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MedVet6 PeríodoMedicina de RuminantesP2

Medicina de Ruminantes: Distúrbios Neonatais e Afecções do Abomaso

A Vulnerabilidade nos Primeiros Dias

Duracao: 21 min

Topicos da aula

  • Acidose Láctica Ruminal e Deslocamento de Abomaso

Overview

Visão Geral da Aula

Esta aula aborda os desafios críticos da clínica de ruminantes, focando inicialmente na fisiopatologia da desidratação e da acidose metabólica em bezerros neonatos. Você aprenderá a identificar graus de hipovolemia, a importância do bicarbonato e os riscos da hipercalemia relativa durante a fluidoterapia. Em seguida, o conteúdo explora o deslocamento de abomaso, especialmente em vacas leiteiras de alta performance, diferenciando o deslocamento à esquerda (DAE) da emergencial torção à direita. Compreenderemos as manobras diagnósticas essenciais, como o ping metálico, e os desequilíbrios entre alcalose hipoclorêmica e acidose sistêmica. Por fim, discutiremos protocolos de tratamento, desde a reidratação estratégica até intervenções cirúrgicas como a omentopexia, fundamentais para a sobrevivência e a viabilidade produtiva do rebanho bovino.

Fisiopatologia da Desidratação e Acidose em Bezerros Neonatos

O Período Neonatal e Riscos Iniciais

A Vulnerabilidade nos Primeiros Dias

O período neonatal em bezerros é classicamente definido como as duas primeiras semanas de vida, embora exista uma variação em que alguns autores considerem até os primeiros 28 a 30 dias como correspondentes ao período de aleitamento. Em sistemas de corte, esse intervalo pode ser muito mais longo, chegando a durar de seis a sete meses enquanto o bezerro permanece com a vaca no pasto.

A fase inicial de vida é marcada por uma elevada suscetibilidade a distúrbios metabólicos e infecciosos. Por isso, o manejo deve ser rigoroso, exigindo uma intervenção rápida diante de enfermidades como a diarreia neonatal, que demanda cuidado imediato para evitar complicações sistêmicas.

Gênese da Acidose Metabólica

O desenvolvimento da acidose metabólica em bezerros neonatos com diarreia segue uma sequência lógica iniciada pela desidratação e falha na perfusão sanguínea.

  1. Perda de Fluidos: A diarreia gera hipovolemia, a qual reduz a pressão arterial do animal.
  2. Hipoperfusão Renal: A queda pressórica diminui a perfusão renal e, consequentemente, a taxa de filtração glomerular.
  3. Retenção de Ácidos: A diminuição da perfusão renal diminui a excreção de hidrogênio (H+), contribuindo para a acidose metabólica.
  4. Hipoperfusão Tecidual: A hipovolemia sistêmica causa a diminuição da perfusão tecidual profunda.
  5. Metabolismo Anaeróbico: A diminuição da perfusão tecidual gera metabolismo anaeróbico celular e consequente produção de ácido lático.

Perda de Tampões e Exacerbação

Além da baixa perfusão tecidual, o quadro clínico é agravado pela fermentação anômala de lactose e ácidos graxos no lúmen intestinal, que resulta na produção de D lactato. Uma vez absorvido, esse composto intensifica a acidose sistêmica. Paralelamente, ocorre uma perda massiva de eletrólitos como sódio, cloreto e potássio, mas o ponto crucial é que os bezerros com diarreia perdem bicarbonato de sódio diretamente nas fezes.

A depleção desse tampão fundamental incapacita o organismo de neutralizar os íons de hidrogênio (H+) acumulados, consolidando um quadro de acidose metabólica grave que, associada à hipovolemia e à hipotermia, pode levar o neonato ao óbito. Sem o bicarbonato, o animal perde sua principal defesa metabólica contra a queda do pH sanguíneo, acelerando a deterioração clínica.

