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Medicina Equina: Doenças do Trato Digestório e Síndrome Cólica

O protocolo de ultrassonografia FLASH utiliza janelas específicas para a visualização de vasos cecais, sendo um recurso importante para o diagnóstico de encarceramentos e deslocamentos. A observação de um volume muito elevado de refluxo gástrico com coloração amarronzada ou aver

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Topicos da aula

  • Doenças do Trato Digestório

Visão Geral: Doenças do Trato Digestório e Síndrome Cólica

A síndrome cólica em equinos é definida como uma dor ou desconforto com origem na cavidade abdominal. Esta condição representa mais de 90% das emergências em hospitais veterinários de equinos, podendo envolver doenças gastrointestinais incidentes em qualquer parte do trato, desde o esôfago até o reto.

Para a definição de condutas, a frequência cardíaca e os níveis de lactato são utilizados como parâmetros de decisão primários para urgência em sondagem ou encaminhamento cirúrgico. Além disso, a análise do líquido peritoneal fornece informações críticas sobre o prognóstico: achados como coloração avermelhada, aumento de proteínas e aspecto sanguinolento indicam causas estrangulativas e possível eutanásia.

Visão Geral: Doenças do Trato Digestório e Síndrome Cólica (cont. 2)

O protocolo de ultrassonografia FLASH utiliza janelas específicas para a visualização de vasos cecais, sendo um recurso importante para o diagnóstico de encarceramentos e deslocamentos. A observação de um volume muito elevado de refluxo gástrico com coloração amarronzada ou avermelhada constitui uma pista fundamental para a suspeita de Duodenite Jejunite Proximal. Em potros com alta carga parasitária, a utilização de lactonas macrocíclicas pode atuar como etiologia para quadros súbitos de compactação, devido à paralisia simultânea dos parasitos.

Fisiologia Gástrica e Ingestão

O estômago do cavalo é um órgão pequeno, localizado no lado esquerdo da cavidade abdominal, com capacidade volumétrica entre 14 e 15 litros. Fisiologicamente, o cavalo realiza a ingestão constante de alimentos por cerca de 18 a 20 horas por dia, o que faz com que o estômago raramente esteja vazio em seu habitat natural.

Internamente, a margem preguiada (margo plicatus) é a linha anatômica que divide o órgão em porção aglandular e glandular. A porção aglandular fica próxima ao cárdia e contém uma população microbiana que permite a fermentação de pequenas quantidades de alimento.

A secreção de suco gástrico, ácido clorídrico e enzimas digestivas é contínua e ocorre durante as 24 horas do dia. A saliva atua auxiliando na neutralização do pH estomacal. Fatores como a domesticação e o estabulamento reduzem a frequência e a qualidade da alimentação, o que predispõe o animal ao desenvolvimento de gastrites.

Anatomia e Proteção Estomacal

O estômago do cavalo apresenta uma particularidade anatômica e fisiológica única: a divisão em duas porções distintas, a glandular e a aglandular. Essa organização é fundamental para compreender a patogênese das afecções gástricas, visto que as doenças gastrointestinais podem ocorrer em qualquer parte do trato, do esôfago ao reto.

A porção aglandular possui um epitélio escamoso estratificado e funciona como uma câmara de reserva de alimentos, onde a fermentação produz ácidos graxos voláteis. Entretanto, essa região não possui mecanismos de defesa física contra o ácido clorídrico, o que a torna mais suscetível a lesões em comparação à mucosa glandular.

Diferentemente da aglandular, a porção glandular é preparada para receber a agressão do ácido clorídrico e enzimas digestivas. Ela conta com mecanismos de proteção específicos, como o bicarbonato para neutralizar o pH e o fluxo sanguíneo mediado por prostaglandinas. Fisiologicamente, o estômago do cavalo mantém um ambiente ácido, com pH situando se em torno de 2.

Estrutura do Ceco e Cólon

  • Ceco: possui capacidade volumétrica em torno de 30 litros e é um dos únicos pontos de fixação do cólon maior.
  • Tênias cecais: o ceco do cavalo apresenta quatro tênias, classificadas como medial, caudal, lateral e dorsal.
  • Flexura pélvica: ponto de redução do lúmen no cólon maior e local de compactação muito frequente na espécie equina.
  • Diferenciação do cólon maior: o cólon ventral possui saculações, enquanto o cólon dorsal caracteriza se por ser liso.
  • Cólon menor: estrutura intestinal que possui entre 1,5 e 2 metros de comprimento.
  • Ligamento nefroesplênico: localização anatômica situada entre o rim esquerdo e o baço.

