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MedVet6 PeríodoMedicina EquinaP2

Afecções Oftalmológicas na Espécie Equina

Anatomia e Comportamento como Fatores de Risco

Duracao: 28 min

Topicos da aula

  • Afecções em Olho

Overview

Visão Geral das Afecções Oftálmicas

A oftalmologia equina exige atenção especial devido à conformação anatômica proeminente do globo ocular, que predispõe o animal a traumas frequentes. O manejo clínico é desafiador, demandando bloqueios perineurais e sedação para superar o blefarospasmo e a dor intensa. Diagnósticos precisos dependem do uso de corantes vitais e da mensuração da pressão intraocular para identificar emergências críticas, como as úlceras de córnea, a ceratomalácia e a Uveíte Recorrente Equina. Enquanto as úlceras de córnea exigem controle rigoroso de bactérias colagenolíticas e contraindicam o uso de corticoides, a uveíte demanda terapia anti inflamatória agressiva para evitar a Phthisis bulbi e a cegueira permanente. Compreender a barreira hemato aquosa e as vias neurológicas é fundamental para preservar a visão e o bem estar desses animais no campo.

Introdução e Desafios da Oftalmologia Equina

Propensão Anatômica e Fatores de Risco Ambientais

Anatomia e Comportamento como Fatores de Risco

O cavalo possui uma conformação anatômica proeminente e lateralizada que o torna vulnerável a diversos tipos de injúrias oculares. Essa exposição é agravada pela reatividade inerente ao temperamento da espécie; o forte instinto de fuga faz com que, diante de ameaças, o animal se choque contra obstáculos, resultando em traumas oculares agudos.

O ambiente também atua como um fator de risco crítico, onde elementos como feno, gramíneas, poeira e serragem funcionam como corpos estranhos que podem lacerar a córnea ou servir de veículo para patógenos. Além disso, em ambientes com alta carga de poeira, cavalos velhos podem apresentar descargas nasais simples e pouco produtivas, refletindo a constante irritação das vias aéreas e anexos.

Principais Emergências Oftálmicas na Rotina Equina

As emergências oftálmicas exigem rapidez, pois úlceras indolentes são frequentemente refratárias ao tratamento clínico e, junto à ceratomalácia, podem exigir ceratectomia imediata. Atenção redobrada deve ser dada aos traumas palpebrais, visto que a pálpebra superior possui maior mobilidade e é vital para a lubrificação; logo, qualquer laceração compromete a fisiologia ocular. Além disso, quadros de edema de córnea associados a uveíte recorrente ou abscessos estromais são rotineiros e demandam diagnóstico ágil para evitar a perda visual permanente.

Desafios Físicos no Exame Oftalmológico Equino

Diferente de pequenos animais, o equino apresenta um temperamento naturalmente arredio e uma anatomia ocular que impõe obstáculos significativos ao clínico. A dor ocular intensa torna o cavalo reativo ao toque, dificultando o exame oftalmológico, especialmente quando o quadro cursa com blefarospasmo severo. Essa sensibilidade exacerbada ocorre porque a córnea é extremamente inervada, o que torna as lesões corneanas muito dolorosas.

Além do fator comportamental, a lateralização dos olhos exige, muitas vezes, o trabalho de dois examinadores para a aferição adequada de reflexos pupilares consensuais. Acredita se que a espécie seja hipermétrope, o que gera movimentos bruscos de distanciamento para ajuste do foco visual. Outro grande desafio é a ausência frequente de um ambiente ambulatorial ideal no campo, suficientemente escuro e silencioso, condição necessária para exames precisos como a fundoscopia e o reflexo de ofuscamento.

Semiologia e Neurologia Aplicada à Oftalmologia

Dinâmica do Exame Inicial

Nessa abordagem, deve se considerar que o cavalo possui uma visão monocular importante de quase 180 graus. Durante o exame, é difícil manter o olho do cavalo aberto, especialmente se o animal estiver com dor, o que exige paciência do examinador. Além disso, o teste de cegueira no cavalo consiste em colocar obstáculos em um ambiente desconhecido e observar se o animal esbarra neles ao caminhar.

Na avaliação de sinais clínicos, a fotofobia em cavalos está associada à pálpebra caída (ptose), um indicativo importante de desconforto ocular. Por fim, na avaliação neurológica, deve se recordar que uma lesão no quiasma óptico resulta em ausência de reflexo pupilar em ambos os olhos, comprometendo a resposta pupilar à luz bilateralmente.

