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MedVet6 PeríodoMedicina de Cães e GatosP2

Hemostasia e Coagulopatias em Medicina Veterinária

O Papel Central das Plaquetas e do Fator de von Willebrand

Duracao: 19 min

Topicos da aula

  • Hemostasia

Overview

Hemostasia e Coagulopatias em Cães e Gatos

A hemostasia representa o equilíbrio fisiológico entre a prevenção de hemorragias e o controle de tromboses, sendo dividida didaticamente nas fases primária, secundária e terciária. Enquanto defeitos plaquetários geram sinais superficiais como petéquias, falhas nos fatores de coagulação causam sangramentos profundos e cavitários. O clínico deve estar apto a diferenciar emergências comuns, como a intoxicação por raticidas e o tromboembolismo felino, de condições hereditárias como a doença de von Willebrand. O diagnóstico preciso baseia se na integração do exame físico com testes laboratoriais, incluindo TP, TTPA e contagem de plaquetas. Nunca drene hematomas ou realize punções em grandes vasos sem estabilizar o paciente, pois o manejo inadequado agrava o quadro hemorrágico, exigindo suporte com plasma fresco ou vitamina K1.

Introdução à Hemostasia e Fenômenos Tromboembólicos

O Equilíbrio Fisiológico da Hemostasia

A hemostasia é definida como o equilíbrio fisiológico entre os processos de hemorragia e trombose. Esse sistema dinâmico garante que o sangue flua normalmente pelos vasos enquanto mantém a prontidão para formar coágulos em cerca de 15 segundos caso ocorra uma lesão vascular.

Dentro desse mecanismo, a etapa final da via comum da cascata de coagulação resulta na formação de fibrina. O coágulo propriamente dito é constituído por uma rede dessa fibrina, integrando também plaquetas e hemácias para garantir a estabilidade e a firmeza necessárias para vedar o vaso lesionado.

Fisiopatologia do Tromboembolismo Aórtico Felino

Na rotina clínica de pequenos animais, a ocorrência de trombose é uma alteração da hemostasia de particular importância, especialmente em pacientes felinos com cardiopatias. Nesses pacientes, os trombos desenvolvem se tipicamente no átrio esquerdo dilatado e, ao se desprenderem, atravessam o ventrículo e a aorta até se alojarem na bifurcação das artérias ilíacas.

Esse quadro clínico é conhecido como tromboembolismo em sela, e a obstrução arterial resultante pode ser unilateral ou bilateral. Para o manejo terapêutico, visando prevenir a formação de novos trombos, o medicamento clopidogrel (referido como corpo endogréulo) pode ser utilizado; no entanto, deve se monitorar a dosagem, pois o seu uso excessivo pode causar disfunção plaquetária no paciente.

Manifestações Clínicas do Tromboembolismo em Sela

No tromboembolismo arterial em felinos, o quadro clínico surge de forma súbita e dramática. O paciente apresenta dor aguda intensa, frequentemente acompanhada de vocalização, e uma característica marcante: o animal passa a se arrastar devido à paresia ou paralisia dos membros pélvicos. Esses sinais são fundamentais para o diagnóstico presuntivo rápido na rotina de emergência.

Ao realizar o exame físico, o clínico deve avaliar criteriosamente a perfusão e a temperatura das extremidades. É clássico observar hipotermia nos membros afetados (que se apresentam frios ao toque ) quando comparados aos membros torácicos. Além disso, a ausência ou fraqueza extrema de pulso femoral e a cianose dos coxins — visível nos coxins não pigmentados — são achados patognomônicos que confirmam a oclusão vascular.

A combinação desses sintomas permite diferenciar com segurança o tromboembolismo de outras afecções comuns, como lesões neurológicas medulares ou fraturas pélvicas, condições nas quais o pulso e a temperatura das extremidades costumam estar preservados.

Fisiologia da Hemostasia

Mecanismos da Hemostasia Primária e Plaquetas

O Papel Central das Plaquetas e do Fator de von Willebrand

A hemostasia primária inicia se imediatamente após a lesão vascular com a vasoconstrição reflexa para reduzir o fluxo sanguíneo local. A atividade biológica das plaquetas constitui o componente central deste processo, estando a hemostasia primária diretamente relacionada ao seu funcionamento. É importante notar que doenças endócrinas como o hiperadrenocorticismo podem interferir na síntese de colágeno, causando fragilidade vascular e comprometendo a integridade do vaso.