Dinâmica e Irrigação Intestinal

O intestino delgado do cavalo possui entre 25 e 30 metros de comprimento e, por ser extremamente solto na cavidade abdominal, predispõe à ocorrência de deslocamentos e encarceramentos. Em um cavalo saudável, essa estrutura não é palpada via retal. O processo digestivo ocorre de forma sequencial, com a digestão prévia no intestino delgado seguida pela fermentação no ceco.

Existem pontos críticos de afunilamento e movimentação no trato gastrointestinal. A transição do cólon dorsal direito para o cólon transverso é um local comum para a ocorrência de obstruções. Outro ponto relevante é a flexura pélvica, que possui a capacidade de selecionar fibras de tamanho pequeno para serem eliminadas. Adicionalmente, o cólon pode se alojar no ligamento nefroesplênico em casos de distensão gasosa.

A saúde vascular é fundamental para a integridade intestinal, sendo a artéria mesentérica cranial responsável por aproximadamente 90% da irrigação intestinal do cavalo. Clinicamente, destaca se que grandes estrôngilos realizam a migração pela adventícia dessa artéria.

Classificação e Etiologias da Cólica

  • Fatores Demográficos: a frequência de afecções gastrointestinais nos equinos varia de acordo com a idade, o sexo e a raça do animal.
  • Éguas Pluríparas: apresentam a cavidade abdominal mais larga, gerando um espaço virtual que predispõe ao deslocamento do cólon maior.
  • Compactação: termo técnico correto para o acúmulo de conteúdo intestinal; a utilização do termo "impactação" deve ser evitada.
  • Sabrose: tipo de compactação que ocorre por areia, resultante da ingestão de pequenas porções de solo durante a alimentação.
  • Retenção de Mecônio: consiste em uma causa muito comum de manifestação de cólica em cavalos neonatos.
  • Enterólitos: formações sólidas que se desenvolvem basicamente no cólon dorsal do cavalo.
  • Cólicas Idiopáticas: classificadas como aquelas que ocorrem sem uma origem propriamente definida.
  • Enteropatias Proliferativas: provocam lesões na mucosa intestinal que diminuem a absorção de líquidos e alimentos.
  • Cólicas Timpânicas: são menos comuns em cavalos do que em ruminantes.
  • Lacerações Perineais: mais frequentes em éguas do que em vacas, uma vez que o parto equino é mais rápido e explosivo.

Principais Afecções Obstrutivas

As cólicas não estrangulativas simples admitem tratamento clínico ou cirúrgico, dependendo da evolução do caso. Entre as manifestações comuns está a cólica espasmódica, que ocorre devido ao aumento desorganizado da frequência de motilidade intestinal. Já o timpanismo secundário, provocado majoritariamente por enterolitíases, apresenta maior frequência de ocorrência em equinos do que o timpanismo primário.

Fatores ambientais e genéticos influenciam a incidência de afecções obstrutivas. As compactações intestinais são recorrentes durante o inverno em regiões como o interior de São Paulo, devido ao consumo de pastagens de baixa qualidade e alto teor de lignina. Além disso, certas raças possuem predisposição para o desenvolvimento de enterolitíases e fecalomas, enquanto cavalos miniatura apresentam maior risco para compactações, tricobezoares e fecalólitos.

Outras etiologias incluem as intussuscepções, frequentes em animais jovens por alterações na motilidade, e as torções de cólon maior, que acometem majoritariamente as fêmeas. Lesões vasculares decorrentes da migração de grandes estrôngilos também podem resultar em infartos não estrangulativos. Por fim, as hérnias escrotais constituem emergências gravíssimas exclusivas de machos, com rápida evolução para óbito na ausência de tratamento imediato.

Fatores Dietéticos e Reprodutivos

  • Alimento concentrado: O fornecimento de grandes quantidades é um dos principais fatores dietéticos causadores de cólica em equinos.
  • Feno de alfafa: Seu uso frequente, comum na região Sul do Brasil, está associado a uma alta ocorrência de enterolitíase.
  • Condição reprodutiva: O útero gravídico pode comprimir vísceras e alterar o fluxo intestinal, além da possibilidade de ruptura da artéria uterina provocar quadros de cólica.
  • Idade avançada: A incidência de compactação aumenta em animais mais velhos devido ao agravamento de problemas dentários e de mastigação.
  • Histórico cirúrgico: Celiotomias exploratórias ou laparotomias prévias constituem um fator de risco importante para o desenvolvimento de novos casos.
  • Indicações cirúrgicas: Cólicas estrangulativas, como torções e vólvulos, possuem indicação de tratamento cirúrgico.
  • Lipomas abdominais: Frequentemente pedunculados e associados à síndrome metabólica, esses tumores podem estrangular a alça intestinal.
  • Cólicas recorrentes: Cavalos com este histórico podem apresentar alterações gástricas, como gastrite, ou enterolitíases.
  • Localização de compactações: Estes quadros são significativamente mais frequentes no cólon maior do que no intestino delgado.

