Sion Academy
Reticuloperitonite Traumática e Complicações em Ruminantes
Da Perversão do Apetite à Perfuração do Retículo
Topicos da aula
- Reticulites
Panorama da Reticulite Traumática
Os bovinos apresentam hábitos alimentares caracterizados pela baixa seletividade e deglutição rápida. Esse comportamento, aliado à presença de papilas bucais que dificultam a ejeção de objetos estranhos, predispõe os animais à ingestão acidental de corpos estranhos pontiagudos, o que classicamente provoca a reticulite traumática.
Embora a digestão ruminal dependa essencialmente da microbiota para a conversão de alimentos em ácidos graxos e matéria orgânica, a integridade física do retículo é vulnerável a esses objetos perfurantes. Quando ocorre a perfuração, o quadro pode evoluir para sérias consequências sistêmicas, sendo a pericardite a principal complicação da reticulite traumática em ruminantes.
Fisiologia e Motilidade dos Pré estômagos
Dando continuidade ao entendimento do sistema digestório, a mucosa do retículo apresenta uma conformação reticulada característica, assemelhando se a favos de mel. No rúmen, a atuação de micro organismos é fundamental, transformando o alimento ingerido em ácidos graxos e matéria orgânica essenciais para a nutrição do ruminante.
A motilidade desses compartimentos ocorre de forma coordenada e rítmica. O retículo apresenta uma contração bifásica, enquanto a contração do rúmen também é bifásica, caracterizada pelo saco dorsal contraindo em sentido caudal e o saco ventral em sentido cranial.
O gerenciamento de gases é um aspecto crítico da fisiologia, uma vez que uma vaca leiteira de alta produção pode produzir cerca de 600 litros de gás por dia. O processo de eructação envolve uma contração acessória do saco ventral do rúmen em sentido craniodorsal, acompanhada do relaxamento da cárdia para a liberação desses gases.
Regulação Vagal e Indigestões
- Inervação Vagal: o nervo vago (X par craniano) é o responsável pela inervação dos pré estômagos, enviando ramificações fundamentais para o controle motor do retículo.
- Obstruções Mecânicas: os locais de possível impedimento na passagem do conteúdo alimentar incluem o esôfago, o orifício retículo omasal e o piloro (saída do abomaso).
- Indigestões Primárias: são classificadas entre transtornos motores, relacionados diretamente à integridade da parede ou da inervação dos pré estômagos, e transtornos bioquímicos.
- Indigestões Secundárias: ocorrem por fatores sistêmicos como estados febris ou a hipocalcemia, onde a falta de cálcio no sangue compromete a força muscular necessária para o funcionamento do rúmen.
Etiologia e Parorexia
Da Perversão do Apetite à Perfuração do Retículo
Além dos distúrbios de motilidade, a inflamação do retículo pode ser classificada conforme sua origem. A reticulite não traumática é menos comum, sendo causada por processos infecciosos como a actinobacilose (Actinobacillus) ou lesões pelo vírus da febre aftosa. Em contraste, a peritonite traumática é a forma clínica mais frequente, ocorrendo quando um corpo estranho metálico, como prego ou arame, perfura a parede do retículo e atinge a cavidade abdominal.
A ingestão desses objetos perfurantes está intimamente ligada à parorexia ou pica, uma perversão do apetite decorrente de deficiências minerais. Um exemplo clássico desse comportamento é a osteofagia, em que o bovino passa a roer ossos devido, principalmente, à carência de fósforo. Esse comportamento de risco expõe o animal à ingestão acidental de metais presentes no ambiente, desencadeando o processo traumático.
Fatores Predisponentes à Perfuração
Mecanismos Anatômicos e Gatilhos de Pressão Os hábitos alimentares dos bovinos são um fator de risco primário, caracterizados por uma mastigação rudimentar, deglutição rápida e baixa capacidade discriminativa de alimentos. Esse comportamento é agravado pela anatomia das papilas bucais, que são voltadas para trás, dificultando a expulsão de objetos estranhos após a ingestão. Uma vez ingeridos, objetos que caem no rúmen acabam se deslocando para o retículo, que é o local de saída próximo à cárdia. O formato de saco do retículo e o vigor de suas contrações favorecem que objetos pontiagudos fiquem presos e perfurem a parede do órgão. Além da anatomia, eventos que aumentam a pressão intra abdominal funcionam como gatilhos determinantes para a perfuração. A gestação avançada e o timpanismo elevam essa pressão, enquanto o esforço físico durante o transporte ou o salto para cobertura facilitam o trauma reticular em animais que portam corpos estranhos.