Para que a adesão ocorra, as plaquetas circulantes ligam se ao endotélio lesado através do fator de von Willebrand, uma proteína indispensável para viabilizar a ancoragem plaquetária no sítio da lesão. Após a ativação e agregação, forma se o tampão plaquetário primário. Contudo, este tampão é mecanicamente frágil e funciona apenas como uma solução temporária, dependendo da deposição de uma rede de fibrina para sua estabilização definitiva.

Vias de Ativação da Cascata Coagulativa

A hemostasia secundária é o processo de ativação sequencial dos fatores de coagulação (de I a XIII) para transformar o fibrinogênio em uma rede sólida de fibrina. Didaticamente, a formação do coágulo ocorre através de três caminhos:

  1. Via Extrínseca: ativada pelo contato tecidual e colágeno, sendo representada pelo fator VII.
  2. Via Intrínseca: composta pelos fatores circulantes XII, XI, IX e VIII.
  3. Via Comum: estágio de convergência que utiliza os fatores X, V, II e I (fibrinogênio) para a produção final de fibrina.

Fibrinólise e Dissolução Fisiológica do Coágulo

A hemostasia terciária é o processo de desfazimento e fragmentação do coágulo após o reparo tecidual. Nesta fase, a fibrina é degradada pela ação da plasmina, gerando os produtos de degradação de fibrina (PDFs).

Entre os PDFs mensuráveis, o D dímero é um dos principais indicadores da fibrinólise. Esses resíduos não permanecem no organismo indefinidamente; eles são removidos da circulação pelo sistema reticuloendotelial.

Em quadros de coagulação intravascular disseminada (CIVD), há um aumento significativo tanto de fibrina quanto de produtos de degradação de fibrina, sinalizando um desequilíbrio grave entre a formação e a dissolução de coágulos.

Abordagem Clínica às Diáteses Hemorrágicas

Sinais de Disfunção na Hemostasia Primária

Identificar corretamente as manifestações clínicas é o primeiro passo para diferenciar distúrbios de hemostasia primária de coagulopatias mais graves.

  • Diátese Hemorrágica: Termo clínico para a tendência aumentada do paciente apresentar sangramentos, sendo a trombocitopenia a causa mais comum.
  • Trombocitopenia: Redução quantitativa de plaquetas ( plaquetopenia ), fundamental para a formação do tampão plaquetário.
  • Trombocitopatia: Alterações na função plaquetária que englobam defeitos nos processos de adesão e agregação.
  • Sangramentos Superficiais: Forma como os distúrbios de hemostasia primária tipicamente se manifestam em pele e mucosas.
  • Petéquias: Pontos hemorrágicos menores que 1 cm, sinal patognomônico de trombocitopenia ou trombocitopatia.
  • Púrpura: Caracterizada quando a mancha hemorrágica apresenta tamanho superior a 1 centímetro.
  • Sangramento em Lençol: Hemorragia difusa em múltiplos pontos simultâneos na qual não se identifica um vaso específico.

Sinais de Falhas na Hemostasia Secundária

Diferente dos defeitos primários, os distúrbios da hemostasia secundária ocorrem quando deficiências ou alterações nos fatores de coagulação geram interferência na cascata de coagulação, manifestando se por:

  • Sangramentos Cavitários: Os distúrbios da hemostasia secundária manifestam se por sangramentos em cavidades, como hemotórax, hemabdômen ou hemartrose.
  • Hematoma Extenso: A manifestação de um hematoma extenso é um sinal sugestivo para a suspeita de doença hemostática, geralmente ocorrendo de forma profunda após traumas mínimos.
  • Claudicação: O histórico de claudicação é um indicativo para suspeitar de hemartrose em pacientes com hemorragia intra articular.