Hipercalemia Relativa na Desidratação

Bezerros com diarreia apresentam hiponatremia e hipocloremia, mas o potássio exige cautela redobrada: na acidemia, os íons de hidrogênio entram nas células, forçando o potássio intracelular a migrar para o meio extracelular. Assim, embora o animal possua um déficit corporal total de potássio, os níveis séricos elevados caracterizam a hipercalemia relativa. Jamais realize a reposição intravenosa rápida de cloreto de potássio nessas condições, pois o agravamento da hiperpotassemia pode induzir parada cardíaca.

Avaliação Clínica e Protocolos de Fluidoterapia

Sinais Clínicos de Desidratação

A identificação do grau de desidratação em bezerros é feita por meio de parâmetros clínicos que determinam a urgência da fluidoterapia e o prognóstico.

  • Sinais Clínicos: Incluem enoftalmia (olhos fundos na órbita), persistência da prega cutânea, ressecamento das mucosas, taquicardia e taquipneia.
  • Comprometimento Físico: Observa se prostração, perda do reflexo de sucção e evolução para o decúbito esternal ou lateral.
  • Hipotermia: Queda da temperatura corporal para 34 ºC a 35 ºC, o que exige aquecimento externo cuidadoso.
  • Grau Leve: Até 5% de perda hídrica, com sinais detectáveis de forma suave.
  • Grau Moderado: Faixa em que entre 5% e 8%, os sinais são evidentes, destacando se o ressecamento das mucosas.
  • Grau Crítico: Estado situando se entre 8% a 12% de desidratação.
  • Grau Letal: Nível em que graus acima de 15% são considerados incompatíveis com a vida.

Critérios para Escolha de Hidratação

Definição da Via de Administração

A escolha da via de administração depende diretamente da gravidade clínica. Para bezerros com reflexo de sucção preservado, sem prostração severa e com grau de desidratação até 5% ou ligeiramente superior, a hidratação por via oral é a primeira escolha. Trata se de um método econômico, prático e altamente eficiente para a recuperação do animal.

Em contrapartida, casos de desidratação superiores a 5% em animais já podem requerer a instituição de hidratação por via intravenosa, a depender da gravidade do quadro clínico. Quando o déficit atinge níveis críticos, entre 8% e 10%, ou se houver perda do reflexo de sucção, hipotermia severa e choque, a via intravenosa torna se impreterível. Nesses casos, os fluidos devem ser administrados aquecidos entre 37 ºC e 38 ºC.

Seleção de Fluidos e Soluções

Na rotina hospitalar, a escolha do fluido é crucial: a solução de Ringer com Lactato é preferível à solução fisiológica (cloreto de sódio 0,9%), pois a solução fisiológica é considerada uma solução acidificante pela abordagem de íons fortes. Dessa forma, a solução de Ringer com Lactato é preferível à solução fisiológica para o tratamento de hidratação no hospital veterinário, visando um melhor equilíbrio metabólico.

Para a via oral, utilizam se misturas de eletrólitos, agentes alcalinizantes (como acetato) e glicose. O acetato é fundamental nessas soluções pois auxilia na absorção de eletrólitos. O Professor Júlio Lisboa propôs uma solução de hidratação com cloreto de sódio, cloreto de potássio, acetato de sódio e glicose; contudo, elementos químicos fornecidos através de suplementação podem interagir entre si, o que pode prejudicar a absorção dos mesmos pelo organismo.

Restrições na Hidratação Oral

Ao contrário da medicina humana, onde a hidratação infantil utiliza sódio e açúcar, nos bezerros o uso de sacarose é totalmente contraindicado. O animal não possui enzimas para digerir esse açúcar, o que provoca fermentação intestinal e agrava a diarreia osmótica. Adicionalmente, o bicarbonato por via oral pode alcalinizar o abomaso, interferindo na coagulação e absorção do leite. Importante: a diretriz clínica atual é não retirar o leite de animais com diarreia, garantindo o suporte energético necessário.