Patogenia da Peritonite em Bovinos
A etiologia da peritonite apresenta distinções fundamentais entre as espécies. Em bovinos, a principal causa do processo inflamatório peritoneal é a ingestão de corpos estranhos, contrastando com os equinos, nos quais as cólicas representam o fator desencadeante primário.
Diferentemente dos equinos, que apresentam peritonite generalizada em cerca de 99% das vezes, a peritonite em bovinos é localizada em aproximadamente 60% dos casos. Essa característica ocorre devido à alta produção de fibrina nos ruminantes, o que facilita o isolamento e a contenção da resposta inflamatória na cavidade abdominal.
Complicações de Vizinhança e Hérnia
- Disseminação Séptica e Inflamações: A migração do corpo estranho a partir do retículo pode desencadear pericardite, hepatite, esplenite e pleurite.
- Formação de Abscessos: Complicações da reticulite incluem o surgimento de abscessos no baço, fígado, diafragma, mediastino, pleura e pulmões.
- Comprometimento do Nervo Vago: A perfuração reticular, especialmente por pregos, pode atingir ramificações do nervo vago, gerando problemas nervosos.
- Hérnia Diafragmática: A fragilização da parede próxima ao diafragma, causada pelo trauma reticular, pode levar ao desenvolvimento de hérnias nessa região.
Sinais Clínicos Digestivos
A reticuloperitonite traumática impacta diretamente o desempenho e o comportamento alimentar dos ruminantes, resultando em uma queda significativa na produção de leite em vacas afetadas. O quadro clínico inicial envolve sinais de anorexia ou hiporexia, sendo comum a observação do "apetite caprichoso", comportamento em que o animal seleciona o alimento, mas interrompe a ingestão de forma rápida.
No trato digestório, a reticulite provoca a diminuição dos movimentos do rúmen ou até mesmo a parada ruminal completa. Essa ausência de motilidade adequada pode gerar quadros de meteorismo (timpanismo) de intensidade leve a moderada. Como consequência direta do menor trânsito e ingestão, ocorre também uma redução na quantidade de fezes produzidas pelo animal.
Testes Físicos Específicos para Reticulite
- Protocolo de exame: Envolve a realização da prova do bastão, ruminoscopia, pinçamento da cernelha e percussão do retículo.
- Prova do bastão: Técnica de palpação indireta onde se eleva um bastão sob o ventre e utiliza se um sonoscópio na traqueia para detectar gemidos de dor.
- Pinçamento da cernelha: Teste de provocação onde o animal com dor reticular demonstra defesa, resiste ao movimento de abaixar e pode emitir gemidos.
- Percussão dolorosa do ventrum: Procedimento realizado com martelo de borracha ou punho na região do xifóide, especificamente entre o quinto e o sétimo espaço intercostal.
- Considerações sobre palpação: A palpação retal em peritonites localizadas permite identificar rim esquerdo, útero e alças, mas a palpação abdominal direta não é patognomônica, pois a compressão de outras vísceras, como o abomaso, também causa dor.
Exames Complementares e Imagem
Métodos de Detecção e Técnicas de Diagnóstico Invasivo
A detecção de corpos estranhos metálicos pode ser auxiliada pelo uso de detectores de metal potentes externamente. No entanto, a ferroscopia apresenta limitações importantes: um resultado positivo não confirma necessariamente uma patologia, e a presença de objetos metálicos no próprio examinador, como chaves e anéis, pode causar interferências no exame.
Para diagnósticos mais específicos, a peritonoscopia é utilizada para visualizar a cavidade abdominal, onde aderências podem apresentar um aspecto granuloso. Nos casos em que se suspeita de reticulopericardite traumática, o ecocardiograma é o exame indicado para fechar o diagnóstico.
A técnica de abdominocentese em bovinos deve ser executada 10 cm à direita da linha média ventral e 10 cm à frente da cicatriz umbilical. É comum não obter fluido em animais saudáveis, diferentemente do que ocorre em cavalos. Quando a coleta é bem sucedida, a presença de proteínas acima de 3 g/dL ou fibrinogênio acima de 4 g/dL no líquido abdominal confirma um quadro inflamatório.