Manifestações Hemorrágicas Comuns a Ambas Vias

Algumas manifestações hemorrágicas são consideradas inespecíficas porque podem surgir tanto por falhas na hemostasia primária quanto na secundária, impedindo a diferenciação apenas pelo exame físico. Entre esses sinais, destacam se a epistaxe (sangramento nasal), a hematúria e o hifema, caracterizado pelo acúmulo de sangue na câmara anterior do olho, especificamente entre a córnea e a íris. No trato gastrointestinal, devemos diferenciar a melena, que é o sangue já digerido nas fezes, da hematoquezia, que se apresenta como sangue vivo e fresco.

Além dessas, sangramentos que persistem por tempo prolongado após venopunções ou procedimentos cirúrgicos também são sinais de alerta para investigação de ambas as vias. Um ponto importante de diferenciação é a hemoptise (ou hemoptida ), em que o sangue originado do pulmão ou trato respiratório é exteriorizado pela tosse. Diferente dos outros sinais citados, a ocorrência de hemoptise tipicamente indica um distúrbio associado à hemostasia secundária.

Testes Diagnósticos de Hemostasia

Investigação Quantitativa e Qualitativa das Plaquetas

A investigação da hemostasia primária deve sempre contemplar uma avaliação clínica das plaquetas que considere tanto o seu número quanto a sua função. Em termos laboratoriais, o valor de referência mínimo esperado é de aproximadamente 200.000 plaquetas/μL. Quando os níveis caem abaixo de 100.000 plaquetas/μL, o quadro torna se clinicamente significativo devido ao aumento do risco cirúrgico, exigindo cautela extrema em qualquer procedimento invasivo.

Cenários mais críticos ocorrem em níveis inferiores a 50.000 plaquetas/μL, patamar em que as hemorragias espontâneas tornam se achados comuns. No entanto, se o paciente apresenta sangramentos superficiais, mas a contagem plaquetária está normal, o clínico deve direcionar o diagnóstico para as trombocitopatias, que representam os distúrbios qualitativos da função dessas células.

Execução e Interpretação do Teste TSMO

O Tempo de Sangramento da Mucosa Oral (TSMO) é o teste padrão para avaliar a função plaquetária. A execução consiste em um corte padronizado na mucosa do lábio ou, no caso de felinos domésticos, na orelha, devido à maior facilidade de manipulação nessa espécie. Utilizando um dispositivo tipo Simplate ou lâmina de bisturi, cronometra se o tempo até o estancamento; em animais normais, a cessação do sangramento deve ocorrer em menos de 5 minutos.

É fundamental destacar que a função plaquetária só deve ser investigada se a contagem numérica de plaquetas estiver dentro da faixa normal, pois a trombocitopenia prolongará o tempo e invalidará a avaliação funcional. Um exemplo clássico é a doença de Von Willebrand, na qual a contagem de plaquetas costuma ser normal (desde que não haja perda sanguínea excessiva), mas o TSMO encontra se aumentado. Para o diagnóstico definitivo desta afecção, recomenda se a quantificação do fator de Von Willebrand em laboratórios especializados.

Avaliação da Coagulação via TP e TTPA

Para avaliar a hemostasia secundária, utilizamos o Tempo de Protrombina (TP), que analisa a via extrínseca e a via comum, e o Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA), focado nas vias intrínseca e comum. É importante lembrar que a cascata de coagulação é dividida em via intrínseca, via extrínseca e via comum. Na prática clínica, uma alteração isolada no teste de TP direciona o diagnóstico para a via extrínseca, que tem como principal componente o fator VII. Por outro lado, se apenas o TTPA estiver aumentado, a investigação foca na via intrínseca, o que pode ocorrer por comprometimento do fator VIII. Caso haja um comprometimento na via comum, ambos os testes se alteram simultaneamente.

A qualidade da amostra é determinante, por isso os testes de TP e TTPA são realizados em tubos de tampa azul ( citrato de sódio ), que devem ser preenchidos rigorosamente até o volume especificado. Esse cuidado garante a proporção correta entre o sangue e o anticoagulante. Além disso, a técnica de coleta deve ser precisa: o uso de seringas pode ativar a cascata de coagulação em poucos segundos e o garroteamento prolongado deve ser evitado, pois esse estímulo ativa precocemente a cascata, interferindo no resultado laboratorial.