Histórico e Predisposição

A síndrome cólica é caracterizada por dor ou desconforto com origem na cavidade abdominal, sendo responsável por mais de 90% das emergências em hospitais veterinários de equinos. A idade e o sistema de criação são fatores determinantes na predisposição a certas patologias. Cavalos jovens, com 2 anos ou menos, são mais propensos a desenvolver compactações por Parascaris equorum e intussuscepções ileocecais. Além disso, animais jovens mantidos em estabulação apresentam alta incidência de gastrite em decorrência de mudanças no padrão natural de alimentação. O histórico clínico do animal também fornece pistas importantes: cavalos que passaram por cirurgias abdominais prévias possuem risco aumentado de novos episódios de cólica devido à formação de aderências. No campo comportamental, o vício de engolir ar (aerofagia), comum em animais estabulados, é um fator que predispõe ao encarceramento no forame epiploico. O manejo sanitário e preventivo é essencial, uma vez que as tênias (Tapeworms) têm predileção pela junção ileocecal, podendo causar obstrução mecânica. Complementarmente, cavalos estabulados ou de alto desempenho esportivo devem passar por avaliação dentária ao menos uma vez ao ano, sendo o intervalo de seis meses o ideal para garantir a saúde digestiva.

Comportamento e Avaliação da Dor

A dor é o principal sinal clínico que chama a atenção nos casos de cólica equina, sendo caracterizada como inespecífica, constante e com frequente irradiação por toda a cavidade abdominal. Na avaliação clínica, a dor é classificada em quatro graus: leve, moderada, severa e depressiva ou letárgica.

Os cavalos manifestam o desconforto abdominal através de diversos comportamentos, como olhar para o flanco, mudar o peso entre os membros, cavar com o membro torácico e chutar o abdômen. Outros sinais indicativos de dor incluem o reflexo de Flehmen (levantamento do lábio superior), comum em compactações de cólon maior, a adoção da posição de cão sentado e o decúbito dorsal, que serve como uma tentativa de buscar uma posição antiálgica.

Durante a evolução da enfermidade, pode surgir a dor letárgica, momento em que o cavalo deixa de responder a estímulos de dor forte. Animais que atingem esse estado são frequentemente candidatos à eutanásia. Além disso, é crucial evitar que o cavalo role, uma vez que esse comportamento pode agravar o quadro ao provocar deslocamentos ou torções intestinais.

Sensibilidade e Sinais Vitais

  • Sensibilidade Racial: O cavalo Puro Sangue Inglês apresenta maior sensibilidade à dor na cólica, enquanto o cavalo Crioulo é considerado mais resistente.
  • Estado de Letargia: Este sinal clínico pode ser um indicativo de necrose intestinal com lesão nervosa ou ruptura de víscera.
  • Reflexo de Flehmen: Pode ser observado em cavalos que apresentam quadros agudos de obstrução esofágica.
  • Palpação Retal: É uma ferramenta diagnóstica essencial na medicina equina, exigindo do clínico o conhecimento da anatomia topográfica abdominal para a correta identificação das estruturas.
  • Manejo Inicial: Grande parte dos casos de cólica em equinos possui indicação de tratamento clínico inicialmente.
  • Comprometimento do Intestino Delgado: É sinalizado pela percepção de alças de intestino delgado durante o procedimento de palpação retal.
  • Deslocamento do Cólon Maior: É indicado quando a flexura pélvica não é encontrada em sua posição habitual durante a palpação retal.

Triagem e Procedimentos Iniciais

  1. Avaliação clínica inicial: realização de exame físico completo com aferição de frequência cardíaca, coloração de mucosas, TPC e produção urinária para identificar desidratação ou choque por sequestro de líquido.
  2. Sondagem nasogástrica: manobra imprescindível para o alívio da pressão gástrica, uma vez que o cavalo não possui reflexo de vômito.
  3. Palpação retal: etapa essencial para o diagnóstico e para fundamentar a decisão de encaminhamento cirúrgico, devendo ser executada com o animal tranquilo para prevenir laceração retal.
  4. Celiotomia: termo técnico que define o acesso cirúrgico pela linha mediana em procedimentos exploratórios abdominais.

