Sion Academy
Abordagem Clínica e Cirúrgica das Obstruções do Trato Digestório Superior em Ruminantes
Dinâmica de Gases e Controle Neurológico
Topicos da aula
- Obstruções
Dinâmica de Gases e Controle Neurológico
A fisiologia da motilidade ruminal e o processo de eructação constituem mecanismos vitais para a sobrevivência dos ruminantes, sendo fundamentais para a manutenção do equilíbrio digestório. Todo esse sistema é coordenado pela inervação do nervo vago, correspondente ao 10º par de nervos cranianos, que possui ramificações essenciais para o controle dessas atividades motoras superiores.
O processo de fermentação ruminal gera um volume expressivo de gases diariamente, podendo atingir aproximadamente 600 litros em um bovino. A composição química desse gás ruminal é caracterizada por uma predominância de gás carbônico (CO2), que representa cerca de 65%, seguido pelo metano (26%) e pelo nitrogênio (7%).
Bases Anatômicas e Funcionais
Estruturas Críticas para a Dinâmica Digestiva
A anatomia dos bovinos apresenta características marcantes, como a presença de treze costelas em cada lado do corpo. No exame físico e clínico, é fundamental observar que a porção cervical do esôfago localiza se na região do pescoço, especificamente do lado esquerdo.
A motilidade do rúmen é um processo coordenado onde ocorre a contração do saco dorsal em sentido caudal, enquanto o saco ventral se contrai em sentido cranial. Esse dinamismo é essencial para a eructação, processo que acontece frequentemente associado a uma contração acessória do rúmen com o concomitante relaxamento da cárdia.
No processamento do alimento, o retículo desempenha o papel de selecionar a passagem de partículas alimentares, permitindo apenas o fluxo do conteúdo que deve prosseguir no trato. Ao chegar no abomaso, conhecido popularmente como 'coagulador', a alta concentração de ácido clorídrico (HCl) atua promovendo a coagulação do leite ingerido pelo animal.
Obstrução Esofágica Mecânica (Choke)
- Choke: termo utilizado para descrever a obstrução esofágica causada pela compactação de alimento seco, como ração.
- Etiologia intraluminal: além da compactação de alimento, corpos estranhos como caroços de manga, maracujá ou abacate são causas frequentes de obstrução.
- Mecanismo fisiopatológico: a obstrução impede que o animal consiga deglutir o alimento e realizar a eructação, resultando no acúmulo de gases produzidos no rúmen.
- Sinais clínicos e postura: o animal apresenta salivação intensa por incapacidade de deglutir a própria saliva, dificuldade respiratória e postura característica com pescoço estendido e membros torácicos elevados.
- Manifestação abdominal: o bloqueio da eructação leva ao timpanismo, identificado no exame físico pelo aumento de volume e distensão ruminal no flanco esquerdo.
- Particularidades em bezerros: o megaesôfago se manifesta com regurgitação, refluxo de leite pelas narinas e pode resultar em pneumonia por aspiração.
Intoxicação por Samambaia e Neoplasias
Efeito Radiomimético e Carcinogênese A samambaia do campo (Pteridium aquilinum) é uma planta rizomatosa que se desenvolve preferencialmente em solos ácidos, surgindo frequentemente antes do capim após a realização de queimadas. O manejo preventivo desta toxicose envolve a calagem com calcário, que alcaliniza o solo e impede o crescimento da planta. O perigo reside no princípio ativo ptaquilosídeo, que apresenta fatores radiomiméticos nocivos aos ruminantes. A ingestão crônica da samambaia provoca o desenvolvimento de carcinoma espinocelular no trato digestório superior, como o esôfago, e pode estar associada a neoplasias na bexiga. Essas lesões na base da língua ou na garganta são popularmente chamadas de 'Caraguatá' ou 'Crave na goela'. Adicionalmente, obstruções intramurais na parede esofágica podem ser causadas por papilomas intraesofágicos de etiologia viral.
Efeitos Sistêmicos do Ptaquilosídeo
- Intoxicação aguda: A ingestão de grandes quantidades em curto período provoca diátese hemorrágica e pancitopenia por ação direta na medula óssea, manifestando se em sangramentos nasais, fecais e em ferimentos.
