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Neonatologia e Enfermidades do Recém Nascido em Ruminantes

O escore ou índice APGAR é uma metodologia clínica empregada para aferir a viabilidade de um animal recém nascido, adaptada de forma modificada para a espécie bovina.

Duracao: 33 min

Topicos da aula

  • Doenças do Recém Nascido

Overview

Diretrizes em Neonatologia e Enfermidades de Ruminantes

A sobrevivência e o desenvolvimento de ruminantes recém nascidos dependem de cuidados críticos e imediatos nas primeiras horas de vida. Devido à placenta do tipo sindesmocorial, que impede a transferência de anticorpos na gestação, a colostragem precoce é o único meio de reverter a agamaglobulinemia fisiológica desses animais. Paralelamente, a correta cura do umbigo com iodo a 2% é indispensável para evitar as onfalopatias infecciosas e suas graves complicações sistêmicas, como a artrite. Por fim, o manejo deve focar na prevenção e no suporte contra a diarreia neonatal, minimizando os desequilíbrios hidroeletrolíticos e a acidose metabólica por meio de terapias eficientes de reidratação.

Manejo de Colostragem e Nutrição Neonatal

Planejamento Nutricional e Sucedâneos Lácteos

O período de aleitamento de bezerras em propriedades leiteiras de alta produção e tecnificadas varia de acordo com o manejo, ocorrendo habitualmente entre 60 e 90 dias de vida. Quando há a necessidade de substituir o leite integral, utiliza se o sucedâneo do leite, um substituto lácteo que deve apresentar alta qualidade e formulação equilibrada para garantir o desenvolvimento adequado da bezerra.

Nutricionalmente, o colostro de ruminantes apresenta teor de proteína de aproximadamente 14%, enquanto o leite normal apresenta cerca de 3%. Além disso, o colostro de ruminantes possui o dobro de gordura e menor teor de lactose quando comparado ao leite. O colostro também contém aproximadamente 100 vezes mais imunoglobulinas do que o leite comum.

Barreiras Placentárias e Absorção de Anticorpos

Durante a gestação, a estrutura histológica da placenta determina se haverá ou não transferência de anticorpos maternos. Nas placentas dos tipos epiteliocorial e sindesmocorial, não há passagem de imunoglobulinas para o feto durante a gestação. Como exemplo, porcas e éguas possuem placenta do tipo epiteliocorial. Em contrapartida, nos carnívoros, ocorre passagem de uma pequena quantidade de imunoglobulinas através da placenta.

Por conta dessa limitação, os ruminantes dependem inteiramente da ingestão do colostro logo após o nascimento. A absorção das imunoglobulinas presentes no colostro ocorre por meio do processo de micropinocitose realizado pelos enterócitos do epitélio do intestino delgado. O uso de dexametasona para a indução do parto pode levar a uma maturação intestinal rápida do recém nascido, o que antecipa o fechamento das junções das vilosidades intestinais para a absorção das imunoglobulinas do colostro.

Nesse processo, os enterócitos realizam micropinocitose para a absorção dos anticorpos do colostro, o que permite que os anticorpos absorvidos do colostro passem para a circulação sistêmica do animal.

Boas Práticas e Falhas na Colostragem

A colostragem consiste no procedimento prático de administração de colostro para os animais recém nascidos. Quando se busca reduzir a carga patogênica, a pasteurização do colostro é um processo que deve ser conduzido de modo a não destruir as imunoglobulinas.

A eficiência da transferência de imunidade passiva depende de administrar o colostro no tempo correto, com boa qualidade, na quantidade correta e de maneira adequada. No entanto, diversos entraves práticos podem comprometer esses pilares no campo.

A inabilidade materna, mais comum em primíparas, pode prejudicar a transferência da imunidade passiva caso a mãe não lamba ou não cuide do bezerro de forma adequada. Além disso, vacas com tetos excessivamente grandes, como pode ocorrer ocasionalmente em raças zebuínas, podem dificultar ou impedir a mamada direta do colostro pelo bezerro. Por fim, lembre se de que a realização de ordenhas na vaca imediatamente antes do parto diminui a quantidade de imunoglobulinas no colostro, pois este começa a se transformar em leite.

Avaliação de Vitalidade e Suporte Neonatal

O fornecimento correto e rápido do colostro garante a transferência de imunidade passiva aos bezerros. É fundamental monitorar o tempo ideal após o parto para evitar a redução na qualidade de imunoglobulinas no colostro, pois este começa a se transformar em leite.

Paralelamente ao manejo alimentar, a avaliação imediata de viabilidade do neonato é crucial; o índice APGAR modificado para bezerros avalia parâmetros como o tônus muscular, a movimentação da cabeça e as tentativas de o animal se levantar para a posição quadropedal. Além disso, a avaliação do reflexo interdigital em bezerros é realizada por meio de opção de estímulo doloroso por beliscamento no espaço interdígito do animal. A avaliação dos reflexos interdigital e ocular no bezerro pontua zero se estiver ausente, um ponto se pelo menos um reflexo estiver presente, e dois pontos em caso de reação a ambos. Em bezerros com escore de Apgar de 1 a 6, deve se liberar as vias aéreas, podendo se usar aparelhos ou levantar o animal, tudo em menos de 90 segundos. Adicionalmente, bezerros que nascem fracos e que não conseguem se levantar podem receber colostro de forma assistida ou forçada através de mamadeira ou sonda. Ademais, a colocação de palha sobre o bezerro recém nascido molhado ajuda a evitar a ocorrência de hipotermia. Adicionalmente, no que diz respeito à integridade renal, a enzima gama glutamiltransferase (GGT) aparece na urina quando há lesão dos túbulos contornados renais.