Cálculo do Volume Repositor

Para uma fluidoterapia eficiente, o médico veterinário deve calcular o volume total considerando o que o animal já perdeu e as necessidades biológicas durante o tratamento.

  1. Cálculo do déficit: Multiplique o peso vivo pelo grau de desidratação para repor a perda total; por exemplo, um bezerro de 40 kg com 10% de desidratação necessita de 4 litros para reposição.
  2. Manutenção hídrica fisiológica: Estime a água perdida na urina, respiração, transpiração e fezes normais, que varia de 60 a 80 ml por kg a cada 24 horas, sendo geralmente fixada em 60 ml por quilo de peso.
  3. Perdas hídricas contínuas: Adicione o volume de diarreia que o animal continua produzindo durante o atendimento, estimado em 20 ml por quilo de peso.
  4. Soma do volume total: O volume total de fluidos a ser administrado em 24 horas resulta da soma de três variáveis: perdas totais (reposição do déficit), manutenção e perdas contínuas.
  5. Infusão e segurança: Administre o primeiro litro de forma relativamente rápida, monitorando a respiração para evitar edema pulmonar por sobrecarga hídrica.

Cálculo do Déficit de Base

Cálculo de Bicarbonato na Acidose

Para corrigir a acidose metabólica grave, é fundamental calcular a quantidade de bicarbonato de sódio necessária com base no déficit de base estimado. Em bezerros, existe uma correlação clínica direta: uma desidratação de 5% a 8% sugere um déficit de 5 a 10 mEq/L, enquanto quadros de 8% a 12% de desidratação indicam um déficit de 10 a 15 mEq/L.

Na ausência de um hemogasômetro para medições exatas da pressão de gases, a conduta é utilizar a fórmula matemática: Déficit de Base (mEq/L) × Peso (kg) × Fator de Correção (0,4). Note que o fator 0,4 é o índice padronizado para o espaço de distribuição hídrica extracelular no neonato, permitindo o ajuste do equilíbrio ácido básico de forma técnica.

Exemplo Prático de Reposição

Acompanhe o passo a passo para calcular a reposição de um bezerro de 40 kg apresentando 10% de desidratação.

  1. Definição do Déficit de Base: Estime o déficit com base na gravidade clínica; para 10% de desidratação, utiliza se 15 mEq/L.
  2. Cálculo da Necessidade Total (mEq): Multiplique o déficit (15) pelo peso (40) e pelo fator de distribuição (0,5), resultando em 300 mEq.
  3. Conversão para Gramas: Como 1 grama de bicarbonato de sódio contém 12 mEq, divida os 300 mEq por 12 para obter 25 gramas da substância.
  4. Cálculo do Volume: Utilizando uma solução comercial de bicarbonato a 5% (onde há 5g em 100 ml), o volume final necessário será de 500 ml.
  5. Infusão e Monitoramento: Administre o volume lentamente por via intravenosa, atento pois a administração excessiva pode transformar a acidose em uma alcalose letal.

Antibioticoterapia Básica Neonatal

Estratégias de Controle Infeccioso

No manejo clínico de bezerros, a prioridade inicial reside na correção do equilíbrio ácido base e na reposição volêmica. Entretanto, a abordagem terapêutica deve frequentemente incluir o controle de infecções que podem ser a causa primária ou complicações secundárias ao estado debilitado do neonato.

Antibióticos como gentamicina, amicacina, sulfadiazina com trimetoprima e enrofloxacina são utilizados em bezerros para assegurar a estabilização clínica. A escolha do fármaco deve considerar a eficácia contra patógenos comuns e a gravidade do quadro infeccioso concomitante.

