.

Diferenciando Agudização e Cronicidade em Nefropatias

A Insuficiência Renal Aguda (IRA) caracteriza se por uma instalação súbita, manifestando se em um intervalo de tempo de horas a dias. Diferente da forma crônica, a IRA possui potencial de reversibilidade se tratada adequadamente e, no momento inicial, os pacientes geralmente não apresentam perda de peso nem anemia. Durante o exame, é comum observar dor abdominal, rins com volume aumentado (tumefeitos) e quadros de oligúria ou anúria, em que a urina se apresenta diluída devido à redução na taxa de filtração glomerular.

Por outro lado, a Doença Renal Crônica (DRC) é uma afecção insidiosa, irreversível e progressiva, marcada por uma evolução lenta que pode durar meses ou anos. Como não há expectativa de cura, o tratamento para doença renal crônica visa minimizar sinais clínicos e dar qualidade de vida ao paciente. Clinicamente, esses animais costumam apresentar poliúria e polidipsia compensatória, além de perda crônica de peso e anemia.

Ao exame físico ou por imagem, uma diferenciação marcante reside na morfologia dos órgãos: enquanto na fase aguda pode haver aumento de volume, na Doença Renal Crônica os rins são tipicamente pequenos e irregulares, podendo estar significativamente reduzidos em estágios avançados.

Gatilhos Etiológicos da Lesão Renal Aguda

Compreendendo as Causas Adquiridas da IRA

A Insuficiência Renal Aguda (IRA) diferencia se por possuir uma etiologia exclusivamente adquirida, sendo as causas tóxicas e isquêmicas muito prevalentes na rotina. Entre os gatilhos tóxicos, destacam se fármacos como antibióticos aminoglicosídeos, antifúngicos, anti inflamatórios e quimioterápicos, além do contato com pesticidas, metais pesados (via ingestão de peixes contaminados) e venenos de serpentes ou abelhas. Paralelamente, a hipovolemia e a isquemia, que podem ocorrer durante procedimentos anestésicos ou em casos de choque térmico — onde a temperatura do cão atinge 41°C a 42°C, podendo levar à falência múltipla de órgãos e IRA —, são determinantes críticos. Transfusões sanguíneas incompatíveis também podem causar o quadro, ressaltando se que o comprometimento renal por hipovolemia pode tornar se irreversível se não houver detecção rápida, e a falência múltipla de órgãos representa o estágio terminal de diversas doenças.

No campo das doenças infecciosas, a leptospirose, causada por uma bactéria nos canais renais, a peritonite infecciosa felina (PIF) e a babesiose são causas importantes, sendo a sorologia e o PCR os exames indicados para o diagnóstico. Além disso, neoplasias como o linfoma renal, considerado a neoplasia primária mais comum no rim, podem deflagrar falência aguda ou progressiva. Em gatos, o linfoma renal está frequentemente associado ao vírus da leucemia felina (FeLV) e costuma ser bilateral, podendo causar um aumento severo do tamanho do rim, tornando o visível ou palpável. Nesses casos, o animal deve ser acompanhado para o desenvolvimento de doença renal crônica, pois o rim pode não funcionar adequadamente.

Determinantes Genéticos e Congênitos da Doença Renal

A doença renal crônica pode ser de origem adquirida ou congênita. Além da displasia, a hipoplasia renal também é uma causa de doença renal crônica mencionada. A DRC pode acometer filhotes e animais jovens devido a anomalias congênitas. Os rins policísticos referem se à doença dos rins policísticos (PKD), que possui origem genética e é comum em gatos da raça Persa. Ocorre a formação de múltiplos cistos no parênquima renal, com manifestação clínica variável, podendo surgir na juventude ou em idade avançada. Em gatos, os sinais de doença renal podem começar a se manifestar por volta dos 7 ou 8 anos de idade. Existe um teste genético (PCR para PKD via swab de mucosa oral ou sangue) para identificar portadores, que devem ser excluídos da reprodução.

