Sion Academy

MedVet6 PeríodoMedicina de RuminantesP1

Reticuloperitonite Traumática e Complicações em Ruminantes

Da Perversão do Apetite à Perfuração do Retículo

Duracao: 14 min

Topicos da aula

  • Reticulites

Panorama da Reticulite Traumática

Os bovinos apresentam hábitos alimentares caracterizados pela baixa seletividade e deglutição rápida. Esse comportamento, aliado à presença de papilas bucais que dificultam a ejeção de objetos estranhos, predispõe os animais à ingestão acidental de corpos estranhos pontiagudos, o que classicamente provoca a reticulite traumática.

Embora a digestão ruminal dependa essencialmente da microbiota para a conversão de alimentos em ácidos graxos e matéria orgânica, a integridade física do retículo é vulnerável a esses objetos perfurantes. Quando ocorre a perfuração, o quadro pode evoluir para sérias consequências sistêmicas, sendo a pericardite a principal complicação da reticulite traumática em ruminantes.

Fisiologia e Motilidade dos Pré estômagos

Dando continuidade ao entendimento do sistema digestório, a mucosa do retículo apresenta uma conformação reticulada característica, assemelhando se a favos de mel. No rúmen, a atuação de micro organismos é fundamental, transformando o alimento ingerido em ácidos graxos e matéria orgânica essenciais para a nutrição do ruminante.

A motilidade desses compartimentos ocorre de forma coordenada e rítmica. O retículo apresenta uma contração bifásica, enquanto a contração do rúmen também é bifásica, caracterizada pelo saco dorsal contraindo em sentido caudal e o saco ventral em sentido cranial.

O gerenciamento de gases é um aspecto crítico da fisiologia, uma vez que uma vaca leiteira de alta produção pode produzir cerca de 600 litros de gás por dia. O processo de eructação envolve uma contração acessória do saco ventral do rúmen em sentido craniodorsal, acompanhada do relaxamento da cárdia para a liberação desses gases.

Regulação Vagal e Indigestões

  • Inervação Vagal: o nervo vago (X par craniano) é o responsável pela inervação dos pré estômagos, enviando ramificações fundamentais para o controle motor do retículo.
  • Obstruções Mecânicas: os locais de possível impedimento na passagem do conteúdo alimentar incluem o esôfago, o orifício retículo omasal e o piloro (saída do abomaso).
  • Indigestões Primárias: são classificadas entre transtornos motores, relacionados diretamente à integridade da parede ou da inervação dos pré estômagos, e transtornos bioquímicos.
  • Indigestões Secundárias: ocorrem por fatores sistêmicos como estados febris ou a hipocalcemia, onde a falta de cálcio no sangue compromete a força muscular necessária para o funcionamento do rúmen.

Etiologia e Parorexia

Da Perversão do Apetite à Perfuração do Retículo

Além dos distúrbios de motilidade, a inflamação do retículo pode ser classificada conforme sua origem. A reticulite não traumática é menos comum, sendo causada por processos infecciosos como a actinobacilose (Actinobacillus) ou lesões pelo vírus da febre aftosa. Em contraste, a peritonite traumática é a forma clínica mais frequente, ocorrendo quando um corpo estranho metálico, como prego ou arame, perfura a parede do retículo e atinge a cavidade abdominal.

A ingestão desses objetos perfurantes está intimamente ligada à parorexia ou pica, uma perversão do apetite decorrente de deficiências minerais. Um exemplo clássico desse comportamento é a osteofagia, em que o bovino passa a roer ossos devido, principalmente, à carência de fósforo. Esse comportamento de risco expõe o animal à ingestão acidental de metais presentes no ambiente, desencadeando o processo traumático.

Fatores Predisponentes à Perfuração

Mecanismos Anatômicos e Gatilhos de Pressão Os hábitos alimentares dos bovinos são um fator de risco primário, caracterizados por uma mastigação rudimentar, deglutição rápida e baixa capacidade discriminativa de alimentos. Esse comportamento é agravado pela anatomia das papilas bucais, que são voltadas para trás, dificultando a expulsão de objetos estranhos após a ingestão. Uma vez ingeridos, objetos que caem no rúmen acabam se deslocando para o retículo, que é o local de saída próximo à cárdia. O formato de saco do retículo e o vigor de suas contrações favorecem que objetos pontiagudos fiquem presos e perfurem a parede do órgão. Além da anatomia, eventos que aumentam a pressão intra abdominal funcionam como gatilhos determinantes para a perfuração. A gestação avançada e o timpanismo elevam essa pressão, enquanto o esforço físico durante o transporte ou o salto para cobertura facilitam o trauma reticular em animais que portam corpos estranhos.

