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Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Diabete Melito Tipo 2 (2024)

Diretrizes do SUS para Manejo do DM2

Duracao: 25 min

Topicos da aula

  • Diabete Melito Tipo 2

Diretrizes do SUS para Manejo do DM2

Este documento atualiza as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) para o manejo do Diabete Melito Tipo 2 (DM2), abrangendo desde o rastreamento e diagnóstico até o tratamento farmacológico e complicações.

O DM2 representa 90 95% dos casos de diabete e caracteriza se por hiperglicemia crônica decorrente de resistência insulínica e deficiência secretória progressiva. A doença envolve deficiência parcial de células beta pancreáticas e alterações na secreção de incretinas.

A prevalência no Brasil é de aproximadamente 5,8% da população, com alta taxa de incidência e mortalidade associada a eventos cardiovasculares.

Indicações de Rastreamento (Screening)

O rastreamento é indicado para todos os indivíduos com idade ≥ 45 anos, independentemente de fatores de risco.

Para indivíduos de qualquer idade, o rastreamento é indicado se houver sobrepeso/obesidade (IMC ≥ 25 kg/m²) associado a pelo menos um fator de risco adicional.

Grupos Específicos: Pessoas vivendo com HIV, transplantados, portadores de fibrose cística e mulheres em planejamento pré concepcional ou 4 12 semanas pós parto se houve DMG prévio.

Fatores de Risco

  • Idade: ≥ 45 anos
  • Metabólicos: Sobrepeso/obesidade (IMC ≥ 25 kg/m²), pré diabete, dislipidemia (HDL 250 mg/dL)
  • Clínicos: Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), Acantose nigricans
  • Histórico: Familiar de 1º grau com DM, história de Diabete Melito Gestacional (DMG) ou doença cardiovascular prévia
  • Demográficos: Etnia negra, indígena, hispânica/latina ou asiática

Periodicidade e Métodos

  1. Método Preferencial: Iniciar com Glicemia de Jejum
  2. Resultado Normal: Repetir a cada 3 anos
  3. Periodicidade Anual: Se pré diabete, múltiplos fatores de risco, ganho de peso acelerado ou condições associadas (HIV, esteatose)
  4. Confirmação: Se rastreamento positivo, confirmar com HbA1c ou TOTG

Manifestações Clínicas

  • Sintomas Clássicos: Poliúria, polidipsia, polifagia e perda ponderal
  • Sintomas Inespecíficos: Fadiga, visão turva, prurido vulvar/cutâneo, balanopostite
  • Assintomáticos: Comum na fase inicial; diagnóstico depende de rastreamento laboratorial

Critérios Laboratoriais (Adultos)

CondiçãoGlicemia de JejumHbA1cTOTG (2h)
Normal< 100 mg/dL< 5,7%< 140 mg/dL
Pré Diabete100 a < 126 mg/dL5,7 a < 6,5%140 a < 199 mg/dL
Diabete Melito≥ 126 mg/dL≥ 6,5%≥ 200 mg/dL

Nota: Glicemia Aleatória ≥ 200 mg/dL confirma o diagnóstico apenas na presença de sintomas inequívocos de hiperglicemia.

Protocolo de Confirmação Diagnóstica

  1. Pacientes Sintomáticos: Glicemia aleatória ≥ 200 mg/dL confirma o diagnóstico (não requer repetição)
  2. Pacientes Assintomáticos: Exige dois resultados alterados
  3. Opção A: Resultados alterados do mesmo teste em amostras diferentes
  4. Opção B: Dois testes diferentes alterados na mesma amostra (ex: Jejum + HbA1c)
  5. Discordância: Se resultados discordantes, repetir o teste alterado

Limitações da HbA1c

Condições que alteram a acurácia: Anemias, hemoglobinopatias, doença renal crônica (hemodiálise), gestação (2º/3º trimestre), uso de antirretrovirais ou alfaepoetina. Nestes casos, priorizar Glicemia de Jejum e TOTG.

Avaliação de Risco Cardiovascular

Classificação: Pacientes com DM2 são automaticamente considerados de Alto Risco. Pacientes com DM2 + Doença Cardiovascular (DCV) estabelecida são de Muito Alto Risco.

Ferramenta: Calculadora HEARTS/OPAS/OMS (recomendada para 40 74 anos). A avaliação deve ser anual.

Exames Complementares: Perfil lipídico, Creatinina (com TFG via CKD EPI), Relação Albumina/Creatinina urinária e ECG.