Parâmetros Clínicos do Escore APGAR Modificado

O escore ou índice APGAR é uma metodologia clínica empregada para aferir a viabilidade de um animal recém nascido, adaptada de forma modificada para a espécie bovina.

  • Intervalos de avaliação: A avaliação clínica e do escore de Apgar do bezerro deve ser realizada com 1 minuto, 10 minutos e 15 minutos de vida.
  • Tônus muscular: Parâmetro composto pelos movimentos espontâneos da cabeça e tentativas de adoção de decúbito esternal.
  • Reflexos: Reação clínica observada através do teste interdigital e ocular.
  • Padrão respiratório: Classificação do padrão respiratório do recém nascido em ausente, irregular ou regular.
  • Coloração das mucosas: Na avaliação de mucosas do bezerro, a coloração azulada pontua zero, a esbranquiçada pontua um, e a coloração rosa avermelhada pontua dois.
  • Resultado clínico: Um escore de Apgar geral de valor 7 ou 8 indica boa vitalidade no bezerro recém nascido.

Condutas de Suporte de Acordo com APGAR

O manejo imediato do recém nascido baseia se diretamente na pontuação obtida no escore, definindo intervenções clínicas cruciais logo nos primeiros minutos de vida.

  1. Escore de 1 a 6 (Desobstrução e Estímulo): Realizar a desobstrução de vias aéreas com aspiração de fluidos e o estímulo mecânico respiratório, o qual pode ser realizado mediante pressão firme ou acupuntura no septo nasal, além de ventilação dirigida e água fria.
  2. Correção de Acidose: Bezerros que sofrem compressão prolongada devido a distocia materna tendem a desenvolver asfixia neonatal e acidose respiratória severa, requerendo intervenção medicamentosa com bicarbonato de sódio por via intravenosa para correção do equilíbrio ácido básico.
  3. Escore de 7 a 8 (Suporte Básico): Adotar o manejo para escores favoráveis, que preconiza manter o recém nascido em decúbito esternal, realizar a secagem rápida do pelo para evitar hipotermia e garantir a colostragem precoce.

Placenta Sindesmocorial e a Barreira de Imunoglobulinas

As fêmeas ruminantes, tais como vacas, ovelhas, cabras e búfalas, possuem uma placenta classificada como sindesmocorial, que é caracterizada por apresentar cinco camadas histológicas de tecidos separando a circulação materna da fetal. Devido a essa conformação anatômica, ocorre um bloqueio total da transferência de imunoglobulinas durante a gestação. Por isso, o bezerro recém nascido nasce com poucas imunoglobulinas de produção própria intrauterina, encontrando se em estado de agamaglobulinemia, o que o torna dependente do colostro para obter imunidade passiva.

Essa barreira placentária de ruminantes, porcas e éguas impede a transferência materna de imunoglobulinas, tornando obrigatória a ingestão de colostro para a aquisição de imunidade. Como detalhe anatômico, não confunda o número de barreiras: enquanto os ruminantes possuem cinco, a placenta de porcas e éguas possui seis camadas histológicas. Em razão dessa barreira intransponível na gestação, a administração do colostro para a bezerra recém nascida deve ocorrer o mais precocemente possível, preferencialmente nas primeiras horas após o nascimento.

Janela Temporal de Absorção Intestinal de Macromoléculas

No recém nascido, a ingestão de colostro e o epitélio do intestino delgado permitem a absorção de imunoglobulinas. As imunoglobulinas colostrais são absorvidas no intestino delgado do neonato por meio de micropinocitose realizada pelos heterócitos. A capacidade de absorção macromolecular do epitélio intestinal é máxima imediatamente após o nascimento e declina progressivamente.

O bezerro deve receber colostro preferencialmente dentro das primeiras 12 horas pós parto, sendo que o fornecimento ideal deve ocorrer de 4 a 6 horas após o nascimento. Após as 12 horas pós parto, a capacidade absortiva sofre redução acentuada.

A absorção intestinal de imunoglobulinas pelo bezerro recém nascido é muito reduzida se a mamada do colostro ocorrer somente 24 horas após o nascimento. De fato, após 24 horas do nascimento do bezerro, a absorção intestinal de anticorpos colostrais é encerrada e praticamente deixa de ocorrer, fechando as barreiras intestinais. O atraso na colostragem resulta em falha na transferência de imunidade passiva, predispondo o animal a infecções sistêmicas.

Protocolo de Fornecimento e Fatores de Qualidade

Para garantir a imunidade passiva do recém nascido, a recomendação prática para o fornecimento de colostro de boa qualidade para bezerros recém nascidos é de 10% do seu peso vivo. De forma prática, o volume médio recomendado de colostro a ser fornecido ao animal é de 10% de seu peso vivo, o que equivale a cerca de 4 litros (geralmente entre 3 e 4 litros para um animal de 30 a 40 kg). A administração do colostro deve ser realizada preferencialmente em um período menor do que 6 horas após o nascimento do bezerro, de modo a aproveitar a máxima capacidade de absorção macromolecular, podendo o volume total ser fracionado.