- Neoplasias na bexiga: Indução de diversos tipos de câncer, como carcinoma e hemangioma, que resultam na hematúria enzoótica bovina, caracterizada pelo sangramento urinário persistente.
- Deficiência de Tiamina em equinos: A presença da enzima tiaminase destrói a vitamina B1, causando um quadro neurológico de poliencefalomalácia com necrose da substância cinzenta.
- Degeneração retinal em ovelhas: O consumo da planta pode levar à cegueira progressiva decorrente da degeneração da retina.
Compressões Extramurais e Leucose
Mecanismos de Estenose na Leucose Enzoótica
A Leucose Enzoótica dos Bovinos, enfermidade retroviral de alta prevalência no Paraná, pode desencadear quadros obstrutivos através de sua forma tumoral. A linfadenopatia resultante gera uma compressão extramural sobre o esôfago, dificultando mecanicamente o trânsito do conteúdo alimentar.
Além da pressão externa, a leucose é capaz de causar uma estenose funcional significativa. Isso ocorre tanto pela compressão direta quanto pela infiltração neoplásica no nervo vago, o que compromete o controle neurológico da motilidade esofágica.
Diferente das obstruções agudas por corpos estranhos, os problemas intramurais ou extramurais decorrentes de linfonodos aumentados frequentemente se manifestam como obstruções esofágicas intermitentes, refletindo a natureza progressiva das massas tumorais.
Obstruções de Orifícios e Bezoários
- Mecanismo de fluxo: diferente das compressões extraturais, o impedimento direto no orifício retículo omasal interrompe a passagem do conteúdo alimentar, resultando no preenchimento progressivo dos pré estômagos.
- Seletividade de partículas: o orifício retículo omasal exerce uma função seletiva, permitindo que apenas partículas alimentares menores que um centímetro consigam atravessá lo.
- Fitobezoários: massas ou estruturas esféricas formadas a partir do acúmulo de restos de plantas e material mineral.
- Tricobezoários: bezoários constituídos por acúmulo de pelos, podendo ser encontrados em gatos e bezerros.
- Materiais inertes e resíduos: a ingestão de sacos plásticos é uma causa frequente de entupimento em ruminantes, embora caroços de manga que progridem até o rúmen geralmente não causem obstruções posteriores no orifício retículo omasal.
Fisiopatologia da Estase e Sinais Fecais
Mecanismos de Paralisia e Manifestações Clínicas
O aumento da pressão intracavitária, provocado pelo acúmulo de alimento sólido ou gás, estimula receptores de alta pressão que desencadeiam a paralisia ruminal. Com a interrupção dos ciclos de contração, o processo de eructação é impedido, o que frequentemente resulta em timpanismo e no aumento de volume evidente no lado esquerdo do animal, tanto na região superior quanto na inferior.
Na propedêutica física, a percussão da parte superior do rúmen revela um som hipersonoro devido ao gás retido, enquanto as áreas inferiores apresentam som sub maciço pelo acúmulo de conteúdo sólido. Esses processos obstrutivos, incluindo casos de síndrome de Hoflund, tendem a reduzir drasticamente a frequência e a quantidade de dejeções.
As alterações fecais são indicadores clínicos cruciais: as fezes podem assumir um aspecto graxento, pegajoso e apresentar a presença de muco. Além disso, quando ocorre o comprometimento do retículo, nota se a presença de partículas alimentares maiores nos dejetos, evidenciando a falha no processamento e fluxo normal do conteúdo digestivo pelos pré estômagos.
Paraqueratose Ruminal
A paraqueratose ruminal caracteriza se como uma hiperqueratinização da parede do rúmen. Este processo de degeneração da mucosa ruminal está diretamente relacionado ao manejo nutricional, especificamente à oferta de alimentação que gera quadros de acidose lática crônica.
Etiopatogenia da Síndrome de Hoflund
- Síndrome de Hoflund: também conhecida como estenose funcional, indigestão vagal ou síndrome de HF, esta condição decorre de falhas na motilidade por danos ao nervo vago.
- Estenose funcional: caracteriza se pela dificuldade ou ausência de passagem de alimento, mesmo que a luz do orifício não esteja fisicamente diminuída.
- Reticuloperitonite traumática: consiste na principal causa da estenose funcional, atuando como uma complicação inflamatória direta.