Manejo, Prevenção e Outras Patologias Neonatais

Manejo da Colostragem e Nutrição

Diretrizes de Imunidade e Manejo Sanitário

A garantia da imunidade passiva no neonato depende exclusivamente de uma colostragem rigorosa. O volume de colostro fornecido deve corresponder a 10% do peso vivo do bezerro nas primeiras horas após o nascimento. A qualidade do colostro é verificada com o uso de colostrômetros de vidro ou refratômetros de Brix. No caso dos refratômetros de Brix (que devem ser calibrados com água destilada antes do uso com uma gota de colostro), o valor ideal de leitura situa se acima de 26.

Quanto à nutrição contínua, recomenda se leite ou sucedâneos de alta qualidade, sem restrição alimentar mesmo em quadros de diarreia. Se for utilizado leite de vacas com mastite, este deve ser obrigatoriamente pasteurizado antes do fornecimento. Além disso, não se deve misturar bezerros de idades diferentes, visto que animais mais velhos podem portar agentes patogênicos e as diferenças de imunidade aumentam o risco para os mais novos.

Precauções em Terapias Neonatais

Atenção redobrada na escolha da antibioticoterapia: nunca utilize antibióticos como gentamicina e enrofloxacina em bezerros recém nascidos. O uso dessas substâncias é contraindicado nessa fase, pois pode alterar a cartilagem dos animais, resultando em danos estruturais permanentes durante o crescimento.

Síndrome do Bebedor Ruminal

A Síndrome do Bebedor Ruminal ocorre quando a goteira esofágica do bezerro não funciona adequadamente, o que acarreta falha, parcial ou total, no seu fechamento durante a amamentação. Como consequência dessa falha mecânica, o leite deposita se no rúmen imaturo do neonato, onde sofre rápida fermentação bacteriana, gerando um ambiente intensamente ácido (pH ao redor de 4). Clinicamente, o animal apresenta desidratação progressiva, retardo no desenvolvimento e diarreia intermitente refratária.

O tratamento consiste na passagem de sonda orogástrica para o esvaziamento do conteúdo ruminal ácido e em ajustes rigorosos no manejo nutricional. Recomenda se a oferta de leite oferecendo o leite em pequenos volumes (ex: 200 ml) de forma fracionada e a utilização de mamadeiras com bicos finos, estimulando a função da goteira esofágica.

Anomalias Congênitas Inviáveis

Alguns neonatos apresentam más formações que inviabilizam o desenvolvimento saudável. A Atresia ani, ou ausência de perfuração anal, causa retenção fecal e dor abdominal aguda. Embora a criação cirúrgica de uma abertura artificial seja tentada, os resultados frequentemente resultam em incontinência fecal contínua devido à ausência de esfíncter, o que gera alopecia perianal e um prognóstico produtivo desfavorável.

Além das afecções gastrointestinais, podem ocorrer defeitos no fechamento do tubo neural, como a acrania parcial ou meningocele (ausência parcial de calota craniana). Nesses quadros de malformações graves e incuráveis, a conduta ética recomendada é a eutanásia.

Deslocamento de Abomaso: Epidemiologia e Fisiopatologia

Terminologia e Apresentação Clínica

O abomaso pode se deslocar para o lado esquerdo ou para o lado direito, sendo que o termo 'desvio de abomaso' deve ser evitado, preferindo se 'deslocamento de abomaso'. A forma mais comum em vacas de alta produção é o deslocamento para o lado esquerdo, que além disso, o deslocamento de abomaso à esquerda causa uma queda significativa na produção de leite.

A atenção deve ser redobrada no caso de deslocamento de abomaso à direita com torção, condição considerada uma emergência médica. É importante notar que, embora seja incomum, bezerros também podem apresentar deslocamento de abomaso, geralmente à direita com torção, exigindo intervenção rápida.

Impacto da Genética e Produção

O deslocamento de abomaso é uma patologia clinicamente importante em rebanhos leiteiros de alta produção. A incidência dessa condição aumentou significativamente a partir da década de 1950 devido à intensificação da produção leiteira.