Vários fatores interferem nesse processo de imunização. O número de partos da mãe influencia a concentração de anticorpos presentes no colostro. Devido a isso, as vacas de primeira lactação ou novilhas tendem a produzir colostro com menor quantidade de anticorpos devido ao menor histórico de desafios antigênicos ao longo de suas vidas, enquanto as pluríparas produzem colostro mais rico em imunoglobulinas devido à maior exposição antigênica prévia. Outros fatores também impactam o sucesso do protocolo, como ordenhas pré parto, que reduzem os anticorpos, e fatores ambientais: o estresse térmico provocado por ambientes muito quentes ou muito frios pode diminuir a absorção intestinal do colostro pelo bezerro.

Métodos de Avaliação da Densidade e IgG

Para garantir que os bezerros recebam a imunidade necessária, precisamos avaliar a qualidade do colostro fornecido. Vamos conhecer os principais métodos práticos para mensurar indiretamente essa concentração de imunoglobulinas:

  • Colostrômetro: O colostrômetro é um instrumento utilizado para medir a densidade e mensurar a qualidade do colostro. No colostrômetro, a faixa verde indica uma concentração de imunoglobulinas G maior do que 50 mg/mL no colostro. No colostrômetro, a faixa amarela indica uma concentração de imunoglobulinas G de 20 a 50 mg/mL no colostro. No colostrômetro, a faixa vermelha indica uma concentração de imunoglobulinas G menor do que 20 mg/mL no colostro. Lembre se: valores abaixo de 20 mg/mL são considerados insatisfatórios!
  • Refratometria de Brix: O refratômetro com escala brix é utilizado para estimar indiretamente a concentração de imunoglobulinas no colostro. Na escala brix, um valor maior ou igual a 22% é considerado indicador de qualidade adequada de imunoglobulinas no colostro. Por outro lado, na escala brix, um valor menor do que 21% indica um colostro com quantidade inadequada de imunoglobulinas. Propriedades tecnificadas costumam priorizar o armazenamento de colostros com leituras superiores a 25% ou 30% de Brix.
  • Colostro Ball: O método 'colostro ball' foi desenvolvido para medir as imunoglobulinas do colostro de maneira indireta através da flutuação de bolinhas com diferentes densidades. Conforme a quantidade de sólidos, as bolinhas flutuam ou afundam, permitindo uma triagem visual rápida de alta, média ou baixa qualidade.

Conservação, Descongelamento e Enriquecimento do Colostro

O colostro excedente de alta qualidade pode ser mantido conservado sob congelamento (idealmente a 20 °C ). A temperatura ideal de congelamento para o armazenamento prolongado é de 20 °C, sendo recomendado que o armazenamento seja feito em recipientes com volume de até 2.000 ml, especificamente em frascos de 1 a 2 litros (sendo o frasco de 1 litro o mais recomendável). O tempo limite recomendado para conservação de colostro congelado em freezer é de 1 ano, o que significa que o colostro pode ser mantido congelado por até um ano, embora o período máximo recomendado para armazenamento seja de seis meses.

O descongelamento exige cautela extrema e deve ser feito sob temperatura ambiente ou em banho maria com temperatura rigorosamente limitada a 50 56 °C, uma vez que os anticorpos do colostro podem sofrer inativação térmica se o descongelamento for realizado em temperaturas superiores a 56 °C. Caso haja indisponibilidade de banco de colostro, o colostro em pó comercializado pode ser utilizado como substituto emergencial ou para adensar e enriquecer colostro de baixa qualidade com imunoglobulinas adicionais através de um enriquecimento artificial de seus sólidos.

Monitoramento Sérico da Transferência de Imunidade

Para avaliar se o bezerro absorveu adequadamente as imunoglobulinas, deve se coletar sangue do animal entre 24 a 48 horas após o nascimento para análise do soro no refratômetro. Na determinação de proteína total sérica por refratometria em bezerros, valores maiores que 5,5 g/dL indicam absorção positiva de colostro, enquanto valores menores que 5,5 g/dL são negativos. Além disso, na refratometria de soro em bezerros utilizando a escala Brix, um valor de 8,4% indica que o colostro foi adequadamente absorvido.

Como alternativa, a dosagem de gama glutamiltransferase (GGT) no bezerro para avaliar a colostragem deve ser feita entre 24 e 48 horas de vida para garantir resultados fidedignos. A enzima gama glutamiltransferase (GGT) acumula se no colostro bovino e é absorvida pelo bezerro ao mamar. O bezerro recém nascido que não mamou colostro apresenta valores de gama glutamiltransferase (GGT) próximos a 20 UI, os quais podem subir para 2000 a 3000 UI após a ingestão de colostro.

Enfermidades Umbilicais (Onfalopatias)

Anatomia Funcional dos Vasos e Úraco Umbilicais

Anatomia e Fisiopatologia do Cordão Umbilical

Durante a gestação, o cordão realiza a comunicação entre o feto e a placenta. A veia umbilical do bezerro segue em direção cranial e vai para o fígado, transportando sangue enriquecido. Por outro lado, as artérias umbilicais do bezerro possuem localização caudal. Completa essa estrutura o úraco fetal, que é responsável por conduzir a urina da bexiga para ser eliminada no alantoide.

No momento do parto, ocorre a ruptura natural dessas vias. Após o nascimento do bezerro, o úraco sofre regressão e deixa de existir, pois ele e os vasos sofrem retração elástica ativa e obliteração nas primeiras semanas. Logo após o nascimento, a região intra abdominal do umbigo do recém nascido contém duas artérias e uma veia.