Marcadores Laboratoriais de Inflamação
| Parâmetro Laboratorial | Padrão de Referência (Normal) | Alterações na Reticulite |
|---|---|---|
| Relação Linfócito/Neutrófilo | Linfócitos (aprox. 60%) e Neutrófilos (aprox. 20%) | Inversão da relação linfócito/neutrófilo |
| Leucócitos Totais | Valores de referência normais | Leucocitose por neutrofilia (agudo) ou normalidade (crônico) |
| Morfologia Celular | Neutrófilos maduros e sem alterações | Presença de neutrófilos jovens e granulações tóxicas |
| Fibrinogênio Plasmático | 300 a 700 mg/dL | Superior a 1000 mg/dL em infecções graves |
O perfil hematológico bovino é caracterizado pela inversão da proporção de linfócitos e neutrófilos durante processos inflamatórios, associada ao aumento crítico do fibrinogênio plasmático.
Reticulopericardite Traumática
A reticulopericardite traumática é frequentemente desencadeada pela ingestão de corpos estranhos metálicos, provenientes de cercas ou ambientes sujos. Devido à proximidade anatômica entre o retículo e o coração, ambos localizados junto ao diafragma, a pericardite torna se a complicação mais comum decorrente de uma reticuloperitonite.
A patogenia envolve a inflamação do pericárdio, o que resulta no acúmulo de líquido no saco pericárdico e no aumento da espessura de sua parede. Em quadros crônicos, observa se uma inflamação persistente com consequente aumento do tamanho do coração, podendo evoluir, em alguns casos, para uma peritonite generalizada.
O desfecho clínico dessa condição é grave. Na reticulopericardite crônica, a compressão e o comprometimento da função miocárdica progridem de tal forma que o animal geralmente morre por insuficiência cardíaca.
Semiologia Cardiovascular na Pericardite
A avaliação cardiovascular detalhada em ruminantes exige um ambiente silencioso, concentrando a atenção na área de percussão cardíaca localizada entre o terceiro e o quinto espaço intercostal esquerdo. Na pericardite traumática, o animal geralmente apresenta taquicardia superior a 100 batimentos por minuto. Embora a ausculta possa revelar sons normais ou mais fortes na fase inicial, a evolução da patologia resulta em hipofonese, aumento da área cardíaca e edema. A identificação de ruídos patológicos é crucial: o roce pericárdico surge da presença de fibrina e aderências no pericárdio inflamado, ocorrendo especificamente durante a contração cardíaca. Esse sinal diferencia se do atrito pleural, que coincide com os movimentos respiratórios. Outro achado característico é o ruído hidroaéreo no pericárdio, cujo som assemelha se ao marulhar de ondas.
Insuficiência Cardíaca Direita e Edemas
A insuficiência cardíaca decorrente da pericardite traumática manifesta se fisicamente através de edemas localizados na região ventral do peito e na região submandibular, também chamada de papada. A confirmação clínica dessa condição é feita pela palpação, onde a identificação do sinal de Godet (cacifo) positivo comprova a presença do acúmulo de líquido.
O sistema vascular também apresenta alterações significativas, como o ingurgitamento ou turgor da veia jugular. Para avaliar a dinâmica circulatória nessa região, utiliza se a prova do garrote, que permite analisar o tempo de enchimento e esvaziamento venoso. Contudo, deve se ter cautela na interpretação da onda retrógrada na jugular, pois ela pode estar presente em animais magros sem representar, necessariamente, um processo patológico.
Diagnóstico Invasivo e Prognóstico
- Métodos diagnósticos: a investigação inicial deve contemplar a anamnese, abordando sinais clínicos, ambiente e epidemiologia, além da realização dos exames físicos geral e específico.
- Pericardiocentese diagnóstica: a punção pericárdica para coleta de líquido é indicada sempre que houver suspeita de pericardite inflamada, permitindo a análise laboratorial do efuso.
- Localização anatômica: o quarto espaço intercostal é o local adequado e seguro para a realização da punção pericárdica em ruminantes.
- Alívio terapêutico: além da função diagnóstica, a pericardiocentese pode ser utilizada para aliviar a compressão cardíaca severa causada pelo excesso de líquido no saco pericárdico.
- Prognóstico clínico: em decorrência da alta gravidade das lesões cardíacas instaladas, o prognóstico para casos de reticulopericardite traumática é considerado de reservado a muito ruim.
Terapia Conservativa e Uso de Magnetos
- Preparo inicial: Realização de jejum de 12 horas antes da administração do magneto e manutenção de jejum alimentar por dois a três dias durante o curso do tratamento.
- Administração e monitoramento: Inserção do magneto por via oral utilizando aplicador específico para contenção de metais, com verificação posterior de sua presença no retículo por meio de uma bússola externa.
- Terapia de suporte: Manutenção do animal em plano inclinado associada ao uso de antibióticos, técnica que, segundo estudo de Berger (1983), apresenta 83% de taxa de sucesso.