Alterações de Volume e Inflamação

Identificar alterações na simetria e no volume ocular é fundamental para o diagnóstico de afecções graves em equinos:

  • Ângulo dos Cílios: em condições normais, estes se mantêm paralelos ao solo; a queda ou inclinação atípica dos cílios sinaliza variações patológicas na pressão ou no volume do globo.
  • Buftalmia: aumento do globo ocular (semelhante a um olho de bovino ou anuro) decorrente da pressão intraocular elevada, podendo evoluir para lesões retinianas severas que culminam em enucleação.
  • Phthisis bulbi: termo que se refere especificamente ao olho atrofiado, sendo frequentemente a fase final de lesões oftálmicas graves.
  • Enoftalmia: globo ocular retraído ou diminuído, podendo estar associada a uma condição denominada alvoerite ou hipotensão grave.
  • Panoftalmite: quadro de inflamação de todas as estruturas do globo ocular.
  • Descarga ocular volumosa: achado que indica um processo inflamatório avançado no globo ocular.

Nervos da Visão e Motilidade Ocular

O exame completo requer o conhecimento dos nervos óptico (NC II), oculomotor (NC III), troclear (NC IV), trigêmeo (NC V), abducente (NC VI), facial (NC VII) e vestibulococlear (NC VIII):

  • Nervo óptico (NC II): componente estritamente sensitivo; sua lesão está diretamente relacionada à cegueira.
  • Nervo oculomotor (NC III): regula o tamanho pupilar ( miose ); lesões causam midríase permanente (sem resposta à luz) e estrabismo lateral.
  • Nervo troclear (NC IV): nervo motor envolvido em casos de estrabismo.
  • Nervo abducente (NC VI): regula a posição do globo ocular e sua paralisia está associada ao estrabismo medial.
  • Nervo vestibular (NC VIII): influencia o posicionamento ocular, apresentando o nistagmo como sinal clínico clássico de disfunção.

Sensibilidade, Pálpebras e Lágrima

A integridade da superfície ocular dos equinos depende diretamente da coordenação entre nervos sensitivos e motores. O nervo trigêmeo é fundamental, pois garante a sensibilidade da córnea e da pálpebra, permitindo que o animal reaja a estímulos externos. Além dele, o nervo supraorbitário é o responsável pela inervação sensitiva do corpo do olho, fechando o sistema de percepção sensorial da região.

No aspecto motor e autonômico, as lesões no nervo facial são críticas, provocando ptose palpebral e o ressecamento ocular (olho seco). É relevante destacar que alterações no nervo facial e no nervo trigêmeo em conjunto prejudicam a inervação das glândulas lacrimais, predispondo o animal a desenvolver ceratite secundária devido ao déficit de lubrificação.

Vias Neurológicas dos Reflexos Oculares

O exame dos reflexos oculares no cavalo exige o conhecimento de trajetos anatômicos específicos, que variam de conexões cerebelares a longas vias medulares.

  1. Testagem: Realizar o reflexo de ameaça de forma sutil para não tocar nas vibrissas (pelos táteis), garantindo a avaliação visual.
  2. Integração: Processar o estímulo via cerebelo, observando que lesões cerebelares podem resultar em cegueira central mesmo sem lesão no globo.
  3. Avaliação de trauma: Identificar se traumas cranianos agudos (comuns em acidentes com cabresto ) podem resultar em cegueira central por afetarem a via neurológica.
  4. Miose: Ativar a constrição pupilar via nervo oculomotor em uma via considerada curta e direta.
  5. Midríase: Percorrer a via extremamente longa, descendo pela medula espinhal até os segmentos torácicos T1 T3 antes de retornar ao olho.

Métodos Diagnósticos e Bloqueios Locorregionais

Mensuração da Produção Lacrimal e Tonometria

A avaliação oftálmica em equinos inicia se pela mensuração da produção lacrimal basal através do Teste da Lágrima de Schirmer. Em cavalos, o valor é considerado normal quando atinge 20 mm ou mais em 50 segundos. Para a avaliação da pressão intraocular (PIO), utilizam se equipamentos como o Tono Pen, por aposição, ou o TonoVet, que utiliza a tonometria de rebote e é reconhecido por ser mais moderno, sensível e prático no manejo clínico. É crucial considerar fatores que alteram a PIO artificialmente para garantir a acurácia. O uso do método de contenção conhecido como cachimbo e variações na posição da cabeça (muito alta ou baixa) elevam a pressão, enquanto sedativos agonistas alfa 2 interferem reduzindo os valores. O protocolo ideal consiste em realizar seis mensurações, descartando o maior e o menor valor para então calcular a média. Exames complementares como a fundoscopia permitem observar a patência das estruturas internas, enquanto o corante Rosa Bengala é indicado para o diagnóstico de úlceras de córnea e a sonda uretral fina pode ser utilizada para a lavagem do ducto nasolacrimal.