A displasia renal é uma alteração na nefrogênese durante o período embrionário, onde os néfrons não se desenvolvem adequadamente. Acomete raças como Shih Tzu e Poodle, manifestando se severamente no primeiro ano de vida, cursando com uremia grave, anemia arregenerativa e rins acentuadamente reduzidos. O diagnóstico definitivo requer biópsia, embora exames post mortem sejam mais frequentes devido à debilidade dos pacientes. O prognóstico para a displasia renal é considerado ruim.

A amiloidose renal, uma doença de caráter congênito citada como uma das causas específicas de doença renal crônica, afeta notavelmente a raça Shar Pei, sua principal representante predisposta (na qual cerca de um terço dos animais possui um gene mutante para o ácido hialurônico), caracterizando se pela deposição de proteína amiloide no glomérulo, gerando uma glomerulopatia causada pela deposição dessa proteína amiloide. Estes cães podem apresentar febre intermitente, proteinúria severa, hipoalbuminemia e consequente edema de membros (frequentemente manifestado na região do jarrete ou calcanhar) ou ascite.

Mecanismos de Lesão Renal Adquirida e Pielonefrite

Etiologias Adquiridas e Pielonefrite

A nefrite tubulointersticial crônica é a causa mais comum de doença renal em cães idosos. Já a glomerulonefrite é causada pela deposição de imunocomplexos no glomérulo renal, processo que pode ser desencadeado por doenças como erliquiose, piometra e peritonite infecciosa felina (PIF), além do Lupus Eritematoso Sistêmico. É importante notar que pode haver glomerulopatia ou glomerulonefrite mesmo com níveis de creatinina sérica normais. Essas condições são caracterizadas pela perda de proteína através do glomérulo, onde a proteinúria persistente leva à redução dos níveis de albumina no sangue (hipoalbuminemia). Quando o valor de referência normal para a concentração de albumina sérica em cães e gatos — que é de 2,6 g/dL — cai drasticamente, pode ocorrer a Síndrome Nefrótica.

A Síndrome Nefrótica não é uma doença específica, mas sim uma consequência clínica de um quadro de perda proteica severa, sendo caracterizada por proteinúria, hipoalbuminemia, edema (ou ascite) e hipercolesterolemia. A hipercolesterolemia na síndrome nefrótica ocorre porque o corpo utiliza lipoproteínas para tentar restabelecer a pressão oncótica perdida pela hipoalbuminemia, conferindo ao paciente um prognóstico desfavorável. Outra afecção relevante é a pielonefrite, definição para a infecção da pelve renal que pode ocorrer por via ascendente ou via hematógena. Na contaminação ascendente, as bactérias podem subir pelos ureteres a partir de uma cistite, resultando em dor abdominal e febre. O tratamento da pielonefrite dura algumas semanas a mais do que o tratamento de uma cistite comum. Para o diagnóstico, a urografia excretora permite visualizar a pelve renal e o ureter através de um contraste injetado no sangue que é filtrado pelos rins e radiografado imediatamente.

Por fim, o Dioctophyma renale é um parasita que pode acometer o rim de cães, embora ocasionalmente realize um ciclo errático e possa ser encontrado solto na cavidade abdominal. A presença de hematúria pode ser um sinal clínico da infecção por Dioctophyma renale, e a suspeita ocorre na presença de hematúria e identificação de ovos do parasita na urinálise. O ultrassom é um método diagnóstico para avaliação renal e detecção de parasitas, sendo essencial pois a doença renal por Dioctophyma renale pode não ser percebida se o rim contralateral estiver saudável. Uma vez detectado, o rim afetado deve ser retirado cirurgicamente.