Conceito e Patogenia das Onfalopatias

As onfalopatias infecciosas englobam todos os processos infecciosos da região umbilical. O tratamento e cura do umbigo em bezerros recém nascidos são necessários para evitar que a região sirva como porta de entrada de microrganismos ambientais. A patogenia das infecções umbilicais pode ocorrer por via ascendente direta, a partir de superfícies contaminadas, ou a infecção umbilical pode ocorrer por via hematógena, ou seja, através da circulação sanguínea. Clinicamente, o processo inflamatório ou infeccioso umbilical no recém nascido pode se apresentar de forma externa ou interna. O acometimento umbilical no recém nascido pode comprometer as artérias, a veia, o úraco ou todas essas estruturas conjuntamente. O prognóstico de um processo infeccioso umbilical externo (onfalite) é melhor quando comparado a um processo infeccioso interno.

Classificação das Infecções Umbilicais

As principais formas clínicas das infecções umbilicais (onfalopatias) são categorizadas conforme as estruturas anatômicas afetadas. Veja a classificação a seguir para diferenciar cada quadro clínico:

  • Onfalite: A onfalite é definida como a inflamação do umbigo, caracterizada por ser uma infecção de desenvolvimento puramente externo. De modo clínico, a infecção da região umbilical que se desenvolve de maneira externa é denominada onfalite, e essa afecção consiste na inflamação do umbigo, podendo apresentar se de forma simples ou associada a um abscesso subcutâneo localizado.
  • Onfaloflebite: Caracteriza se como a inflamação que se estende de forma cranial. Clinicamente, a onfaloflebite é a inflamação concomitante do umbigo e da veia umbilical.
  • Onfaloarterite: É o acometimento que progride em sentido caudal. O acometimento inflamatório conjunto do umbigo e das artérias umbilicais é denominado onfaloarterite.
  • Onfalouraquite: Também conhecida como onfalouratite. A associação de infecção umbilical e inflamação do úraco é denominada onfalouraquite.

Complicações Internas e Sistêmicas

Nas onfalopatias infecciosas, pode haver comprometimento de vasos ou segmentos umbilicais na região intra abdominal. As complicações intra abdominais da onfalite incluem a progressão para onfaloarterite, onfaloflebite, hepatite e cistite. A onfaloflebite é uma afecção grave que pode culminar na formação de abscessos hepáticos devido à migração cranial de bactérias. Além disso, a patência ou a persistência do úraco pode predispor o animal ao desenvolvimento de cistite na bexiga.

Em casos mais extensos, a panvasculite umbilical envolve simultaneamente todos os vasos e o úraco, caracterizando se pela presença de abscessos internos com aderências com órgãos adjacentes. Uma complicação severa ocorre quando a onfalite com polivasculite umbilical pode provocar a aderência e o abscesso do abomaso, resultando na drenagem de secreção abomasal pelo umbigo. Por fim, a infecção umbilical sistêmica pode levar a complicações como enterite com diarreia, hepatite e múltiplos abscessos.

Epidemiologia e Agentes Causadores das Onfalites

As afecções umbilicais em ruminantes recém nascidos podem se apresentar de forma esporádica ou assumir um caráter enzoótico nas propriedades. Clinicamente, a forma aguda dessas onfalopatias ocorre tipicamente durante as primeiras seis semanas de vida do bezerro. Em contrapartida, as afecções umbilicais de caráter interno e com desenvolvimento lento e crônico podem ser diagnosticadas tardiamente em animais com até um ano de idade, prejudicando o seu desenvolvimento.

No que tange à etiologia, as bactérias Trueperella pyogenes e Streptococcus spp. são frequentemente isoladas e estão fortemente associadas ao desenvolvimento de onfalites. Outros agentes etiológicos bacterianos de grande relevância descritos como causadores dessas infecções umbilicais incluem as espécies de Pasteurella, Salmonella e Proteus.

Fatores Predisponentes e Avaliação do Prognóstico

O desenvolvimento de enfermidades neonatais está intimamente ligado ao manejo sanitário. A higiene umbilical inadequada e falhas na profilaxia são fatores predisponentes determinantes para problemas umbilicais. No ambiente de criação, instalações muito sujas e fômites contaminados constituem fatores predisponentes para problemas umbilicais em bezerros. Além disso, a inadequada ingestão de colostro e consequentes problemas na imunidade do bezerro predispõem a afecções umbilicais, assim como lesões causadas pelo tratador ou por outros animais predispõem a infecções umbilicais.

Para investigar a origem do problema, a anamnese para diagnóstico de infecções umbilicais deve abordar como é realizada a cura do umbigo na propriedade. Adicionalmente, existe uma classificação de prognóstico clínico para problemas umbilicais, semelhante ao índice de APGAR, que avalia o comportamento, a temperatura corporal, as alterações dos vasos umbilicais, as articulações, a ocorrência de diarreia e o hemograma (sangue).

Sinais Locais e Sistêmicos das Onfalites

As onfalites manifestam se clinicamente por alterações que variam do âmbito local ao sistêmico. À inspeção de uma onfalite, observa se aumento de volume e vermelhidão na região umbilical. Esse aumento de volume na região umbilical em animais costuma apresentar se quente, avermelhado, sensível e doloroso. À palpação de uma onfalite, pode se constatar dor, aumento de volume local, sensibilidade, aumento de temperatura local e consistência firme a flutuante.

Para auxiliar na precisão diagnóstica, a medição de pH da secreção umbilical drenada ajuda a diferenciar e identificar secreções de origem abomasal. Quando a infecção se dissemina, as repercussões deixam de ser puramente locais: os sinais clínicos gerais e sistêmicos associados a infecções umbilicais incluem febre, aumento da temperatura local, perda de apetite, emagrecimento, apatia, pelos arrepiados e sem brilho.