Bloqueios Anestésicos Perineurais Oftálmicos

O emprego de bloqueios de nervos sensitivos e motores que inervam o globo ocular é fundamental para realizar um exame oftalmológico adequado e procedimentos invasivos. O principal bloqueio motor utiliza o nervo auriculopalpebral (um ramo do nervo facial ), sendo realizado próximo ao arco zigomático. Este procedimento promove a acinesia ou paralisação da pálpebra superior, suprimindo o blefarospasmo, embora não gere analgesia por si só.

Para obter analgesia locorregional, bloqueiam se os ramos do nervo trigêmeo, como o nervo supraorbitário, cujo forame é de fácil palpação. Outros ramos sensitivos importantes incluem os nervos infratroclear, lacrimal e zigomático. A combinação dessas técnicas, somada à sedação e ao bloqueio retrobulbar do nervo óptico, fornece anestesia suficiente para manipulações amplas, como a realização da enucleação do globo ocular com o animal em posição quadrupedal.

Doenças da Órbita e Anomalias Palpebrais

Apresentação por Idade e Defeitos Congênitos

As afecções oculares em equinos variam conforme a idade. Em cavalos adultos, as afecções oculares comuns incluem uveíte, úlceras de córnea, traumas, carcinomas e sarcoides. Já nos animais idosos, a prevalência muda para catarata, glaucoma, neoplasias e inflamações secundárias a sinusites, dada a íntima proximidade da órbita com o seio maxilar caudal, o que pode causar protrusão da órbita e cegueira.

No caso dos potros, destacam se os problemas congênitos, que abrangem microftalmia (por vezes bilateral e associada a hiperpigmentação corneana), dermoides e cataratas congênitas, além de estrabismo. A microftalmia é particularmente grave, pois frequentemente se manifesta de forma bilateral, resultando em cegueira logo ao nascimento.

Principais Neoplasias Perioculares Equinas

O carcinoma de células escamosas é a lesão neoplásica periocular mais comum observada na rotina de oftalmologia em cavalos. Trata se de um tumor com alta capacidade de infiltração nos tecidos perioculares do equino, promovendo exoftalmia severa e atrofia bulbar; com o passar do tempo, o carcinoma de células escamosas pode provocar hemophthalmia e cegueira.

Outras neoplasias também afetam a região, como o sarcoide equino, que é localmente invasivo, mas geralmente se restringe ao tecido cutâneo palpebral e não promove exoftalmia primária. Além disso, o mastocitoma também pode ocorrer no globo ocular de cavalos, embora seja uma condição rara na pele desta espécie.

Blefarite e Impacto da Despigmentação

A inflamação da porção externa da pálpebra é tecnicamente definida como blefarite. Em relação às pálpebras, a sarna em equinos pode causar blefarite, definida como a inflamação da parte externa da pálpebra. A integridade da pálpebra é influenciada pela pigmentação, que atua como barreira protetora.

Animais com a região ocular despigmentada são mais vulneráveis e podem apresentar queimaduras e neoplasias. Nesses casos, é frequente que o equino desenvolva blefarite especificamente em decorrência da radiação ou queimadura solar, evidenciando o risco que a falta de pigmento impõe aos tecidos perioculares.

Características do Entrópio e Ectrópio

O entrópio consiste na inversão da margem palpebral, afetando cavalos e ovelhas. Pode apresentar origem congênita (especialmente em potros recém nascidos), fazendo com que o animal já nasça com a pálpebra invertida. O principal risco clínico é o atrito constante dos cílios e pelos faciais contra a córnea, o que gera dor intensa e invariavelmente leva à formação de úlceras de córnea.

Diferentemente da inversão, o ectrópio é caracterizado pela pálpebra caída, sendo observado em raças como Cocker, Shar Pei e São Bernardo. Além disso, observa se que não é comum a ocorrência de blefarite associada à conjuntivite alérgica em cavalos, diferenciando a casuística equina de outras espécies domésticas.

Manejo Clínico e Cirúrgico do Entrópio

O manejo do entrópio varia conforme a gravidade. Em situações de campo, o tratamento clínico paliativo pode envolver a injeção palpebral de penicilina procaína hiperconcentrada, que provoca uma reação fibrótica e distensão mecânica, ajudando a manter a pálpebra na posição adequada. Como alternativa para quadros leves, a tarsorrafia (mencionada como tarsopia), ao suturar a cartilagem tarsal, permite a reversão parcial do entrópio.

A intervenção cirúrgica para entrópio em equinos é indicada quando há uma grande quantidade de pálpebra voltada para o interior do olho, sendo o mesmo procedimento realizado em pequenos animais e pequenos ruminantes. A técnica consiste na ressecção de um segmento de pele em forma de meia lua (crescente) abaixo da margem palpebral inferior. Deve se calcular rigorosamente a quantidade de tecido excisado; a ressecção excessiva resulta em ectrópio iatrogênico.