Paracentese e Análise Peritoneal

  1. Técnica e Localização: a paracentese é um procedimento essencial na avaliação de cavalos com cólica, sendo realizada aproximadamente um palmo caudal ao processo xifoide.
  2. Instrumentação: o procedimento pode ser executado utilizando se uma sonda mamária ou o mandril de um cateter de calibre 14.
  3. Padrão de Normalidade: o líquido peritoneal normal do cavalo deve ser translúcido e possuir coloração amarelo citrino ou amarelo palha.
  4. Alterações Macroscópicas: o aspecto turvo é um sinal indicativo de peritonite, enquanto a presença de sangue sugere ruptura de vísceras ou punção acidental do baço.
  5. Enterocentese e Laboratório: o achado de sedimento de areia indica a ocorrência de enterocentese (perfuração da alça); a análise laboratorial completa inclui proteína, glicose e celularidade.
  6. Contexto Clínico e Imagem: cavalos com indicação cirúrgica apresentam taquicardia e dor severa; no ultrassom, menores frequências permitem maior profundidade de penetração, mas com menor qualidade de imagem.

Paracentese e Análise Peritoneal (cont. 2)

  1. Avaliação em campo: utilização de fitas de pH, que são recursos de baixo custo e fácil transporte para a rotina clínica.
  2. Alteração de coloração: identificação de líquido peritoneal alaranjado, característica comum em quadros de peritonite com contaminação bacteriana.
  3. Análise da glicose: monitoramento dos níveis glicêmicos no líquido, considerando que a diminuição da glicose é um indicativo de contaminação bacteriana.

Obstrução Esofágica: Etiologia

As causas primárias de obstrução esofágica em equinos incluem a ingestão de ração ou alimentos grosseiros. Quando cavalos ingerem a ração muito rapidamente, pode ocorrer a formação de uma obstrução pastosa, conhecida popularmente como 'paçoca' ou 'rolha'. Além disso, o consumo de alimentos como cenoura e maçã também pode causar obstrução mecânica.

Um cenário crítico envolve a ingestão de caroço de manga, que requer tratamento cirúrgico para sua resolução. Outros fatores que predispõem o animal a esse quadro são as alterações dentárias, que dificultam a mastigação, e a fase de recuperação anestésica, devido a alterações transitórias na motilidade do esôfago. A anatomia também contribui para o problema, pois a confluência do esôfago com a nasofaringe possui uma curvatura que gera um estreitamento natural.

Clinicamente, o animal pode apresentar hipersalivação por não conseguir deglutir a saliva, além de letargia, cabeça baixa e baixa responsividade. Embora o palato mole completo impeça a saída de conteúdo pelas narinas em condições normais, a obstrução altera essa dinâmica.

Patogênese e Pontos de Constrição

Fatores de Risco e Sítios de Estreitamento

A obstrução esofágica em equinos é comumente desencadeada pela ingestão de alimentos de má qualidade, como capim seco, ou corpos estranhos volumosos, a exemplo de caroços de manga. Em potros, essa condição ocorre com frequência devido ao hábito de ingerir objetos sem a mastigação prévia. Além da dieta, outros fatores que podem reduzir o lúmen e produzir obstruções incluem processos inflamatórios, ulcerações, neoplasias e a presença de massas externas.

A patogênese da obstrução está intimamente ligada aos pontos de constrição natural do esôfago. Os locais onde o estreitamento ocorre com maior frequência são a região cervical alta, a entrada do tórax — que é o segundo ponto de obstrução mais comum — e a região sobre o coração, nas proximidades do cárdia.

Os animais afetados manifestam sinais clínicos característicos, como extensão do pescoço, movimentos constantes da cabeça, tosse e tentativas frequentes de deglutição. Em casos específicos de megaesôfago, pode se observar sialorreia, caracterizada por salivação abundante.

Sinais Clínicos Esofágicos

  • Descarga Nasal: caracterizada pela presença de saliva e alimento, apresentando frequentemente uma coloração esverdeada.
  • Sialorreia: excesso de salivação acompanhado de movimentos constantes de levantar o lábio.
  • Disfagia e Aspiração: a obstrução cervical alta pode levar à disfagia e à pneumonia por aspiração devido à proximidade com a laringe.
  • Pontos Críticos: a obstrução ocorre comumente na porção cervical logo após a origem do esôfago ou onde ele passa dorsalmente ao coração, próximo ao cárdia.
  • Diagnóstico e Palpação: a identificação é feita por sinais clínicos e palpação do esôfago cervical, que é facilmente acessado do lado esquerdo do pescoço.
  • Fatores de Risco: a condição é comum em cavalos velhos com dentição deficiente e pode estar associada à ingestão de polpa de beterraba.

