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Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)
Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)
Topicos da aula
- Hipertensão Arterial Sistêmica
Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)
A Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) constitui uma condição crônica multifatorial caracterizada por níveis tensionais elevados e sustentados. Ela representa um dos principais fatores de risco modificáveis para morbimortalidade cardiovascular, doença renal crônica e demência vascular.
O manejo clínico desta condição abrange desde o rastreamento universal em adultos e pacientes pediátricos até o tratamento complexo de crises hipertensivas e situações especiais, como a gestação.
Definição e Impacto
A HAS é uma doença caracterizada por níveis elevados e sustentados de pressão arterial (PA), sendo frequentemente assintomática. Ela atua como um fator de risco linear para aterosclerose, trombose, insuficiência cardíaca e fibrilação atrial.
Associa se diretamente a alterações funcionais e estruturais nos chamados órgãos alvo: coração, encéfalo, rins e vasos sanguíneos.
Fatores de Risco
- Não modificáveis: Idade (risco aumenta com envelhecimento), sexo masculino, etnia preta, genética.
- Modificáveis: Sobrepeso/obesidade, inatividade física, ingestão elevada de sódio, baixa ingestão de potássio, álcool, tabagismo.
- Condições associadas: Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), hiperglicemia, determinantes sociais (baixa escolaridade/renda).
- Fatores exógenos: AINES, corticoides, descongestionantes, antidepressivos tricíclicos, anticoncepcionais orais, cocaína, anfetaminas.
Rastreamento em Adultos (≥ 18 anos)
- Passo 1: Indicação universal para todos os adultos sem diagnóstico prévio.
- Se PA < 130/85 mmHg: Reavaliar em até 1 ano (com orientações de prevenção primária).
- Se PA 130 139/85 89 mmHg (Normal Alta): Avaliar outros fatores de risco CV; se presentes, aferir novamente em 7 14 dias.
- Se PA ≥ 140/90 mmHg: Seguir protocolo de confirmação diagnóstica.
Critérios Diagnósticos (Consultório)
O diagnóstico padrão requer duas a três medidas em consultas distintas, com intervalo de 1 dia a 4 semanas.
Diagnóstico Imediato: Pode ser feito se PA ≥ 180/110 mmHg OU se houver evidência de Doença Cardiovascular (DCV) ou Lesão em Órgão Alvo (LOA) preexistente.
Classificação da PA em Adultos (Consultório)
| Classificação | PAS (mmHg) | PAD (mmHg) |
|---|---|---|
| Ótima | < 120 | < 80 |
| Normal | 120 129 | 80 84 |
| Normal Alta | 130 139 | 85 89 |
| HAS Grau 1 | 140 159 | 90 99 |
| HAS Grau 2 | 160 179 | 100 109 |
| HAS Grau 3 | ≥ 180 | ≥ 110 |
Considerar o valor mais alto se houver discrepância entre PAS e PAD.
Métodos de Confirmação (Fora do Consultório)
- Indicações: Suspeita de Hipertensão do Avental Branco (alta no consultório, normal fora) ou Hipertensão Mascarada (normal no consultório, alta fora).
- MAPA 24h (Padrão ouro): Positivo se média 24h ≥ 130/80 mmHg (Vigília ≥ 135/85; Sono ≥ 120/70).
- MRPA (Residencial): Média de 5 dias (manhã/noite). Positivo se ≥ 130/80 mmHg.
Estratificação de Risco Cardiovascular (RCV)
Recomenda se a calculadora da iniciativa HEARTS/OPAS/OMS para indivíduos entre 40 74 anos. A estratificação varia de Baixo a Crítico.
Importante: Indivíduos com Doença Cardiovascular (DCV) pré estabelecida são automaticamente classificados como Muito Alto Risco, não necessitando de cálculo.
Lesões em Órgão Alvo (LOA) e Alto Risco
- Doença Cerebrovascular: AVE isquêmico/hemorrágico, ataque isquêmico transitório.
- Doença Cardíaca: Doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, HVE.
- Doença Renal Crônica (DRC): Estágio ≥ 3 (TFGe 30 60 mL/min) ou albuminúria (30 300 mg/24h).
- Doença Arterial Periférica: DAOP, aneurisma de aorta.
- Retinopatia Hipertensiva: Hemorragias, exsudatos, papiledema.
- Diabetes Mellitus: Alto risco se com nefropatia, retinopatia ou idade avançada.
Hipertensão Arterial Secundária
Prevalência de 5 10%. Suspeitar se início precoce ( 50 anos) ou casos resistentes.
Causas Renais: Doença parenquimatosa (edema, creatinina alta) e Estenose de artéria renal (sopro abdominal, edema pulmonar súbito, assimetria renal).
Causas Endócrinas: Hiperaldosteronismo Primário (hipopotassemia), Feocromocitoma (tríade: cefaleia, sudorese, palpitações), Cushing (fácies em lua cheia), distúrbios de tireoide/paratireoide.
Outras: Apneia do Sono (roncos) e Coarctação da Aorta (pulsos femorais diminuídos).