Afecções Conjuntivais e Vias Lacrimais

Etiologia das Conjuntivites e Reações Inflamatórias

As conjuntivites e reações alérgicas oculares em equinos estão frequentemente ligadas ao manejo, pois o contato com serragem e feno no ambiente pode desencadear irritações. Diferente dos bovinos, cuja ceratoconjuntivite infecciosa (ou "pink eye") é provocada pela bactéria Moraxella bovis, os equinos raramente desenvolvem surtos por esse agente, embora tanto a Moraxella quanto a Listeria monocytogenes e patógenos virais (como o Herpesvírus Equino e o vírus da Arterite Viral Equina) sejam ocasionalmente implicados. O parasitismo também desempenha um papel importante: a habronemose (pode provocar conjuntivite ao migrar para o olho do cavalo) envolve larvas de Habronema spp., enquanto os parasitos do gênero Thelazia possuem predileção pelo saco conjuntival. Em quadros de inflamação ocular intensa, independentemente da causa, é comum observar o surgimento de folículos linfoides na conjuntiva do animal.

Camadas do Filme Lacrimal

O filme lacrimal pré corneano é composto por três camadas que garantem a proteção e lubrificação ocular:

  • Camada Lipídica: Camada mais externa do filme lacrimal, essencial para evitar a evaporação da lágrima.
  • Camada Aquosa: Camada intermediária localizada abaixo da porção lipídica.
  • Camada Mucosa: Camada mais interna, produzida pelas células caliciformes ( goblet cells ) da conjuntiva.

Sinais Clínicos e Manifestações

A identificação correta das manifestações oculares é fundamental para diferenciar processos isolados de afecções sistêmicas ou graves:

  • Quemose: Termo técnico para o edema da conjuntiva, deixando o olho com aspecto demasiadamente inchado.
  • Epífora: Descarga de secreção serosa no canto do olho.
  • Blefaroespasmo: O blefaroespasmo consiste em manter a pálpebra do olho fechada devido ao incômodo.
  • Sinais Clínicos: Manifestações que incluem edema de pálpebra, descarga purulenta abundante e aumento da produção lacrimal.
  • Associações Clínicas: Lesões na córnea, como úlceras, podem se refletir na conjuntiva; além disso, casos frequentes de conjuntivite estão fortemente associados a úlceras de córnea, glaucoma ou uveíte.

Obstrução do Ducto Nasolacrimal

Anatomia e Manejo da Drenagem Lacrimal

O ducto nasolacrimal do equino destaca se por ser amplo em comparação com outras espécies domésticas. Sua extremidade distal é de fácil acesso, podendo ser visualizada diretamente na narina ao se rebater a cartilagem alar. Essa característica anatômica facilita tanto o diagnóstico quanto as intervenções terapêuticas em casos de obstrução.

Frequentemente, a obstrução ocorre pelo acúmulo de poeira ou serragem provenientes do ambiente. Quando esse ducto é bloqueado, a estase da secreção funciona como um meio de cultura bacteriana, desencadeando um processo inflamatório que pode resultar em conjuntivite. Por isso, a presença de descarga ocular persistente exige a inspeção dessa via.

A conduta indicada para o manejo clínico envolve a lavagem do ducto para a remoção mecânica de sujidades. Para esse procedimento, o uso de solução salina a 0,9% é suficiente e eficaz, auxiliando diretamente na resolução da inflamação e na desobstrução do sistema de drenagem lacrimal.

Diagnóstico e Uso de Corantes Vitais

O diagnóstico diferencial das afecções oculares nos equinos exige o uso estratégico de corantes para evitar erros terapêuticos. Enquanto o diagnóstico da conjuntivite viral baseia se muitas vezes em suposições e observação clínica, os testes vitais definem a segurança do tratamento.

CoranteIndicação PrincipalSegurança e Diferenciação
FluoresceínaCorante mais utilizado para identificar perda de epitélio corneanoObrigatório antes de prescrever corticoides para conjuntivite ou blefarite.
Rosa BengalaDetectar a ausência de filme lacrimal sobre a córneaConsegue corar áreas onde a lágrima não está protegendo o epitélio.

Conjuntivites alérgicas geralmente não apresentam coloração positiva no teste de fluoresceína.

Tratamento e Risco dos Corticoides

Embora o tratamento para conjuntivite possa incluir o uso de anti inflamatórios tópicos ou sistêmicos e compressas de chá de camomila para conforto e alívio da dor, o uso de corticoides é completamente contraindicado em casos de úlcera de córnea. Essa restrição é vital pois o corticoide aumenta o grau da lesão ao potencializar a ação de bactérias colagenolíticas (ou produtoras de colagenase ), resultando em um agravamento rápido e severo da ceratite.