Patogenia da Peritonite em Bovinos

A etiologia da peritonite apresenta distinções fundamentais entre as espécies. Em bovinos, a principal causa do processo inflamatório peritoneal é a ingestão de corpos estranhos, contrastando com os equinos, nos quais as cólicas representam o fator desencadeante primário.

Diferentemente dos equinos, que apresentam peritonite generalizada em cerca de 99% das vezes, a peritonite em bovinos é localizada em aproximadamente 60% dos casos. Essa característica ocorre devido à alta produção de fibrina nos ruminantes, o que facilita o isolamento e a contenção da resposta inflamatória na cavidade abdominal.

Complicações de Vizinhança e Hérnia

  • Disseminação Séptica e Inflamações: A migração do corpo estranho a partir do retículo pode desencadear pericardite, hepatite, esplenite e pleurite.
  • Formação de Abscessos: Complicações da reticulite incluem o surgimento de abscessos no baço, fígado, diafragma, mediastino, pleura e pulmões.
  • Comprometimento do Nervo Vago: A perfuração reticular, especialmente por pregos, pode atingir ramificações do nervo vago, gerando problemas nervosos.
  • Hérnia Diafragmática: A fragilização da parede próxima ao diafragma, causada pelo trauma reticular, pode levar ao desenvolvimento de hérnias nessa região.

Sinais Clínicos Digestivos

A reticuloperitonite traumática impacta diretamente o desempenho e o comportamento alimentar dos ruminantes, resultando em uma queda significativa na produção de leite em vacas afetadas. O quadro clínico inicial envolve sinais de anorexia ou hiporexia, sendo comum a observação do "apetite caprichoso", comportamento em que o animal seleciona o alimento, mas interrompe a ingestão de forma rápida.

No trato digestório, a reticulite provoca a diminuição dos movimentos do rúmen ou até mesmo a parada ruminal completa. Essa ausência de motilidade adequada pode gerar quadros de meteorismo (timpanismo) de intensidade leve a moderada. Como consequência direta do menor trânsito e ingestão, ocorre também uma redução na quantidade de fezes produzidas pelo animal.

Testes Físicos Específicos para Reticulite

  1. Protocolo de exame: Envolve a realização da prova do bastão, ruminoscopia, pinçamento da cernelha e percussão do retículo.
  2. Prova do bastão: Técnica de palpação indireta onde se eleva um bastão sob o ventre e utiliza se um sonoscópio na traqueia para detectar gemidos de dor.
  3. Pinçamento da cernelha: Teste de provocação onde o animal com dor reticular demonstra defesa, resiste ao movimento de abaixar e pode emitir gemidos.
  4. Percussão dolorosa do ventrum: Procedimento realizado com martelo de borracha ou punho na região do xifóide, especificamente entre o quinto e o sétimo espaço intercostal.
  5. Considerações sobre palpação: A palpação retal em peritonites localizadas permite identificar rim esquerdo, útero e alças, mas a palpação abdominal direta não é patognomônica, pois a compressão de outras vísceras, como o abomaso, também causa dor.

Exames Complementares e Imagem

Métodos de Detecção e Técnicas de Diagnóstico Invasivo

A detecção de corpos estranhos metálicos pode ser auxiliada pelo uso de detectores de metal potentes externamente. No entanto, a ferroscopia apresenta limitações importantes: um resultado positivo não confirma necessariamente uma patologia, e a presença de objetos metálicos no próprio examinador, como chaves e anéis, pode causar interferências no exame.

Para diagnósticos mais específicos, a peritonoscopia é utilizada para visualizar a cavidade abdominal, onde aderências podem apresentar um aspecto granuloso. Nos casos em que se suspeita de reticulopericardite traumática, o ecocardiograma é o exame indicado para fechar o diagnóstico.

A técnica de abdominocentese em bovinos deve ser executada 10 cm à direita da linha média ventral e 10 cm à frente da cicatriz umbilical. É comum não obter fluido em animais saudáveis, diferentemente do que ocorre em cavalos. Quando a coleta é bem sucedida, a presença de proteínas acima de 3 g/dL ou fibrinogênio acima de 4 g/dL no líquido abdominal confirma um quadro inflamatório.