Distúrbios Plaquetários Específicos

Fisiopatologia da Síndrome de Evans em Cães

A Intersecção entre a Destruição de Hemácias e Plaquetas

A trombocitopenia pode ser desencadeada por consumo, falta de produção ou pela destruição imunomediada das plaquetas. A Síndrome de Evans consiste na presença concomitante de anemia hemolítica imunomediada e trombocitopenia imunomediada, resultando em um quadro clínico grave onde o organismo ataca múltiplas linhagens celulares simultaneamente.

Para o diagnóstico preciso, é obrigatório realizar a exclusão de causas infecciosas que mimetizam esses quadros, sendo a erliquiose uma das causas mais frequentes de trombocitopenia na rotina clínica. Uma vez confirmado o caráter imunomediado, o protocolo terapêutico baseia se na imunossupressão rápida com corticosteroides para interromper a destruição celular.

Fisiopatologia e Predisposição da Doença

A doença de von Willebrand (também referida como doença de volvíra ) é uma desordem hereditária e congênita da hemostasia que pode afetar cães e gatos. Ela decorre da deficiência do fator de von Willebrand, uma proteína essencial para o início da hemostasia primária. Como a adesão plaquetária ao endotélio depende diretamente desse fator, sua ausência ou redução impede o processo de adesão, o que configura uma causa clássica de trombocitopatia.

É fundamental destacar que o fator de von Willebrand não é um fator de coagulação propriamente dito e não possui relação direta com a cascata de coagulação. Essa afecção pode acometer mais de 60 raças de cães, sendo a raça Doberman a que apresenta notória predisposição, embora cães sem raça definida (vira latas) também possam ser afetados.

Manifestações Clínicas e Associação com Fator VIII

Por ser uma doença congênita, os cães afetados pela doença de von Willebrand manifestam episódios de sangramento desde muito jovens. Em fêmeas, um achado clínico importante é o sangramento excessivo observado após o período de estro (cio) ou no pós parto.

Fisiologicamente, o fator de von Willebrand circula no sangue associado ao fator VIII da cascata de coagulação, sendo essencial para que este circule de forma estável. Em casos muito graves da doença, ocorre uma deficiência concomitante do fator VIII; nessas situações, o animal pode apresentar hematomas decorrentes dessa deficiência secundária.

Padrão de Herança Genética na Hemofilia

A hemofilia é uma desordem genética ligada ao cromossomo X, afetando principalmente os machos e sendo transmitida através de fêmeas portadoras. Esse padrão de herança é um ponto crucial para entender a ocorrência da doença na rotina da clínica veterinária.

Clinicamente, a gravidade das hemorragias na hemofilia varia de moderada a grave e depende diretamente do grau de deficiência do fator de coagulação acometido. Essa correlação direta explica por que alguns pacientes manifestam sinais mais sutis enquanto outros apresentam quadros hemorrágicos severos.

Coagulopatias Adquiridas e Hereditárias

Fisiopatologia e o Papel Hepático na Coagulação

A ingestão de raticidas é uma causa comum de coagulopatia adquirida, assim como doenças hepáticas graves, visto que o fígado é o sítio de produção da maioria dos fatores de coagulação. Em pacientes com lesão hepática grave, pode ocorrer deficiência de vitamina K; no entanto, se o fígado estiver funcionalmente incapaz de produzir os fatores de coagulação, a suplementação de vitamina K terá pouca eficácia.

Os raticidas modernos (derivados cumarínicos) bloqueiam a enzima hepática que converte a vitamina K inativa ( vitamina K3 ou menadiona ) em vitamina K1 ativa. Sem essa conversão, a síntese dos fatores II, VII, IX e X — que são dependentes de vitamina K — é interrompida, levando ao quadro hemorrágico clínico.

Manifestações Clínicas e Diagnóstico da Intoxicação

Compreender o intervalo entre a ingestão e os sintomas, além dos marcadores diagnósticos, é essencial para o manejo da intoxicação por raticidas anticoagulantes.