Desafios no Manejo do Colírio

O sucesso do tratamento depende fundamentalmente do temperamento do cavalo, visto que a aplicação de colírio é considerada difícil pois o animal associa o manejo e o tratador à dor. Esse fator emocional e comportamental é crítico, pois o estresse gerado pela manipulação ocular constante pode comprometer a adesão ao protocolo terapêutico.

O tratamento pode exigir aplicações a cada duas horas, tornando a rotina extremamente desgastante para o animal e para a equipe. Como alternativa para viabilizar o tratamento de forma mais eficiente e menos invasiva, sondas lacrimais podem ser utilizadas para administrar a medicação à distância, reduzindo a necessidade de contenção direta e o desconforto do paciente.

Úlceras de Córnea e Ceratomalácia

Fatores Predisponentes e Traumas Oculares

O ambiente em que o cavalo vive é altamente favorável à ocorrência de úlceras de córnea. A anatomia da espécie, com a proeminência natural do globo ocular (que é saltado e lateralizado), facilita a exposição a traumas mecânicos. Adicionalmente, a instintiva tendência de fuga do cavalo pode resultar em batidas acidentais no olho que provocam úlceras de córnea. O contato constante com feno, cercas e poeira facilitam abrasões traumáticas, além de acidentes diretos com portas ou espinhos.

O manejo clínico também impõe riscos: Cavalos submetidos a decúbito prolongado (devido a afecções neurológicas, cólicas ou procedimentos cirúrgicos ortopédicos) possuem risco elevado de desenvolver úlceras por atrito direto contra a serragem da baia. Fatores intrínsecos também contribuem, como a ceratoconjuntivite seca (decorrente, por exemplo, de lesão do nervo facial), que impede a lubrificação adequada e predispõe a córnea a lesões.

Ceratomalácia e Progressão da Úlcera

Quanto à profundidade, úlceras superficiais de córnea envolvem apenas o epitélio e o estroma, sendo que as lesões nesta espécie tendem a ser do tipo indolente. A bactéria Pseudomonas aeruginosa é uma das principais causas de úlcera de córnea em cavalos, pois produz enzimas que destroem a córnea do animal. Esse processo leva à ceratomalácia, o derretimento da córnea causado pela ação de bactérias colagenolíticas. Úlceras de córnea indolentes também são caracterizadas pela falta de cicatrização e por apresentarem esse processo de 'melting'.

Se a úlcera atingir as membranas mais internas, ocorre a descemetocele, havendo grave risco de perda da visão e perfuração do globo. Nessas condições de evolução profunda ou ceratomalácia agressiva, o prognóstico torna se reservado devido à destruição tecidual acelerada pelas enzimas bacterianas.

Sinais Clínicos e Graus de Úlcera

Manifestações Clínicas e Gravidade das Úlceras

Existem diversos graus de úlceras de córnea que podem acometer a espécie equina. Em casos de úlceras superficiais, os animais tendem a ser mais calmos, apresentando menos fotofobia e dor comparativamente a quadros profundos. No entanto, de forma geral, as úlceras de córnea são causas principais de dor, blefaroespasmo e fotofobia, sendo que o principal sinal clínico que chama a atenção no paciente é o blefaroespasmo.

A miose é a principal causa de dor em lesões oculares nos cavalos. Este estreitamento pupilar pode resultar em uma uveíte secundária devido a um reflexo do sistema simpático. A progressão da doença também altera o aspecto clínico: enquanto as lesões simples podem ser discretas, a presença de uma secreção purulenta abundante é um indicativo de graus mais avançados e graves de lesão.

Alterações Oculares Secundárias

Além dos sinais comportamentais, as lesões corneanas provocam modificações visíveis na anatomia ocular do equino:

  • Edema Corneano: ocorre pela desorganização das fibras colágenas do estroma, conferindo um aspecto esbranquiçado ao olho.
  • Neovascularização: presença de vasos muito finos na córnea; em potros, o edema de córnea e a neovascularização intensa podem acompanhar úlceras evidentes.
  • Hipópio: presença de células brancas no humor aquoso, podendo ocorrer quando o animal não consegue fechar a pálpebra para a lubrificação.
  • Hifema: presença de sangue no humor aquoso.

Corantes e Exames Laboratoriais

O diagnóstico preciso das afecções corneanas nos equinos exige o uso estratégico de corantes específicos. A fluoresceína é amplamente utilizada para corar lesões na córnea, apresentando uma tendência de corar células mortas e o estroma exposto. No entanto, o corante Rosa Bengala é considerado superior para o diagnóstico de úlceras fúngicas, pois consegue detectar a ausência do filme lacrimal e identificar lesões fúngicas que a fluoresceína muitas vezes não consegue evidenciar.