Patência do Úraco e Alterações Urinárias

A persistência ou patência do úraco é uma condição na qual o canal permanece aberto após o nascimento, fazendo com que o animal urine pelo umbigo. Vale destacar que a patência do úraco pode ocorrer sem que haja necessariamente um processo inflamatório local.

Por outro lado, o desenvolvimento de complicações urinárias decorrentes de infecções umbilicais, a exemplo da uracite, leva a manifestações clínicas específicas. Nesses casos, os animais acometidos podem apresentar disúria e ficar com a cauda levantada ao urinar ou em outros momentos.

Diagnóstico Clínico e Exames Complementares

O diagnóstico das afecções umbilicais baseia se prioritariamente nos exames de inspeção e palpação. A palpação bimanual com o animal em decúbito lateral pode ser utilizada para identificar o aumento de volume cranial ou caudal ao umbigo.

Clinicamente, a palpação de um aumento de volume em região cranial ao umbigo sugere uma suspeita diagnóstica de onfaloflebite, ao passo que a palpação de um aumento de volume em região caudal ao umbigo sugere uma suspeita diagnóstica de onfaloarterite. A ultrassonografia é um exame complementar amplamente utilizado para visualizar estruturas internas do umbigo em ruminantes, ao passo que a radiografia é raramente realizada.

Disseminação Hematógena e Complicações Metastáticas Sistêmicas

Atenção: As bactérias provenientes de infecções umbilicais podem cair na circulação sistêmica e provocar bacteremia ou septicemia, podendo levar o animal a óbito. As complicações das infecções umbilicais frequentemente decorrem de arterite, devido à comunicação anatômica com duas artérias que se distribuem por todo o organismo. A poliartrite é uma complicação secundária comum decorrente de infecções umbilicais, ocorrendo frequentemente na articulação do carpo de animais recém nascidos e também na fêmoro tibio patelar, sendo caracterizada por edema, dor, acúmulo de exsudato purulento, claudicação grave e impotência funcional do membro. Dessa forma, a infecção umbilical pode causar alterações articulares caracterizadas por aumento de volume e sensibilidade nas articulações. Além disso, infecções umbilicais podem originar complicações metastáticas secundárias, tais como pneumonia. De fato, a infecção umbilical em bezerros pode resultar em pneumonia com manifestações de dispneia e secreções. Para além disso, a infecção por Mycoplasma em bezerros pode se manifestar por problemas respiratórios e problemas articulares. Ademais, a bactéria Histophilus somni (mencionada como Histophilus somni ou estófilos somed) pode provocar infecções articulares, ceratite, otite purulenta e distúrbios respiratórios em bezerros.

Abordagem Terapêutica Clínica e Intervenção Cirúrgica

O tratamento clínico inicial das enfermidades umbilicais fundamenta se no uso de antimicrobianos sistêmicos de amplo espectro e boa penetração tecidual. O antibiótico florfenicol é uma das opções terapêuticas utilizadas no tratamento de infecções umbilicais em ruminantes. O florfenicol é um composto derivado do cloranfenicol. Vale ressaltar que o cloranfenicol foi banido da medicina veterinária por provocar aplasia medular em seres humanos. Além disso, a sulfonamida associada com trimetoprima e o ceftiofur são opções de antibióticos que podem ser utilizados no tratamento.

A dose recomendada de penicilina procaína para tratamento de onfalite varia de 11.000 a 44.000 UI/kg. A ampicilina é um antibiótico ativo contra bactérias gram positivas e gram negativas, devendo ser administrada a cada 12 horas. Em abscessos externos, o uso de clorexidina ou iodo possui finalidade curativa quando empregado na lavagem local de feridas umbilicais após a drenagem. Adicionalmente, a drenagem cirúrgica e a remoção de secreção purulenta em abscessos umbilicais são recomendadas para assegurar a eficácia da antibioticoterapia.

Nos casos de panvasculite, abscessos internos extensos, aderências abomasais ou intestinais graves e persistência de úraco obstrutiva, os processos infecciosos umbilicais internos e graves em bezerros podem demandar tratamento cirúrgico. A terapia cirúrgica das afecções umbilicais envolve a realização de laparotomia para a retirada de abscessos.

Protocolos Preventivos de Desinfecção do Cordão

A prevenção de infecções baseia se no manejo higiênico rigoroso do parto e na desidratação química imediata do cordão pós nascimento. Para isso, o umbigo do recém nascido deve ser tratado utilizando iodo ou clorexidina. O procedimento padrão consiste na imersão completa do coto umbilical em solução de iodo ativo a 10% (ou a 2%, dependendo do desafio ambiental) ou em solução de clorexidina a 0,5% ou 2%, realizada duas vezes ao dia nos primeiros três a cinco dias de vida, ou diariamente até a completa mumificação e queda do cordão.

A escolha da concentração de iodo é crucial para otimizar os resultados terapêuticos, uma vez que estudos sobre infecções umbilicais demonstram que as melhores concentrações de iodo para o tratamento variam de 2% a 3%. Dessa forma, o iodo na concentração de 2% é mais indicado para a cura do umbigo do que o iodo a 10%, pois minimiza lesões químicas adicionais. Um protocolo de cura de umbigo com iodo a 2% consiste em aplicações duas vezes ao dia até o terceiro dia, e depois diariamente até o oitavo dia.