Divertículos e Diagnóstico Avançado

Os divertículos esofágicos são classificados em dois tipos: verdadeiros e falsos. O divertículo verdadeiro pode ocorrer devido a uma aderência periesofagiana que traciona o esôfago durante o processo de cicatrização, caracterizando se pela protrusão da mucosa através da musculatura. Por outro lado, os divertículos falsos, conhecidos como de pulsão, surgem quando o alimento se acumula e distende o esôfago em uma posição oral a uma obstrução.

No que tange às ferramentas diagnósticas, a radiografia contrastada é considerada o método mais útil para identificar divertículos esofágicos. A ultrassonografia é indicada quando há suspeita de massas extraesofágicas ou divertículos, enquanto a endoscopia é valiosa para o diagnóstico e, em certas situações, para o tratamento de obstruções alimentares. Adicionalmente, a palpação indireta, realizada com o uso de uma sonda nasogástrica, permite localizar o ponto da obstrução.

Durante o manejo do paciente, é importante notar que a presença de sangue na descarga nasal ou oral pode decorrer de tentativas constantes de passagem da sonda nasogástrica. Para a resolução definitiva de divertículos e tratamento de constrições esofágicas, o procedimento cirúrgico é a conduta indicada.

Tratamento Clínico e Cirúrgico

  1. Diagnóstico por endoscopia: Procedimento que permite a visualização direta da massa alimentar impactada no lúmen esofágico.
  2. Sedação inicial: Início do tratamento clínico com o uso de agonistas alfa 2, como a xilazina, mantendo a cabeça do animal baixa para prevenir a aspiração de líquidos para as vias aéreas.
  3. Relaxamento da musculatura: Administração de hioscina como antiespasmódico ou doses baixas de ocitocina para promover o relaxamento esofágico.
  4. Manejo de lesões de mucosa: Em casos de ulceração grave, recomenda se a instituição de jejum por pelo menos 48 horas para evitar danos adicionais.
  5. Monitoramento de complicações: Acompanhamento clínico para prevenir ou identificar pneumonias, divertículos e constrições, além de evitar esofagite decorrente do uso prolongado de sonda nasogástrica.
  6. Considerações cirúrgicas: A baixa elasticidade do esôfago impede a remoção de grandes segmentos, enquanto a ausência de camada serosa torna o processo de cicatrização mais lento.

EGUS: Introdução e Epidemiologia

A doença gástrica representa a enfermidade estomacal mais comum em cavalos, configurando se como uma das principais causas de cólica. A Síndrome da Úlcera Gástrica Equina (EGUS) é uma condição multifatorial, com sua ocorrência variando conforme o nível de treinamento, uso de medicações e manejo. Na rotina clínica de animais adultos, a apresentação mais frequente é a forma subclínica ou silenciosa.

A mucosa aglandular do estômago possui como única defesa o aumento da espessura de seu epitélio, o que a torna altamente sensível a agressões ácidas. Em cavalos de corrida, o galope prolongado é um fator crítico: durante essa atividade, o choque das vísceras abdominais contra o estômago diminui o volume do órgão, o que facilita o contato direto do conteúdo ácido com a porção aglandular.

Em animais jovens, fatores de estresse como o desmame e a transição do leite para o alimento sólido predispõem a úlceras, que atingem majoritariamente a porção aglandular devido ao jejum prolongado e à dieta. Vale ressaltar que, diferentemente da fisiologia humana, 24 horas de jejum podem não ser suficientes para o esvaziamento gástrico completo no cavalo. Para prevenir o surgimento de úlceras em animais hospitalizados, o uso do omeprazol é indicado.

Riscos: Dieta e Medicamentos

O manejo dietético inadequado, caracterizado pelo uso de rações concentradas e alimentos altamente fermentáveis, eleva o risco de lesões gástricas na porção aglandular, uma vez que esses componentes permanecem mais tempo no estômago do que o volumoso. A mucosa aglandular também é agredida pelo conteúdo ácido da porção glandular, um processo facilitado durante o exercício, quando a descarga adrenérgica estimula a diminuição do tamanho do estômago e projeta o ácido contra as paredes desprotegidas. O uso indiscriminado de anti inflamatórios não esteroidais (AINEs) é uma causa comum de inibição dos fatores de defesa gástrica. A fenilbutazona, embora seja o anti inflamatório mais utilizado em equinos, apresenta maior eficiência em causar lesões gástricas quando comparada a fármacos como Meloxicam e Firocoxibe. Adicionalmente, o estresse libera cortisol endógeno, o que também inibe a proteção da mucosa na porção glandular. Clinicamente, a gastrite pode se manifestar por meio de cólicas recorrentes e frequentes em animais adultos. Em potros, a enfermidade é frequentemente associada a sinais de subnutrição e a um significativo retardo no crescimento.