HAS Resistente e Refratária
HAS Resistente (HAR): PA não controlada com 3 medicamentos (incluindo diurético) em doses otimizadas, ou controle obtido apenas com 4 ou mais fármacos.
Pseudoresistência: Deve ser descartada (má adesão, medida errada, avental branco).
HAS Refratária: PA não controlada mesmo com uso de 5 ou mais medicamentos.
Crise Hipertensiva: Definições
Definida como elevação pressórica acentuada (PAS ≥ 180 ou PAD ≥ 120 mmHg).
Emergência Hipertensiva: Lesão aguda/progressiva em órgão alvo com risco iminente de morte (ex: Encefalopatia, AVE, IAM, EAP, Dissecção aórtica, Eclâmpsia).
Urgência Hipertensiva: Elevação acentuada sem lesão aguda de órgão alvo e sem risco iminente de morte.
Pseudocrise: Elevação reativa a dor/ansiedade, sem LOA. Tratar a causa base.
Manejo da Crise Hipertensiva
Emergência: Internação (UTI), uso de drogas parenterais (ex: nitroprussiato) e redução gradual (exceto dissecção/AVE isquêmico). Urgência: Medicamentos via oral (ex: captopril, clonidina) com redução em 24 48h.
Populações Especiais: Pediatria
Rastreamento: Anual a partir dos 3 anos (antes se houver risco).
Diagnóstico: Baseado em percentis (idade, sexo, altura).
PA Normal: < P90.
PA Elevada: ≥ P90 a < P95.
HAS Grau 1: ≥ P95 a < P95 + 12 mmHg.
HAS Grau 2: ≥ P95 + 12 mmHg ou ≥ 140/90 mmHg.
Adolescentes (≥ 13 anos): ≥ 120/80 é elevada; ≥ 130/80 é HAS Grau 1.
Classificação na Gestação
- Diagnóstico: PAS ≥ 140 ou PAD ≥ 90 mmHg.
- Hipertensão Crônica: Antes da gestação ou < 20 semanas.
- Hipertensão Gestacional: Após 20 semanas, sem proteinúria.
- Pré eclâmpsia: Após 20 semanas + proteinúria ou sinais de gravidade (plaquetopenia, disfunção hepática/renal, sintomas cerebrais).
- Eclâmpsia: Ocorrência de convulsões.
- Síndrome HELLP: Hemólise + Enzimas hepáticas altas + Plaquetas baixas.
Tratamento Não Medicamentoso (MEV)
- Controle de Peso: IMC adequado e circunferência abdominal reduzida.
- Alimentação: Dieta DASH (frutas, vegetais, laticínios magros).
- Sódio: Restrição para < 2 g sódio/dia (5 g sal).
- Potássio: Aumentar ingestão (exceto em DRC avançada).
- Atividade Física: Mínimo 150 min/sem moderada ou 75 min vigorosa + exercícios resistidos.
- Álcool: Abstinência ou moderação drástica.
- Tabagismo: Cessação total.
Metas Terapêuticas
Geral: PA < 140/90 mmHg.
Alto Risco/Comorbidades: Considerar meta < 130/80 mmHg se bem tolerado.
Idosos: Metas flexíveis, evitando PAS < 120 mmHg e hipotensão.
Algoritmo de Tratamento Medicamentoso
- Monoterapia Inicial: Indicada para HAS Grau 1 com baixo RCV ou idosos frágeis.
- Terapia Combinada (2 Fármacos): Indicada para HAS Grau 1 (risco moderado/alto) e HAS Graus 2 e 3.
- Classe 1 IECA (Ex: Enalapril) OU BRA (Ex: Losartana).
- Classe 2 BCC (Ex: Anlodipino).
- Classe 3 Diuréticos Tiazídicos (Ex: Hidroclorotiazida).
- Betabloqueadores: Reservados para IC, pós IAM, angina ou controle de FC.
Particularidades Farmacológicas
Associações: IECA ou BRA + BCC ou Diurético. Contraindicações: NUNCA associar IECA + BRA. IECA/BRA proibidos na gestação. População Negra: Preferir BCC ou Tiazídicos (menor resposta a IECA/BRA isolados). DRC: IECA ou BRA são preferenciais (efeito antiproteinúrico); monitorar potássio/creatinina.
Tratamento na Gestação
As drogas de escolha seguras são:
1. Metildopa
2. Nifedipino
3. Hidralazina (mais usada em crises)
Contraindicados: IECA, BRA e Atenolol.
Tratamento da HAS Resistente
A adição da quarta droga deve ser preferencialmente a Espironolactona (antagonista mineralocorticoide).
Alternativas incluem Betabloqueadores, Alfa agonistas centrais (Clonidina) ou Vasodilatadores diretos (Hidralazina).
Monitoramento e Adesão
Seguimento: Mensal até controle; após, a cada 3 6 meses. Exames anuais (K+, Cr, glicemia, lipídios).
Adesão: Simplificar posologia, abordagem multiprofissional, automonitoramento pelo paciente e investigação ativa de má adesão em casos de descontrole.