Marcadores Laboratoriais de Inflamação

Parâmetro LaboratorialPadrão de Referência (Normal)Alterações na Reticulite
Relação Linfócito/NeutrófiloLinfócitos (aprox. 60%) e Neutrófilos (aprox. 20%)Inversão da relação linfócito/neutrófilo
Leucócitos TotaisValores de referência normaisLeucocitose por neutrofilia (agudo) ou normalidade (crônico)
Morfologia CelularNeutrófilos maduros e sem alteraçõesPresença de neutrófilos jovens e granulações tóxicas
Fibrinogênio Plasmático300 a 700 mg/dLSuperior a 1000 mg/dL em infecções graves

O perfil hematológico bovino é caracterizado pela inversão da proporção de linfócitos e neutrófilos durante processos inflamatórios, associada ao aumento crítico do fibrinogênio plasmático.

Reticulopericardite Traumática

A reticulopericardite traumática é frequentemente desencadeada pela ingestão de corpos estranhos metálicos, provenientes de cercas ou ambientes sujos. Devido à proximidade anatômica entre o retículo e o coração, ambos localizados junto ao diafragma, a pericardite torna se a complicação mais comum decorrente de uma reticuloperitonite.

A patogenia envolve a inflamação do pericárdio, o que resulta no acúmulo de líquido no saco pericárdico e no aumento da espessura de sua parede. Em quadros crônicos, observa se uma inflamação persistente com consequente aumento do tamanho do coração, podendo evoluir, em alguns casos, para uma peritonite generalizada.

O desfecho clínico dessa condição é grave. Na reticulopericardite crônica, a compressão e o comprometimento da função miocárdica progridem de tal forma que o animal geralmente morre por insuficiência cardíaca.

Semiologia Cardiovascular na Pericardite

A avaliação cardiovascular detalhada em ruminantes exige um ambiente silencioso, concentrando a atenção na área de percussão cardíaca localizada entre o terceiro e o quinto espaço intercostal esquerdo. Na pericardite traumática, o animal geralmente apresenta taquicardia superior a 100 batimentos por minuto. Embora a ausculta possa revelar sons normais ou mais fortes na fase inicial, a evolução da patologia resulta em hipofonese, aumento da área cardíaca e edema. A identificação de ruídos patológicos é crucial: o roce pericárdico surge da presença de fibrina e aderências no pericárdio inflamado, ocorrendo especificamente durante a contração cardíaca. Esse sinal diferencia se do atrito pleural, que coincide com os movimentos respiratórios. Outro achado característico é o ruído hidroaéreo no pericárdio, cujo som assemelha se ao marulhar de ondas.

Insuficiência Cardíaca Direita e Edemas

A insuficiência cardíaca decorrente da pericardite traumática manifesta se fisicamente através de edemas localizados na região ventral do peito e na região submandibular, também chamada de papada. A confirmação clínica dessa condição é feita pela palpação, onde a identificação do sinal de Godet (cacifo) positivo comprova a presença do acúmulo de líquido.

O sistema vascular também apresenta alterações significativas, como o ingurgitamento ou turgor da veia jugular. Para avaliar a dinâmica circulatória nessa região, utiliza se a prova do garrote, que permite analisar o tempo de enchimento e esvaziamento venoso. Contudo, deve se ter cautela na interpretação da onda retrógrada na jugular, pois ela pode estar presente em animais magros sem representar, necessariamente, um processo patológico.

Diagnóstico Invasivo e Prognóstico

  • Métodos diagnósticos: a investigação inicial deve contemplar a anamnese, abordando sinais clínicos, ambiente e epidemiologia, além da realização dos exames físicos geral e específico.
  • Pericardiocentese diagnóstica: a punção pericárdica para coleta de líquido é indicada sempre que houver suspeita de pericardite inflamada, permitindo a análise laboratorial do efuso.
  • Localização anatômica: o quarto espaço intercostal é o local adequado e seguro para a realização da punção pericárdica em ruminantes.
  • Alívio terapêutico: além da função diagnóstica, a pericardiocentese pode ser utilizada para aliviar a compressão cardíaca severa causada pelo excesso de líquido no saco pericárdico.
  • Prognóstico clínico: em decorrência da alta gravidade das lesões cardíacas instaladas, o prognóstico para casos de reticulopericardite traumática é considerado de reservado a muito ruim.

Terapia Conservativa e Uso de Magnetos

  1. Preparo inicial: Realização de jejum de 12 horas antes da administração do magneto e manutenção de jejum alimentar por dois a três dias durante o curso do tratamento.
  2. Administração e monitoramento: Inserção do magneto por via oral utilizando aplicador específico para contenção de metais, com verificação posterior de sua presença no retículo por meio de uma bússola externa.
  3. Terapia de suporte: Manutenção do animal em plano inclinado associada ao uso de antibióticos, técnica que, segundo estudo de Berger (1983), apresenta 83% de taxa de sucesso.
  4. Mecanismo de retenção: O magneto permanece no retículo pois o orifício retículo omasal possui aproximadamente 4 a 5 cm de diâmetro (passagem de três a quatro dedos), o que impede a passagem do ímã para o omaso.
  5. Limitações do método: O uso de ímãs para identificar ou remover pregos pode falhar caso o objeto não seja atraído pelo magneto ou não saia da sua posição original de penetração.