Além dos cuidados antissépticos locais, o controle de vetores biológicos é fundamental para assegurar a cicatrização saudável do neonato. Por essa razão, a aplicação de doramectina ou ivermectina é recomendada para o tratamento e prevenção de miíases umbilicais, especialmente em animais criados a campo, evitando infestações oportunistas por moscas logo após o nascimento.

Diarreia Neonatal em Bezerros

Caracterização Clínica e Escores Fecais

A diarreia em bezerros se caracteriza por fezes com bastante líquido ou pouca matéria seca, apresentando consistência líquida ou pastosa. A gravidade clínica é expressa pela perda de fluidos: uma diarreia leve em bezerros raramente excede a perda de 1000 gramas de fezes por dia. Por outro lado, uma diarreia líquida grave em bezerros pode resultar na perda de até 7000 gramas de líquidos e material fecal por dia, exigindo intervenção rápida.

Além do volume, as características físicas trazem pistas clínicas. As fezes diarreicas de bezerros podem apresentar alteração na cor, tornando se amareladas ou acinzentadas, e podem conter ou não sangue. Adicionalmente, a diarreia em bezerros também pode cursar com a presença de gás nas fezes em decorrência de processos fermentativos bacterianos. Assim, de modo geral, na diarreia dos bezerros, as fezes se tornam líquidas ou pastosas, apresentando alterações de odor e coloração, além de eventual presença de gás.

Contudo, é fundamental lembrar que o aspecto e a cor das fezes de bezerros com diarreia auxiliam na suspeita clínica, mas não definem o diagnóstico etiológico isoladamente. Como ferramenta de monitoramento de rebanhos, a atribuição de escores fecais serve para a padronização de anotações clínicas e obtenção de dados em pesquisas ou em grandes fazendas com problemas de diarreia.

Fisiopatologia Sistemica e Desidratacao

A diarreia em bezerros pode cursar com desconforto abdominal, desidratação, desequilíbrio ácido base metabólico e alterações eletrolíticas. Quando o quadro evolui de forma severa, comprometendo gravemente a homeostase, casos graves de diarreia em bezerros podem provocar desconforto abdominal e levar o animal a óbito por desidratação. Clinicamente, bezerros com quadros graves de desidratação por diarreia podem apresentar decúbito esternal, decúbito lateral, perda de flexão, recusa a mamar e hipoglicemia. Para estimar o grau de perda hídrica, a avaliação do turgor cutâneo para verificar desidratação em bezerros pode ser realizada por meio da tração da pele na ganacha, na região do masseter, na pálpebra superior ou no pescoço.

Do mesmo modo, bezerros com diarreia perdem grande quantidade de sódio pelas fezes, apresentando tendência à hiponatremia. O desequilíbrio do potássio também é crítico: o acúmulo de hidrogênio gerado pela acidose desloca o potássio para o meio extracelular. O excesso de potássio na circulação sanguínea de bezerros com acidose metabólica pode causar a morte do animal por interferência cardíaca, ao passo que a correção da acidose metabólica em bezerros promove o retorno do potássio circulante para o interior das células. Nesse sentido, caso a acidose metabólica do bezerro desidratado seja corrigida, o animal pode apresentar hipocalemia de modo geral.

Classificacao Etiológica e Lesoes Intestinais

De forma geral, as diarreias em bezerros podem ser classificadas em infecciosas e não infecciosas. Nesse contexto, é importante destacar que as vilosidades intestinais aumentam a superfície de absorção do trato gastrointestinal. No âmbito infeccioso, o protozoário Giárdia é um agente etiológico que pode causar surto de diarreia em criações de bezerros, ao passo que o coronavírus que acomete os ruminantes causa diarreia em bezerros e pneumonia em animais mais velhos. Ademais, o coronavírus também provoca diarreia de inverno em animais adultos, ao passo que a alofuginona é utilizada como um antiprotozoário preventivo contra a criptosporidiose. Cabe salientar também que o bezerro recém nascido pode vir a se infectar por meio da ingestão de leite infectado. A diarreia em bezerros pode conter sangue, principalmente quando ocorre lesão das vilosidades intestinais, sendo que as eimerias são agentes etiológicos importantes que frequentemente provocam diarreia sanguinolenta em bezerros. Por fim, o comprometimento das barreiras intestinais na diarreia de bezerros permite a circulação de microrganismos, podendo evoluir de bacteremia para septicemia.

Digestão Fisiológica e Erros Dietéticos

Digestão Saudável vs. Desvios Alimentares

Durante a amamentação normal do bezerro, o leite ingerido direciona se diretamente ao abomaso através do fechamento da goteira esofágica, onde ocorre a sua coagulação. A goteira esofágica direciona o leite ingerido diretamente ao abomaso, onde o alimento sofre digestão enzimática e coagula. No abomaso do bezerro, o leite sofre ação inicial do ácido clorídrico (HCl), da renina e da pepsina para sua digestão. No intestino delgado do bezerro, a tripsina pancreática atua na digestão das proteínas do leite.

No entanto, desvios no manejo alimentar comprometem esse fluxo ideal. A má qualidade de sucedâneos e do leite fornecido aos bezerros atua como fator predisponente para distúrbios entéricos. A temperatura ideal para o fornecimento de leite a bezerros situa se entre 36 ºC e 38 ºC para garantir a coagulação adequada. Além disso, o fornecimento de leite em quantidade excessiva de uma única vez pode direcionar o líquido ao rúmen do bezerro, provocando fermentação ruminal e diarreia osmótica. Assim, a ingestão de grande quantidade de leite de uma só vez é um exemplo de causa de diarreia não infecciosa em bezerros.