Fisiopatologia das Úlceras Gástricas

A literatura descreve quatro grupos principais de úlceras gástricas em equinos, sendo que as lesões ulcerativas ocorrem com maior frequência na região da margem preguiada. Fatores como estresse e mudanças bruscas na dieta ou na rotina, além de hospitalizações estressantes, são importantes predisponentes para o desenvolvimento de quadros de gastrite em animais mais velhos.

A fisiopatologia da mucosa aglandular está intimamente ligada ao manejo alimentar. O jejum prolongado reduz a produção de saliva, o que permite que o conteúdo ácido da porção glandular alcance e agrida a porção aglandular do estômago. Além disso, o uso inadequado de anti inflamatórios pode provocar lesões erosivas até mesmo na porção distal do esôfago.

Na mucosa glandular, a integridade é mantida pela Prostaglandina E2 (PGE2), responsável pela vasodilatação e pela produção de muco e outros fatores de proteção gástrica. A inibição da PGE2 é, portanto, um fator predisponente para o surgimento de úlceras nessa região. Potros são particularmente sensíveis a esse mecanismo, podendo desenvolver gastrite especialmente sob tratamento com anti inflamatórios. Nesses animais, a dor severa provocada pela distensão do estômago durante a alimentação pode levar à anorexia e à recusa alimentar.

Gastrite em Cavalos de Desempenho

Impacto do Estresse e Confinamento na Mucosa Gástrica

Cavalos de corrida e de hípica estão inseridos em uma rotina de estresse e confinamento prolongado em baias que predispõe à gastrite. Estima se que 90% a 100% dos cavalos de corrida possuam algum grau desta afecção, uma vez que o isolamento e as alimentações esparsas fazem com que o animal perca o hábito natural de pastar, favorecendo quadros subclínicos em cavalos adultos.

Clinicamente, a gastrite e a presença de úlceras podem se manifestar através de mudanças de comportamento, como agressividade e nervosismo. Além disso, a dor provocada pelas lesões durante a alimentação pode resultar no retardo ou até na ausência do esvaziamento gástrico.

O uso abusivo de anti inflamatórios é um fator agravante que pode gerar úlceras ativas, embora quadros de perfuração gástrica não sejam comuns na espécie equina. O diagnóstico definitivo é realizado por meio da endoscopia, que permite observar as porções do estômago e identificar alterações ulcerativas. Atualmente, graças à eficiência dos vermífugos, a presença de larvas de Gasterophilus em exames de necrópsia tornou se rara.

Gastrite

A gastrite é identificada como uma das causas de distensão gástrica em equinos, ocorrendo devido ao acúmulo de líquido no estômago. No manejo de emergências gástricas, um erro comum durante o procedimento é a passagem da sonda nasogástrica para a traqueia em vez do esôfago.

Apresentação Clínica da Gastrite

  • Apetite caprichoso: o animal apresenta dor ao comer devido à distensão gástrica, o que acarreta crescimento deficiente e pelos quebradiços ou sem brilho.
  • Bruxismo: o ranger de dentes é um sinal clínico frequente que indica desconforto estomacal.
  • Relutância ao exercício: a gastrite pode manifestar se por meio de resistência ao trabalho ou à montaria.
  • Diarreia e disbiose: a digestão inadequada no estômago pode causar desequilíbrio na microbiota do intestino grosso, resultando em fezes pastosas e com odor fétido.
  • Sondagem nasogástrica: a observação de muco ou saliva abundante durante a passagem da sonda é um indicativo de gastrite em animais adultos.
  • Diagnóstico por imagem: a gastroscopia deve avaliar todo o trajeto a partir da entrada do esôfago para identificar as lesões associadas.
  • Prevalência: em cavalos adultos, as formas agudas de gastrite são mais comuns do que as crônicas.

Sinais de Desconforto e Alerta

  • Apetite Caprichoso: O cavalo subitamente passa a deixar sobras de alimento concentrado no cocho.
  • Cólica Pós Prandial: Manifestação de desconforto abdominal ou sinais de cólica imediatamente após a alimentação.
  • Performance Atlética: Redução no desempenho esperado do animal durante atividades físicas.
  • Alterações na Pelagem: Em potros, a gastrite pode se refletir em um pelo pegadiço e sem brilho.
  • Ptialismo: Presença de salivação excessiva.
  • Sensibilidade ao Toque: Reação negativa à manipulação da região abdominal e desconforto à palpação na região xifoide.
  • Lavagem Gástrica: Identificação de conteúdo sanguinolento durante a realização do procedimento.
  • Cólicas Recorrentes: Episódios repetitivos de dor abdominal que são considerados sinais pouco específicos.