Preparação para Laparotomia Exploratória

  • Indicação e eficácia: O procedimento apresenta taxa de sucesso de aproximadamente 90% e permite definir o prognóstico por meio da inspeção visual e palpação da cavidade, tendo como desvantagem o maior custo em termos de tempo.
  • Acesso cirúrgico: A laparotomia deve ser realizada pelo flanco esquerdo para facilitar o acesso ao retículo e possibilitar uma eventual rumenotomia.
  • Protocolo anestésico: Utiliza se anestesia local no flanco esquerdo, como a técnica paravertebral modificada, empregando lidocaína a 2% sem vasoconstritor.
  • Marcos para incisão: A abertura cutânea possui cerca de 30 cm de extensão e deve ser feita a aproximadamente 5 cm da 13ª costela e entre 8 a 10 cm abaixo dos processos transversos.
  • Planos anatômicos: A incisão pelo flanco atravessa os músculos oblíquo abdominal externo, oblíquo abdominal interno e transverso abdominal.

Técnica de Ruminotomia e Exploração

  1. Acesso e Visualização: Abertura da cavidade abdominal pelo flanco esquerdo do bovino, sendo o rúmen o primeiro órgão visualizado.
  2. Exploração Abdominal: Palpação sistemática de órgãos como baço, fígado, rins e alças intestinais para avaliação de alterações.
  3. Avaliação do Retículo: Identificação de aderências, abscessos ou fibrina (aspecto de areia), devendo ser o último órgão palpado para evitar a disseminação de contaminação na cavidade.
  4. Fixação Ruminal (Técnica Inglesa): Realização de sutura contínua entre a cerosa do rúmen e a musculatura, iniciando na posição de 3 horas para auxiliar na vedação pela rápida formação de fibrina.
  5. Incisão e Manejo de Conteúdo: Abertura do rúmen evitando o extravasamento de suco ruminal para prevenir peritonite fatal, com remoção de conteúdo líquido por sifonagem utilizando tubos largos.
  6. Intervenção Cirúrgica: Exploração interna do órgão para a localização e remoção do corpo estranho (prego).

Pós operatório e Transfaunação

Recolonização da Microbiota Digestiva

Após a conclusão de uma ruminotomia com remoção de conteúdo, a transfaunação é uma etapa essencial no manejo pós operatório para restaurar a saúde do animal.

Esse procedimento consiste na administração de suco de rúmen obtido de um animal sadio, o qual pode ser coletado de maneira eficiente por meio de uma sonda ororuminal.

O objetivo central da transfaunação é promover a recolonização do rúmen por bactérias e protozoários, que são elementos indispensáveis para a manutenção do processo digestivo normal.

Tópicos Especiais: Purunã e Abomaso

  • Raça Purunã: única raça bovina desenvolvida no estado do Paraná, originada no Iapar de Ponta Grossa por meio de cruzamentos entre as raças Caracu, Charolês, Aberdeen Angus e Canchim.
  • Deslocamento de abomaso à esquerda: fenômeno caracterizado pela migração mecânica do órgão do lado direito para o lado esquerdo do abdômen.

Dicas Para Provas

Dicas Para Provas
A presença de fibras vegetais 1cm nas fezes indica falha na seleção reticular.
O sinal de Godet positivo confirma a natureza do edema em casos de insuficiência cardíaca.
A síndrome de Hoflund altera a conformação do retículo ('bola murcha') e dilata o orifício retículo omasal.
Anatomia clínica: o abomaso localiza se à direita, enquanto a biópsia hepática deve focar no 10º ou 11º espaço intercostal direito.

Protegendo o Coração

A ingestão de objetos perfurantes pode atravessar a parede do retículo e atingir o coração do animal, causando danos silenciosos e fatais. Assim como esses metais ocultos trazem ruína física, pequenas mágoas ou pesos podem perfurar nossa vitalidade e integridade espiritual. Jesus conhece as profundezas do nosso ser e oferece o cuidado necessário para que nosso coração pulse com paz e propósito verdadeiro.

Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida.Provérbios 4:23

O que tem entrado em seu coração? Reflita hoje em Provérbios 4.

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