Manejo da Amamentacao e Fatores de Risco

Na síndrome do bebedor luminal, a goteira esofágica não funciona adequadamente e o leite se acumula no rúmen do animal. A diarreia decorrente da síndrome do bebedor luminal é de origem não infecciosa e ocorre pela fermentação do leite no rúmen. Essa falha no fechamento pode decorrer de fatores físicos de manejo alimentar. Por exemplo, a ingestão excessivamente rápida de leite pelo bezerro aumenta as chances de falha no fechamento da goteira esofágica e consequente desvio do leite para o rúmen. Além disso, se o bezerro mamar com a cabeça baixa, há risco de o leite desviar para o rúmen e causar distúrbios diarreicos, sendo indicado o uso de baldes elevados equipados com bicos de fluxo controlado para estimular a postura correta.

Paralelamente, fatores imunológicos e ambientais aumentam drasticamente a suscetibilidade a essas afecções. A falta de higiene no ambiente de criação constitui um fator predisponente para a ocorrência de diarreia em bezerros. Do mesmo modo, a mistura de animais muito novos com animais mais velhos é um fator predisponente a diarreias, pois animais mais velhos podem ser portadores e transmissores assintomáticos de patógenos. Além disso, a hipogamaglobulinemia é um dos fatores etiológicos predisponentes para a ocorrência de diarreia em recém nascidos, a qual pode ser decorrente de falhas no manejo do colostro, como colostro de baixa qualidade ou fornecido fora do momento ideal.

Por fim, manifestações clínicas adjacentes merecem atenção no diagnóstico diferencial: a deficiência de vitamina C em bezerros pode causar alopecia na região perianal ou perigenital de forma semelhante ao quadro provocado por diarreia crônica.

Patógenos Envolvidos na Etiologia da Diarreia

Os principais patógenos envolvidos na etiologia da diarreia neonatal em ruminantes compreendem bactérias, vírus e protozoários, atuando de forma isolada ou em infecções mistas:

  • Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC): É um agente bacteriano causador de diarreia em bezerros, que os acomete principalmente nos primeiros 10 dias de vida. Possui fímbrias com antígeno de adesão K99 (F5) que permitem sua colonização nos enterócitos do intestino delgado.
  • Salmonella enterica (sorovares Dublin e Typhimurium ): Provoca lesões severas na mucosa intestinal e quadro septicêmico, ocorrendo comumente de duas semanas a dois meses de idade.
  • Rotavírus e Coronavírus: Vírus que colonizam os enterócitos maduros dos dois terços superiores das vilosidades intestinais do jejuno e íleo, promovendo atrofia vilosa aguda e severa má absorção. O coronavírus pode também estar associado a quadros respiratórios concomitantes.
  • Cryptosporidium parvum: Protozoário zoonótico que se aloja na borda em escova dos enterócitos, promovendo atrofia microvilosa e diarreia persistente, comumente em bezerros de uma a três semanas de idade.
  • Giardia spp.: Protozoário flagelado que infecta o trato intestinal, sendo uma causa subdiagnosticada de diarreia em bezerras, manifestando se de forma crônica com perda de peso.

Fisiopatologia da Hipersecreção e Má Absorção Intestinal

A diarreia neonatal em ruminantes desenvolve se por dois mecanismos principais que frequentemente se sobrepõem. No mecanismo de hipersecreção, toxinas ativam sistemas enzimáticos intracelulares nos enterócitos, estimulando a secreção ativa de íons de sódio, cloreto e bicarbonato para o lúmen intestinal, seguidos passivamente por água. Com isso, os animais desidratados com diarreia perdem grande quantidade de sódio pelas fezes. A Escherichia coli enterotoxigênica adere aos enterócitos por meio de fímbrias (fibras) e provoca hipersecreção de fluidos. Ademais, a Escherichia coli portadora do antígeno K99 adere ao epitélio intestinal e produz toxinas que geram aumento da secreção intestinal.

A bactéria Salmonella provoca hipersecreção intestinal mediada pela via das prostaglandinas (referidas na transcrição como "costa bandinas"). Ademais, a Salmonella atua por meio de dois mecanismos principais: má absorção devido à lesão celular e aumento de secreção mediada por prostaglandinas (referidas na transcrição como "próndina"). Além disso, a adesão de Escherichia coli enterotoxigênica ao enterócito provoca alteração no trânsito de eletrólitos e causa hipersecreção intestinal sem lesionar fisicamente a célula. De modo similar, as bactérias do gênero Salmonella causam diarreia em bezerros por meio de lesão no intestino e pelo aumento da secreção de fluidos.

No mecanismo de má absorção, ocorre a destruição física direta dos enterócitos absortivos do ápice das vilosidades intestinais. O rotavírus, o coronavírus e a Salmonella são exemplos de agentes que causam diarreia por má absorção devido à lesão nos enterócitos. A perda dessas células maduras resulta em atrofia vilosa e redução drástica da área de superfície absortiva, acumulando nutrientes não digeridos como a lactose no lúmen, gerando um efeito osmótico que atrai água.

Acidose Metabólica e Desequilíbrio Eletrolítico Sistêmico

A eliminação profusa de fezes diarreicas resulta em desidratação grave devido à perda massiva de água extracelular. Na desidratação de bezerros ocorre acidose metabólica. Desse modo, os animais acometidos por diarreia comumente desenvolvem acidose metabólica. A perda concomitante de bicarbonato de sódio pelas fezes, associada ao acúmulo de prótons na circulação devido à diminuição da perfusão renal (que gera azotemia pré renal e menor excreção de íons hidrogênio), e à produção sistêmica de ácido lático decorrente do metabolismo anaeróbico tecidual por hipovolemia, culmina no desenvolvimento de uma severa acidose metabólica.