Além dos corantes, exames complementares como citologia, cultura e antibiograma são fundamentais para a detecção e manejo da úlcera de córnea. A citologia, especificamente, é utilizada para observar a presença de fungos ou bactérias em casos de ceratite. Esse procedimento pode ser realizado de forma prática, raspando a superfície da lesão com um cabo de bisturi após a aplicação de anestesia local, permitindo uma identificação rápida do agente etiológico.

Contraindicações e Terapia Antimicrobiana

O tratamento para úlceras corneanas bacterianas difere da abordagem para úlceras fúngicas. É absolutamente contraindicado o uso de corticoides em casos de úlcera de córnea, uma vez que eles aceleram a destruição do tecido. A base terapêutica envolve o uso de antibióticos tópicos (como cloranfenicol, gentamicina, tobramicina e bacitracina ), disponibilizados em colírios ou pomadas oftálmicas veterinárias, além de anti inflamatórios sistêmicos para o controle da dor e do quadro clínico.

Manejo da Dor e Fotofobia

A miose observada em casos de lesão ocular é uma reação dolorosa severa, o que justifica a necessidade clínica do uso de colírios para promover a dilatação da pupila. Para esse fim, empregam se substâncias cicloplégicas que atuam paralisando a musculatura da íris, sendo a atropina e a pilocarpina os exemplos principais desse grupo de medicamentos.

O equino também costuma manifestar fotofobia, sinal clínico identificado quando o animal mantém o olho mais fechado em ambientes claros. Como medida de conforto, o cavalo em tratamento deve ser mantido em ambientes escuros, como baias em penumbra. Além disso, o uso de máscaras protetoras é fortemente indicado para evitar que o animal coce ou bata o olho durante o processo de recuperação.

Tratamento do Derretimento Corneano

O melting (derretimento) da córnea representa uma complicação infecciosa severa movida por enzimas proteolíticas, o que torna o desbridamento obrigatório. Esse procedimento consiste na remoção mecânica do tecido morto, podendo ser realizado com um cotonete estéril ou lâmina de bisturi. Em casos avançados de derretimento central, pode ser necessária a realização de uma ceratectomia para remover o tecido que impede a cicatrização.

No combate à ação enzimática, utilizam se substâncias anticolagenolíticas, como o EDTA e a acetilcisteína. O soro autólogo de cavalo é uma ferramenta fundamental por ser rico em antiproteases, devendo ser aplicado o máximo de vezes possível, preferencialmente junto ao colírio. Esse soro deve ser mantido refrigerado e precisa ser trocado a cada um ou dois dias para manter sua viabilidade e hidratação.

Ceratomicose e Abscessos Estromais

Etiopatogenia das Úlceras Fúngicas Corneanas

As ceratomicoses, ou úlceras fúngicas, ocorrem com uma frequência expressivamente maior em equinos do que em outras espécies domésticas. A etiopatogenia está ligada ao fato de o estábulo ser um microambiente densamente povoado por esporos de feno e gramíneas, que encontram nos microtraumas oculares uma porta de entrada para a infecção.

O aspecto macroscópico dessas lesões costuma incluir placas esbranquiçadas ou amareladas com bordos irregulares, acompanhadas de uma intensa neovascularização perilesional. É importante notar que, nas fases iniciais, a infecção pode não ser detectada pela fluoresceína, sendo melhor delimitada pelo corante rosa bengala.

Fisiopatologia e Diagnóstico do Abscesso Estromal

O Perigo do Abscesso Estromal

O abscesso estromal é uma complicação grave e perigosa na espécie equina, sendo frequentemente uma evolução de úlceras ou ceratites fúngicas. O processo se caracteriza pela rápida cicatrização do epitélio corneano sobre a lesão, o que acaba retendo microrganismos e permitindo sua multiplicação no estroma profundo. Uma complicação frequente das infecções fúngicas da córnea na espécie equina é o desenvolvimento do abscesso estromal.

Essa condição gera uma resposta inflamatória sequestrada que causa dor intensa, uveíte secundária, fotofobia e blefaroespasmo. Devido à integridade epitelial sobre a lesão, tanto o teste de fluoresceína quanto o teste de rosa bengala apresentam resultados negativos nesses casos. Diagnosticar a etiologia exata exige biópsia ou ceratectomia do leito estromal profundo para cultura do material.