  • Tempo de Latência: O quadro clínico manifesta se de 1 a 5 dias após a ingestão do veneno.
  • Principal Letalidade: O óbito ocorre frequentemente com efusão pleural e dispneia grave.
  • Diagnóstico e Transmissão: Os compostos raticidas podem ser detectados no fígado, vômito ou fezes, e na urina por até cinco dias. Notavelmente, a contagem de plaquetas costuma estar normal. Em cadelas lactantes, os filhotes devem ser separados devido à transmissão do veneno pelo leite.
  • Evolução Clínica: O diagnóstico de coagulação vascular disseminada (CIVD) é fundamental para o prognóstico, que tende a ser desfavorável nesses casos.

Protocolo de Tratamento com Vitamina K1

O tratamento de escolha para a intoxicação por raticidas cumarínicos é a administração de vitamina K. É crucial notar que esses venenos impedem a conversão da vitamina K3 (ou menadiona ) em sua forma ativa, o que torna o uso da K3 ineficaz para cães e gatos intoxicados.

Por esse motivo, o clínico deve administrar obrigatoriamente a vitamina K1 ( fitomenadiona ), popularmente conhecida pelo nome comercial Canapion. Devido à persistência dos raticidas modernos no organismo por três a quatro semanas, o protocolo de tratamento deve ser estendido por quatro semanas para garantir a total segurança do paciente.

Consumo Hemostático na Coagulação Intravascular Disseminada

A CIVD não é uma patologia primária, mas uma complicação grave de processos sistêmicos como sepse, pancreatite ou neoplasias. Nesse distúrbio, ocorre ativação generalizada da coagulação com formação de microtrombos, consumindo fatores de forma descontrolada. Como esse processo é sistêmico, acaba consumindo fatores e plaquetas, o que esgota a capacidade hemostática e resulta em hemorragias graves por falta de componentes para a coagulação normal.

Laboratorialmente, observamos trombocitopenia, o prolongamento de TP/TTPA e a hipofibrinogenemia, além de PDFs elevados. No hemograma, é característica a presença de esquistócitos, que são hemácias fragmentadas ou danificadas mecanicamente pela ação da fibrina circulante. Portanto, a detecção de esquistócitos no hemograma de um animal enfermo levanta a suspeita clínica de CIVD.

Particularidades Clínicas do Acidente Botrópico

No Brasil, os acidentes botrópicos correspondem a 80% dos acidentes ofídicos, tendo a Bothrops (como a jararaca ) como sua principal representante. O veneno possui ações necrosante, vasculotóxica e nefrotóxica, o que clinicamente se manifesta através da formação de edema importante no local da picada, podendo evoluir para a insuficiência renal aguda no paciente afetado.

Do ponto de vista fisiopatológico, o veneno botrópico ativa diretamente o fibrinogênio e a protrombina. Esse processo afeta a via comum da cascata de coagulação, o que resulta no prolongamento dos tempos de coagulação e em uma acentuada diminuição do fibrinogênio circulante.

Gravidade e Manifestações do Acidente Crotálico

Diferente do acidente botrópico, o acidente crotálico (cascavel) não costuma provocar edema no local da picada. No entanto, o veneno possui uma ação fibrinolítica rápida, sendo a picada de cascavel considerada mais grave do que a de jararaca.

O veneno também possui ação miotóxica, que causa lesão muscular e pode escurecer a urina devido à eliminação de mioglobinúria ou hemoglobinúria. Em humanos, observam se sinais neurológicos importantes como tremores, ptose palpebral e dificuldade respiratória.

Hematologicamente, os tempos de coagulação ( TP e TTPA ) apresentam se prolongados e a concentração de fibrinogênio apresenta se diminuída. Devido ao alto risco de insuficiência renal aguda, o paciente deve permanecer internado sob monitoramento constante.

Protocolo de Soroterapia e Monitoramento

O soro antiofídico é o tratamento de escolha para reverter o envenenamento por picadas de Bothrops (jararaca) ou Crotalus (cascavel). A administração desse imunobiológico é fundamental para a neutralização das toxinas circulantes. Não se deve negligenciar a precocidade da terapia, sendo que, em termos de dosagem, estima se que um frasco de 20 mL de soro seja suficiente para neutralizar o veneno de uma picada típica de qualquer uma dessas espécies.