A seleção genética e artificial contribuiu para o aumento do abdômen das vacas, selecionando animais maiores e com maior capacidade digestiva para que produzissem mais leite. Esse cenário predispõe à ocorrência da doença, sendo que a genética de vacas canadenses, por exemplo, está diretamente associada a uma alta ocorrência de deslocamento.

Histórico e Epidemiologia Geográfica

O histórico do deslocamento de abomaso revela como a intensificação da pecuária leiteira influenciou o surgimento da doença em diferentes regiões do mundo.

  • Primeira escola de veterinária: fundada em Lyon, na França
  • Relato pioneiro (Moore): descreveu casos da afecção em 1954
  • Primeiro relato no Brasil: realizado pelo professor Silvio Camargo Itamerino, da Universidade Federal de Pelotas
  • Países de alta produção: Alemanha, Canadá e Dinamarca apresentam alta prevalência devido ao sistema intensificado
  • Escola de Hannover (década de 70): registro histórico de uma incidência de sete casos por dia

Fatores Predisponentes ao Deslocamento

  • Perfil do animal: vacas leiteiras de alta produção são as mais afetadas
  • Proporção clínica: mundialmente, ocorrem 10 casos à esquerda para cada 1 à direita
  • Janela crítica pós parto: mais de 50% dos casos surgem nas primeiras duas semanas
  • Incidência no primeiro mês: até 80% das ocorrências ocorrem nos primeiros 30 dias de lactação
  • Relação metabólica: o período de incidência coincide com o pico da cetose no pós parto
  • Sazonalidade e manejo: Fatores sazonais e de manejo exercem forte influência, com maior prevalência no inverno em países de clima temperado
  • Confinamento: o risco aumenta em animais que permanecem confinados, com pouca movimentação e dietas ricas em carboidratos

Fatores Predisponentes ao Deslocamento

A Origem Multifatorial do Deslocamento

A gênese do deslocamento de abomaso envolve uma combinação de fatores anatômicos, dietéticos e de manejo. Por natureza, o abomaso é um órgão móvel, pois não possui fixação rígida devido ao grande omento. Em bezerros, esse órgão se destaca por ser proporcionalmente grande em relação às demais vísceras abdominais, o que é um fator anatômico relevante.

O parto atua como um gatilho crucial: após a expulsão do feto, a redução abrupta do volume uterino cria um espaço vazio na cavidade abdominal, permitindo que o abomaso se insinue por baixo do rúmen, frequentemente migrando para o antímero esquerdo. Esse processo é auxiliado pela mobilidade garantida pelo omento maior.

Fatores de manejo e nutrição fecham o quadro. A falta de movimentação do animal favorece o acúmulo de gases na víscera. Paralelamente, a alimentação com alta quantidade de concentrado contribui para a produção de gás no abomaso e gera uma grande quantidade de ácidos graxos no conteúdo abomasal, o que pode causar a atonia do órgão.

Dinâmica do Deslocamento à Esquerda

Fisiopatologia da Migração e Distensão

Quando o abomaso torna se atônico, inicia se um ciclo prejudicial onde o órgão acumula gás, distende se severamente e agrava ainda mais a falta de motilidade. Nesse estado patológico, observa se a presença simultânea de líquido e gás em seu interior. Essa distensão permite que a víscera se desloque de sua posição topográfica normal, frequentemente migrando para o antímero esquerdo, o que caracteriza o Deslocamento de Abomaso à Esquerda (DAE) — a forma mais comum desta afecção.

O diagnóstico clínico é reforçado pela observação da dinâmica do órgão: o abomaso pode migrar do lado direito para o esquerdo no abdômen, movimento que pode ser visualizado por meio de exames de imagem. Além disso, no deslocamento de abomaso, pode ocorrer a elevação da tensão da parede abdominal, refletindo o volume da distensão gasosa.