Classificação da Azotemia e Impacto da Uremia

O diagnóstico das doenças renais baseia se na identificação da azotemia, que é o aumento de compostos nitrogenados como ureia e creatinina no sangue. A creatinina é a principal substância para avaliar a taxa de filtração glomerular, sendo o biomarcador preferencial por ser livremente filtrada e não sofrer reabsorção ou secreção significativa. Os valores de referência são de até 1,4 mg/dL para cães e 1,6 mg/dL para gatos. Já a ureia é menos direta, pois pode ser reabsorvida e sofre influência de dietas proteicas ou problemas hepáticos. Quando a azotemia gera sinais clínicos, como vômito, anorexia, halitose urêmica (cheiro de urina na boca) e estomatite com úlceras orais, chamamos o quadro de uremia.

A azotemia é classificada em três categorias. Na pré renal, causada principalmente por desidratação, os rins estão normais e tentam reter água, resultando em densidade urinária aumentada. Na azotemia renal, há lesão intrínseca ao parênquima; especificamente, a doença renal crônica se manifesta com ureia e creatinina elevadas e densidade urinária baixa. Por fim, a pós renal envolve obstruções ou rupturas. O diagnóstico de ruptura de bexiga pode ser confirmado comparando a creatinina do líquido abdominal com a sérica; se a do líquido for maior, confirma se o vazamento de urina, uma emergência médica que exige intervenção imediata.

Distúrbios Eletrolíticos e Riscos Cardíacos Renais

A hipercalemia é uma emergência crítica na insuficiência renal aguda e no estágio terminal da crônica, pois o aumento do potássio pode causar arritmias fatais e óbito, apresentando ondas T altas e pontiagudas no eletrocardiograma. Paralelamente, a doença renal crônica frequentemente cursa com hipocalemia devido a vômitos e poliúria, manifestando se em gatos por fraqueza muscular, ventroflexão cervical e íleo paralítico. Além da acidose metabólica por falha na excreção de hidrogênio e redução na reabsorção de bicarbonato, e da hiperfosfatemia por falha na excreção de fósforo, a redução da densidade urinária em ambas as fases (embora na IRA inicial possa estar concentrada) é um achado cardinal; danos tubulares causam resistência ao ADH e impedem a reabsorção de água, reduzindo os níveis normais (1,015 1,045 em cães; 1,025 1,060 em gatos) para a isostenúria (1,008 1,012, igual à do plasma). Valores de hipostenúria (como 1,004) indicam a necessidade de investigar hiperadrenocorticismo ou diabetes insipidus, enquanto a oligúria em pacientes crônicos sinaliza o estágio terminal da doença.

Consequências Ósseas e Achados de Sedimento Urinário

Distúrbios Ósseos e Marcadores de Urinálise na Nefropatia

O hiperparatireoidismo secundário renal é desencadeado pela retenção renal de fósforo e ocorre como uma tentativa de equilibrar os níveis de cálcio e fósforo no sangue através da retirada de cálcio dos ossos. Nesse processo, a glândula paratireoide produz excesso de paratormônio para retirar cálcio dos ossos, resultando na desmineralização óssea progressiva e substituição por tecido fibroso, condição denominada osteodistrofia fibrosa. Clinicamente, isso pode ser observado como a mandíbula de borracha ou dentes com aspecto flutuante em radiografias; infelizmente, o prognóstico em casos com deformidade facial evidente é infausto.

A urinálise é um exame importante que pode apresentar alterações antes de outros parâmetros laboratoriais no check up renal. Nela, a presença de cilindros (cilindrúria) reflete o formato dos túbulos e indica estase de material. Achados como cilindros granulosos e, sobretudo, cilindros céreos indicam prognóstico severo, enquanto a observação de células renais ou células caudadas (da pelve renal) atestam lesão profunda no sistema urinário.

Em estágios de doença renal crônica avançada, um sedimento urinário inativo (ausência de células ou cilindros) é comum, pois a taxa de filtração está demasiadamente comprometida. Outro ponto crítico é a interpretação da glicosúria: quando associada à normoglicemia, indica lesão tubular renal. Isso a diferencia da diabetes mellitus, que exige a presença clínica de poliúria, polidipsia, polifagia e hiperglicemia severa persistente para a confirmação diagnóstica.