Para guiar a condução clínica e avaliar a necessidade de uma nova aplicação de soro, o monitoramento laboratorial é essencial. Nesse cenário, o tempo de protrombina (TP) é o parâmetro preferível em relação ao TTPA. Essa preferência ocorre porque o TP possui uma meia vida mais curta, refletindo com maior agilidade a eficácia da neutralização do veneno e a recuperação da hemostasia do paciente.

Remoção Correta de Ferrões de Abelha

Ao realizar a remoção do aparelho inoculador em acidentes por himenópteros, nunca utilize pinças. Apertar o ferrão de uma abelha com uma pinça durante a remoção deve ser evitado, pois isso injeta mais veneno na vítima ao comprimir o saco de veneno residual; a conduta clínica recomendada é a raspagem do local para evitar essa compressão.

Diferenciação Diagnóstica das Hemofilias A e B

As hemofilias são doenças hereditárias e congênitas que afetam cães e gatos, manifestando se em animais jovens através de hematomas e sangramentos. Por ser uma condição ligada ao cromossomo X, essa coagulopatia acomete majoritariamente machos. A Hemofilia A decorre da falta do fator VIII, enquanto a Hemofilia B é causada pela deficiência do fator IX da coagulação.

Laboratorialmente, observa se TTPA prolongado com TP normal, indicando alteração na via intrínseca. O paciente apresenta uma contagem plaquetária normal, porém o tampão plaquetário frágil causa sangramentos posteriores. Assim, o tempo de sangramento é normal porque esse teste avalia a hemostasia primária (função das plaquetas). O manejo clínico envolve a reposição de fatores por meio de transfusões de plasma.

Manejo e Terapia do Paciente Hemorrágico

Uso Terapêutico de Hemocomponentes na Emergência

Na medicina de emergência, o sangue total fresco é o recurso mais completo por conter todos os fatores e plaquetas viáveis, desde que utilizado logo após a coleta. Em contraste, as bolsas de sangue estocado perdem a viabilidade desses componentes essenciais com o passar do tempo. A transfusão de sangue total é indicada quando múltiplos parâmetros sanguíneos do receptor estão baixos, porém, se o hematócrito do receptor estiver elevado, o procedimento pode não ser indicado.

Para reposição específica de fatores de coagulação, o plasma fresco congelado é a escolha ideal. Essa estratégia representa o pilar do manejo clínico das hemofilias, visto que não existe cura definitiva para essa patologia. Como suporte adicional, o uso de ácido tranexâmico (Transamin) pode ser um importante coadjuvante ao inibir a fibrinólise, sendo útil inclusive em quadros de origem cirúrgica por facilitar a ação das plaquetas.

Manejo Seguro e Contraindicações Clínicas Críticas

O manejo de pacientes com distúrbios de hemostasia deve ser extremamente delicado para evitar complicações fatais. Devem se evitar injeções intramusculares e venopunções em vasos de grande calibre, como a veia jugular, devido ao elevado risco de hematomas compressivos. Além disso, o controle de ectoparasitas e endoparasitas é crucial para evitar que o animal sofra perdas sanguíneas adicionais e redução do hematócrito por espoliação.

Na rotina de cuidados, recomenda se o fornecimento de alimentação pastosa para evitar microlesões na mucosa oral e gastrointestinal que poderiam desencadear novos sangramentos. É importante destacar que hematomas não devem ser drenados, pois esse procedimento estimula novos sangramentos no local e agrava o quadro clínico. Por fim, o clínico deve estar atento para evitar fármacos que interfiram ou prejudiquem o processo de hemostasia em pacientes propensos a hemorragias.

Reflexão Sion

O Equilíbrio da Restauração

A hemostasia exige um equilíbrio milimétrico entre hemorragia e trombose para manter a vida dos animais fluindo de forma segura. Assim como redes de fibrina agem no silêncio para fechar as feridas físicas, Deus opera nos bastidores para estancar as dores da nossa alma. Jesus é o restaurador perfeito que nos acolhe, trazendo cura profunda e o equilíbrio que tanto necessitamos.

Só ele cura os de coração quebrantado e cuida das suas feridas.Salmos 147:3

Abra a sua Bíblia no Salmo 147 e medite no cuidado de Deus hoje.

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