Gravidade e Risco de Torção

É fundamental diferenciar os quadros clínicos, pois o deslocamento de abomaso à esquerda (DAE) não apresenta torção. Por outro lado, o deslocamento à direita com torção é consideravelmente mais grave do que o sem torção, gerando um forte desequilíbrio circulatório e comprometimento sanguíneo local significativo. Devido à severidade isquêmica, a torção abomasal em vacas apresenta uma gravidade sistêmica comparável à torção gástrica em cães.

Alcalose pelo Refluxo Abomasal

Desequilíbrios Metabólicos e Sistêmicos

Quando ocorre o deslocamento do abomaso, as falhas na motilidade e o acúmulo de conteúdo desencadeiam desequilíbrios importantes. O refluxo excessivo de ácido clorídrico para o rúmen causa acidose ruminal, alterando profundamente o ambiente fermentativo.

Sistemicamente, o sequestro de íons e o refluxo abomasal resultam em um quadro eletrolítico específico. Os ruminantes com deslocamento de abomaso apresentam classicamente alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica, uma consequência direta do desvio do fluxo digestivo e da retenção de eletrólitos no compartimento gástrico.

Apresentação Clínica e Diagnóstico do Deslocamento de Abomaso

Riscos da Torção de Abomaso

É fundamental distinguir o Deslocamento de Abomaso à Esquerda ( DAE ) — termo também referido como deslocação e que ocorre em uma proporção de 10 para 1 em relação ao lado direito — da sua evolução mais grave: a torção de abomaso. Diferente do DAE, que não sofre torção, o Deslocamento de Abomaso à Direita ( DAD ) pode progredir para vólvulo, resultando em severo comprometimento vascular, isquemia, acúmulo de líquido, distensão aguda e choque hipovolêmico. Trata se de uma emergência cirúrgica de prognóstico reservado a desfavorável, caracterizada por dor abdominal intensa que pode levar a vaca a se jogar no chão.

Sinais Clínicos e Choque

A identificação dos sinais sistêmicos é crucial para diferenciar o deslocamento simples da emergência por torção:

  • Apetite: torna se caprichoso ou seletivo, com o animal recusando concentrado, mas ingerindo volumes reduzidos de forragem.
  • Produção leiteira: apresenta uma queda abrupta e substancial logo no início do quadro clínico.
  • Parâmetros vitais: no deslocamento simples, frequência cardíaca, respiratória e temperatura geralmente mantêm se dentro dos limites fisiológicos.
  • Fezes: apresentam se em menor volume, com coloração mais escura e aspecto digerido devido ao retardo no trânsito gastrintestinal.
  • Torção de abomaso (DAD): o quadro evolui para taquicardia severa (frequências muito superiores a 80 90 bpm), congestão de mucosas e sinais de choque.

Exame Clínico e Percussão

O diagnóstico presuntivo requer a execução obrigatória de manobras semiológicas em ambos os flancos (esquerdo e direito) de todas as vacas leiteiras examinadas, tanto antes quanto depois do parto. Em animais de alta produção, essa prática é fundamental para detectar o deslocamento precocemente.

O diagnóstico de deslocamento de abomaso envolve as técnicas de percussão com auscultação e sucussão com auscultação, sendo que a percussão associada à auscultação visa detectar o 'ping' metálico (tilintar metálico), ruído característico gerado pela interface entre gás sob tensão e líquido dentro do abomaso deslocado.

A auscultação para detectar o deslocamento de abomaso deve ser realizada na região ventral do abdômen, e a percussão deve cobrir extensamente as costelas até a junção costocondral; em casos avançados onde o trânsito demora, o abomaso pode crescer e ultrapassar a décima terceira costela.

Sucussão e Palpação Retal

A prova de sucussão auscultação permite identificar sons de chapinhar (líquido em movimento), evidenciando o acúmulo de fluido e gás no abomaso. Topograficamente, a ausência de sons ruminais no flanco esquerdo sugere a interposição do abomaso preenchido por gás entre o rúmen e a parede abdominal.