Abordagem Terapêutica Farmacológica

IntervençãoMecanismo ou AçãoObservações e Dosagem
OmeprazolInibidor da bomba de prótonsDose de 4 mg/kg; o sabor amargo de versões genéricas pode exigir melado para facilitar a ingestão.
SucralfatoProtetor de mucosaAtua como curativo aderente à úlcera e estimula a secreção de prostaglandina.
MisoprostolAnálogo da prostaglandinaDeve ser evitado em éguas prenhas devido ao risco de aborto.
AntiácidosHidróxido de alumínio e magnésioPodem causar efeito rebote no estômago do cavalo.
CimetidinaAntagonista H2Não possui efeito terapêutico eficaz para o controle da acidez gástrica equina.
Mudanças de ManejoSuporte terapêuticoAumento da frequência alimentar e tempo solto auxiliam no controle da gastrite.

Sobrecarga e Dilatação Gástrica

A sobrecarga gástrica em equinos é frequentemente desencadeada pelo fornecimento de grandes volumes de alimento de uma única vez ou pelo consumo de alimentos altamente fermentativos. Esses componentes fermentados atraem líquidos para o estômago por processos biofísicos, resultando em um quadro de distensão gástrica severa.

A dor resultante de um estômago distendido é descrita como uma das piores dores abdominais na espécie, sendo superior à dor de quadros estrangulativos. Devido à intensidade dessa dor, o cavalo pode apresentar comportamento incontrolável e se jogar no chão.

Para o manejo emergencial, utiliza se uma sonda nasogástrica de calibre adequado, entre 17 mm e 19 mm, garantindo a saída rápida do conteúdo acumulado. Durante a passagem, sinais como tosse e ausência de resistência à progressão indicam que a sonda pode estar na traqueia, exigindo correção. A lavagem estomacal completa nos casos de sobrecarga pode demandar de uma a três horas.

Outros fatores, como a aerofagia, são citados como causas raras de dilatação gástrica. Já a presença de parasitos gástricos, como o Gasterophilus, teve sua incidência reduzida com a utilização de vermífugos eficientes.

Técnica de Lavagem Gástrica

  1. Passagem da sonda nasogástrica: Realizar a inserção da sonda como manobra semiológica essencial, observando sua progressão pelo lado esquerdo do pescoço do animal.
  2. Descompressão gástrica: Promover o alívio imediato da dor através da eliminação de gás e líquido; no refluxo espontâneo, a saída de conteúdo ocorre assim que a sonda atinge o nível do líquido no estômago.
  3. Lavagem do estômago: Executar o procedimento de lavagem contínua em casos de sobrecarga gástrica até que o líquido saia limpo ou transparente.
  4. Administração de catárticos: Utilizar sulfato de magnésio (sal amargo) para promover efeito laxante, atuando como um catártico hiperosmótico que puxa água para o intestino.
  5. Manejo dietético pós crise: Fornecer alimentação preferencialmente à base de verde nos primeiros dias subsequentes à crise gástrica.

Ruptura Gástrica e Complicações

A ruptura gástrica em equinos é uma condição sem tratamento, sendo indicada a eutanásia imediata. Esse evento leva à presença de conteúdo alimentar e líquido no espaço peritoneal. A sobrecarga ou dilatação gástrica pode ocorrer por manejo inadequado, como o fornecimento de grandes quantidades de ração de uma única vez (ex: 5kg), ou de forma secundária, quando o conteúdo líquido do intestino reflui para o estômago. A distensão gástrica com dor pode gerar atonia intestinal reflexa, o que pode levar a uma compactação secundária. Indicativos clínicos de gastrite incluem a presença de espuma ou secreção excessiva no refluxo gástrico, podendo haver irritação na mucosa por parasitos como o Habronema muscae. Durante o procedimento de sondagem, a utilização de lidocaína em gel na sonda pode diminuir a sensibilidade e o desconforto do animal. Para evitar recorrências, o tratamento da causa primária da sobrecarga é fundamental. Além disso, o excesso de alimento concentrado ou fibroso logo após uma crise gástrica deve ser evitado, pois pode causar nova sobrecarga gástrica ou compactação.

Duodenite Jejunite Proximal (DPJ)

A Duodenite Jejunite Proximal (DPJ), também conhecida como enterite anterior ou duodeno proximal, é considerada a principal doença intestinal de caráter clínico em cavalos. Sua etiologia está frequentemente associada a alterações na microbiota intestinal, processo denominado disbiose.

Embora seus sinais possam simular afecções que exigem intervenção cirúrgica, a DPJ apresenta um quadro clínico específico: o acúmulo de líquidos e eletrólitos na porção inicial do intestino delgado reflui para o estômago, provocando dilatação gástrica. Clinicamente, observa se refluxo gástrico copioso, frequentemente acima de 2 litros por hora, mucosas toxêmicas ou hipercoradas e aumento do Tempo de Preenchimento Capilar (TPC).