- Processos inflamatórios de vizinhança: pleuropneumonia, pericardite, frenite e hepatite podem comprometer o nervo vago e desencadear o quadro de estenose funcional.
- Comprometimento abomasal: a abomasite e a úlcera abomasal podem evoluir para a síndrome devido à lesão das ramificações do nervo vago no abomaso.
- Actinobacilose: enfermidade causada pela bactéria Actinobacillus lignieresii, capaz de afetar a via digestória e gerar estenose funcional.
- Fatores conformacionais: problemas anatômicos frequentes em minivacas podem mimetizar as manifestações clínicas da síndrome de Hoflund.
Neuroanatomia do Vago (X Par)
Distribuição dos Ramos Nervosos
O nervo vago, correspondente ao 10º par craniano, é o principal responsável pela inervação da parede gástrica nos ruminantes. Durante seu trajeto descendente em direção à parte perienal, o nervo se divide em vago direito e vago esquerdo.
Essas divisões emitem ramos dorsais e ventrais que coordenam a motilidade gástrica. O nervo vago dorsal direciona seus ramos principalmente para o rúmen, enquanto o vago ventral é responsável pela inervação do retículo, do omaso e do abomaso.
Estenose Anterior vs. Posterior
Classificação da Síndrome de Hoflund
A síndrome de Hoflund é classificada clinicamente em estenose funcional anterior e estenose funcional posterior. Na avaliação da lesão vagal que desencadeia o quadro, a localização exata do dano no nervo vago é considerada um fator mais relevante para o diagnóstico do que a extensão ou o tamanho físico da lesão.
A estenose funcional anterior localiza se no orifício retículo omasal. Como consequência da falha de motilidade e passagem de conteúdo nessa região, o retículo dilatado pode assumir um formato característico semelhante a um pequeno saco.
Por outro lado, a estenose funcional posterior localiza se no orifício pilórico. O comprometimento dessa via causa o acúmulo de alimento no piloro, levando ao aumento do volume do abomaso. Além da distensão abomasal, ocorre o refluxo do conteúdo gástrico para as câmaras anteriores, especificamente para o omaso e o rúmen.
Paralisia Vagal e Vagotonia
- Paralisia Vagal: Condição resultante de lesões no nervo vago ou em suas ramificações que provoca a perda de tônus (atonia) e a consequente distensão e dilatação dos órgãos afetados, como o retículo e o abomaso.
- Relaxamento de Orifícios: Característica marcante da paralisia vagal onde ocorre o relaxamento do orifício retículo omasal, permitindo geralmente a passagem de três a quatro dedos.
- Vagotonia: Estado de funcionamento excessivo do nervo vago, no qual o nervo envia uma quantidade de estímulos superior ao normal para o sistema digestório.
- Impactos Clínicos da Vagotonia: Manifesta se através de um aumento inicial da motilidade ruminal e gastrointestinal, além de provocar bradicardia no animal devido ao excesso de estímulo parassimpático.
Paralisia Vagal e Vagotonia (cont. 2)
- Dilatação do rúmen: Manifestação decorrente da paralisia vagal, levando ao acúmulo de conteúdo por perda de motilidade.
- Timpanismo recidivante: Condição clínica caracterizada por episódios de melhora e piora na distensão gasosa, resultante do comprometimento da inervação vagal.
Emergência e Manejo do Timpanismo
Risco de Morte por Compressão Diafragmática A obstrução esofágica completa é considerada uma emergência médica crítica devido ao risco de morte decorrente da compressão do diafragma pelo acúmulo excessivo de gases no rúmen. Para o alívio imediato desse timpanismo, utiliza se um trocarte inserido em posição alta no flanco esquerdo, próximo à última costela, permitindo atingir a bolsa de gás ruminal de forma eficaz. O tratamento padrão consiste na lubrificação com óleo mineral e no uso de uma sonda para tentar empurrar o objeto obstrutor; na ausência de óleo mineral, o óleo de cozinha pode ser utilizado como substituto. Já em casos específicos de obstrução por ração compactada, o manejo conservativo envolve a lavagem esofágica vagarosa com água morna.
Rumenotomia Exploratória e Terapêutica
- Acesso e Anestesia: Realizar a laparotomia pelo lado esquerdo com o bovino em pé, utilizando anestesia local com lidocaína a 2% sem vasoconstritor.