Metas Terapêuticas: HbA1c

  • Adultos em geral: ≤ 7,0%
  • Crianças e Adolescentes: < 7,0%
  • Idosos Saudáveis: < 7,5%
  • Idosos Comprometidos (Frágeis): < 8,0%
  • Critério de Remissão: HbA1c < 6,5% após 3 meses sem medicação

Metas de Glicemia Capilar

MomentoMeta (mg/dL)
Jejum / Pré prandial80 a 130 mg/dL
Pós prandial (2h)< 180 mg/dL
Ao deitar90 a 150 mg/dL (maior em idosos)

Tratamento Não Medicamentoso

Nutrição e Peso: Recomenda se perda de 5 10% do peso. Ingestão de fibras 25 g/dia. Carboidratos mínimo de 130 g/dia (priorizar integrais). O consumo de álcool é contraindicado devido ao risco de hipoglicemia tardia e hipertrigliceridemia.

Atividade Física: Mínimo de 150 minutos/semana (moderada) ou 75 minutos (vigorosa), combinando aeróbico e resistência. Avaliar contraindicações como retinopatia proliferativa para exercícios de alta pressão.

1ª Linha: Biguanidas (Metformina)

Fármaco: Cloridrato de Metformina.

Mecanismo: Redução da produção hepática de glicose e aumento da sensibilidade periférica.

Posologia: Iniciar 500 850 mg/dia. Dose máxima efetiva: 2.550 mg/dia.

Contraindicações: TFG < 30 mL/min/1,73m², insuficiência hepática, acidose, hipóxia tecidual.

2ª Linha: Sulfonilureias

Fármacos: Gliclazida (preferencial em idosos/risco de hipoglicemia) e Glibenclamida (Secretagogos).

Restrições: Glibenclamida não recomendada para ≥ 60 anos devido ao risco de hipoglicemia grave.

Contraindicação Renal: TFG < 30 mL/min.

Intensificação Específica: iSGLT2 (Dapagliflozina)

  1. Fármaco: Dapagliflozina (10 mg/dia)
  2. Critério 1: Diagnóstico de DM2 + Necessidade de intensificação
  3. Critério 2 (Deve ter um destes)
  4. Idade ≥ 40 anos COM Doença Cardiovascular Estabelecida (IAM, AVC, Revascularização, IC com FE < 40%)
  5. Idade ≥ 55 anos (homens) ou ≥ 60 anos (mulheres) COM Alto Risco Cardiovascular (HAS, Dislipidemia ou Tabagismo)
  6. Contraindicação: TFG persistente < 25 mL/min/1,73m²

Insulinoterapia: Esquema Basal

  1. Indicações: Falha com orais, hiperglicemia grave (HbA1c 9% ou Glicemia ≥ 300 mg/dL + sintomas), contraindicações a orais
  2. Início: Insulina NPH noturna (ao deitar)
  3. Dose Inicial: 10 UI ou 0,1 a 0,2 UI/kg
  4. Titulação: Aumentar 2 UI a cada 3 dias até jejum 80 130 mg/dL
  5. Ajuste para Baixo: Se jejum < 70 mg/dL, reduzir 4 UI ou 10 20%

Insulinoterapia: Intensificação

Se meta não atingida com dose noturna: Fracionar NPH (2/3 manhã, 1/3 ao deitar).

Bolus (Regular): Indicada para controle pós prandial.

Dose Bolus: Iniciar com 4 UI ou 10% da dose basal antes da principal refeição. Ajustar conforme glicemia pós prandial.

Hipoglicemia: Níveis e Tratamento

NívelGlicemiaTratamento
1 (Alerta)54 a 69 mg/dL15g de carboidratos simples
2 (Significativa)< 54 mg/dL30g de carboidratos simples
3 (Grave)N/A (Alteração mental/física)Assistência de terceiros

Complicações Crônicas e Manejo

  • Doença Renal: Monitorar albuminúria/creatinina. Suspender metformina se TFG < 30
  • Retinopatia: Fundoscopia anual
  • Neuropatia: Rastreamento anual (monofilamento + pulsos). Tratamento com tricíclicos ou anticonvulsivantes
  • Pé Diabético: Inspeção diária. Encaminhar se isquemia crítica, úlcera infectada ou deformidade Charcot

Monitoramento e Encaminhamento

Periodicidade de Exames: HbA1c e Glicemia a cada 3 6 meses. Perfil lipídico, renal, fundoscopia e exame dos pés anualmente.

Encaminhamento ao Especialista: Falha no controle com insulina ≥ 1 UI/kg/dia, suspeita de DM1/LADA, hipoglicemias graves/frequentes, complicações microvasculares avançadas (TFG < 30, retinopatia grave) ou gestantes com DM2.

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