Em quadros onde a motilidade está severamente comprometida, o órgão pode se expandir a ponto de ultrapassar a décima terceira costela. Complementarmente, nota se que é difícil realizar o diagnóstico de deslocamento de abomaso à esquerda por meio da palpação retal, ao passo que no deslocamento de abomaso à direita é mais provável conseguir realizar a palpação retal do órgão.

Evolução da Alcalose para Acidose

A fisiologia secretória do abomaso envolve a produção de ácido clorídrico (HCl); em condições normais, os íons cloreto são reabsorvidos no intestino delgado para a corrente sanguínea, enquanto o bicarbonato é secretado no intestino (ambiente alcalino). Nesse cenário de deslocamento de abomaso ou torção, o conteúdo que não passa adiante pode refluir para o rúmen, o que promove o sequestro de cloreto ou a elevação de cloretos ruminais.

Consequentemente, na alcalose metabólica por deslocamento de abomaso, o cloreto não é absorvido e o bicarbonato permanece no sangue, acumulando se no plasma devido à interrupção da secreção intestinal. Isso gera uma grave alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica. Vale ressaltar que a concentração de potássio no animal é muito sensível à alimentação, o que agrava o quadro clínico de hipocalemia mencionado.

Contudo, se houver evolução para torção abomasal com isquemia tecidual, a hipóxia e o metabolismo anaeróbio promovem o acúmulo de ácido lático, convertendo rapidamente a alcalose em uma acidose metabólica fulminante.

Tratamento e Intervenções Cirúrgicas

Contraindicação do Rolamento à Direita

A técnica do rolamento é estritamente contraindicada no Deslocamento de Abomaso à Direita devido ao alto risco de indução iatrogênica de uma torção abomasal letal, complicação exclusiva deste lado. Enquanto deitar o animal sobre o lado esquerdo é uma tentativa de retorno espontâneo, no deslocamento à direita o balocamento e percussão verificam o posicionamento, exigindo correção cirúrgica. Métodos como a técnica alemã (abertura esquerda) ou a técnica holandesa (abertura direita), rotina em Hanover com 2 mil cirurgias anuais, fixam o órgão passando fios do abdômen para o exterior por uma incisão de 1 cm no subcutâneo.

Passos da Laparotomia e Omentopexia

A omentopexia via flanco direito é a intervenção cirúrgica de eleição, permitindo a correção definitiva e prevenindo recidivas.

  1. Preparação do paciente: O procedimento é realizado com a vaca em estação (em pé), sob anestesia local (infiltração com lidocaína a 2% ) e rigorosa assepsia do flanco direito.
  2. Acesso abdominal: Realize a incisão pelo antímero direito e contorne o rúmen caudodorsalmente para localizar o abomaso deslocado à esquerda.
  3. Descompressão do abomaso: Promova a retirada do gás utilizando uma agulha acoplada a um tubo flexível, tornando o órgão flácido para a manipulação.
  4. Tração para a direita: Puxe o abomaso e o omento maior para o lado correto da cavidade abdominal.
  5. Identificação do piloro: Localize o piloro, que deve ser reconhecido como uma estrutura firme de aspecto nodular.
  6. Fixação definitiva: Conclua a omentopexia ancorando o omento na parede abdominal através de suturas diretas ou dispositivos de fixação ( botões de poliuretano ).

Reflexão Sion

O Perigo do Vazio

Na medicina de ruminantes, o espaço vazio deixado repentinamente na cavidade abdominal após o parto permite que o abomaso distendido abandone sua posição anatômica e comprometa o animal. Da mesma forma, quando experimentamos vazios súbitos ou perdas em nossa vida, corremos o risco de permitir que as pressões internas nos desloquem do nosso verdadeiro centro. Jesus nos oferece a estabilidade de Sua presença viva, ancorando a nossa alma com propósito para que nenhuma transição difícil nos faça perder o nosso eixo.

Sempre tenho o Senhor diante de mim. Com ele à minha direita, não serei abalado.Salmos 16:8

Mantenha se ancorado nesta verdade.

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