- Exploração do Cárdia e Retículo: Utilizar a rumenotomia exploratória para identificar e remover obstruções localizadas próximas ao cárdia e avaliar o orifício retículo omasal.
- Avaliação de Patologias: Palpar o orifício retículo omasal, que geralmente se apresenta relaxado em casos de patologias digestivas que exigem exploração cirúrgica.
- Drenagem de Abscessos: Proceder à drenagem de abscessos localizados na parede do retículo diretamente para o interior do rúmen durante a cirurgia.
- Instalação da Chaminé: Fixar uma sonda no rúmen (técnica da chaminé) para permitir a liberação contínua de gases acumulados no pós operatório.
- Manutenção Pós operatória: Manter a mangueira utilizada como chaminé por um período de uma semana a dez dias para garantir a estabilidade do quadro.
Pós operatório e Transfaunação
O manejo pós operatório em casos de obstruções superiores exige cuidados específicos, especialmente na esofagotomia, que é considerada uma intervenção de recuperação complicada até para cirurgiões experientes. Uma alternativa terapêutica importante para o manejo desses pacientes é a fístula ruminal, utilizada estrategicamente para aliviar a pressão intraruminal através da liberação contínua de gases.
Para os casos de indigestão vagal, o protocolo clínico inclui a administração de antibióticos e anti inflamatórios com o objetivo de reduzir a inflamação na região da lesão do nervo vago. Além da terapia medicamentosa, a transfaunação — que consiste na administração de conteúdo ruminal vivo — destaca se como uma prática essencial para restaurar a microbiota e promover a plena recuperação da saúde gastrointestinal.
Posicionamento e Lesão do Nervo Radial
A manutenção de bovinos em decúbito lateral sobre superfícies duras por períodos superiores a algumas horas pode resultar na lesão do nervo radial. Esta condição é grave, pois provoca a impotência funcional do membro torácico e a incapacidade total de apoio do animal. Durante o posicionamento para intervenções, deve se preferir o decúbito esternal ou o decúbito lateral direito. A escolha pelo lado direito oferece vantagens clínicas importantes, permitindo melhor visualização, percussão e manejo de gases ruminais. Por outro lado, o decúbito lateral esquerdo deve ser evitado sempre que possível, uma vez que o rúmen exerce compressão sobre o diafragma, prejudicando a respiração e favorecendo o quadro de timpanismo.
Diagnósticos Diferenciais
- Deficiência de Tiamina: o tratamento para quadros neurológicos decorrentes dessa carência deve ser realizado obrigatoriamente com a aplicação de Tiamina (Vitamina B1), uma vez que a Vitamina B12 não supre essa necessidade específica.
- Hipocalcemia: consiste em uma condição metabólica comum em vacas no período de pós parto imediato, manifestando se clinicamente em até 24 horas após o parto.
Referências e Literatura
- Smith: autor do 'Tratado de Medicina Interna', obra que constitui referência fundamental para o estudo da fisiopatologia das doenças.
- Constable: autor de 'Clínica Veterinária: Medicina em Grandes Animais', que serve como referência para o atendimento de suínos, equinos e ruminantes.
- Sorria: autor de obra em sua quarta edição que detalha as doenças e as plantas tóxicas com maior prevalência no território brasileiro.
Dicas Para Provas
| Dicas Para Provas |
|---|
| O teste da atropina é positivo quando há aumento 16% na frequência cardíaca após 15 minutos, sugerindo síndrome de Hoflund. |
| A bradicardia patológica em bovinos é caracterizada por frequências abaixo de 60 65 batimentos por minuto. |
| Diferencial de sialorreia: organofosforados aumentam a produção salivar, enquanto obstruções mecânicas impedem a deglutição. |
| O refluxo abomasal em estenoses posteriores pode ser confirmado pela dosagem de cloretos no suco ruminal. |
Alívio e Restauração
A obstrução esofágica nos ruminantes impede o alívio dos gases e sufoca a vida, provando que o bem estar depende de um fluxo livre e coordenado. Assim como o corpo precisa dessa fluidez, nossa alma adoece quando permitimos que bloqueios internos nos afastem da presença de Deus. Jesus é quem identifica nossas obstruções mais profundas e restaura em nós o fôlego da verdadeira esperança.
Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.Mateus 11:28
Leia Mateus 11 e descubra o descanso que Jesus oferece.