O diagnóstico pode ser auxiliado pela análise do líquido peritoneal, que se apresenta turvo e amarelado em função do aumento das proteínas plasmáticas. O tratamento da DPJ é estritamente clínico, sem indicação cirúrgica, e envolve a manutenção do animal com sonda nasogástrica por 24 horas para aliviar a dor causada pela distensão estomacal.

Diagnóstico Diferencial da DPJ

  • Distensão e Íleo: O processo inflamatório na duodenite jejunite proximal resulta em distensão intestinal e um quadro de íleo adinâmico.
  • Palpação Retal: A distensão de alças de intestino delgado pode ser identificada em 90% dos casos de DPJ durante o exame.
  • Refluxo Gástrico: O conteúdo apresenta odor fétido ou pútrido e coloração avermelhada ou amarronzada, sendo um parâmetro que auxilia na diferenciação entre enterite e cólicas estrangulativas.
  • pH Estomacal: Ocorre uma elevação do pH para valores próximos de 6 a 7, o que sinaliza o refluxo de conteúdo intestinal básico para o estômago.
  • Gama Glutamiltransferase (GGT): Esta enzima pode apresentar aumento devido ao envolvimento dos canais biliares durante a afecção.
  • Dificuldade Diagnóstica: O diagnóstico definitivo é complexo, pois os sinais clínicos da DPJ são compatíveis com quadros de cólica cirúrgica.
  • Ultrassonografia: A observação de espessamento da mucosa intestinal no exame de imagem é indicativa de enterite.
  • Complicações: A laminite configura se como uma das complicações sistêmicas observadas com maior frequência em cavalos com quadros graves.
  • Motilidade: A neostigmina apresenta uma ação mais eficaz na motilidade do intestino grosso do que no intestino delgado.

Manejo Clínico da DPJ

  1. Diagnóstico e avaliação inicial: utilização da ultrassonografia para identificar distensão de alças intestinais acima de 5 cm e análise do líquido peritoneal, que pode exibir coloração alaranjada ou avermelhada.
  2. Descompressão e suporte hídrico: manutenção do animal sondado para manejo do refluxo gástrico, acompanhada de soroterapia e fluidoterapia intensiva.
  3. Controle bacteriano da disbiose: administração de metronidazol por via intravenosa para tratar a infecção por Clostridium perfringens e Clostridium difficile no intestino delgado.
  4. Restauração da motilidade: uso de metoclopramida para promover o esvaziamento gástrico e a motilidade intestinal, evitando se rigorosamente a aplicação em bólus intravenoso devido ao risco de reações extrapiramidais e excitação severa.

Compactação por Parascaris equorum

O Parascaris equorum é um nematoide que pode atingir de 50 a 60 centímetros de comprimento, sendo frequente em potros devido ao hábito de coprofagia. O lúmen intestinal reduzido em animais jovens os torna mais suscetíveis a obstruções causadas por esses parasitas, embora infecções massivas ainda sejam observadas apesar da evolução dos anti helmínticos. A compactação parasitária está frequentemente relacionada à administração recente de vermífugos, com os sinais de cólica surgindo geralmente em um intervalo de 24 a 72 horas após o uso do medicamento. A dor provocada pela distensão do intestino delgado é classificada como moderada a grave, sendo possível observar a presença de parasitas no refluxo gástrico em quadros de obstrução severa. O tratamento pode ser clínico, com foco na fluidoterapia para estabilização enquanto os parasitas são digeridos, ou cirúrgico, indicado para remover o excesso de parasitos em casos de dor grave ou risco de estrangulamento. Em animais adultos, a ocorrência costuma estar associada a programas de vermifugação deficientes.

Compactação por Parascaris equorum (cont. 2)

A compactação do jejuno em equinos é comumente desencadeada por infecções maciças pelo nematoide Parascaris equorum. O uso de vermífugos como pirantel ou avermectina causa a morte simultânea dos parasitas, o que resulta na formação de um tampão e em severa obstrução intestinal com sinais de cólica.

O Sustento Vital

O cavalo necessita de ingestão constante de alimento para neutralizar a secreção ininterrupta de ácido e prevenir lesões gástricas graves. Essa dependência vital nos recorda que fomos desenhados com uma necessidade espiritual diária que não pode ser ignorada. Jesus se apresenta como o Pão da Vida, o único sustento capaz de saciar plenamente a fome da nossa alma.

Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede.João 6:35

Leia João 6 e conheça o sustento que Jesus oferece.

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