Estadiamento Clínico pela International Renal Interest Society

O estadiamento da doença renal crônica em cães e gatos segue as diretrizes da IRIS (International Renal Interest Society), variando do estágio 1 ao 4. Para isso, utilizam se a creatinina sérica ou o SDMA para realizar o estadiamento, lembrando que, conforme a doença avança, esses marcadores aumentam e a densidade urinária reduz. O subestadiamento é complementado pela avaliação da proteinúria e da pressão arterial sistêmica. O comprometimento de apenas um dos rins ou a presença de cálculos renais no ultrassom já permitem a classificação do animal como doente renal crônico estágio 1. No estágio 1, o tratamento foca em evitar drogas nefrotóxicas, garantir água fresca e controlar proteinúria ou hipertensão.

AvaliaçãoCritério / ValorInterpretação IRIS
Estágio 1Creatinina normalPode apresentar anormalidades renais na imagem, como rins policísticos, ou o estágio 1 pode ser diagnosticado por creatinina com aumento individual progressivo.
Disfunção (SDMA)25% de perda de néfronsCapaz de detectar alterações de forma precoce com apenas 25% de perda de néfrons.
Disfunção (Creatinina)75% de perda de néfronsA creatinina exige 75% de perda de néfrons para aumentar; valores 5,0 mg/dL indicam um prognóstico ruim.
Proteinúria (RPC)0,5Valores abaixo de 0,2 são considerados não proteinúricos; valores acima de 0,5 são considerados proteinúricos clínicos.
Pressão Arterial< 150 mmHgConsiderada normotensão (normal) quando abaixo de 150 mmHg.
Pressão Arterial160 – 179 mmHgClassificada como hipertensão quando a pressão está entre 160 – 179 mmHg.
Pressão Arterial180 mmHgHipertensão grave; indica tratamento com medicamento anti hipertensivo.

A pressão arterial é avaliada por meio de manômetro e Doppler. A RPC (Relação Proteína/Creatinina Urinária) mensura a gravidade da proteinúria.

Manejo Terapêutico e Suporte do Paciente Renal

No manejo do paciente renal crítico, a fluidoterapia intravenosa inicial deve ser realizada em um período de 2 a 6 horas, podendo se administrar mais de uma bolsa de soro conforme a necessidade de reidratação. Contudo, o uso de grandes quantidades de solução fisiológica no paciente renal pode causar hipernatremia. Na Insuficiência Renal Aguda (IRA), a fluidoterapia intravenosa deve ser cautelosa para evitar super hidratação e edema pulmonar, especialmente em quadros de oligúria ou anúria, sendo recomendada a mensuração do débito urinário via sondagem temporária. É essencial compreender que o restabelecimento do volume urinário não implica cura; a elevação da densidade urinária é o verdadeiro marcador de recuperação da função, e a mensuração isolada da creatinina pode não ser suficiente para medir a melhora clínica pós hidratação.

Para o controle da Doença Renal Crônica (DRC), utilizam se dietas renais comerciais restritas em fósforo e a suplementação de potássio, especialmente para felinos, que perdem esse eletrólito com facilidade. Quando a hiperfosfatemia é refratária à dieta, utilizam se quelantes de fósforo via oral, como o hidróxido de alumínio ou o cloridrato de sevelâmer — este último com custo aproximado de R$ 300,00 mensais para um paciente de 10 kg. Complicações graves, como acidose metabólica severa (pH < 7,15), exigem correção com bicarbonato de sódio. Já os casos de hipercalemia aguda são manejados com infusão de insulina e glicose; o uso concomitante de glicose é necessário para evitar hipoglicemia e promover a entrada de potássio na célula, enquanto a hipocalemia crônica exige suplementação oral ou reposição lenta.