Nessa acidose metabólica de bezerros, o aumento de íons hidrogênio no plasma promove o desvio destes para o meio intracelular; essa troca faz com que o potássio saia do interior celular para a circulação, o que gera uma hipercalemia relativa (sérica) inicial, embora o pool total de potássio do organismo do animal esteja depletado devido às perdas intestinais. Assim, durante a desidratação por diarreia em bezerros, ocorre hipercalemia relativa devido à migração do potássio para fora da célula.

Classificação Clínica do Percentual de Desidratação

Para avaliar a gravidade da desidratação em bezerros com diarreia, correlacionamos o percentual de desidratação corporal estimada com parâmetros clínicos específicos. Essa classificação orienta de forma prática a escolha imediata entre a terapia oral e a fluidoterapia intravenosa.

Percentual de DesidrataçãoClassificação ClínicaSinais Clínicos Observados
Leve (Subclínica)Não aparente clinicamente; histórico de diarreia ativa; reflexo de sucção ainda preservado.
5% a 10%ModeradaDepressão ou apatia moderada; orelhas caídas; redução da elasticidade cutânea (turgor cutâneo persistente por alguns segundos); enoftalmia leve a moderada; mucosas secas; extremidades levemente frias; animal ainda se mantém em estação.
10% a 15%GraveDepressão acentuada ou torpor; decúbito esternal ou lateral persistente; perda total do reflexo de sucção; enoftalmia marcante (olhos profundamente fundos na órbita); pele sem elasticidade (turgor estendido); mucosas frias e pálidas; hipotermia severa; pulso fraco e rápido.
15%IncompatívelEstado de choque hipovolêmico irreversível, coma e óbito imediato.

Nota: A perda progressiva de turgor cutâneo e a enoftalmia são indicadores cruciais para estimar o volume de fluidos necessário.

Algoritmo de Reidratação Oral versus Fluidoterapia Intravenosa

O manejo clínico da diarreia neonatal em ruminantes exige uma tomada de decisão rápida e baseada no grau de desidratação do animal. O restabelecimento hídrico e a correção eletrolítica devem seguir um protocolo sequencial de prioridades.

  1. Passo 1: Avaliação clínica inicial. Avalie o grau de desidratação, a postura, o reflexo de sucção e a temperatura corporal do paciente.
  2. Passo 2: Indicação de hidratação oral. Indicada para desidratação leve a moderada (menor que 8% ) em animais em estação com reflexo de sucção. Particularmente, a solução eletrolítica oral é indicada para tratar bezerros com grau de desidratação de até 5%.
  3. Passo 3: Composição da solução oral. Deve conter sódio, cloreto, potássio, agentes alcalinizantes (como acetato ou bicarbonato) e uma fonte de energia. É estabelecido que a solução eletrolítica para a hidratação de bezerros deve conter dextrose em vez de sacarose.
  4. Passo 4: Evitar o uso de açúcar de cana. Bezerros apresentam dificuldade para digerir a sacarose (açúcar da cana), o que provoca fermentação, produção de gases e aumento da diarreia devido à baixa atividade de sacarase intestinal que gera fermentação luminal e agravamento do quadro.
  5. Passo 5: Uso de fluidoterapia intravenosa. Bezerros com diarreia grave, desidratação maior que 10%, extremidades frias, hipotermia e ausência de reflexo de sucção necessitam de hidratação por via intravenosa. Utiliza se soluções hidroeletrolíticas balanceadas enriquecidas com bicarbonato de sódio para a correção rápida da acidose metabólica severa.
  6. Passo 6: Restrição de vias ineficazes. A terapia de hidratação por via subcutânea não é recomendada para animais desidratados no ambiente hospitalar porque a vasoconstrição periférica nesses animais impede a absorção adequada do fluido.

Manejo Nutricional Contínuo do Bezerro Diarreico

Durante o curso da enfermidade, bezerros desidratados com diarreia podem apresentar septicemia e hipoglicemia, além de catabolismo e desnutrição. Para combater esse quadro, o suporte nutricional contínuo é indispensável, de modo que as recomendações atuais indicam que se deve manter a alimentação com leite ou sucedâneo de alta qualidade para o bezerro com diarreia. Esse fornecimento deve ocorrer em intervalos espaçados da administração de soluções eletrolíticas orais, contrariando o erro histórico do jejum lácteo absoluto.

No manejo clínico de suporte, bezerros apresentando hipotermia devem ser aquecidos de forma segura sob fontes artificiais de calor e mantidos secos. O uso de antimicrobianos sistêmicos deve ser restrito, reservando se estritamente para infecções de etiologia bacteriana comprovada, como a colibacilose e a salmonelose, ou sob risco iminente de translocação bacteriana.

Reflexão Sion

Proteção e Sustento Vital

Os ruminantes nascem sem defesas imunológicas devido à barreira placentária, dependendo totalmente do colostro para sobreviver. Da mesma forma, começamos a vida vulneráveis às dores e ao vazio do mundo, incapazes de nos proteger sozinhos. Jesus se apresenta como esse sustento vital imediato, oferecendo Sua graça como abrigo seguro para a nossa alma.

Ele o cobrirá com as suas penas, e sob as suas asas você encontrará refúgio; a fidelidade dele será o seu escudo protetor.Salmos 91:4

Abra o Salmo 91 e descubra o escudo protetor preparado para você.

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