Protocolo Terapêutico do Abscesso Estromal

Manejo Terapêutico Intensivo

O tratamento da ceratomicose e dos abscessos estromais é demorado, estendendo se habitualmente por 30 a 60 dias, e demanda medicamentos de custo elevado. O protocolo terapêutico inicial envolve o uso de antifúngicos (como voriconazol, miconazol, fluconazol ou suspensões de anfotericina B), antimicrobianos e agentes cicloplégicos. Para otimizar a penetração tecidual através do epitélio intacto, o dimetilsulfóxido (DMSO) é frequentemente associado às formulações.

Nos primeiros dias de tratamento, o uso de anti inflamatórios não esteroidais (AINEs) sistêmicos é crucial para mitigar a dor intensa e prevenir a progressão da uveíte secundária. Um ponto fundamental de alerta é que se deve evitar rigorosamente o uso de corticoides durante o manejo, devido ao sério risco de agravamento da infecção.

Uveíte Recorrente Equina

Anatomia e Fisiologia da Úvea Equina

Estrutura e Função da Úvea

A úvea é a porção vascularizada do globo ocular, essencial para a homeostase e nutrição ocular. Ela é composta pela íris, pelo corpo ciliar (responsável pela produção e drenagem do humor aquoso) e pela coroide (tecido vascular que nutre a retina). O humor aquoso, produzido por ultrafiltração do plasma, garante a nutrição da córnea através do contato entre a íris e a superfície corneana posterior.

Clinicamente, a uveíte anterior envolve o corpo ciliar e a íris, enquanto a uveíte posterior envolve a coróide. Além disso, o humor aquoso nutre a córnea através do contato entre a íris e a córnea. Entender essa divisão anatômica é fundamental para o diagnóstico e manejo das afecções inflamatórias intraoculares nos cavalos.

Uveíte e Quebra da Barreira Ocular

A uveíte recorrente equina constitui a principal causa de cegueira não traumática nesta espécie. Trata se de uma oftalmopatia imunomediada complexa e não específica, cujo evento central é a quebra da barreira sangue olho. Essa barreira tem o papel fisiológico de manter o microambiente ocular isolado, impedindo que o sistema imunológico reconheça proteínas intraoculares, como as do cristalino, como antígenos estranhos.

Qualquer evento inflamatório grave, como traumas perfurantes, contusões ou infecções severas, que provoque a quebra dessa barreira permite o influxo de leucócitos e anticorpos para o interior do globo. Essa alteração na circulação uveal faz com que células de defesa passem a produzir autoanticorpos contra estruturas internas, deflagrando uma resposta autoimune cíclica e crônica que perpetua a inflamação.

Agentes Etiológicos e Predisposição

A etiologia da uveíte equina é multifatorial, sendo a Leptospira interrogans a principal bactéria associada à cronicidade, agindo frequentemente através de vasculites. Para o diagnóstico, a sorologia é um dos exames indicados, sendo comum observar títulos altos de anticorpos sem que haja leptospiremia ou leptospirúria no momento da lesão ocular. Em potros jovens (4 a 8 meses), infecções por Rhodococcus equi podem causar pneumonia e uveíte como parte de seu complexo sistêmico.

Além disso, alterações sistêmicas como endotoxemia, septicemia e anaplasmose, ou ainda infecções por Brucella, fungos e traumas, podem provocar a quebra da barreira sangue olho. Herpesvírus e certos parasitas também figuram como gatilhos. Nota se ainda uma predisposição genética importante: as raças como o Appaloosa e raças de sangue quente europeu apresentam maior frequência de desenvolvimento da doença.

Apresentações Clínicas da Uveíte

A uveíte recorrente equina pode se manifestar de forma bilateral, mas suas apresentações clínicas variam conforme a localização e intensidade do processo inflamatório. O diagnóstico diferencial entre as formas exige exames precisos, como a oftalmoscopia.

  • Forma Clássica: É a apresentação mais comum e geralmente unilateral, caracterizada por sinais clínicos agudos intensos e fáceis de detectar. A inflamação inicia se na úvea e pode progredir para a coroide, lente e corpo vítreo.
  • Forma Insidiosa: Esta forma é difícil de detectar pois não costuma ser dolorosa nas fases iniciais. A inflamação começa no segmento posterior e progride para o anterior, cursando com inflamação crônica e alterações vítreas.
  • Forma Posterior: Caracteriza se pela severidade concentrada na porção posterior do olho, envolvendo profundamente a coroide, a retina e o humor vítreo.
  • Vitrite: Inflamação do vítreo comum na forma posterior, que pode ser detectada pela presença de um reflexo amarelado no olho.

Sinais Iniciais e Diagnóstico Diferencial

Distinção entre Uveíte e Úlcera de Córnea

A uveíte recorrente equina apresenta sinais clínicos iniciais que se assemelham muito aos da úlcera de córnea aguda, incluindo fotofobia, lacrimejamento, blefaroespasmo e miose. Clinicamente, a uveíte é a afecção ocular que mais frequentemente se manifesta com conjuntivite, apresentando o olho avermelhado e inflamado. O edema de córnea também é uma alteração comum nesses quadros inflamatórios.