Controle da Hipertensão e Manejo da Anemia

No tratamento da anemia arregenerativa grave em doentes renais, a administração subcutânea de eritropoetina humana recombinante ou darbepoetina é indicada. A darbepoetina é uma alternativa que não induz a produção de anticorpos no animal, enquanto as formas recombinantes apresentam risco de formação de anticorpos bloqueadores; por isso, seu uso deve ser postergado até que a anemia seja clinicamente restritiva. A transfusão sanguínea é considerada uma medida paliativa de curto prazo, com eficácia de apenas 2 a 3 meses, o que corresponde ao tempo de vida das hemácias, e deve se ter cautela com a coleta excessiva e frequente de sangue em pacientes pequenos, o que pode agravar a anemia.

O controle da hipertensão arterial visa manter a pressão sistólica abaixo de 180 mmHg em cães e abaixo de 170 mmHg em gatos, sendo fundamental para prevenir cegueira súbita, hemorragia de retina ou descolamento de retina. Em cães, utiliza se benazepril ou enalapril (conforme consenso de 2023), enquanto o anlodipino é o medicamento recomendado para o tratamento da hipertensão arterial em gatos. Para pacientes com proteinúria ou quando os níveis de albumina sérica estão abaixo de 2 g/dL, a telmisartana é indicada, e o clopidogrel atua como profilaxia antitrombótica em casos de hipoalbuminemia severa.

Na manutenção ambulatorial da doença renal crônica, a fluidoterapia subcutânea traz grandes benefícios clínicos. Na sua aplicação, deve se evitar a região do pescoço, pois a gravidade pode deslocar o líquido e causar desconforto ao animal. Já a hemodiálise em medicina veterinária funciona como uma terapia substitutiva estritamente paliativa e temporária, voltada para a remoção emergencial de toxinas urêmicas circulantes, mas sem capacidade curativa.

Anomalias de Trajeto: Ureter Ectópico e Divertículo

Os diferenciais para doenças do trato urinário inferior incluem doenças congênitas, inflamatórias não infecciosas, infecções bacterianas, cálculos e neoplasias. O ureter ectópico, uma doença relativamente comum na clínica, indica que o ureter está fora do lugar normal. Nessa anomalia, a desembocadura ureteral contorna o trígono vesical e insere se em locais anômalos, como a uretra ou na vagina, o que causa o gotejamento contínuo de urina (incontinência) manifestada desde filhote. É importante notar que o ureter ectópico não causa dor no paciente. Caso um dos ureteres esteja normalmente posicionado, o animal apresentará padrão de micção normal concomitante ao gotejamento de incontinência.

O diagnóstico diferencial deve considerar a insuficiência esfincteriana após castração em cadelas adultas — quadro que geralmente não ocorre em castrações pediátricas — e déficits neurológicos, além de fístula urinovaginal. O tratamento é exclusivamente cirúrgico para reimplantação ureteral. Já o divertículo vesical consiste em uma formação sacular junto à bexiga que predispõe ao acúmulo de urina e infecções. Clinicamente, o paciente apresenta cistite bacteriana refratária e recidivante, podendo necessitar de antibioticoterapia constante enquanto o problema anatômico não for resolvido. O diagnóstico é feito por ultrassom e o manejo definitivo requer excisão cirúrgica do divertículo.

Síndrome de Pandora e Doença do Trato Inferior

A Doença do Trato Urinário Inferior dos Felinos (DTUIF) manifesta se através de disúria, estrangúria, hematúria, polaciúria e periúria (micção em locais inadequados). Vale ressaltar que estrangúria e disúria são termos que descrevem, respectivamente, o esforço e a dor ao urinar. A polaciúria é definida especificamente como o aumento da frequência da micção, o que não implica necessariamente um aumento no volume urinário total. Alguns problemas comportamentais podem ter causas fora do sistema urinário, e o excesso de limpeza da região perineal pode indicar desconforto ou irritação urinária. O tratamento depende da identificação correta e do manejo da causa de base.