- Mecanismo de retenção: O magneto permanece no retículo pois o orifício retículo omasal possui aproximadamente 4 a 5 cm de diâmetro (passagem de três a quatro dedos), o que impede a passagem do ímã para o omaso.
- Limitações do método: O uso de ímãs para identificar ou remover pregos pode falhar caso o objeto não seja atraído pelo magneto ou não saia da sua posição original de penetração.
Preparação para Laparotomia Exploratória
- Indicação e eficácia: O procedimento apresenta taxa de sucesso de aproximadamente 90% e permite definir o prognóstico por meio da inspeção visual e palpação da cavidade, tendo como desvantagem o maior custo em termos de tempo.
- Acesso cirúrgico: A laparotomia deve ser realizada pelo flanco esquerdo para facilitar o acesso ao retículo e possibilitar uma eventual rumenotomia.
- Protocolo anestésico: Utiliza se anestesia local no flanco esquerdo, como a técnica paravertebral modificada, empregando lidocaína a 2% sem vasoconstritor.
- Marcos para incisão: A abertura cutânea possui cerca de 30 cm de extensão e deve ser feita a aproximadamente 5 cm da 13ª costela e entre 8 a 10 cm abaixo dos processos transversos.
- Planos anatômicos: A incisão pelo flanco atravessa os músculos oblíquo abdominal externo, oblíquo abdominal interno e transverso abdominal.
Técnica de Ruminotomia e Exploração
- Acesso e Visualização: Abertura da cavidade abdominal pelo flanco esquerdo do bovino, sendo o rúmen o primeiro órgão visualizado.
- Exploração Abdominal: Palpação sistemática de órgãos como baço, fígado, rins e alças intestinais para avaliação de alterações.
- Avaliação do Retículo: Identificação de aderências, abscessos ou fibrina (aspecto de areia), devendo ser o último órgão palpado para evitar a disseminação de contaminação na cavidade.
- Fixação Ruminal (Técnica Inglesa): Realização de sutura contínua entre a cerosa do rúmen e a musculatura, iniciando na posição de 3 horas para auxiliar na vedação pela rápida formação de fibrina.
- Incisão e Manejo de Conteúdo: Abertura do rúmen evitando o extravasamento de suco ruminal para prevenir peritonite fatal, com remoção de conteúdo líquido por sifonagem utilizando tubos largos.
- Intervenção Cirúrgica: Exploração interna do órgão para a localização e remoção do corpo estranho (prego).
Pós operatório e Transfaunação
Recolonização da Microbiota Digestiva
Após a conclusão de uma ruminotomia com remoção de conteúdo, a transfaunação é uma etapa essencial no manejo pós operatório para restaurar a saúde do animal.
Esse procedimento consiste na administração de suco de rúmen obtido de um animal sadio, o qual pode ser coletado de maneira eficiente por meio de uma sonda ororuminal.
O objetivo central da transfaunação é promover a recolonização do rúmen por bactérias e protozoários, que são elementos indispensáveis para a manutenção do processo digestivo normal.
Tópicos Especiais: Purunã e Abomaso
- Raça Purunã: única raça bovina desenvolvida no estado do Paraná, originada no Iapar de Ponta Grossa por meio de cruzamentos entre as raças Caracu, Charolês, Aberdeen Angus e Canchim.
- Deslocamento de abomaso à esquerda: fenômeno caracterizado pela migração mecânica do órgão do lado direito para o lado esquerdo do abdômen.
Dicas Para Provas
| Dicas Para Provas |
|---|
| A presença de fibras vegetais 1cm nas fezes indica falha na seleção reticular. |
| O sinal de Godet positivo confirma a natureza do edema em casos de insuficiência cardíaca. |
| A síndrome de Hoflund altera a conformação do retículo ('bola murcha') e dilata o orifício retículo omasal. |
| Anatomia clínica: o abomaso localiza se à direita, enquanto a biópsia hepática deve focar no 10º ou 11º espaço intercostal direito. |
Protegendo o Coração
A ingestão de objetos perfurantes pode atravessar a parede do retículo e atingir o coração do animal, causando danos silenciosos e fatais. Assim como esses metais ocultos trazem ruína física, pequenas mágoas ou pesos podem perfurar nossa vitalidade e integridade espiritual. Jesus conhece as profundezas do nosso ser e oferece o cuidado necessário para que nosso coração pulse com paz e propósito verdadeiro.
Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida.Provérbios 4:23
O que tem entrado em seu coração? Reflita hoje em Provérbios 4.