Para realizar o diagnóstico diferencial com segurança, deve se observar que, diferentemente da úlcera de córnea, na uveíte primária geralmente não há lesão inicial na córnea. Portanto, é indispensável o uso de corantes oculares, como a fluoresceína, que serve para descartar a presença de uma úlcera de córnea ativa antes de se definir o protocolo terapêutico.

Alterações na Câmara Anterior

Durante a fase aguda da uveíte, a quebra da barreira hematoaquosa gera sinais típicos na câmara anterior do olho do cavalo:

  • Miose: constrição pupilar intensa decorrente do processo inflamatório.
  • Flare aquoso: aumento de proteínas na câmara anterior ( efeito Tyndall ), deixando o fluido turvo.
  • Hipópio: acúmulo de pus (células brancas) no fundo da câmara anterior.
  • Hifema: presença de sangue na câmara anterior do olho.

Sequelas Crônicas e Complicações

A cronicidade da uveíte recorrente equina (URE) pode levar a danos irreversíveis devido à inflamação persistente:

  • Sinéquia posterior: ocorre quando a íris se funde ao cristalino, podendo causar miose persistente.
  • Corpora nigra: observa se a atrofia desta estrutura na íris.
  • Glaucoma secundário: alterações na pressão intraocular por obstrução da drenagem no ângulo iridocorneano.
  • Complicações vasculares: a diminuição da vascularização pode gerar catarata, lesões na córnea e na retina.
  • Estágios terminais: podem ocorrer luxação do cristalino e atrofia completa do globo ocular.

Tratamento Farmacológico da Uveíte

Diferente do manejo de úlceras de córnea, o tratamento da uveíte equina exige um controle agressivo da inflamação, sendo o uso de corticosteroides considerado imprescindível. O protocolo sistêmico padrão envolve a combinação de anti inflamatórios não esteroidais (como a flunixina meglumina ) e corticosteroides. Para otimizar a penetração ocular, realizam se injeções subconjuntivais de fármacos de depósito, como a triancinolona, procedimento executado sob sedação e anestesia tópica.

Colírios midriáticos/cicloplégicos, com destaque para a atropina, são mandatórios para promover a midríase e reduzir o desconforto ocular do animal. É importante notar que o uso de antibióticos não é recomendado na uveíte equina, uma vez que o pico da infecção bacteriana geralmente já ocorreu no momento do atendimento. Para facilitar a administração constante de fármacos, sistemas de lavagem por cateter podem ser implantados na pálpebra inferior ou superior, o que difere da vitrectomia, realizada via acesso escleral.

Vitrectomia: Técnica e Riscos

A vitrectomia é uma intervenção que consiste na remoção cirúrgica do vítreo, eliminando substâncias inflamatórias e detritos celulares acumulados. O corpo vítreo possui uma consistência gelatinosa e pegajosa, e sua sucção é realizada através de um acesso cirúrgico na esclera do equino. Há uma clara divergência de conduta internacional: enquanto a escola alemã realiza vitrectomias com frequência, a escola americana tende a evitar o procedimento.

Essa resistência cirúrgica por parte de alguns especialistas deve se aos riscos pós operatórios significativos. A remoção do vítreo pode levar a complicações graves, como o descolamento de retina e o desenvolvimento de catarata, efeitos colaterais que precisam ser rigorosamente ponderados antes da indicação cirúrgica.

Terapias Intravítreas e Implantes

Como alternativas avançadas para o controle da uveíte posterior, destaca se a administração intravítrea de gentamicina e triancinolona. Contudo, essa técnica exige cautela, pois tratamentos intravítreos apresentam riscos intrínsecos de degeneração da retina e catarata.

Outra estratégia promissora envolve o uso de implantes nas regiões da conjuntiva e esclera, visando uma redução prolongada da inflamação. Nestes dispositivos, a ciclosporina é amplamente utilizada por ser uma substância com potente ação imunomoduladora e imunossupressora, auxiliando no controle crônico do quadro ocular.

Reflexão Sion

A Barreira Rompida

Na uveíte recorrente equina, um trauma agudo rompe a barreira que protege o olho, fazendo o organismo atacar a si mesmo até causar cegueira crônica. De modo semelhante, quando as feridas da vida destroem nossas defesas interiores, a amargura pode nos corroer por dentro e ofuscar nosso propósito. Jesus nos convida a entregar essas dores profundas a Ele, curando a origem do dano para restaurar nossa capacidade de enxergar a vida com paz e clareza.

Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele dependem todas as saídas da vida.Provérbios 4:23

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