A etiologia predominante é a Cistite Idiopática Felina (CIF), um processo inflamatório estéril fortemente correlacionado com o estresse ambiental. Quando há sintomas sem a presença de cálculos, a CIF é a principal suspeita. A Síndrome de Pandora descreve a complexidade da cistite idiopática felina ao envolver o sistema nervoso e outros órgãos além do trato urinário. O manejo envolve enriquecimento ambiental, como gatificação vertical e rotas de fuga, e feromônios sintéticos, como o Feliway, para reduzir o estresse. O uso de antibióticos não é recomendado sem infecção comprovada. Fármacos como antiespasmódicos uretrais ou o ansiolítico amitriptilina — que requer ao menos um mês de uso para apresentar efeito — podem ser administrados de forma tópica ou transdérmica na região da orelha.

Gatos com obstrução urinária frequentemente apresentam hipercalemia e níveis elevados de creatinina, exigindo intervenção emergencial com anestesia geral/analgesia profunda. A obstrução é frequentemente causada por um tampão uretral (material mucoso preenchido por sedimentos minerais). O procedimento envolve desobstrução retrógrada e lavagem vesical exaustiva com sondas de calibre fino, como as de número 3 ou 4, mas a manutenção da sondagem deve ser evitada para não agravar a inflamação. O manejo dietético deve ser feito com ração urinária específica, não com ração renal, por aproximadamente três meses. Adicionalmente, deve se atentar para a distensão excessiva da bexiga, que pode resultar na perda de sua capacidade contrátil; para gatos internados que não urinam espontaneamente, a compressão vesical manual pode ser realizada até quatro vezes ao dia.

Cistites Bacterianas e sua Correlação com Comorbidades

Na rotina clínica, a investigação de problemas no trato urinário inferior de cães exige exames como hemograma, bioquímicos e urinálise. Diferente de outras espécies, as afecções em caninos geralmente possuem origem bacteriana primária, o que torna a urocultura e o antibiograma ferramentas fundamentais para um tratamento preciso. Embora a amoxicilina seja frequentemente uma escolha inicial eficaz, o tratamento ideal deve ser guiado por esses exames devido ao risco de resistência bacteriana. Para a visualização detalhada da bexiga urinária, o ultrassom se destaca como o exame complementar mais útil na maioria das investigações.

Um quadro clínico particularmente crítico é a cistite enfisematosa, que é considerada mais grave que a cistite comum. Nela, a ultrassonografia revela a presença de gás na parede vesical, gerado por bactérias fermentadoras. Como esses micro organismos utilizam a glicose para produzir esse gás, o diagnóstico dessa condição sugere e torna obrigatório o rastreio para Diabetes mellitus no paciente.

Já a pielonefrite é uma condição clínica mais grave do que a cistite, manifestando se com febre, dor abdominal severa e alterações leucocitárias significativas no hemograma. O tratamento para essa afecção exige terapia antibiótica prolongada, muitas vezes superior a oito semanas, e a escolha do fármaco pode se basear na cultura da urina colhida da própria bexiga. É importante notar que machos caninos não castrados podem apresentar prostatite infecciosa simultânea, o que requer um regime terapêutico similarmente prolongado.

Identificação e Dissolução de Urólitos em Cães e Gatos

Diagnóstico e Manejo de Cálculos Urinários

A cristalúria refere se à presença de cristais microscópicos na urina, enquanto urolitíase refere se à presença de cálculos macroscópicos. A cristalúria precede a formação macroscópica de urólitos e, nos felinos, aproximadamente 15% dos casos de doenças do trato urinário inferior são decorrentes de urólitos. Rações de baixa qualidade podem ser um fator de risco para obstrução urinária em gatos por concentrarem muito a urina e aumentarem o sedimento. No diagnóstico, urólitos mineralizados na ultrassonografia formam uma característica sombra acústica, diferenciando os de pólipos ou coágulos. Além disso, é possível detectar a presença de um cálculo uretral através da sensibilidade tátil ao realizar a sondagem urinária.

A composição química dita a conduta: aproximadamente 50% dos cálculos urinários em cães são compostos por estruvita, que se forma em pH alcalino e permite a dissolução médica através de dietas urinárias acidificantes e indutoras de diluição. Rações urinárias terapêuticas utilizam sais para promover a diluição urinária e evitar a precipitação de cristais, e devem ser utilizadas até que ocorra a dissolução completa do cálculo. No entanto, não deve haver a associação de acidificantes orais extras com essas dietas. Em contrapartida, o oxalato de cálcio, correspondendo a aproximadamente 50% dos cálculos urinários em gatos, exige intervenção cirúrgica por ser irresponsivo ao manejo dietético. Em cálculos mistos, o planejamento terapêutico deve focar na composição do núcleo do cálculo, e cálculos vesicais de grandes dimensões exigem remoção cirúrgica pela inviabilidade de dissolução em tempo hábil.

Cães da raça Dálmata possuem predisposição para o desenvolvimento de cálculos urinários de urato devido a uma falha metabólica na enzima uricase, que previne a conversão do ácido úrico em alantoína — um metabólito da purina cem vezes mais solúvel na urina do que o ácido úrico. O tratamento envolve restrição proteica e inibidores da xantina oxidase, como o alopurinol; contudo, o uso excessivo de alopurinol pode favorecer a formação de cálculos de xantina. Quando ocorre obstrução, urólitos de pequeno tamanho apresentam maior risco, pois a uretra do cão possui dificuldade de dilatação na região localizada atrás do osso peniano. Cálculos uretrais promovem obstrução de risco à vida, exigindo hidropropulsão retrógrada sob anestesia geral, técnica que visa reposicionando o uretrólito de volta à bexiga. Durante a uro hidropulsão, um auxiliar comprime a uretra via toque retal enquanto outro injeta solução fisiológica sob pressão. Esse método permite a remoção via cistotomia, poupando a uretra de incisões (uretrotomia) ou procedimentos definitivos (uretrostomia).

Desafios no Diagnóstico e Manejo de Neoplasias

Identificação e Manejo de Neoplasias Uretrais e Vesicais

Ao investigar o trato urinário inferior, é crucial diferenciar massas identificadas em exames de imagem, que podem corresponder a coágulos, pólipos ou neoplasias malignas. Quando localizadas na transição uretra vesical ou no canal uretral, essas neoplasias costumam apresentar uma consistência endurecida e fibrosada à palpação durante o toque retal ou vaginal. Para um diagnóstico preciso, a cistoscopia utiliza uma câmera para visualizar a uretra e a bexiga, permitindo identificar massas internas e alterações na coloração da parede, como áreas esbranquiçadas, antes da confirmação histopatológica.

Em casos de obstrução inoperável, a tentativa de unir a bexiga diretamente à uretra pode falhar em resolver a dificuldade urinária. Por isso, opta se por técnicas derivativas de salvamento: a cistostomia, em que a bexiga é fixada diretamente na parede abdominal, ou a ureterostomia cutânea, que posiciona os ureteres diretamente na parede abdominal. Ambas as intervenções exigem manejo intensivo para prevenir infecções ascendentes e dermatites periestomais severas decorrentes do contato com a urina.

O cuidado pós operatório é rigoroso, especialmente em cães com cistostomia, que necessitam do uso de fraldas para proteger a bexiga exposta de superfícies. No manejo clínico da dermatite por contato, deve se considerar que a pomada Hipoglós é de difícil remoção em cães em comparação com outras pomadas para assadura, o que influencia a rotina de limpeza diária realizada pelo tutor.

O Silêncio e a Restauração

A doença renal é silenciosa e muitas vezes só revela sua gravidade quando a reserva funcional está quase esgotada. Assim como o corpo precisa de filtros limpos, nossa alma acumula pesos que nem sempre percebemos antes do nosso limite. Jesus conhece profundamente nossa estrutura e oferece o descanso real que purifica e renova nossas forças.

Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês.Mateus 11:28

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